terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Rio de Janeiro: onda que se foi e não volta nunca mais.


Viajei para o Rio de Janeiro. Já faz cinco anos. E a cada dia que passa fico pensando, como eu era apaixonado pela Cidade Maravilhosa. Não sei se pela minha imaturidade, falta de informação ou mesmo bobagens que nos vêm antes da morte, mas acho que essa última não vale! Como eu era apaixonado!

Nos meus sonhos, mares, mares, mares e... mulheres! – claro. Talvez uma quarta possibilidade, agora vejo, de que a Globo, em suas novelas das oito, sob a direção de Manuel Carlos, a mostrar uma Copacabana cheia de fios dentais, mares azuis marinhos; regatas de barquinhos, semelhantes a dos quadros bobos a se desnudar nas paisagens quentes do Rio.

Como eu amava aquele Dedo de Deus quando apontado na direção do sol; o bondinho deslizando no periférico...; o sol despontando como o ser mais alegre do litoral! Caramba, como era lindo!

Foi num dia frio. Não tinha importância. Minha esposa e eu, como crianças, nos arrumamos como se fôssemos para um teatro, ou cinema; meu cunhado e irmã, anfitriões, como se fossem para um passeio na favela. Sem relógios, sem sapatos – de chinelas havaianas --, sorrisos apaziguadores, nos levaram; enfim... Entramos no carro, naquele janeiro de 2005, e partimos para a maior e mais bela cidade do mundo...

E realmente era. No caminho, eu parecia mais um menino sem conversa a espera do parque de diversão, louco para andar na montanha-russa. Que biltre! – meu nível de pureza não era tanto, claro, mas a julgar pelos anos que eu havia pedido a Deus, acho que, de alguma forma, alguém havia me escutado as orações. Talvez tenha sido minha mãe, ela não parava de me vigiar!

Comecei a tirar fotos de dentro do carro, só de pensar que estávamos a quilômetros da Cidade Maravilhosa! Não sei o que pensava meu cunhado, mas minha irmã, com certeza, estava se sentido minha mãe, mesmo levando as próprias filhas!

O frio se fazia teimoso – a chuva idem – e nos instalamos num hotel de segunda (ou de terceira?) para descansar. Quem disse que descansei? Nuuuuunca ! Meu caipirismo era tanto, que achei que fossemos Ets, dentro de uma casa na qual pessoas de todos os níveis, menos o meu, se instalavam, descansavam e dormiam, menos eu e esposa.

Minha esposa – até aquele momento namorada – tão caipira quanto eu, morria de medo em tudo, e eu, como futuro esposo, tive que acompanhá-la no sentimento. Entendem? Assim, no outro dia, comemos de graça, mas tivemos que pagar tudo no final, até o sono que não dormimos. Comida leve, comida fica, comida fraca... Bem! O mais importante é que estamos a caminho do Rio, do amor que há tanto esperava encontrar. Mas o tesão já estava murchando...

As colinas me deram novos ares. O cheiro do mar me deu a vontade de sair do carro e correr em direção ao mato só para abrir – à mão – e ver de longe, muito longe, um trisquinho daquele que simbolizava a gotícula dos deuses, mas o oceano para os peões de fora. Eu era um deles. Tiramos fotos até do cheiro do mar!
Entramos no carro e continuamos. E já estávamos dentro dele, do grande Rio, o mais falado deles. O único. As leis da natureza se reuniram e nunca saíram de lá, percebi. No inicio, um frio, depois, pouco tempo depois, quarenta graus! Não sei se o inferno é essa quentura, mas, se for, muito carioca vai se sentir em casa!

Chegamos mortos de fome. O enterro quase se fez, mas não se podia morrer antes de comer algo às margens da grande Copacabana, uma comida salgada como as algas, quente como a areia, alegre como os habitantes de lá...

Eu, calado como padre em aula de matemática, sorria, bebia, sofria com o sol, e... só. Meu tesão havia se acabado. O Rio de Janeiro acabou para mim. Não queria dizer nada a ninguém. Não queria dizer que o que me impressionava na infância nada mais era que uma lenda criada pela propaganda massiva de uma cidade que, na realidade, era muito bela, tão bela que dava medo, mas que não saltitava aos meus olhos como o amor que tenho todos os dias pelo meu filho.

Minha cabeça mudou. Claro. Mas, naquele dia, achei que estava sendo conduzido por um sentimento falso, ou passageiro, tão passageiro, que – não sei – meu coração murchou. A praia se transformou em lago; as mulheres, em tribufus da Vila; as calçadas, grandes calçadas. Apenas uma coisa me impressionou em toda a estada no grande Rio: as Montanhas. Meu Deus, o que era aquilo! Hoje, se me perguntarem o que eu senti, não sei dizer! Lost talvez!

A visão que eu tinha delas era de que ornamentavam a Cidade, mas, por favor, o que era aquilo?! Deuses? Ilhas? Senhores em forma de pedras a nos observar? Quão eram belas! Achei que iria morrer de medo, no inicio, mas nos acostumamos. O verde, o azul, o amarelo se ressaltavam em suas tonalidades como se houvesse derramamento de cores do céu – era maravilhoso.

De noite, não se via o mar. Escondido pela noite, deixava apenas o farol ao longe piscando, piscando, piscan... De maneira que nos assombrava, além do próprio carioca que não tinha medo das ondas noturnas que iam, vinham em forma de sal desaguando na praia. A lua? Era a mesma. Redondinha.

Segundo Dia

Fomos às ondas, ainda que meio zangado por nos instalar em um apê meio pequeno, todavia de uma cama notória a casais loucos por uma, duas noites quentes – era o Rio de Janeiro se fazendo nas mínimas coisas! E aproveitei o máximo, quer dizer, quase... Simplesmente por causa do pragmatismo obliquo do meu cunhado que, em sua totalidade, nos parecia um largado, mas, na realidade, sabia o que estava fazendo.

