sexta-feira, 26 de março de 2010

Projeto: Humanos


...Muitos se questionam acerca de sua vinda no mundo, essa bola quase oval, na qual homens, mulheres, cachorros, gatos, leões e leoas brigam em nome da paz particular – e pouquíssimos pela coletiva. Os questionamentos aparecem principalmente quando as coisas nos parecem sem retorno... “Ah, meu Deus, o que que eu fiz?”; “Por que acontece só comigo essas coisas?”, “Oh, Deus! Por que nasci nessa pobreza e não na riqueza?”.. Uma coisa é certa, se o Criador fosse alguém que tivesse a paciência de acumular perguntas, o computar dele de duzentos gigas já teria ido para o espaço (?)...

Na realidade, não fazemos as perguntas corretas, o que nos transforma em fugitivos eternos de nossas responsabilidades, ainda que tão fúlgidas quanto nós. Outra realidade é que sabemos (ou fingimos não saber) intuitivamente que há um circulo que criamos em nossa esfera de vida, e dentro dele fazemos e acontecemos. O primeiro passo do nosso projeto: tentar nos localizar. Não fugir, por mais que nosso mundo particular se resuma em Paris, Estados Unidos, ou mesmo a nossa saída e volta do trabalho para casa. Nossos rastros não estão à vista, mas, se tivessem, haveria marcas até mesmo de nossas dores por onde passamos. Mas não há, por isso a séria dificuldade de nos localizar...

Se nos observar dentro de um contexto maior, poderemos dizer que a esfera nossa de cada dia não se resume apenas às estreitas vias por onde passamos; em qualquer lugar do mundo, seja aqui, seja em Paris, ou na lua, estamos dentro de um mapa, seja estadual ou municipal, e este, dentro de um país, que por sua vez está dentro de um continente... E este continente, dentro de um mundo, a terra, a qual se encontra no sistema solar, e assim por diante... O que nos faz miniaturas, tais quais formigas, dependendo do ponto de vista, ou mesmo uma célula em um grande corpo – o espaço, por assim dizer – a trabalhar, a viver, a se questionar, sofrer, amar... Enfim, uma “formiga” que sabe onde está.

Outro parâmetro do projeto seria se preparar para os lugares em que piso, pois ele estará sempre cheio de armadilhas naturais, nas quais posso cair ou não, depende de minha esperteza em relação à vida. No entanto, se nos consideramos o trejeito ainda obscuro às nossas visões, teremos ainda que cair em muitas armadilhas, ou seja, haverá dias em que nossos aborrecimentos serão maiores do que eles próprios, porque terão, além de sua conseqüência, a minha ignorância em relação a ele – o que é pior. O que quero dizer é que, chegará o dia em que a pequena goteira em meu quarto será considerada uma “sete quedas”, simplesmente porque sou despreparado para enfrentá-la. No entanto a mesma goteira, em um outro contexto, pode ser o primeiro passo para uma real sete quedas se não tratada com a justiça que merece.

Preparado, o segundo passo é a forma de lidar com as pessoas, com o mundo. Não esquecendo que pessoas também – tudo – são armadilhas! O que determinará a sua realização do projeto é a sua forma de lidar com ele. Um exemplo disso são pessoas que nos intrigam todos os dias com a finalidade de nos “derrubar”, vamos deixar assim, mas que, sem saber, estão contribuindo para a consecução do projeto. Dessas armadilhas, já tínhamos consciência, o que nos dá uma margem imensa de ganho lá na frente. O nosso mal é que levantamos achando sempre que os deuses estão do nosso lado com a finalidade de nos elevar ao céu no primeiro pé no chão. Assim, muitos dizem, “mande pro inferno aquela pessoa”, “não fale mais com aquele canalha!”, “mude de caminho quando ele ou ela aparecer” “Ah, meu Deus, será que vou encontrar aquela maldita de novo?”– e a própria natureza se encarrega de lhe trazer aquela pessoa que você detesta sempre em seu caminho – por quê? Porque sempre que somos determinados a realizar um projeto de qualquer grandeza as dificuldades, as barreiras, aparecem como formigas em piquenique.

