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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

O Pacificador e a Batalha

Seu rosto pacífico, gestos maestrinos, voz de um condutor de homens, olhos caídos, cabelos da cor da vida, paz inerente a dos mestres que citava a cada palavra. Sentado, com seu rosto rosado, em tom eterno-pacificador e ao mesmo tempo rígido, o rei pronunciava-se. A cada verbo, uma expressão; a cada expressão, um símbolo. Ele existe.

Ali, naquele instante, meus olhos e ouvidos, atentos ao seu universo que comungava forças para unir outros universos, tentavam unir o caos do momento ao som de sua voz, que burlava a alma de quem o ouvia, e não perder um instante do significado dos pequenos atos que o rodeavam. O mundo teria que parar naquele momento, sentir as forças naturais que eram por ele reveladas, trazidas à tona em forma de um homem que estava perto do mais íntimo do nosso ser, sem ser convidado. Lá estava ele.

Queria dizer que, às vezes, é preferível calar-se a tentar dizer o que sentimos quando o Todo somos nós e nós, o Todo. Ficar estático, a refletir "o que é isso que eu sinto?", e "por que não sentia antes?"... São questões internas, sei, e devem ser respondidas ao 'som' do silêncio, ou como diria há milênios 'ao deus Silêncio".

Ele, aquele cuja paz adentrou em meu âmago, introduziu a semente, de novo, no que eu chamo de inconsciente relativo, nota minha. Ou como pudera chamar no termo junguiano, inconsciente de uma personalidade que necessitava ressuscitar ao inconsciente coletivo, não muito longe da perfeição humana (em termos psíquicos), esmerada em arquétipos, cuja memória -- como já havia dito anteriormente -- preserva-se a essência das ideias que um dia serão práticas ao nosso olhar.

Para isso, no entanto, é preciso fechar os olhos, sentir as palavras que vêm da alma, comungada com o espírito humano, de modo a nos trabalhar internamente, sem medo, seja dar dor, seja do mundo que nos cerca. Pegar os instrumentos necessários, os quais nos foram dados desde o início, trabalhar em função da Arte, ou melhor, de técnicas que nos que fazem nos aproximar dela. 

Não podemos ser conformistas com nosso estado de ser, mesmo porque não nascemos pronto (apesar de receber todas as ferramentas para tanto), e trabalhar o que em nós se desfaz das harmonias com as quais vivemos, sentimos e, sem querer querendo, deixamos de lado. Ou seja, procurar Ser e não Estar.

É uma tarefa de ouro, dada somente àqueles que se sentem fortes o bastante para dizer Não às opiniões que vem de fora, revertendo processos que há muito foram levados como verdades para dentro da humanidade, na maioria das vezes, com fins de nos fazer frios, estáticos, passivos, ao contrário do sábio, que nos transpassa seu valor, não suas ideias, retirando a chave que se encontrava dentro de cada um, e a fazer abrir o que há muito foi fechado pela Idade Média natural do homem.

Eu vi o Homem Novo


terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Dia da Laje



Dia em que todos se uniram como guerreiros da terra, do cimento, da lama. Dia em que pessoas simples e fortes determinaram que iriam vencer a maior das guerras, a guerra da laje. E venceram.