A admiração pela cidade não tinha desaparecido por completo, vi. Andamos de carro em busca de praias longes, pois as da zona sul era cheias, mas não perdiam o brilho. Fomos, então, à praia Vermelha, aquela da música do Tim Maia, é, aquele maluco que fez gerações dançarem...! Mas não por isso, claro, beliscamos aquelas águas geladas, maravilhosamente geladas, mas porque a aventura de ir até ela incrível. Nos embrenhamos em um tipo de mata silvestre, a vimos de longe, andamos até suas espumas e... Inauguramos a danada! É claro que outras pessoas já estavam lá a inaugurá-la... Mas se foi. Pronto. O tesão passou.
Comemos e comemos. O Rio tem coisas tão incríveis que nos pareciam as mesmas coisas que comíamos em Brasília! Arroz, feijão, sanduíche, salada... Picolé, sei lá... Mas não eram. Tudo era mais barato. Essa era a diferença. As esquinas, mudando de assunto, eram tão intricadas uma nas outras, que, para atravessar, tínhamos que ter a coragem de Harrison Ford, no filme Avatar! Carros loucos, carros pequenos, pirados, táxis amarelos, que coisa hein!? Nunca tinha visto isso, apenas em novela! Eu me sentia até um personagem global.

Terceiro Dia.

Comemos e comemos. Saímos em busca de uma aventura à noite, num show do Cláudio Zóli, mas não chegamos a vê-lo, nem o show, nem ele, o cantor. Ficamos com medo do carioca nos achar estranhos no ninho – e era o que éramos! – nos seqüestrar e, quem sabe, pedir grana com nossas orelhas... Pois era somente o que eu tinha a oferecer: muito ouvido.

Minha esposa topou na hora. “Vamos embora, amor, está ficando tarde”. E fomos. Minha irmã, cansada de nossas caras estranhas, foi sozinha, nos deixando como cachorros-sem-dono na noite psicodélica de Capacabana. Seu esposo, meu cunhado, coitado, nunca se viu pai de dois caipiras, e naqueles dias, tenho a certeza, ele, na cama como minha irmã, dizia “Fica em paz, mulher, eles só querem se divertir.” – ou não?

Quarto Dia.

Ficamos em casa, entrincheirados pelo sol terrível que se espalhara em nossa consciência. O que nos fez tórridos tanto quanto à esfera solar que nos destruía naquele cubículo chamado apartamento. Mas não fora em vão. Mesmo assim, saímos. Mais uma vez, fomos às compras e, agora, numa feira à beira da praia de Copa, a qual não sei mais o nome, mas sei que me sentia perdido pelas luxurias e pelos preços tão altos quanto a dor que sentia debaixo do meu teto solar – cabeça mesmo.

Tão colorida quanto emblemas de passeatas gays, a feira tinha de tudo. Chapéus imensos, fitas contrabandeadas, cds bons (pirateados, também), comprei, mas não foi dela, mulheres contr..., quer dizer, não sei, cheias do amor pra dar. Mas não foi a feira que me fez bem, para não dizer mal, e sim a ida ao Cristo Redentor, a oitava beleza moderna do mundo, com os braços eternamente rendidos.

No inicio, lá no inicio, quando a bruma se fazia em terra desconhecida – o Rio – pensava esse mero, fraco e sincero escritor que via, ao longe, uma visão. Um homem-estátua, erguido no meio das nuvens, flutuando por mágica, numa terra mais mágica ainda, pequeno, tão pequeno, que dizia eu “não, não conseguiremos subir até lá, não, não vai dar”! – como um caipira a subir as escadas rolantes, subi até o cristo. No inicio de carro, depois, instaladas as escadas que subiam e desciam automaticamente, pude e podemos sentir... os preços, a real luxuria do Cristo redentor, não só nos seus pés quentes, mas nos restaurantes frios em caráter! Nunca em minha vida tomei uma água embalada em uma garrafinha tão cara e quente! Custava o triplo das águas dos mortais que ficavam na terra...



Quinto Dia.

Fomos ao cais. Vistamos um submarino antigo, com a cara de Getulio Vargas. Minha esposa ficou impressionada com as informações sobre a nave... “Meus Deus, eles ficam meses debaixo dágua, nisso aqui?!” – claro que ela exagerou, e eu também dei informações meio além das necessárias, o que a fez falar o tempo inteiro. Meu cunhado, com a cara de papai me tira daqui, queria ir embora junto com a esposa, no submarino, onde cabiam apenas três pessoas! Era muuuuuito pequeno.

Os lugares em que dormiam os marinheiros nos pareciam beliches onde dormiam sardinhas com a cara para cima. O luxo era mito grande. Mas não era de se dizer “Ooooooohhhh, que submarino”, ou seja, não tinha nada ali nele que me interessava. Também, não mandei assistir a filmes americanos em demasia! A propaganda é maciça do grande submarinos nucleares, dos porta-aviões, dos aviões... Enfim, a realidade brasileira nos fazia por os pés nos chão e, quem sabe, cortar os dedos com vidros quebrados.

Sexto Dia.

Já estava amolado com as esquinas do Rio. Ô palhaçada! Era muito turista, gente besta, gente querendo se mostrar, mulheres feias – “as bonitas estão todas no Faustão”, pensei. Meu cunhado, parecendo dono do Rio, não gostava dessa observação. Ficou chateado com minha sinceridade acerca da Cidade que, no sexto dia, já não era tão maravilhosa. E olha, estávamos em uma das zonas mais calmas e decentes do Rio. Depois, fiquei sabendo que havia ensaio de escolas de samba, maracanã, jogo do flu, mas não pude ir... Tudo me parecia claustrofóbico. Não queria sair do apê, não queria ir mais para lugar algum. O Rio, para mim, acabou.

No Sétimo dia

Um susto. Nas praias de Copacabana, um grilo sem asas e sua namorada foram à beira do mar – este ainda meio revolto da noite passada – cheio de mistérios aquosos, espumas friiiisimas, escaldantes. Falo de mim e da minha atual esposa. Junto com as filhas de minha irmã – duas – corremos em direção ao filho de Netuno, que nos olhava feito pai que não conhece a cria. E nós não éramos a cria, realmente!

Ficamos, nós quatro, às margens do grande mar, na praia areiada, cheia de pontiagudas pedrinhas, nas quais pés e mãos de caipiras sentiam dores quentes nas ondas frias. Mas foi dali que senti o cheiro do desconhecido, da morte. Minhas sobrinhas, fortes tanto quanto eu, paradas, estáticas perto de mim, o que era o perigo eminente, pois eu, filho do lago do Paranoá, de carás e jotacás (peixes), estava perto demais daquele que me levaria, me traria e, enfim, me levaria de novo... estou falando do mar.