Então, deixemos bem claro: quando houver armadilhas pessoais em nossos caminhos, pulemos, mas sejamos conscientes de que são armadilhas humanas, não objetivas, o que significa que teremos que resolver atritos, confrontar com problemas, resolvê-los; jamais pular, no sentido de se esconder, sair correndo, mesmo porque sabemos que a encontraremos em nossos meios querendo ou não... Dos reais buracos, pulamos.

A realização completa desse segundo estágio lhe dará meios para conhecer um pouco do seu Eu, aquele vazio que pede uma nova experiência. Ou seja, comparando você a uma oceano, já conhecemos uma gotícula de você, não de sua personalidade. Pois sabemos que somos vaidosos, e lidar com o ser humano é um tanto quanto – em nosso nível – “uma prova iniciática”. A realidade é que, hoje, acordar cedo, abrir os olhos, sorrir ao mundo, vê-lo com olhos leves, sem aquele medo de batalhar... já é uma prova iniciática...

Ficamos por aqui. Quando passarmos do segundo estágio, volto.



quarta-feira, 24 de março de 2010

Um pouco do FARAÓ

No antigo Egito, o faraó era o símbolo da ponte entre as divindades e sua terra. Por sê-lo, plasmava a disciplina, a ordem, a justiça advindas do Universo. Não havia outro modo, diziam, de governar, sabendo que nossas naturezas divinas, assim como a própria Natureza, são frutos de uma Ordem maior, Justiça maior e Inteligência maior materializadas no ser humano, em seu espírito.

O faraó, pela percepção maior, teria que abraçar suas causas, fora e dentro do próprio reino, o que lidaria a simplicidade em lidar com o povo; mas também a complexidade, por saber lidar com os deuses. Muitos, pela figura fria e ao mesmo tempo respeitosa, o confundiam com a própria divindade a que buscava – e realmente parecia.

Sua face, adornada da retidão, seus olhos, que não vibravam frente ao sol, seu andado, imitado até mesmo pelos inimigos, seus gestos, sempre no compasso de uma organização maior, e muito mais, demonstravam a espiritualidade em pessoa.

Sua fé, não confundida com força e dúvida, traduzia o que podemos dizer de “uma realidade invisível na qual se deve crer e com o tempo ver”. O faraó via o que não se via com olhos normais. Por isso, a força da religião – no sentido universal – com a qual sabia lidar nos momentos mais difíceis de seu país.

Em épocas de seca, o rio Nilo baixava suas águas e o povo não ficava sem esperanças. Havia a figura firme do faraó que emancipava todas as energias naturais do próprio ser humano e do universo, sempre com a finalidade de referenciar àqueles pobres homens e mulheres que ainda titubeavam na credibilidade divina e do ser humano. Mas o faraó, figura divina, possuía em seu legado, em sua família, as mais terríveis batalhas vencidas, os piores inimigos em seus pés... Possuía os deuses ao seu lado, e ao aparecer ao povo – ao seu povo – mesmo em épocas tristes – a terra iluminava-se, o sol parecia se declinar ao homem da terra, assim tudo estaria bem.

Com suas vestes simbólicas, o faraó na eminência de ser o dono das duas terras, teria que ter a coroa de duas cores, representando o Alto e o Baixo Egito, os quais simbolizavam a fortaleza maior do Céu e da Terra. O látego, de forte símbolo nas mãos da divindade em terra, representava um faraó já dono do Uno, após sua morte, dono das causas e efeitos humanos, ou mesmo a disciplina ao discípulo, que erra e acerta.

Uma Águia, tão bela, representada por Hórus, transluzia-se no seu ombro a ligação entre o céu e a terra. Além do grande poder – não confundindo com autoridade – o homem-deus não teria que ter medo da morte. Era obrigação dele, ao assumir seu reinado, pedir aos mestres de obra que fizessem sua cova, pois sabia tão profundamente sobre os mistérios da vida, que a morte era só um meio natural para a qual se ia. Mas o faraó tinha a obrigação de seguir em frente, não reencarnar, e seguir para o devachan egípcio, no qual apenas os de corações leve permaneciam, e permanecem.