Foi assim...
Um grupo de jovens foi convidado a participar da colocação da laje, um misto de cimento, terra lavada e brita fina. Toda ela seria colocada em cima do primeiro andar de minha casa em construção, toda ela seria espalhada, delineada com o objetivo de formar o chão do segundo andar. O trabalho não era para qualquer um...
Contudo, ainda dizem que é um trabalho voltado muito mais à união daqueles que estão ali, se manifestando em favor da grande causa, vencer a guerra da laje – levando terra em carrinhos de mão em questão de minutos, às vezes correndo, às vezes sorrindo; levando até o cimento, que é misturado à água, unida à brita fina, misturados até virar a massa que será levada pelos peões, em um balde, até a parte de cima...
O grupo de jovens que eu convidei para a integração, união e trabalho... No entanto, infelizmente, não compareceu. Assim, o mestre de obras, que possui a visão “além do alcance”, havia preparado um outro grupo, o de guerreiros.
Descendo de suas cavalarias – carros simples – e com suas vaidades em dias, roupas já sujas, meio rasgadas, para enfrentar a guerra, além do diálogo clássico, aquela língua de pedreiro que só eles entendem, tais homens sorridentes, animados, e por que não dizer criados em construção de casas, edifícios, torres..., fizeram uma roda ao redor do mestre pedreiro espartano, seguraram seus escudos, suas lanças, gritavam suas máximas, e iniciaram a maior das orações... O trabalho.
Assim, quem os via dedicados a subir a descer, levantar, cair, falar, se esbaldar em lama de cimento, dizia “esses caras são bons!”. A rapidez, a sinceridade, a força em lidar com seus instrumentos de trabalho, a dação, lembrava-me a palavra vocação.
Dela posso extrair – sem discriminar ou preconceituar – a natureza de cada um onde estiver. E ali, naquele canteiro de obras, seres advindos de lugares diferentes, com objetivos iguais, igualaram-se em ideais, mesmo que involuntariamente, pois fizeram o melhor dos trabalhos, a melhor das lajes.
Pessoas simples, que demonstraram compromisso em meio a um mundo de jovens que se digladiam em frente a um computador que não podem perder a internet, e nela o site, a página, a foto, o recado, senão se infiltram em mundos desconhecidos e ficam mudos. Jovens que não entendem o valor do trabalho, do estudo, da necessidade de cultura, e sequer sabem o que é educação...
Os homens que fizeram minha laje, hoje, talvez, saibam menos do que isso, mas, com certeza, estão mais à frente do que muitos apregoados em bibliotecas virtuais, faculdades de borracha, pois a destreza e o compromisso com os quais se dedicaram naquele dia foi de encher os olhos e o coração de muitos.







Mãe, queria muito que a senhora tivesse visto.
Beijos do teu filho.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Carvão e Ouro: queremos e podemos.


"As vezes parecia que de tanto acreditar

Num mundo que achávamos tão certo,

Teriamos o mundo inteiro, e até um pouco mais.

Faríamos florestas no deserto"

L. Urbana.


...Pelo que me consta, os idealistas atuais não têm direção. São possuídos por fibras e forças políticas, mas não possuem direção. Armados até os dentes, cheios de vigor e ódio a governos, se enfileiram na frente de tropas mais armadas ainda, quebram e são quebrados. Trazem a esperança de um governo melhor, ainda que não consigamos ver seus rostos. Trazem a fé nos regimes, mas não são ainda filhos da esperança de um mundo melhor, pois suas identidades desabam como pranchas em altas ondas; caem em desuso, não são referenciais, e, quando o são, depreciam suas imagens corrompendo os outros e a si mesmos, nos instante em que se depara com seu objeto maior, o poder.

São atos esses de loucura que transformam jovens em seres indignados com tudo -- os chamados rebeldes sem causa. Atos adivindos de idealistas cujas energias são mal canalizadas e jogadas ao vento, desencadeando protestos, criando seres aguerridos até mesmo em família, o que traspassa do objetivo comum de cada um, que é a mudança, que é o fim sem terror...

Daí, as canções...

Hoje, ainda se cantam músicas em incentivo aos jovens do mundo todo (pelo menos algumas), músicas de esperança de um mundo melhor a partir da democracia, do voto, das urnas, do pobre que sai de seu cantinho e vai, dificultosamente, apertar uma tecla e eleger um imbecil, às vezes pobre, às vezes rico que não quer sair do grande rio de capital que corre nos corredores dos congressos...

Mas não queremos apenas músicas, queremos seres nos quais nos basear, não incoerentes, cujas canções são alívios às almas e ao passo com um caráter nazista, que não se pode questionar o passado...! Queremos indivíduos que levam para si e para todos a realidade conectada ao céu...