De repente, uma onda grande – de mais ou menos, cinco metros! – bateu-me os pés, tirando-me do encosto sossegado da praia. A mesma onda tirou minha esposa, a sobrinha menor do mesmo lugar, e a maior, sorte nossa, conseguiu sair correndo. A segunda onda, mais forte, nos levou para dentro do mar. Eu, sem saber o que fazer, fiquei parado, flutuando em meio a sais minerais, faltando apenas bucha e sabonete. A onde tinha me engolido. Nas tentativas vãs de buscar algo que me desse apoio e volta às pequenas dunas, fiquei em paz – eu e eu, ninguém mais. Indo e voltando, como se fosse um boneco de madeira sendo levado e trazido. Mais levado que trazido.

Minha futura esposa levantou-me. Embebido de ondas que brincavam comigo, cai de novo, só que, agora, com uma nova pancada nas pernas, que não se equilibravam nem mesmo com as brisas da Cidade, que, naquele momento, me via como um bobo às margens da praia. O povo estava adorando. Ela ainda, depois de tentar me salvar, viu que a sobrinha também precisava de ajuda, e correu. Não me viu ser sugado pela segunda vez. Que dia!

Dessa vez, quanto subia e descia, sugado pelas ondas, vi ao longe minha irmã, tão bruta no correr, que parecia uma leoa na busca dos filhotes, e era. Sua filha, a menor, estava sendo levada pelas ondas, assim como eu, seu irmão. Minha esposa, coitada, achou que a culpa fora dela, e não das ondas que nos pegaram de surpresa. Quem vai adivinhar?!
Tirando sua filha do mar, minha irmã não sabia o que fazer primeiro. Correu, em segundo, e me salvou. O dia não estava para mergulho. Mas uma coisa eu aprendi: ninguém se afoga melhor do que eu!

Daqui para frente houve acréscimos de pequenos passeios, mas nada que pudesse me levantar o ânimo. E quando isso acontece, sinto-me abatido e, como sou sincero, meu semblante não escondia a saudade daquela vila que se escondia em meio a uma Brasília corrupta, me aguardando, com minha casa, minha mãe, meu cachorro (falecido), meu sobrinho... Enfim, aquela vida besta que deixei no centro-oeste. Quanto olhava o mapa, dizia, pu-ta-que-pa-riu, como estou longe de casa!

Na verdade, eu não tinha nem mesmo passeado o bastante no Rio. Não sei bem o porquê, mas havia algo guardado para o final. Uma lembrança que me ia ficar na cabeça pelo resto da vida. E não era boa.

Antes do final, no entanto, resolvemos andar pela Lapa, lugar onde nasceu e morreu o verdadeiro samba carioca. Lá, um muro grande, simbolizando o local, era o mostruário, o totem, o cartão postal. O bondinho, aquele de que tanto falavam, passava por cima dele, em um ritmo que, deixe lembrar, não era de um trem bala... Por fim, subimos nele. Meu cunhado e irmã, impressionados com a paisagem, diziam “ali é o morro do alemão, mais ali é do Vidigal!”. Eu, compassivo, descansado e acabado, preferia o morro, ou melhor, o morrinho, um lugar que ficava atrás de minha casa, onde poderia correr, subir e descer, soltar minhas pipas, catar pedras bonitas... Mas ali, a realidade de ser baleado, queimado vivo, assaltado do nada, por um marginal à prova de português, era muito melhor, na visão dos anfitriões do passeio. Eu via o sorriso do meu cunhado saltitar no ar, como se ali fosse nosso reduto! Como se estivéssemos vendo de perto as pirâmides do Egito! – eu quero ir para casa!

E fomos. Com as caras tristes, cansadas, desbotadas, o que ficou da grande viagem foi a saudade de voltar, já no inicio, pois o Rio, como uma cidade que hospeda a todos, não é a melhor do mundo, mesmo sendo a mais bela, é a experiência bem sucedida de quem vai para ficar livre de terceiros, do julgo do cunhado, da irmã, do pai, da mãe... É a melhor experiência para quem vai tirar férias, com os olhos voltados a si mesmo, ao real descanso, a fim de sentir, sem pressa, a praia, a vida, os deuses...

A Insustentável Rocha do Pecado


Os gregos clássicos sempre tiveram como filosofia o Universo como um Ser infinito, misterioso, no qual o descobrimos dentro de nossas possibilidades, em nosso nível, sendo de qualquer classe – pobre ou rico; de qualquer raça – negro, branco, pardo, mestiço, hibrido... ; de qualquer nacionalidade, e etc. Cada ser humano estaria dentro desse uno como seres heterogêneos e harmônicos – ou seja, somos seres humanos, diferentes um do outro, regados de espiritualidade, religiosidades inatas, sacralidades, e em busca do Divino em cada um.

Havia gregos-poetas, mas naquilo em que acreditavam eram tão cientistas quanto qualquer um de nossa época. As Escolas gregas, a exemplo, ensinavam os mistérios dessa realidade da qual regavam suas vidas. Ensinavam que os eram deuses, potencialidades tão fortes, simples, e ao passo profundamente naturais, eram divindades naturais – entidades do universo. Eram elementais – seres invisíveis superiores – sobre os quais se falavam em todas as culturas. Na bíblia cristã, em uma visão alegórica, seriam anjos enviados por Deus.

As figuras alegóricas surgiram com nomes representativos com essa finalidade, nos fazer entender, por intermédio de chaves psicológicas, o próprio universo e o próprio homem. Tais figuras seriam os deuses – Hércules, Pandora, Zeus... etc, os quais ilustram um contexto mítico – copiado por Roma – a descrever o papel de cada Força como elemento construtor.

Na realidade, culturas houve com essa filosofia – entre elas, a egípcia, a celta, hindu, maia, indiana, entre outras – com a finalidade de nos fazer visualizar o universo infinito, contudo como um ser no qual o próprio homem seria uma das partículas naturais, divinas, sagradas e misteriosas, assim como o próprio universo o é.

Com o tempo, houve o homocentrismo – o homem como centro do universo; e até então, temos o antropocentrismo, a forma do homem, como centro de tudo. Aqui começa a era das sombras e das sobras. A Idade Média no Ocidente. Um período de obscuridade pelo qual passamos no século dezessete e que nos transformou em homens das cavernas sem cavernas. Hoje, ainda com resquícios de uma era em que morríamos por questionar e dar opiniões – de alguma forma semelhante situações passamos --, e que, segundo oráculos passados, teríamos que passar por isso, como uma forma de apocalipse simbólico.