Era em vida, a obrigação do faraó era dar a possibilidade de várias crenças seguirem em sua terra, ou fora dela, pois tinham a certeza de que Deus era todo o Universo manifestado e não manifestado, o que não daria margem à discriminação em qualquer lugar.

Por mais que se conte acerca dos faraós, é pouco pois tudo foi desvirtuado, apagado, desacreditado... Enfim, o vandalismo psicológico nos tornou sectários e burros.

D E U S


Os mananciais existem como livros abertos ao homem-sábio que sabe ler nas entrelinhas a semântica da vida. Com rios desgovernados, animais livres, crianças a nascer, homens de bem a trabalhar, a vida discorre no peito da terra, do mar, do ar... e do fogo.

A terra, mesmo com seus habitantes nefastos – os vermes – alimenta, infiltra, reanima e nos faz de pé; as águas, ainda que quentes, ainda que frias, jorram-se das entranhas da matéria e se vão, com ideais prânicos, a alma do peregrino que vem de longe – nós.

O ar, ao bater na alma universal, tão rarefeito, tão leve, quando em forma de brisa, e violento, em rajadas, em ciclones, em furacões, quando em forma divina, é a essência de um enigma maior – nós. O fogo, espírito humano, dado pelo deus Prometeu, que roubara de Zeus, que o amaldiçoara na cruz eterna pelo mal que fizera a humanidade... Fogo, ainda que pequeno, queima ou mesmo começa um incêndio em uma grande floresta, em uma grande civilização...

E o manancial, misterioso, continua a explorar a si mesmo, continua com sua ciclicidade, nas pedras, nas plantas, na profundeza sombria, cujos mistérios não saberemos jamais. Nosso único meio é tentar descobrir em nós esse manancial que corre solto, como criança levada no parque; descobrir para onde vai; tentar entendê-lo, talvez, em nós, pois o possuímos como um micro-organismo vivo – uma célula – na alma, cheia de vida, como furacões, larvas de vulcões, enfim, semelhantes a um atleta cuja velocidade não varia...

Nesse mistério aberto, as luas e sóis harmonizam – tais quais a todos as raças de toda a terra, de toda a galáxia, de todo o infinito... Nesse mistério, os instintos, presos a uma lei natural, correm e lutam pela sobrevivência, e morrem para gerar uma outra vida: é o renascer de cada alma.

Não se fala, não se ouve, apenas o correr das almas em direção ao Grande Espírito, tão inimaginável quanto Ele próprio. Suspenso, sem fim, tão mítico quanto qualquer criatura, o espírito se sustenta, se revela e é velado, se mostra e se esconde, tão simples e tão complexo... Tão belo e ao mesmo tempo tão bruto. Visto como a inteligência maior, Ele comanda, mas não dá ordens, mostra a dor, mas não é Injusto, não mostra a face, mas se inclina ao coração da espécie mais simples à mais complexa, o homem.

Não há divisões, não há partidos, mas há seleções de raças, lugares, elementos, seres, os quais unidos refletem seu corpo, e não necessariamente sua mente, que, acima de qualquer visão humana, se abre e se mostra maior que todo o universo.

Mas o homem, ainda que ínfimo em sua complexidade, pelo seu racionalismo exacerbado, pode um dia compreendê-lo. Um dia... um dia...

terça-feira, 23 de março de 2010

Projetos


Sabe-se que em todos os projetos damos um pouco de nós, daquele intimo necessário a sua realização. Muitos, porém, dão muito de si. Vem a idéia, o planejamento, os caminhos, a luta, e enfim, a consecução dele – do seu projeto. Todavia, ao acabar com este, vem outro e outro... de maneira que se vive perguntando... “será que sempre terei projetos a realizar?”. Sim. Entre o céu o mar haverá sempre projetos nos quais o esforço, a concentração, a determinação estarão sempre presentes, seja em qualquer momento de nossas vidas...

Mas aquele projeto de ser bom, belo e justo? Será que sua realização é possível? Depende. Há uma frase que diz “Se acharmos as estrelas um tanto quanto longe demais, a lua já nos basta”. Significa que um projeto como esse instiga muito trabalho interno, muito de si próprio, não dos outros. E ser um pouco melhor, todos os dias, ou semanas, ou anos, ou décadas – não importa – já significa muito em nossas jornadas.