Queremos a simplicidade do coração cantada em flauta, em violinos, violoncelos... Pianos; traduzida, ampliada, tocada ao volume máximo, e mesmo assim que nos faça dormir, sorrindo, sonhando com os deuses! É preciso, para isso, trabalhar a personalidade, a qual precisa de desafios, não de vícios, de loucuras, de aventuras loucas, mas de experiências nas quais se pode e deve tirar algo delas. Assim, poderemos crescer um pouquinho, a fim de que possamos sentir que temos “algemas”, e mais tarde, quem sabe, forçar a sua saída de nossas mãos... A personalidade deve sentir êxtase natural, não o êxtase forçado das drogas, dos vícios em geral, ou mesmo das vaidades pornográficas, as quais afundam o homem na miséria interna. O homem deve ser eterno, assim como a música....

Cavões Frios...

A questão é que ainda somos carvões frios, isolados em cavernas cujo meio para que possamos nos transformar em ouro é apenas um: a consciência. Alguns, os sábios de todas as épocas, que legaram seu fino ouro codificado, esperam no “alto da montanha”, e dependendo da cultura... do “céu” de cada um de nós – ou apenas alguns – essa elevação interna tão natural quando o ar que respiramos, mas tão difícil quanto subir à lua por escadas. O conhecer a si mesmo.

Somos mórbidos, invejosos, temos ambições contrárias, temos defeitos que, juram os homens, não conseguem voltar. Como dizia um mestre, se plantamos bananas, teremos bananas; se plantamos mandioca, teremos... Mandioca. A esperança, porém, desvirtuada pela consciência voltada ao mal, nos faz entender que somos donos do mundo, e teremos ouro plantando drogas; teremos paz plantando guerras genocidas; teremos alivio, plantando... dor; teremos respeito posando nus ou nuas em revistas....

Não nascemos complexos. Apenas somos voltados a valores secundários, como ter casa, carros, dinheiro, família, empregos... Não que tais valores sejam inúteis não, mas antes teríamos que estudar a nós mesmos, profundamente, saber do porquê de termos tendências contrárias ao que nos vale à pena. Talvez teríamos que substituir a educação atual pela educação clássica, na qual homens virtuosos nasceram e viveram, e deram exemplos de vida; talvez devíamos destronar reis e rainhas e começar do zero; mas destronar para iniciar a revolução humana, aquela que nos sujeita a sermos mais coerentes com nossos princípios, não apenas aqueles básicos, os dos pais e mães, mas também princípios adquiridos pelos grandes, e viver deles, ainda que para nós seja penoso.

Princípios...

Os princípios não mudam. Apenas a maneira de levá-los à vida é que mudam. Posso vir a construir uma casa com os mesmo tijolos que os do vizinho, mas posso ser melhor do que ele, pois não foram apenas tijolos que levantaram minha casa, e sim força de vontade, espiritualidade, amor, dedicação... Respeito. Os mesmos tijolos, ao lado, na casa do vizinho, foram postos de forma abrupta, sem vontade, com vaidosismo, sem amor, e com muito interesse de fazer outros serem menos do que ele. Assim somos nós... Ou seja, podemos ter um pouco de Cristo e de César em nós.

Podemos mudar, podemos elevar qualquer casa, castelo, prédio de maneira que, nós mesmos, sejamos os prédios, a casa, o muro... Mas temos que refletir que estamos elevando algo que nos pareça forte, tão forte que não deixa traspassar os ventos do mal nas frestas de nossas mutantes personalidades.

Por isso, dizem os clássicos, somos donos de nossos próprios caminhos. E, hoje, por sermos seres sem caminhos, batemos cabeça no racional encontrando valores que mudam com o tempo – não princípios. Somos seres que preferem a dor à calma, preferem o descaminho à reta; preferimos beliscar o mal, a procurarmos primeiro o bem...

Daí, nasce o vício. Das provas inconsequentes, nas quais nos afundamos pelo simples fato de beliscar e, mais tarde (mais cedo do que tarde), não conseguir delas sair. Somos volúveis demais!

O ouro...

O ouro não pode ser homem, mas o homem pode, um dia, vir a ser ouro. Contudo, seus instintos, em relação ao mundo, aos valores maiores, o levam para a depreciação, e isso, dentro do grande laboratório da vida, o distancia do seu áureo ideal -- ser, um dia, humano, tornando-o mais animal, mais vegetal, mais pedra, mais verme... Tudo é uma questão de escolha. E na escolha, ser forte, ser homem, ser eterno!





A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....