quinta-feira, 15 de abril de 2010

A grande BATALHA


Vejo a vida como uma grande batalha, na qual legiões de guerreiros tentam sobreviver ao relento, ao sol e céu aberto. Em meio a sangues, em um chão que não se olha quem está morto – seja amigo, ou amiga, parentes ou afins... – tenta-se, de alguma forma, levantar-se a cada bombardeio, pois de joelhos se fica, quando bombas nos ensurdecem... Nos transformam a cada queda. Os estilhaços respingam nos rostos humanos, se infiltrando como sanguessugas, as quais, em cada lama, não perdem tempo – comem veias, salivando mais e mais sangues...

Vejo o céu sombreado pelo furor divino, pelo qual se vivia há tempos. Uma sombra negra tal qual a noite fria em que se vive há mais tempo ainda. As nuvens reais morreram, e eu, filho da ignorância e da relutância, ainda claudico até o fim de minhas batalhas pessoais. Não sei por quê. Talvez por não entender o dissabor humano em competir, mesmo com a morte em seus olhos; morte de crianças, de jovens, de idosos, e de homens de bem... Competir, ainda que terremotos consumam a estupidez – até aí tudo bem --, mas também a inocência dos puros de natureza, não pude entender...

Nesses dias, a batalha da vida me fez ver o quanto, em guerra, somos indisplicentes, frios e bestiais. Houve o terremoto no Haiti, destruindo o velho mundo, e depois o real terremoto, além do principal, abalar as estruturas humanas: a corrupção, o roubo, o tráfico de crianças, a dor de pessoas implorando por comidas, fosse da pior qualidade ou não, clamando a Deus a resposta às grandes indagações negras... Ali, uma realidade me sucumbiu: a de ver seres da mesma raça disputando o que não havia – casa, comida, espaço – e distribuindo dores, gritos, apelos.

A minha batalha diária torna-se até celeste comparada à daqueles que ruminam larvas, pedras, barros no Haiti (e em outros lugares)... Ainda somos carmicamente beneficiados pelo destino, eles não. Já não bastasse ser um dos paises mais pobres do mundo, um grande terremoto o destrói quase por completo, levando milhões de inocentes com ele. Não há respostas humanas para tanto...

Ver na tela o que foi sentido de perto não nos traz o real sentimento de perda daqueles homens e mulheres, filhos da esperança. Não, não nos traz. Contudo, nos transforma em filhos do medo, da insegurança... As imagens são fortes e chocam.

Vejo, nesse mundo imenso, nessa pequena batalha diária, que somos humanos, mas apenas (apenas, repito) até o primeiro duelo chegar. Num nível maior, somos humanos até o primeiro abalo sísmico... Num nível maior ainda, até que nos roubem o que amamos... não há nada que se compara a um ser humano com seus interesses levados ao chão; nada semelhantes a ele, quando um filho, uma mãe, uma família são ofendidos... a realidade se vai, e uma decrepitude de sentimentos nos iguala a animais de cujo alimento foi tirado. Num nível maior (bem maior que o último), não nos igualamos a nada. Simplesmente, matamos, roubamos, infligimos... Nos alimentamos, tudo em nome da fome, da dor, da revolta que nos impuseram há muito, sem saber. Torna-se, quando vem o momento, grotesco – palavra que não chega nem perto do que quero dizer – o linguajar, o agir, a verossimilhança com o bestial, o pensamento... tudo, menos um ser espiritual em busca de uma evolução interna – é o que somos, até o momento.
A batalha continua... E mais um terremoto demonstra o que foi dito. No Chile, um país, aparentemente civilizado, abalado pela natureza terrena, sentiu em suas estruturas, humanas e prediais, o que o Haiti havia sofrido em menos de um mês...