Contudo, por ser uma empreitada que nos leva uma mudança profunda e um tanto quanto “diferente” das que somos acostumados, vem o desânimo, a cara feia, a preguiça, o cansaço e a entrega completa a uma personalidade maluca para explodir e ser o que você não é... Daí é que vem as frases “eu sou ignorante mesmo, e daí?!”; “sou bruto mesmo, e gosto assim”... E outras de efeito animal, sintetizando a opção que tomou no lugar de ser um pouco mais humano...

“Um caminho de mil começa com o primeiro passo”, já dizia Confúcio, filósofo chinês. Em todos aspectos pode-se levar essa frase, mas deve-se principalmente levá-la de forma simbólica, de forma que se possa interiorizá-la, intuí-la, praticá-la nos meandros de nossos caminhos. Pode-se usá-la para passar no vestibular, para fazer concursos, conseguir empregos, mas... vejamos... estamos citando algo de um mestre que falava da evolução humana e deixava rastros em forma de máximas a fim de que nós, seres patéticos e estruturalistas, observássemos a importância de nos educarmos frente a tudo, frente à vida, que, antes de mais nada, pedia nossos interesses ao espírito, simples e puro, cuja forma de lidar, além de cultural, nos abriria portas naturais, antes de pisar na terra e lidar com toda a matéria circundante.

É preciso, pois nos apaixonamos pela matéria desde o dia em que nascemos, e aí nos perdemos! Mas os mestres tentam nos equilibrar; nos jogam máximas, e levamos ao pé da letra...! Nos dão ferramentas e achamos que são brinquedos!... Nos dedicam suas vidas, dedicam-nos textos, nos dão suas palavras... No entanto, intricados na matéria fria, nos perdemos...

É... A realização de nossos projetos físicos, assim, nos fica mais fácil. Seja em qualquer nível. Quem vai querer olhar a si mesmo e tentar mudar sua vida, simplesmente porque alguém um dia disse que “conhecer a si mesmo é conhecer a Deus”. Fica mais fácil olhar para o espelho e achar que somos divindades...

segunda-feira, 22 de março de 2010

L a r v a s


É como se o mundo de repente ficasse negro. Como se todas as nuvens sombrias se juntassem em torno do sol e o tampassem para sempre. É como se o caos se infiltrasse em sua mente e o fizesse ver apenas a dor – como em uma guerra solitária, entre você e você mesmo.

Como se a solidão mais profunda caísse em seu corpo, deixando veias a correr com sangue negro, semelhante a vampiros na noite à procura de algo vermelho. A solidão dos edifícios, das casas, dos animais que se guardam com medo do humano, agora, correndo em meio a ruas tristes, sem um coração... sem uma alma é friamente visível.

A semelhança não se restringe apenas ao mal, mas ao mal completo. Como se não bastassem os olhos cansados de procurar alguém, avermelhados pela seca dos ventos das esquinas, bate o cansaço do mal da imaginação, cujas violações ultrapassam até mesmo a compreensão divina...

Divina... Única palavra que nos traz saudades de um dia – daquele dia – em que éramos humanos, filhos da ordem universal, pais de invenções que um dia auxiliaram a humanidade a viver e a ... Sobreviver... Época em que vidas eram válidas no sentido mais exato da palavra, ou pelo menos pareciam ser.

A realidade atual, da grande obra da solidão, nos mostra, pelo menos a mim, que tudo não passara de espetáculos frios, nos quais a vida era um jogo perfeito que dera à raça humana preceitos para viver com seu livre arbítrio no sentido mais cínico do termo.


É a semelhança das coisas que me confunde: em que ou a que podemos nos assemelhar, se até mesmo os animais tinham seus códigos, suas leis, e a eles obedeciam?!

A queda da raça humana talvez tenha sido esse desligamento com suas leis com as quais um dia lidou, obedeceu e teoricamente... Amou. Leis que fizeram homens de fé, guerreiros do mundo; nos trouxe homens fortes, carismáticos, e além destes os divinos. Por eles, um dia, vivemos, criamos referenciais, adotamos leis gerais e particulares, educamos nossas crianças, e morremos por eles... Contudo... Hoje, nas pedras em que piso, na dor de meu peito que respira fracamente o ácido das fábricas, dos carros, do céu poluído...morro sem direção.