Atualmente, somos desenfreados em nossas convicções advindas da Idade do Terror, e nos esquecemos de nossas filosofias acerca de Deus e do Universo, de nós mesmos; e do sagrado ao capitalismo, o homem saltou como um grande corcel para o abismo de sua alma; as pedras, com sua filosofia, vencem a dos homens idealistas que ainda se perdem em suas lutas; as plantas, os animais, deixaram de ser seres vivos para serem alvo de interesses fisiológicos... Estranho, não?

Foi um grande passo. Para trás.
Ultrapassamos todos os sinais de desumanidade: de violência, de terror ao próximo – o equivalente a todos os atos praticados nos passado. Isso porque a religiosidade, a política, a filosofia, a família, a ciência... Não são mais as mesmas.

O mundo ficou separado do homem. Deus, A Vida, a Morte também. O homem do próprio homem. Os mitos ficaram desacreditados, mesmo porque o desgaste sobrepujou os “iniciados” que, nos degraus da iniciação, traíram seus ideais, delataram segredos, desmontaram escolas e o seu significado. E, assim como qualquer má influência que nos leva ao fundo do posso, o caos se fez na medida de nossas personas. Claro que há razões o bastante e explicações deveras em todos os aspectos para a decadência humana, mas a maior em todos os sentidos, talvez, tenha sido a religiosidade voltada ao interesse de cada pessoa, e não dos deuses – do Universo, tal qual o era.

Tudo hoje, não soa mais como um mistério, mas com duas respostas... Pelo existencialismo satreriano, pela falta de base na crendice cristã, pelo modernismo acelerado, além dos valores, que há muito eram como sóis ao homem, hoje são tão relativos como opiniões e por todos os ismos... Em Deus ou o Diabo. Não há mais a compreensão filos-simbólica – no sentido clássico da palavra – na qual os elementais (potencialidades) naturais a que tanto se referiam os pré-socráticos eram sinônimos de uma realidade interior no próprio homem. Por quê? Porque ele sempre foi uma partícula assim como é uma gotícula nesse imenso oceano desconhecido.

Por isso, talvez, sejamos obrigados a encurtar o mistério, ou decidir de uma vez por todas que ele não existe. E que a única realidade é Deus, o grande.

Em todas as culturas, houve a dualidade representada por três forças – uma delas sempre o bem, outra do mal. A terceira no cristianismo não existe. Somente nele. A terceira, na realidade, vem representar, sempre, o aspecto feminino, não necessariamente mulher, mas que, dentro do contexto, pode se referir a ela, como Isis, no Egito, que, ante o mito, representa todos os aspectos voltados à intuição, à união, à sabedoria... Assim como Wira Kotsha, na cultura ameríndia; Manas, nas escrituras mais clássicas, e assim por diante. Muitos egiptólogos afirmam que a Virgem Maria poderia ter nascido da necessidade do aspecto feminino em falta na tríade, todavia não faz parte dela – não sabemos o porquê. Ou seja, a raiz é clássica, no sentido mais mitológico possível. Deus, confirmado pelo papa João Paulo II, uma cópia de Zeus, em sentimento, poder... O que nos faz nos remeter a outra realidade... Por que não se aprofundaram nessa afirmação?

O Mal, uma cópia de outro deus grego Pã, que assustava a todos – mito – com sua presença terrível na terra, tinha os cornos em forma de meia lua, a representar o aspecto lunar-feminino; corpo de homem – a personalidade humana; e pés de touro.

Criados a fim de manipular a todos, o Bem e o Mal cristão nada mais são que simbolismos obedecidos literalmente por uma cultura que, a cada dia, se perde em seus conceitos. Do Bem criado, se espera o perdão pelos pecados e o céu tão almejado pela maioria; do Mal, espera-se a sua extinção; o que seria impossível, pois não se pode viver sem os dois, assim como a luz e a escuridão. Da luz se aprende o caminho. Da escuridão, o mistério.

Desde Filae – ilha egípcia na qual viviam os últimos remanescentes clássicos de uma cultura sagrada e bela, nunca o cristianismo esteve tão errado, tão confuso e triste. E nós a sustentar a rocha do pecado....

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Carta a Um Guerreiro

O Guerreiro se foi
Depois de tantas lutas em meio a leitos de hospitais há mais de um ano, meu irmão se foi. Vítima de leucemia, uma das piores, conseguiu ser fiel a seus ideais de vida: ser forte, fogo, terra e céu. Elevou sua consciência em todos os instantes, nos dando esperanças de que sairia ileso das dores dos exames que sofria. Sorridente, sempre embalando-nos em suas piadas requintadas, nos fazia chorar e perceber o quanto precisamos ser homens nas horas mais difíceis. E ele foi. Mas se foi.

Seus atos que nos pareciam de um jovem cinquentão, no passado, traduziam o equilíbrio em lidar com uma personalidade que, nas duras horas, respingava atitudes homéricas – assim o diziam seus filhos, de caráteres irrevogáveis e invejáveis.

João de Deus, o Piaba, nascera pobre, assim como seus irmãos, no Rio Grande do Norte, e vieram para a Cidade Esperança em meados de sessenta; primeiro dos oito filhos de dona Josefa e Luiz João “Piaba”, cujo apelido lhe deram por nadar em águas rasas, a das piabas, fora contaminado pelo pai, ficando“João Piaba”. Crescera e vivera em épocas tão melhores quanto a atual, cheio de liberdade, mas, ao fundo, a ditadura militar e seus cacetetes davam pano de fundo à década de setenta – o que não atrapalhara sua escolaridade, seu namoro, suas pequenas brigas... Muito pelo contrário, pegou todas as oportunidades que lhe vieram, e uma delas foi um bico de lavador de carros no estacionamento do Congresso Nacional. Com o tempo, vieram os concursos, os quais fariam parte de uma ancora que, mais tarde, faria de Brasília uma das cidades mais invadidas do Brasil por isso. João não titubeou.

Um concurso na hora certa, no dia certo, na época certa, fez com que João Piaba fosse certeiro. Sem as dificuldades atuais, as provas da Câmara do Deputados se realizaram num domingo, o que fez Piaba levantar-se cedo e percorrer toda Vila Planalto, lugar em que havia se fixado com sua família, a pé, contudo não a ponto de perder a grande oportunidade de sua vida, ou de sua família. Passando nas provas, João galgou, aos poucos, uma vida de bem aventurança.