Com todo aparato médico, além do de segurança – incluindo bombeiros, policia, exército... – o pequeno país de luxo, em relação ao primeiro país, demonstrara o que seus irmãos haitinianos não o fizeram: como urubus, voaram às lojas, saqueando, atirando, destruindo até mesmo esperanças. A meu ver, toda civilização, em meio a uma guerra, a um terremoto, maremoto... Desconhece a lei, assim como um soldado em batalha, que atira para todos os lados, que corre louco em meio aos bombardeios, que clama a mãe, sem tê-la, que mata o amigo no auge da insanidade que o torna desconhecido a ele próprio... O Chile, aparente país educado, tornou-se o símbolo da desordem ao ser surpreendido pelas forças de uma natureza que não escolhe lugar, horário e vida para agir. País pequeno, mas que era indiscutivelmente referencial em comportamento humano, pelo menos em relação a muitos... Naquele dia, tornou-se um homem surdo e mudo dentro de abalo.

As batalhas não são apenas as declaradas. Assim eu as vejo. Todos os dias o homem tem que (e deve) lutar contra si mesmo no sentido de saber lidar com esse leque de possibilidades ocultas aos seus olhos. A questão talvez não seja de cunho fácil, pois não se tem manual de como se comportar dentro de uma guerra na qual homens lutam pela sobrevivência de sua espécie, ainda que custe a vida dos outros – estranho não?. Um exemplo disso é a pobreza em que se encontram milhões de favelados em diversas cidades deste país. Subir e descer morros, não é algo gratuito, lisonjeiro, muito pelo contrário. Torna-se uma experiência diária àqueles que lá moram. Em meio a bandidos sem disfarces que andam até mesmo com bazucas aos olhos do mundo, transformando-se em heróis tortos às crianças daquele lugar, o morro é um estopim, onde policiais temem seus “donos”, e rezam pelos seus filhos que ainda não nasceram.

Essa é a batalha de todos. A nossa batalha. Contudo, há um mal muito maior disfarçado. O mal que se veste de homem de bem, que vê as favelas como algo de bom ao ser humano, criando redutos eleitorais a pessoas pobres, cuja honra é a única coisa que criaram, mas desfalecida pelo mesmo homem que anda e sorri, cheio de idéias sombrias, expressas teoricamente como a salvação do mundo favelado. Negros, brancos, mestiços tornam-se, ali, símbolos da discriminação, além da pobreza que lhes é dada ao nascer, pois não possuem a oportunidade de crescer, e quando têm, revelam-se homens cheios de maturidade a enfrentar mundo, no entanto, nem tanto, pois não conseguem sair do seu meio, acreditando que a solução é fazer algo pelas crianças, jovens e adultos, com uma educação dada pelos mesmos homens que o fizeram pobre no passado. Isso não é ser socialista.

Hoje, não entendemos a realidade das coisas, e podemos entendê-la somente quando uma maior nos bate a porta – como a dos terremotos, enchentes, desabamentos ou mesmo problemas pessoas, nos atingem, como disse. O Rio de Janeiro, exemplo maior de beleza natural, mas também reduto de imbecilidades, nos mostrou a maior realidade por que passa a comunidade daquela cidade, todos os dias. Nas favelas, nas estradas, nas pontes, enfim, em lugares que, se você fechar os olhos, não vê muita coisa, mas, se você começar a tentar entender, verá que o caldeirão é bem maior que nos mostraram as chuvas que caíram há semanas.

Morros desabando. Casas, idem. Mortes por todos os lados. Ruas inteiras alagadas. Rios transbordando. Bocas de lobo cheias de lixo. Buracos imensos, como clateras, como armadilhas aos carros. Para o carioca, o mundo acabou – assim como para o haitiniano, chileno...

Mais tarde (bem mais tarde), após flashs televisivos intermináveis, perceberam que a culpa era dos políticos. Realmente era (e é), mas também somos responsáveis por tudo que nos acontece em batalha, principalmente com aqueles que discriminamos pela cor, pelo estado social e por muitas diferenças.