Morrer, que um dia fora a maldição humana, hoje me vem como a solução para cessar todos os males... Porém, a morte se foi. Anda-se velho, a pedir esmolas, como zumbis em busca de carne animal.... Humana, qualquer uma que nos lembre o sabor do sangue que se foi também.

O andar trôpego continua. E meus pensamentos embaralhados correm soltos em uma página em branco, filha de uma árvore que um dia nos dera frutos, sombra, fortaleza, mística... Enfim, árvore que nos trouxe bosques, casas, bancos... Não há mais. Assim com a lua... o sol... os rostos... as crianças...

Aprendemos a não educar, pois não tínhamos o que oferecer. Ficamos brutos como tijolos quebrando vidraças da casa do vizinho; não queríamos mais educar nem mesmo a nós, o custo ficou muito alto. Tínhamos que mudar nosso comportamento, o que seria o fim propriamente dito, numa era em que mudar para melhor já era sinônimo de caretice, burrice... Na adiantava sorrir, porque já significava interesse em alguém, em algo. Não adiantaria falar em Deus, pois já era prova de que você era um ignorante que não sabia ler ou mesmo fantoche de padre, pastores, da Igreja, enfim. Os templos foram queimados, e a dor recaiu em nossa pele...

As bases de uma sociedade – família, religião – se foram como se vai um plástico flutuando em redemoinho; as luas negras voltaram. O sol avermelhado, os pássaros famintos, os cães...

Se fôssemos mais humanos, se tivéssemos mais tempo aos nossos filhos, se tivéssemos mais amor ao próximo, àquele vizinho que nos observava pela fresta do muro... Se tivéssemos honrado os princípios aos quais os grandes obedeciam; se fôssemos menos egoístas e transformado nossas vidas em uma ampla casa onde todos pudessem se abraçar, sorrir, cantar à noite toda... Mas hoje lembranças não vão nos abrir, apenas nos fazer chorar e cantar como lobos frente à noite intrigante.

As óperas, as cantatas, a Nona de Bethoven... E todas de Mozart! Nossos corações foram enaltecidos pela eternidade de todas as composições clássicas por que passamos. Nossas almas se aqueceram do frio da humanidade quando as escutamos. Foram séculos jogados no poço da transgressão ética, moral, nos revelando o mal mais pérfido que temos notícia: a dor do esquecimento do que realmente nos fez pessoas de bem.

A justiça interesseira se sobressaiu; o amor confundido com paixão nos levou a violência; o capitalismo nos fez animais frente ao trabalho; a arte virou reflexo de uma personalidade virulenta, sombria, de um homem que nunca mais se elevou às coisas simples da vida. A música, longe de sê-lo, ensurdeceu nossos velhos, enlouqueceu nossos jovens e matou nossas crianças... A música morreu ao lado da arte.

Hoje, piso em sangue. E nele adormeço. Sujo, morro sorrindo indo ao encontro do desconhecido, onde posso pelo menos pensar em um resquício de esperança... Essa nunca morre, sempre se renova, ainda sob os escombros de nossas ignorâncias.

terça-feira, 16 de março de 2010

Homus Divinus


A palavra homus, dizem, significa barro, húmus; alguns dizem pedra – mas a raiz de pedra é igni. Na realidade, de maneira natural, os dois são quase semelhantes, apenas revelam substância, fina, flácida, na maioria das vezes forte, firme, tal qual o homem e seu físico. As plantas são seres que crescem verticalmente, assim como árvores e derivados. Sentem a harmonia em que circulam, escutam, dançam, dão frutos e envelhecem, como o homem. Os animais não crescem verticalmente. Correm em busca de sua presa, comida eterna, que satisfaz seu físico; vivem em sociedade, em grupos que desenvolvem seus instintos coletivamente. Outros tentam comunicar-se com gestos, com sons, articulam como crianças em gestos infantis, sorridentes, em uma comunicação tão fática, que a precisão de tal ato se assemelha ao homem racional.