Antes mesmo, porém, não se pode deixar de falar daquela que foi sua primeira namorada, sua única esposa, sua única mulher. Claudete. Filha de dona Vanda e Clarindo, mineiros da gema. Uma pessoa que nascera frágil tal qual uma rosa, e vivera em função de um homem que sintetizava o espírito dos homens, em compromisso, força, beleza... Sim, João era um ser belo por natureza, e Claudete, como a Vênus que espera seu noivo, nascera para ele, para o meu irmão.

A ditadura não os fez menos amorosos que seus pais. Diziam que o pai dela, por inimizades com o pai dele, era contra a união dos dois; mas só foi isso. Não houve mais percalços. Com pouca idade, quase uma adolescência nos dias de hoje, João casara-se; sua mãe, Josefa, ao saber que o filho pródigo a deixaria depois de anos ajudando em casa, não sabia o que fazer. Restava os outros para segurar a barra.

Anos se passaram e João se mudara para Sobradinho – uma cidade que ficara conhecida pela grandeza do homem que viera a ser. Hoje a cidade se tornou sinônimo de João Piaba – grande, forte e bela.

Outras lembranças virão a nossas mentes, como a do atacante nos campos da Rabelo, do Defelê, atraindo a todos com sua velocidade, agilidade, mas privada por uma dor no joelho, que o fizera parar de correr, mas nunca fora dos campos de Sobradinho. As serras terão saudades suas, as pistas, as pessoas, com as quais João conversava e com elas simpatizava.

Adorava cães. Quando podia, criava uma grande raça. A última fora um Dálmata que tivera que deixá-lo por razões médicas. Piaba não poderia ficar com qualquer animal que soltasse pêlos; e o seu cão teve que ser doado.

O Fluminense, seu time do coração, mais um sinônimo que de João Piaba, será sempre campeão, independente de sua posição na tabela, seja da primeira, segunda ou terceira divisão – o grande torcedor, que criara netos sob o manto tricolor, soube defender com todas as camisas possíveis seu time. No final, apenas um tinha que sobreviver; contudo, um não anula o outro. Muito pelo contrário, os dois se assemelham tanto, que onde um vai estar o outro também vai estar.

Nas conversas, ainda que meio indignado com a política, nos fazia rir com suas colocações meio fora de foco. O relevo que nos dava, no entanto, fora de uma natureza agitada em relação àqueles que a compõem. Havia um certo idealismo em suas palavras ainda que sem o brio da juventude – claro, João não era mais o garoto, nem o rapaz de sempre – todavia fazia questão de lidar com a juventude atual e dar-lhes conselho sobre sua vida, que tanto significou trabalho e dedicação. E fomos todos coadjuvantes de tudo isso.

Aos seus irmãos, mostrou como se constrói uma família. Aos seus irmãos, mostrou como se faz um pai. E mostrou como se faz um irmão.

Nos leitos dos hospitais nos quais fora paciente, João fora um guerreiro, usando de todas as artimanhas físicas e psicológicas, a fim de driblar o seu estado precário; ainda, após sua breve saída deles, tentou fazer o mesmo. Talvez, aí, não sabemos, pela desobediência e desrespeito à própria doença – que em si exigia cuidados – o drible a elas soava já como um adeus aos familiares, sem saber. Assim, nas guerrilhas, nos combates humanos, a que temos obrigações de respeitar até mesmo os inimigos, nosso querido irmão não o fez – deixando a todos órfãos de seu carinho e alegria.

Coisas pairam no ar sobre sua breve ida para o desconhecido. Para onde ele foi, por que foi, se havia tanto para se realizar? Será que realizou tudo? – não, nenhum homem realiza tudo em uma só vida. Talvez esteja aí a resposta: se não temos possibilidades de realizar tudo em uma só vida, que há outras vidas, e nelas tenhamos mais consciências de nossos atos – assim como temos em muitos, mas não muitos. As perguntas sempre nos soarão como racionalismos exacerbados em uma noite de fogueira no frio; ou seja, das próprias perguntas a nós são quase involuntárias, então é certo que para nós, também, as respostas nos soem como mistérios. Não só, mas também tudo que visivelmente não está ao nosso alcance interno.




quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Para Além...

Colhemos e plantamos o que podemos e o que não sabemos por causa de nossa ignorância, ou por nossas teimosias. Todavia, há caminhos simples que nos revelam, às vezes, nossas maiores falhas, e dentro delas podemos perceber o quão somos desorganizados. Assim, se pudéssemos organizar nossas vidas tão perfeitamente assim como nos organizamos ao jogar um papel solitário do chão ao lixo, se pudéssemos regar nossas almas de bons atos como se fossem plantas, em nossos jardins preferidos; ah se fôssemos todos poetas práticos nessa vida tão insípida de coração... Não havia humanos mentirosos, rancorosos, nem mesmo haveria humano, talvez.

Depois que encontramos o caminho errado, parece-nos mais fácil continuá-lo ao invés de voltar e reconhecer que ele, o caminho, não é o que queremos. A dificuldade nos parece irmã, e a dor, a mais velha dela; dessa forma nos acostumamos aos males que criamos, educamos e damos faculdade, mentalidade a eles; assim surgem os seres que nos fazem perder o sono, os sonhos, os amigos, a família... Os pontos que nos fizeram homens de bem. Esquecemos o porquê da vida.

Lembrar que somos dotados de males que a nós pertence, mas que nós próprios os criamos, portanto podem ser destituídos de nossas almas, de todo o mundo. Lembrar que somos divinos e mais que sagrados, mais que humanos – um dia, quem sabe, reconhecer que poderemos ser deuses! Quem sabe, nasceríamos voltados a valores melhores do que os de hoje, sem repúdios, falsidades, interesses, joguetes... Relatividades!

Esquecer que as religiões separatistas existem, e que partidos só existem para re-par-tir... Nada mais. Que a lua e o sol, ainda que opostos em papeis, trabalham tão unidos quanto qualquer irmão; que o animais, por mais violentos que sejam, agem por pura defesa, ou para além de nossos narizes, ao contrário de nossos interesses que nunca se igualam ao espiritual, nem de longe; portanto não nos venham com histórias de guerreiros de Deus, de Jesus, Alá... Sei lá!