Ao subir o morro, muitos sentem admiração. Sentimento esse que deveria ser substituído pelo de humanidade. Toda a favela, seja qual for, tem um pouco de nós – o mal de nós. Ela se ergueu pela nossa ignorância, pela nossa maldade, pela frieza que nos é inerente, e que nunca nos extinta. O político é a ponte dessa maldade. A democracia, o tapete onde são pisados todos os valores pelos quais devemos (ou deveríamos) lutar e a que, desde antes de nosso nascimento, temos direito. A sujeira se vê depois.

A maior batalha de todas por que passo talvez seja contra mim mesmo. Não todas aquelas que citei. Talvez porque sou tão medroso dentro da batalhas quanto qualquer criança que sobe um pé de manga e fica lá no alto sem saber do perigo da queda...

O que está faltando em mim talvez seja o “E se cair?...”/ “e se machucar?”... / Se cair, levanta, e se machucar, cura-se. Eu quero voltar a ter a coragem de poder modificar minha vida e subir em todos os pés de manga possíveis e cair, levantar, e se eu morrer na queda (!) que seja com honra. Ética. Humanidade. E se eu for para o inferno – coisa que inventaram aí para os ricos (pobre vai para o céu) – que eu me encontre com meus grandes amigos!

E que venham as batalhas.


Obs: até o fechamento deste texto, tínhamos notícia de que a China sofreu um terremoto no qual morrera mais de pessoas.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Canção Eterna


Mulher,
Canção que adormece o mais bruto homem,
Infinita voz da compreensão dos divinos mistérios,
Lua que desafia os sóis, envaidece a terra...
Que alimenta o filho, fortalece o esposo.

Mulher,
Sombra das deusas de uma natureza concreta,
Sorriso da vida frente à morte,
Religião da paz, guerra dos dias,
Batalha incessante...

Mulher,
Ópera que flameja as almas doentes,
Fúria serena em meio à dor,
Água que cura o corpo faminto,
Ser divino.

Mulher,
Mãe da terra, dos homens, das criaturas,
Descobre forças do nada, nas larvas da vida,
Não sucumbe à falta e nos torna fartos de tudo.

Mulher,
Quando grito ao céu distante,
Clamo às deusas, que ouvem minha oração...
Viro um rio de lágrimas ao chão vazio,
E no amor de tua presença sinto uma profunda
Canção...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Brevidade


Ontem, 8 de abril, fomos a um enterro. Eu e todos do serviço. A mãe de uma caríssima colega partiu. A mobilização foi incrível. Não faltou ninguém. Na capela, familiares desconhecidos para nós; apenas Luciana, nossa amiga, e filha da falecida, a sorrir um sorriso meio trôpego, na tentativa de se aliviar do ocorrido e nos passar, ainda que com dificuldades, o descanso forçoso, natural e quase obrigatório de uma pessoa que amava tanto.

Na lugar, todos de pé a saldá-la, e Luciana, a abraçar a todos, com uma pequena bandeja de chocolates, sendo distribuída por ela, a todos que ali prestavam a última homenagem, ou mesmo uma presença simbólica daqueles que nem mesmo a conheciam, mas que conheciam Luciana e seu esposo.

No momento, passou-me pela cabeça o recente encontro dos meus familiares e amigos no mesmo lugar. Um dos meus irmãos havia morrido, velado e enterrado ali naquele cemitério. A vida é assim.

A bandeja de chocolates, servida pela colega de trabalho, me lembrou alguns filmes americanos, nos quais, em velórios são servidos bolos, tortas, até pizzas, no “último encontro” com o morto. Coisa de americano(?). Bem... Deveria ser! Fiquei sabendo que, mais tarde, a mesma colega teria feito um almoço aos familiares e amigos destes, talvez, pelo mesmo motivo. Respeitemo-la... Contudo, teria eu que me educar em relação a esse comportamento. Acho que determinadas culturas, por mais belas que sejam, por mais progressivas, ou mesmo avançadas, têm a sua cultura, seu modo de lidar com seus mortos – e nós, a nossa. Em respeito, mais uma vez a minha amiga, digo que ela foi excelente recepcionista, mas nunca eu trocaria a religiosidade, a simplicidade, a união, pela idéia que levou americano a servir tortas ou sei lá o quê (com todo respeito, é claro), no enterro do parente... ou seja, prefiro a cultura nossa com toda ignorância que nos deram.