O homem possui características de todos os níveis – seja literal, metafórica ou simbólica --, e sempre há a possibilidade de encontrá-las em sua vida. No entanto, quando nos referimos ao homem como um ser que é tudo isso, caímos na máxima da ciência que diz que o homem é um homus erectos, ou homus sapiens – advindo das supostas cavernas nas quais teríamos vivido há milhões de anos. Pode até ser... Contudo, não podemos deixar de lembrar que mesmo os homens de aparência bruta possuíam um coração regado de beleza, e destes também podemos esperar que houvesse um comportamento humano regado a paz, justiça e religiosidade, simplesmente porque era humano também...

Desse homem poderia se esperar, além de tudo, uma lágrima advinda de um sentimento de perda, de alegria, de amor – ou mesmo paixão. Uma lágrima quente, num rosto depreciado, porém feliz ao ver um pôr do sol, uma chuva depois de meses de seca na terra... Ou mesmo pela maior das alegrias: de ver um filho nascer, em qualquer circunstância...

Chamo esse homem de “Homus Divinus”. Quando transforma uma pedra em um Deus, a reverenciando, transformando aquele bloco frio, sem vida, em um monumento simbólico pelo qual se clamará as divindades do Todo. Por ela, ele vai viver e morrer, por ela, se educará e educará seus filhos... E isso, nenhum animal o faz ou fará em qualquer época, simplesmente porque o nome disso é religião – quando o próprio homem se encontra com ele mesmo e com Deus.

Hoje, o céu é o mesmo, as pedras, as plantas, mas o homem mudou. Seus referenciais mudaram, seu Deus mudou. A separatividade dos sistemas o fez esquecer que ele é uma célula no Corpo da humanidade, e que tal célula tem o seu trabalho, seu papel. Esqueceu-se de que a natureza não é apenas um emaranhado de coletividades que lutam e vivem pela vida, nas selvas do mundo afora; nem mesmo um circulo de árvores dando frutos, quiçá um conjunto de estrelas, cometas, planetas desconhecidos, mas tudo isso e além de tudo que compreendemos e não compreenderemos ao longo de nossa existência também cíclica – dando o nome de Deus.

O homem é e sempre será um mistério, pois representa um ser único, cujas características estarão sempre em uma esfera acima da dos seres em sua volta, contudo propicia em decair e se tornar um deles na mesma vida que lhe deu meios para evoluir acima do próprio conceito.

E tendo essa possibilidade de assemelhar-se a pedras, a animais, plantas, perde-se a possibilidade de levá-los como meios simbólicos de crescimento. Não se pode deixar que o homem das cavernas seja melhor do que somos em termos religiosos, pois são por estes que conseguimos ter a reflexão voltada ao céu, não à terra. Não se pode deixar que sejam mais educados que nós, pois, de alguma forma, eram mais virtuosos – não havia a doença do capitalismo.

Por isso é que se diz que o sábio não precisa de livros, pois ele lê na natureza. Mas não somos sábios, ainda. Busquemos referenciais de grandes homens, que levaram a humanidade a repensar seus valores quando estes estavam em falta; vamos segui-los e ver, aos poucos, em suas naturezas o real homem (ou real mulher) que nos direciona acima das pedras, plantas, animais, nos fazendo simplesmente humanos, nada mais.








quinta-feira, 11 de março de 2010

Às vezes: sempre


Às vezes é preciso mais armas para lidar com o dia a dia. As naturais – leia-se: gritos, chutes, pancadas em geral – se tornam arcaicas e fora de moda... Parece que há uma necessidade, também, de mudança de estratégia no combate, na luta, até o inicio da verdadeira guerra: saber ser você mesmo.

O custo é alto, mas se pode pagar quando se é bom de coração. Não se pode pagar quando já nascemos voltados com a persona em baixa, no inframundo, cheia de mentiras, pobreza, violência... Mas se nascemos em famílias humildes, ganhamos experiências naturais, não forçosas, e quando se tem uma boa genitora a fim de lhe passar todo ensinamento sem lhe castrar as possibilidades de crescimento, é realmente muito bom – pra ser mais claro é a melhor coisa desse mundo.