O sol nasce a todo instante e não nos questiona acerca de nossas deficiências; se o fizesse, naturalmente nos daria as trevas desde a queda dos continentes. Tudo isso nos soa como para além de nossos pequenos raciocínios, mas a realidade nos diz que somos ignorantes porque precisamos ser. O mundo capitalista nos tornou assim, sem visão. Ou uma visão mentirosa acerca de nós mesmos, apenas para nos “adequar” dentro do que não somos – do sistema presente que nos assola há gerações.

Fiquemos com a máxima que, com certeza, está para além de nossas compreensões: “Conhecemos a Nós Mesmos, e Conheceremos o Universo”.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Filosofia do Sol e da Chuva: pais e filhos


Kalil Gibran, filósofo indiano, em sua obra O Profeta, reverbera acerca de todos os valores existentes e necessários à vida do homem. Fala do amor, da verdade, do casamento, da união... Enfim, em um romance no qual um sábio, Mustafá, é o personagem principal, que, antes ir para a sua terra natal, responde a várias perguntas de moradores de uma cidade, Orfalese, onde o recebeu, onde o amou. E que agora, indo embora, dá de presente sua sabedoria em forma de palavras belas, quase um poema, em respostas. Sempre que um homem desse vem ao mundo e nos disserta acerca de tudo que nos é valoroso, devemos ficar atentos, mesmo porque o que nos interessa é o que o copo traz, não o copo.

Na obra, depois de vários, uma mulher quer saber sobre Filhos. Ele, o mestre Mustafá, responde “Nossos filhos não são nossos filhos, são filhos do Universo; somos apenas veículos nos quais eles vêm e os educamos para a vida” – após isso, completa “Somos Arcos, nos quais flechas são atiradas, e elas são os filhos”. Deixando ainda entender que somos flechas de um Arqueiro – este seria Deus – nos usando como Arcos, que somos.

Gibran, o filósofo da obra, remete-nos ao ensinamento clássico, no qual não apenas ele, mas muitos outros nos faz refletir acerca de nossa existência, comportamento, apego, família... E tudo que nos cerca dentro de uma realidade mais profunda da qual sempre fugimos em entender.

Quando se refere aos filhos como flechas, e nós, Arcos, tudo bem. Mas, ao dizer que não são nossos filhos, acredito que não só a mim, mas a muitos soa como um conto do qual levaremos milhares de anos para levar para compreeder; ou seja, por ser um conto, não levaremos nunca.

Mas a finalidade de Gibran é nos tornar mais desapegados desse universo visível, no qual, e do qual partidos e chegamos, a toda hora. Claro que, quando se refere a filhos, somos mais pragmáticos; é quase que impossível sermos flexíveis a filosofias, a religiões nas quais se coloca em xeque a relação pai e filho.

A questão do desapego, principalmente a nós, seres deste século tão pegajoso, é ainda uma utopia. Não faz sentido qualquer obra, qualquer autor, que nos eduque ao contrário do que hoje temos como o maior tesouro de nossas vidas. Talvez no Oriente, não sei; mas hoje, como a grande maioria cristã, e outras religiões na influência quase direta da mesma filosofia, fica irrealizável filosofias que tentam nos reeducar frente ao que temos como o que é certo para nós. É como quebrar um dogma.

NA REALIDADE, há possibilidades tais de entender a profundidade das máximas e dos textos clássicos, por isso o são. As chaves para a compreensão de um texto de Gibran são as mesmas para a abertura da porta para a compreensão de outros textos clássicos: o conhecer a si mesmo. Outra máxima, agora, platônica.

O conhecimento humano, legado de todas as épocas, nos diz que viemos de várias encarnações, e que nosso corpo – esse ser tão cultuado e confundido conosco mesmos – não seria nada mais que um veículo preso a nós, e nós seríamos o que subjaz a tudo que pensamos ser, tudo que estivesse além de nossas opiniões a respeito de alma e do espírito; diz a sabedoria clássica que reencarnamos pela ignorância, e que, enquanto humanos, passaremos pela roda da encarnação, em ciclos, até a ultima ronda, a fim de alcançar a real natureza humana-divina. É como se nos dissesse “somos únicos e dentro desse plano divino não há nada que seja de nossa responsabilidade, apenas o crescimento interior. Mais nada. E nada podemos mudar.”

É perturbador a alguns, pois atinge e ao mesmo tempo vai ao encontro de muitas filosofias nas quais se restringem e ao mesmo tempo revelam aos poucos tal realidade, que passeia pelas escrituras ainda que de forma velada.

Gibran, em sua filosofia indiana, uma das mais antigas do mundo, revela sem restrições o que ela traz; isso nos faz um pouco trêmulos pela verdade que carrega; mas, pelo fato de ser uma verdade, nos faz, aos poucos, refletir e tentar ver nas coisas, na família, na sociedade, milímetros de realidades nas quais estão embutidas as filosofias eternas.

Quanto ao filho, esse sol que nasce em nossas vidas, ainda que milímetros de verdades nos bata a porta, ficamos com a nossa, pois nos ensinaram que eles dependem de nós, e nós deles – é o aspecto familiar falando mais alto. Ensinaram a nós que não somos arcos, mas pais que devem se preocupar e morrer quando a morte vem a ele, de alguma forma figurativa, metafórica, ou real aos nossos filhos; fizeram-nos acreditar em nossa fiel educação cristã de todos os tempos, que ele somos nós, e nós a eles...

Contudo, quando crescem, a realidade da grande filosofia humana clássica se desvela aos poucos, e não queremos ver. Ficam rebeldes, querem seus lugares, ficar independentes, construir seu caminho, com ou sem o pai. Alguns, no entanto, a minoria, serve-se dos pais para tudo, ainda que maduro o bastante, até para tirar as calças precisam de nós. A rebeldia, a independência, atitudes de liberdade frente a regimes seriam, talvez, uma forma de dizer que deles não somos donos, apenas pais. Os arcos, aqueles cuja educação os nortearia para as lhanuras da vida, não seriamos nós, mas seres semelhantes a nós – é o que queremos na maioria das vezes.

Pais há nesse mundo que sofreram em tempos árduos e que sofreram em suas épocas, e viram, de perto, o próprio inferno. É mais que natural não querer que seres humanos sofram, muito menos filhos. Todavia castramos todas as possibilidades de que ele – o filho – passe pelas mínimas estreitezas que a vida lhes dá. Daí nasce o medo, a dependência, a retração em dar passos sem o pai, enfim, várias ‘doenças’ seculares nascem desse medo genitor, porque ele passa e que somos responsáveis.