Um pouco mais tarde, fomos levados a partilhar a última caminhada atrás do ente querido que se foi. Muitos que não conheciam a senhora falecida choravam. Outros, retos como postes, caminhavam eretos, mas o coração tremulava como bandeira ao vento – dava pra sentir tudo isso quando se é apenas expectador. Quando se participa da dor, da real dor, fica muito difícil...

No local, muitas lápides, muita gente, muita paz. Fiquei um tanto quanto distante do enterro, junto com um colega. Ali, comentávamos acerca da brevidade da vida... “Não nos esquecemos que a morte é do corpo”, disso eu a ele. Sem falar que, no inicio, eu cumprimentei Luciana dizendo, em tom apaziguador de choro que sua mãe teria ido para o “desconhecido” (!)... Quanta bobagem, pensei! Quem vai refletir sobre isso? Quem vai querer compreender o que significa “desconhecido” naquele lugar em que todos já sabem e tem a certeza de que todos que morrem, principalmente mães, vão para céu?? Caramba, que besteira...! Mas Luciana, minha colega, “supercultaeinformada”, disse “É mesmo...”, além do sorriso expresso no rosto, com coração cheio de mágoas...

Voltando... Perto do local, ainda a filosofar, para variar, falei dos antigos egípcios, que acreditavam na reencarnação. Falei ao colega que olhava os canteiros humanos, do coração daquele que morria e lá julgamento, ao lado dos deuses, perto de uma balança, sentindo a respiração do deus da morte, o Chacal, que o coração do morto era colocado na bandeja juntamente com uma pena, representando a Justiça, a Ordem, a Disciplina Universal, na outra, e que, se o seu coração pesasse mais que a pena, você reencarnaria... Ou seja, sempre. No entanto, o egípcio sabia que reencarnar era mal, pois o mundo, para eles, era apenas um reflexo, uma ilusão, e que a realidade era viver no pós-vida, além de nossas compreensões... O faraó, claro, disse eu, jamais voltaria, pois seu coração era leve tal qual aquela pena... Lindo, não?

Ainda comentei sobre Barqueiro – uma simbologia profunda, na antiga Grécia, da qual, até hoje, tentam tirar algo dela, mas não conseguem; a pessoa morre, é cremada, com seus olhos amarrados em moedas. No portal dos deuses, a pessoa pega uma barca e, ao final da viagem, paga o Barqueiro, e consegue a plenitude. Daqui também se pode lembrar da Barca de Isis, e de muitas outras culturas de simbologias semelhantes.

Enfim, pude me deliciar com outras culturas dentro do âmbito em que nos falam acerca do pos mortem, e pude perceber o quanto o cristianismo derrubou tais culturas e implantou outras absurdas em todo o mundo. A cultura do céu e do inferno, tão sem base, sem estrutura, que não se consegue entender, ainda que se leia tanto, a clássica Bíblia, talvez por que nos tiraram a chave da interpretação... Resultado: todos acreditam em reais céus e reais infernos!... Fazer o quê?

A vida, assim, nos remete a simbolismos acerca de tudo, até mesmo da morte, essa indesejável criatura. Nos remete mais que isso, a livros inteiros – não os de páginas e capas duras – livros belos cuja compreensão somente o sábio sabe ler. Nós, não, ainda temos que ler muuuuuito! E nos reais livros!

Assim, meio que confortável com a conversa, fomos embora, ou melhor, voltamos ao trabalho. Voltamos ao ciclo.