Mesmo assim, porém, chega uma hora que nos esquecemos de quem somos, para onde vamos e por quê... As luzes dos referenciais se apagam, os caminhos se tornam obscuros, pessoas que há tanto acreditamos discordam de nós... É algo por se dizer... Misterioso. É por isso que nossas armas são poucas.

Há situações bem circunstancias nas quais nos encontramos que pedimos aos céus para nos tirar dela, porque não temos as respostas e dela não tiramos aprendizado algum...! O que nos torna desligados de nossos ideais, pois, se nos esquecemos de nossos objetivos, pelos quais passamos e teremos que passar e que sem eles não somos absolutamente nada, não há o porquê de está ali, aprendendo.

Não podemos cair em devaneios, primeiramente. Isso nos torna racionais, mas filhos da ignorância, achando que somos donos da situação sem mesmo encarar o que os deuses nos deram. Outra, achar que não somos responsáveis pelos nossos atos, pelas infinidades de problemas que nos acontecem é se descuidar de uma casca de banana que há muito nos espera para cair, desde o dia em que a jogamos naquele lugar... O pior de tudo é que nos esquecemos de que a referida casca no chão foi um ato quase que voluntário nosso.

E assim prosseguimos... Em terceiro lugar, não há situação injusta. Seja em qualquer caso. Se participamos de um momento de que não gostamos, e somos obrigados a dele participar, temos que ir até o fim. Ninguém, -- digo ninguém – foi responsável pela situação em que você ou eu nos encontramos, apenas eu ou você. É só olhar para si mesmo e refletir acerca da origem daquele momento triste ou não e veremos que somos o culpado-mor.

Mas é aí, temos que reclamar às divindades, mesmo sabendo da realidade? Não. Converter todo momento em harmonia. Seja com palavras, seja com atos, seja com pensamentos – este último é o mais difícil, pois não se detém o pensamento --, porém temos os atos que podem se sobressair acima de nossas raivas, ódios, destempero e, quem sabe, ainda sairmos no lucro...


Lucro nesse caso não é o financeiro – na maioria deles – e sim psicológico, físico; essa talvez seja a maior finalidade do ser humano: ter lucro em alguma circunstância.

Mas não adianta, somos informados de que há uma força que nos leva a fazer o que não queremos – como a do Lúcifer... Diadorin, com diria Guimarães Rosa --, trazendo nossos instintos malignos, revelando o que, aparentemente, não somos. Nosso mal maior, talvez, seja descartar esse “mal que não somos” e por a culpa em diadorins; fica mais fácil imprimir culpas até mesmo aos irmãos, irmãs, esposas, filhos... Mães, pais, o que reflete uma necessidade de se evadir do nosso universo quando ele está ruindo. Não há ninguém que possa, nesse caso, a nos ajudar, nem mesmo os deuses, pois, se não queremos aceitar como um presente, seja grego ou baiano, nossas circunstâncias, a mentalidade de evadir-se dele – do problema –, além do próprio problema, irá crescer tal qual uma fresta que se torna um buraco negro...

Elevemo-nos! Como diria os queridos filósofos, “nada é por acaso”! A montanha do eco se fez, voltou com nossas vozes, nos trouxe de volta nossas eloqüências ou não, e agora, nada mais que agora, temos que enfrentá-la; sorrimos! Tudo é passageiro, por mais terrível que nos possa parecer. Nada melhor do que enfrentar o inferno com um sorriso, com a alma louca para ir para o céu.

Assim, seremos buscadores de uma felicidade diferente. Não aquela infeliz e passageira a qual se busca nos bastidores da falsidade humana. Não aquela que nos faz sorrir na hora de chorar, mas sorrir quando se tem que sorrir, chorar quando chorar, viver bem quando o momento nos pede...

Dormir, acordar, ver o sol, sentir os pé nos chão e como diria meu querido imperador Marcus Aurélio... “Acordar e por na cabeça que encontraremos um imbecil, um intolerável, um idiota, e entender que, dentro de um contexto, somos irmãos, e que, encontrando, há uma necessidade disso, pois comungamos dos mesmos ideais no universo”... Essa é a melhor arma. A melhor estratégia.



A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....