E o pior, as atitudes ficam sempre à mercê de um pai, ainda que distante. As decisões são dadas a terceiros, porque o pai não queria passar tal responsabilidade a ele. Devíamos, nesse fato, aprender um pouco com determinados animais que fazem questão de empurrar a cria a fim de que voem para se alimentar. Nós, não. Mesmo que o filho não se ache digno de buscar seu alimento ou não o faz por mera preguiça, o pai, com sentimento de que lhe apraz, o faz e busca, vai atrás, consegue e educa, tortuosamente, o passarinho-velho. Daí nascem os psicólogos!

A RESPONSABILIDADE a que nos dispusemos aos nossos filhos é muito grande, desde o dia em que nascem até a data de sua saída de nossas vidas – não da família. O apego físico nos torna escravos, achando que o que sentimos é amor. Ou seja, a falta de uma filosofia educacional que nos direcionaria ao espiritual é muito grande. A atual nos faz confundir paixão, apego e amor. Dizer que “nossos filhos não são nossos filhos” ainda está como milhares de idas da terra à lua (!) para nós, seres ocidentais vazios de sabedoria.

O Amor, o verdadeiro Amor, de pai para filho, não estaria na criação mas no desapego, na sinceridade do desapego, pois a Tradição nos diz que somos todos irmãos de um grande pai – o Uno. Todos dele viemos e para ele retornaremos.

Epíteto, em sua grande obra, do mesmo homônimo – estóico, que fora escravo e professor de outro grande estóico, o grande general Marcos Aurelios, -- ensina-nos a desfazer de nossos apegos de maneira sutil e, por que não dizer, agradável?

NELA, Epíteto, cuja obra era levada até para os campos de batalha, diz “aprenda a lidar com morte. Saiba que tudo se vai. Tudo tem seu tempo. Tudo volta para onde veio, até mesmo as pessoas mais queridas”. E lá na frente diz “Comece dizendo: ‘se esse copo quebrar é porque voltou para o lugar de onde veio’; e assim por diante. Se um de meus amigos morrer, é porque voltou para o lugar de onde veio’” .

UM AUTOR que corrobora com Epíteto é Platão, em A República, na qual traduz a Justiça de forma racional, no entanto de maneira esotérica aos nossos olhos, diz que a República deve conter, acima de tudo, Guardiões, na qual a proteção seria tão necessária quanto à liderança advinda dos filósofos: os Guardiões deviam ser filósofos também, ou melhores até. Mas o que incomoda a todos é a formação dos guerreiros e guerreiras. Por intermédio da música, da dança, da ginástica todos seriam educados – uma pausa para a palavra educação.

Com relação às crias, sabendo do apego dos pais aos filhos, Platão, para uma República Ideal, diz que mães não devem saber da existência dos filhos reais; estes seriam, antes do reconhecimento da genitora, levados a uma educadora, com a qual ficaram todos os rebentos. Assim, sem conhecer os reais filhos, a mãe teria amor por todos eles. O real Amor, no entender do filósofo.

BLAVATSKY, uma filosofa de nosso tempo, diz que cada indivíduo nasce completamente diferente de todos aqueles já existentes; é um ser único, cujas características físicas não são relevantes, pois não implicam na evolução do individuo. A autora, claro, assim como todos os filósofos acima, é uma iniciada. Todos eles falam e teorizam sobre algo de responsabilidade humana, todavia, ainda que épocas passem, pessoas e suas opiniões mudem, suas teorias não mudam. São ensinamentos universais de um passado no qual um dia foram leis, hoje são apenas reverberações em nossas mentes. Todos os filósofos falam de algo que ainda será alcançado, ainda de maneira atrasada, mas que será alcançado.

No que se refere à educação de filhos, somos ainda mais crianças ainda, mas o pouco que temos, devemos às grandes culturas, e seus filósofos, como o grande Platão, que influenciou a cultura mundial com seus livros e que, até mesmo hoje em dia, soa como uma porta de saída aos nossos mais angustiantes problemas, ainda que torçamos o nariz.

Quando ao apego, filho de uma educação arcaica, nos faz mais responsáveis e conscientes de nossos frutos, de nossa família. E isso já nos deixa a existência mais válida.

Papas e Hitleres

Nascemos, crescemos, amadurecemos, envelhecemos e morremos. Isso, desde o dia em que em que a plaqueta Ser Humano esteve em nosso peito. “Não adianta, -- dizia Marco Aurélio – até mesmo o mais sábio dos homens morre”, é irrefutável. Nesse jardim imenso pelo qual passamos, onde flores nascem, crescem, ficam belas, envelhecem e morrem, tal qual nós, andamos todos os dias. Um andar diferente, a cada passo, além do próprio caminho no qual, às vezes estreito, largo demais, mas com uma certeza: ou passamos ou passamos. Dentro dele, muitos falam – ou mesmo antes – com a narrativa falaciosa, fria, às vezes, embriagada de polidez demagoga, levando muitos a enfrentar, além dos próprios obstáculos do próprio caminho que lhe é dado, muito mais obstáculos – estes nos dado em vida por terceiros.

Nas entrelinhas de nossas vidas, como dizia o mestre dos mestres Carlos Ilha “Temos sempre que escolher, a toda hora, entre um prato de comida e um prato de ração”, o que nos torna insensatos é que preferimos, na maioria das vezes, o prato de ração. Por quê? Muitos pela euforia, paixão, amor desmedido... ou mesmo “safadeza” – completando o que mestre Ilha disse “— são levados a abismos, à destruição.

Um exemplo disso seria uma menina que possui uma educação clássica, porém põe tudo perder se apaixonado por um marginal de alguma favela. Temos a certeza de que ela nos diria que o que sente pelo desafeto é amor. Outra forma de incoerência seria uma professora que, dentro de sua vocação de dançarina, montasse uma academia onde o prato principal seria a dança baiana, cheia de nuances sexuais, com o codinome de arte.