Religare

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Nascer todo dia, esse é o meu conselho. Se todos passamos por diversas intempéries naturais de um ser humano, é porque somos seres humanos, não cavalos, porcos, aves, periquitos ou macacos. Somos seres que acordam em meio a guerras diárias, mas também em paraísos escondidos, e não sabemos. Estes, tão escondidos em nossa alma, porém, tão visíveis quando nossa própria imagem no espelho, são os grandes responsáveis pela nossa vivência – ou melhor – pela nossa sobrevivência num mundo de pessoas que não se compreendem e não esperam se compreender, mesmo porque não as interessa.
Somente quando lhes toca o “calcanhar de Aquiles” é que se tornam vulneráveis a qualquer diálogo em sentido até mesmo bíblico. Não podemos esperar que nossos calcanhares sejam arranhados, tocados... e olharmos para o céu pedindo perdão a Deus, não, não podemos. Olhar para si mesmo é compreender que somos seres religiosos, seres que perdoam, que amam ou que podem compreender o amor; olhar para si mesmo e ver um grande sol se fazer pela manhã, tão belo e ursal, sorrindo em nome de tudo que é misterioso e divino. Olhemos. Oremos.
Ele se vai na tarde, claro, mas nós não; ficamos a observá-lo novamente nos questionando “o que ele ganha com isso?”, “Por que tamanha bondade se somos seres tão brutos e não lhe damos absolutamente nada?” – são apenas indagações advindas de nossos corações frios e sem amor, cuja sabedoria não passara nem perto.
E assim, permanecemos intactos ante sua beleza indo embora, transparecendo um deus que se deixa luzir em sua calda alaranjada, até se acabar... E não aprendemos nada sobre ele, de novo.
Suas chamas ainda ficam em nossa memória, como uma miniexperiência filosófica sobre a qual não temos nem mesmo ferramenta para entender, mas buscamos à medida que sorrimos a alguém, abraços alguém, damos amor a alguém. É ele, o sol em nós, fluindo misteriosamente feito sangue invisível em uma alma perturbada e ao mesmo tempo cheia de raios aos semelhantes que por ela passam.
As chamas desse grande deus continuam na música de Bach, elevando a alma ao mais quente dos cimos. A música enfeitiça como uma lua que brilha nas ondas de um mar distante, sem ninguém, apenas um observador, o próprio espírito, ao longo, na praia, clamando nosso nome.
Nada disso é imaginação, nem mesmo abstração. É revelação. É religião.

O Direito de Ser


Em meio a guerras e conflitos pessoais, humanos e mais humanos se desencadeiam na evolução psicológica dos fatos, das informações; seus gestos, suas falas, a cada dia mais avançados são naturais de uma época que não pede educação e sim confronto, luta e discursos inúteis. Assim, como diria, Charles Chaplin, “Assim caminha a humanidade...” cheia do nada!

Uma prova disso: para onde estão indo aquelas informações que, desde criança – naquela tenra idade – recebemos de bom grado dos pais, avós, como se fosse nossa última tocha acesa na escuridão do último túnel, sem mesmo a quem o a que recorrer? Foi para os espaço, fazer parte dos programas espaciais americanos ou para a rua serem pisadas em meio à multidão infernal revoltada por salários dignos? Talvez.

Mas o que procuramos não é a informação de outrora, e sim nossa honra, nossa ética, nossos direitos de ser... Humanos. Queremos reconquistar esse direito, além de respirar fundo, acima desse mar de lama que nos impuseram, soltar uma gargalhada como quem enganou o inimigo direitinho... Queremos mais, muito mais que isso. Como diria Gonzaguinha “mostrar a bunda na janela” aos políticos, corruptos, aos miseráveis homens que vivem somente por viver, ou por interesse próprio, ou por atrapalhar a vida de quem quer ser feliz... Mostrar a esse gente infeliz que corrói na infãncia, juventude e que nos transformam em velhos mentirosos!