Nossa insensatez se prolonga a partir do momento em que queremos mudar o que não podemos, como o caminho nos dado. Se pudéssemos, nasceríamos ricos, cresceríamos fortes, sem defeitos, brancos ou negros – dependendo do lugar e circunstância --, seríamos detentores do saber universal, nunca envelheceríamos, e, enfim, nunca morreríamos. As leis são a todos iguais – às pedras, às plantas, aos animais, e por que não aos seres humanos?

Houve época em que aceitávamos mais nossos destinos de humanos, e filosofávamos mais em torno do que somos e em torno do que poderíamos ser, e em torno da morte, esta com se fosse um tesouro perdido, um mistério, uma coroa após tantos anos de trabalho como ser humano, ou mesmo, dependendo do individuo, do inicio de uma nova ação nos dada pelos deuses. A vida, assim, seria apenas um prelúdio, não tudo. Temos medo até da própria palavra.

Mas os caminhos nos ensinam muito a longo prazo. Nos ensinam a ser papas, hitlheres; na realidade, mais hitlheres que papas. A decadência está visível aos olhos, à alma, ao próprio homem, de cuja responsabilidade é e sempre será o seu caminho, mesmo que entregue a outros. Ainda nos ensinam a entender a partir de premissas relativas o que é Deus, o que é Política, o que é amor, verdade, ética, moral, prudência, vida, morte... Todas de maneira sutil, sem a profundidade de antes. Não há mais escolas que se importam ou mesmo governos de sábios. Há governos de tiramos disfarçados de salvadores; salvadores disfarçados tiranos; homens que não são homens, mulheres que não são mulheres; homens que querem ser homens, mas não são; e mulheres que querem ser, mas não são mulheres...

São fatos. São caminhos. São leis que incidem em cada um. São aprendizados nos quais o próprio ser humano se perde em sua identidade e assume o que não é; jogado fora, o aprendizado se torna uma linha a seguir uma dor a sentir nas veias, no corpo, na alma; alguns assumem em razão de escolhas – não se pode fazer nada, então, aceito. Outros buscam a fé, a ciência, os grandes livros e até mesmo grandes professores na intenção de desvendar o porquê da vida ser “assim” tão imperfeita a seu ver.

Descobrindo... se suicida, ou se converte, ou se magoa e continua sua busca; ou na pior das hipóteses, não faz nada, ao acreditar que é mero acaso, um grande erro do universo, de Deus. É o Hitler nascendo e exterminando gerações, cegamente.

Os hitleres são mais fáceis ser, pois respiramos a todo custo o ar que eles mesmos fazem. Hitleres manipulam dados, pesquisas, desmistificam símbolos, verdades que há muito nos deram credibilidade; nos fazem desacreditar em sonhos, e dizem que a matéria, a riqueza, o capital, a felicidade e todo o meio de vivência externa é o que mais necessitamos; dizem que a religião é o meio de consecução dos bens materiais. Dizem que temos o mal e precisamos a eles nos entregar em nome de salvadores antigos, e enfim vender, realmente, nossas almas. Os hitleres tiram o amor ao ser humano.

Desmistificam a política que há muito houve homens de bem, de cuja ética é moral nunca foram desconfiáveis. Até hoje, claro. Hoje o vocábulo se iguala à corrupção, à falta de valores que há muito na humanidade brotou e cresceu, e nos deu sonhos de humanidade – alguns poucos idealistas ressuscitam isso. Política é sinônimo de violência, destruição em massa, de guerras inúteis, de falta de caminhos e paz.

Há bons, no entanto, e também deles respiramos seus ares. Hoje, em nossa época, tão em falta de seres iluminados, que se tornaram sol em nossas vidas, nos faz voltar à tradição, àqueles heróis, de cujos atos não nos esquecemos, de cujos atos podemos nos referenciar e manter algo, um pequeno sol, uma pequena forma de se viver. Esses grandes homens, pais de legados de uma humanidade necessitada, devem ser procurados, amados, levados no coração.

Os papas, hoje no cenário mundial dados como descendentes de uma tradição cristã irrevogável, são a contradição do mal que nos afetou e nos afeta em nossa época tão fria e necessitada de heróis. Papas, ainda que meios frágeis em suas elucubrações, podem ser referenciais a alguns, mas não a todos, pois não possuem em sua linha hereditária a credibilidade como um todo, por isso é falho. O mal, assim, vence.

Contudo... Havendo caminhos, havendo referenciais dignos – como os grandes heróis da antiguidade – sim, podemos sempre construir novos homens e, com ele, novas formas de crescer, amadurecer, envelhecer e morrer.




Em Cada Um, Uma Poesia


Quando a alma sussurra, não a ouvimos; e quando o espírito nos pede um pouco de atenção, onde estamos? São forças que em nós permeiam como átomos quentes pedindo pelo amor de Deus que os demos atenção; mais que isso, são forças potentes e latentes em nome do sagrado, às vezes da própria personalidade que busca, dentro de sua própria leveza, um pouco de paz, harmonia e principalmente amor, da maneira mais pura que se pode existir...

Daí vem a poesia, um assalto ao verdadeiro homem, que, em detrimento de seus ideais, vive, cresce, morre e ressuscita, aqui mesmo em terra. Nela, revela seus sonhos, tenta realizá-los, e em cada tentativa descobre Deus, nas mínimas palavras, ou em cada ato, cheio da Vontade humana, tão humana, que nos torna divinos – assim como uma poesia que relata, pela alma, o real sentido de estar aqui, vivenciando todos os mundos, ao mesmo tempo.

A brutalidade, dessa forma, sem espaço, quebra-se, vai ao longe, em nome do que fora incriado; todas as formas de violência, por milésimos de segundo, se vão, mas voltam, pois são estruturas sombrias dos homens sem poesia, sem paz, sem humanidade.

Os segundos se passam. As luas se fazem em nossas almas, o Sol em nosso espírito, as montanhas em nosso corpo... As folhas, em nossa esperança: todas se fundem, e segredam o mistério da vida; assim, as palavras se fazem confusas, como teias de aranhas mal feitas... Como florestas em nossos corações sem rumo. Os segundos se vão... Mas não aos poetas reais que vivem do divino, do sagrado, do real mistério...

E a poesia está feita. Religando o homem a Deus, a ponte perfeita está presente e nem todos podem passar. Não há lágrimas aos transeuntes divinos, nem sorrisos aos meros pedestres da vida; não há nem mesmo pensamentos; apenas o elo, a poesia, a ponte entre os deuses do cimo, e nós, meros poetas, meros instrumentos de Deus.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....