A quem recorremos? Não tem ninguém, pois papai e mamãe já não pensam como nós, e estão em uma esfera diferente do nosso planeta, porque a experiência – aquela que cultivamos individualmente – nunca é igual a outra. E nossos pais... Ah, nossos pais, por estarem ainda vivos, tentam nos atar ao nó eterno de seus colos e nos apegar a eles como filhos eternos que fizeram bobagens eternas... Além de, é claro, abraçar nossas consequências, aquelas pelas quais somos responsáveis... Não recorremos, então, a eles.


Recorrer aos saudosistas, aqueles que adoram voltar ao passado, cheios de dores do presente e que, sem querer, se machucam com lembranças frias e quentes, mais frias do que quentes? A esses eu desejo uma âncora, e que por ela saiam do atoleiro, pois o mundo precisa de idealistas que, pelos quais, conseguimos nossas honras, ou pelo menos um pouco dela...


Aos mentirosos de plantão, que vivem apregoados em casa, em busca de aventura; porém, nada melhor do que um bom filme para “ilustrar” a sua vida mansa, calma e cheia de moscas? Não a esses um empurrão, ou mesmo um chicote da vida para lhes mostrar o quanto falta a viver, sorrir e buscar o melhor da vida – seja nas crianças, seja no amor.

Enfim, é difícil buscar soluções dentro de uma decadência de valores nos quais até mesmo os cientistas têm duvidas quanto o que encontram. É preciso sentir, como em uma corrida solitária, o vento no rosto, o coração bater, o cheiro das rosas no campo, a brisa do mar, a poeira molhada, a verdadeira paz interna... E criar uma sociedade pessoas verdadeiras!

É preciso viver. Sair de casa, sair da televisão, criar formas de vida, sem que sejam influenciadas pelo mal que nos assola, mesmo quando estamos dormindo. É preciso criar filhos invisíveis, responsabilidades, com as quais não sentimos o peso e sim a leveza de realizá-las, semelhante aquele homem que saia de casa, todos os dias, e ia ao encontro da santa, puxando uma carroça, cheia de lixo, pesada, porém, ele, feliz...


Assim, na resposta àqueles que nos acham filhos do nada apenas porque somos realizadores de alma, não de concretos, diremos que, sem alma, não há corpo, mas há muitos corpos sem alma.

Vamos realizar! Mas antes, filtremos as informações, sempre dentro de parâmetros simples, nunca racionais!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ser e Envelhecer


“Ser velho é não ter ideais, objetivos, projetos...” LC.


Não sei ainda o que é envelhecer. Mas observo minha mãe, uma senhora de mais de setenta anos, com oito filhos – sete, um já falecido recentemente --, como um grande referencial a ser adotado por mim e por muitos, espero que por todos que a conheçam. Uma diva terrena, firme em suas convicções, que leva a vida como um rolo compressor em cima dos problemas, dos males que vêm e dos que estão por vir.

Sua natureza tão forte adveio de uma infância sofrida, na qual pais e mães – ainda que tão pertos, não puderam dar a ela tudo que necessitava. Muito pelo contrário, teve que trabalhar como doméstica, deixando seu maior sonho pelos cantos – o desejo de estudar, ler, saber, entender, conhecer e ser alguém.

Hoje, ser alguém, tenho a certeza de que independe de querer ser, mas sim pelo caráter demonstrado em caminhos pelos quais passamos. Semelhante um soldado que não perdera a racionalidade em plena batalha... Minha mãe, forte como um touro, religiosa mais que qualquer sacerdote cristão, nos passa uma velhice regada de caráter fibroso. Quem a vê alimenta as esperanças, de paz e amor em sua vida. Não foi preciso, dna. Joseja, o estudo para ser alguém. A senhora é e sempre será alguém, o qual demonstrará a luta pelas mínimas coisas, ainda que não seja regadas de valores maiores do que os nossos, nem os de grande interesse, ainda que não seja relevante, mas que tenha em seu cunho um pouco da sobriedade humana para ser alimentada.

Cícero, o grande orador grego, que soube envelhecer, disse um dia que pedimos a Deus para envelhecer bem, mas não nos contentamos com ela – a velhice – quando nos é chegada. Por quê? Não temos instrumentos – caráter formado desde a juventude para lidar com ela –, e isso nos corrói as entranhas, sendo fortes ou não.

É por isso que se deve alimentar de paz e fortaleza nossas almas, já que pretendemos chegar ao “fim” de nossas caminhadas bem seguro; é por isso que, sempre que pretendemos viver bem, que tenhamos orgulho de todas as idades, principalmente a maior, seja em qualquer âmbito que a considerarmos. Pois não há nada mais belo em nós que passar uma experiência que tenhamos orgulho de nós mesmos.

Quando se é jovem, precisamos mostrar que o somos – sempre falando o que bem quer, passando por experiências inúteis, levando gírias ao nosso pífio vocabulário, se esquivando de problemas que são nossos, correndo em direção ao mal, sorrindo ao nada... Enfim, somos frutos de épocas que não souberam nos educar – e o reflexo dessas imagens só o vemos quando mais velhos --, como se fosse genocídio em massa, mesmo não nos enterrando.

É de invejar aquele que passa por tudo isso e ainda possui o caráter formado, elevado a uma boa educação a ser passada. Esse nos faz acreditar que a vida tem recompensa, e que a evolução existe, pois criamos referenciais, como totens indígenas, lá nos alto, mas com um simbolismo profundo acerca do céu e da terra.

Epílogo

Atualmente, o medo de envelhecer combina-se com o medo da morte. Mas são percalços naturais pelos quais se passa, querendo ou não. Aliás, algumas coisas – as mais importantes – não dependem de nós, humanos. O que criamos sim, talvez, mas, mesmo assim, titubeamos em sua realização. O que quero dizer é que, já que podemos resolver determinados problemas, ainda que difíceis, vamos fazê-lo, não aqueles com os quais lidamos naturalmente, advindo dos deuses. Esses são provas naturais pelos quais temos (ou pelo menos tínhamos) que passar sem mágoas, enfrentando, sorrindo, saboreando a vida tal qual uma criança que cresce, desenvolve-se e vive sua plenitude na velhice – mas não nos tornamos crianças! E sim sábios! Uma condição pela qual nenhum animal ou planta por ela passa, apenas humanos. E envelhecer é isso. Saborear a vida aos poucos, até o presente maior nos seja concebido: a sabedoria de enfrentar a morte como se fosse um brinquedo, uma viagem ou um desprendimento de uma pedra que há muito nos segura pelos pés.

E a velhice seria a ponte entre o homem e o mistério.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sombras, Pó e Eternidade

A terra nos ensina que tudo se vai... Nas mínimas coisas que são – ou que aparentam ser – nada é eterno do ponto de vista terreno, humano, animal, mineral... E vegetal. As experiências no conduzem a isso também, a essa conclusão fácil, no entanto, de difícil aceitação quando por ela passamos. Não falemos na morte, por enquanto.
A experiência dos males naturais -- as doenças; a perda de um objeto; o sumiço de um fio dental, o desaparecer de um controle remoto... Oarranhar de um relógio... de um carro!... Enfim, somos assustados com o fim de tudo, com o nosso fim, mesmo sabendo que até as rosas, seres tão belos e frágeis, também se vão, mas voltam, e, entanto, tão imprescindíveis!

Quando somos pegos em pensamentos do tipo “tudo um dia se vai”, ficamos presos a ele, ou tentamos esquecer que somos mais físico do que tudo, e ele se vai – antes ou depois de seus objetivos cumpridos --, pois não há nenhuma lei que diz que tudo que é do homem é necessário que fique no mundo para dar cria. Talvez, em certas cabeças, tal pensamento se funda pelo fato de que enxergamos nossos filhos como uma contínua forma de imortalizar a nós, o que é exageradamente errôneo de nossa parte.
E aquele que não pode ter filhos pensaria do mesmo modo? Então é falha a premissa de que os filhos são complementos imortais, os quais se vão um dia, mas deixam (ou são obrigados a deixar) mais filhos, apenas porque queremos deixar enraizada a idéia (errônea) de que somos eternos. Muito pelo contrário, tudo se vai.

O homem é eterno, mas não do ponto de vista físico. Nada é eterno desse ponto de vista. É assim que devemos nos educar em relação às coisas que nos acontecem, desde a infância. Mas educar também nossas idéias, pois elas, a depender de quem as deixa, duram mais que homens, mais que as revoluções, muito mais que a história...

O homem que tenta ser bom e justo em sua sociedade já tem a sua parcela de imortalidade – ou pelo menos um pouco dela, mesmo porque precisamos ressaltar seus feitos àqueles que ficam, como nossos filhos. O homem que irreleva, em sua vida familiar, profissional etc certos fatores naturais de sua responsabilidade mais tarde encontrará um caminho que o forçara ser melhor, ainda que seja tarde.

Suas idéias serão eternas em sociedades que necessitarão delas, seu comportamento, em um mundo que necessita de uma educação prática, será lembrado... Isso é um pouco de eternidade – os livros são prova disso.

As idéias podem ser grandiosas, durarem muito, e até mesmo deturpadas, mas não são melhores do que os referenciais dos quais elas vêm. Se adotadas dos céus, durarão eternamente, se da terra, não muito.

Voltando...

Epíteto, filósofo estóico, dizia sempre que, se quisermos nos acostumar com a perda, devemos sempre dizer... “Ele (a) vai voltar à sua origem”. Significa dizer que temos que nos referenciar sempre em alguma coisa mesmo que seja com a finalidade de nos acostumarmos à falta de algo, pois o que nos falta sempre nos causa dor, principalmente quando se está muito tempo do nosso lado – as pessoas, os animais, etc...

E obedecer às máximas não quer dizer repetir várias vezes uma frase, mas tentar buscar o porquê delas, assim como tudo em nossa vida. Frases fazem efeito, mas a razão pela qual fazem é que temos que buscar.

Epíteto sabia que tudo era relativo do ponto de vista físico, mas também sabia que havia sofrimentos na perda de qualquer ente. E isso, de alguma forma, desacelera o ritmo evolutivo de uma personalidade. Temos que começar com as pequenas coisas, ainda que sejam inanimadas; coisas que fazem parte de nossas vidas, e que, de alguma forma, criamos pendências sentimentais; “todas elas vão para o lugar de onde vieram” – um prato que quebra; um jarro que cai no chão e se espatifa; uma roupa comprada há pouco tempo que se suja com vinho... etc.

São reflexões necessárias. Dentro de dessa autoeducação, partiremos para o mais alto grau de consciência, que, um dia, nos fará mais ou menos inclinados a respeitar a natureza da morte.

Até mesmo o grande Marcus Aurélius dizia “até mesmo o maior dos imperadores da história morreu”. Isso nos conforta, no entanto, ainda não nos acostumamos com ela. Isso nos faz crianças em busca da compreensão daquilo que é tão maior e melhor que nós – uma fusão de mistério e medo, ainda que sejamos cientistas, religiosos, filósofos, sacerdotes, enfim, a morte, será, um dia, o momento em que lembraremos que tudo, tudo mesmo, tem sua ida ao desconhecido, à sua origem.
Por enquanto, como diz o filósofo, comecemos com as pequenas coisas, sempre medindo nossos sentimentos com relação a elas.
A real felicidade nada mais é do que respeitar a origem e o fim de tudo.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....