terça-feira, 20 de abril de 2010

Bandidos e Mocinhos

Falar de bandidos e mocinhos, de maneira filosófica, não é tão fácil. É falar de si mesmo, do ego que sobe e desce; dessa maturidade que não se sabe se alcançou ou não. É falar de uma consciência precoce que se tornou madura o suficiente para alegar que é responsável por ela mesma – é o ponto maior da autonomia humana. Não se consegue gratuitamente essa independência. Assim como tudo que brota, rega-se e cresce tal qual uma planta, a consciência humana o é. Leva tempo. Muito tempo.

È difícil generalizar, sempre, porque não se encontra muitos com os pés no chão – às vezes, eu mesmo me acho sobrevoando as árvores, de tão imaturo que sou! – imagino aqueles que não sabem o que significa “tomar consciência” de si mesmo, o que significa assumir seus erros, ser responsável por seus buracos (leia-se problemas), não ser nem mais, nem menos aquilo que aparenta ser, apenas ser o que a vida lhe manda ser, isso de acordo com sua natureza, ou seja, encontrar o meio termo.

Como é difícil. Às mulheres, não. Percebe-se que o nível de maturidade delas, seja qual idade for, se passa por uma determinada problemática, assim, desenvolve-se um patamar de consciência elevado, como se pulasse determinados canais (fases) da vida. O homem, não. Sua idade não influencia em nada, seus problemas, suas dores... Às vezes, muito pouco. Cresce-se, desenvolve-se e morre, como um mero adolescente que, mesmo levando coronhadas da vida, prefere refugiar-se em brincadeiras, em colos maternos e no seio da família – esse é o homem imaturo.

Contudo, com energia suficiente para batalhar descalço em meio a cascalhos, sua adolescência o ajuda a livrar-se do marca passo preso ao coração. Muitos questionam, enlouquecem, mas, mesmo assim, querendo ou não, o “velho-adolescente”, ainda que enganado em relação ao seu estado consciente, consegue livrar-se dos males que lhe afetam, ao contrário da mulher que intui o problema, e cresce, mas desenvolve mais problemas pelo fato de levar a vida como se fosse uma grande cruz. Isso é ruim.

Ou seja, é natural que os homens envelheçam sorrindo, e as mulheres, chorando. Mas há uma forma pela qual os dois podem e devem buscar a maturidade, a consciência de tudo, ainda que sejam desiguais. Há uma ferramenta: o diálogo consigo mesmo. Um autoquestionamento acerca de si mesmo. Longe, é claro, de ser uma entrevista, mas perto de uma reflexão que os faria mais nobres certos dos erros e acertos, até então.

Como seria o diálogo?

Eu sempre me questiono: como seria o encontro de minha pessoa há dez anos, com este de agora? Uma conversa cujo diálogo, com certeza, daria panos para manga. Mas ao mesmo tempo um ensinamento que me daria a real beleza do que é ser homem. Pois estaria me referenciando nos erros que cometi, nas pessoas que magoei, nos amigos que perdi, nos irmãos que não abracei o bastante – principalmente naquele cujas conversas eram mais agradáveis, pois conversaria mais, mais e mais.

O eu maduro sentar-se-ía, olharia, e começaria a sorrir, não em gargalhadas, mas como se fosse um expectador a sentir o peso que um dia levou, sem mesmo sentir uma fagulha do peso. O eu imaturo (de dez anos atrás) sentir-se-ía mais emocionado, com os olhos cheios de lágrimas, com a vontade aplaudir de pé, pelo que lutou, conseguiu e amou e amará daqui pra frente. Dar-lhe-ia um abraço forte e pediria desculpas, ao passo que surgiria um estranhamento, pois seus sentimentos estariam vazios por ainda não realizar completamente nada. Ao contrário do maduro, que, ainda sorrindo, sentir-se-ia forte pela não realização do primeiro, mas ainda pensativo em relação àquilo que pode e deve realizar.

O ser maduro, ou seja, eu-hoje, daria um grande conselho ao grande imaturo: “por favor, segue teu caminho, mas segue olhando as estrelas; não se perca.” Diria ainda: “O que sou hoje, o que posso ser depende muito de sua vontade, de sua obediência, da sua vontade...Por favor, não se perca.”. “Daqui a dez anos, teremos uma nova conversa...”

E assim, pensaria em minhas realizações, se tiveram ou não um fundo idealístico, ou mesmo espiritual. Daria a mim mesmo chances de tapar os buracos – o que acho difícil – que foram feitos na juventude, e ainda na falta de hombridade a qual sempre nos bate à porta.

As chances sempre devem ser dadas. Os deuses não nos dão a cada vida? Por que não daríamos a nós mesmos?

Fazer esse exercício é necessário, pois sempre teremos uma forma de saber o que fomos no passado e o que podemos ser no futuro, além de nos conscientizar do que somos no presente.

A consciência maior

Bandidos e mocinhos são os eternos seres que nos burlam em decisões, todos os dias. A consciência dança à beira do abismo, sobe, cai, levanta, pula de galho em galho, sorri, chora, enfim, se manda e volta mais forte à medida de nossas escolhas, pois pode ser feita pelo bandido ou pelo mocinho. Saber com o qual lidamos todos os dias é um exercícios que, ainda que seja fácil aparentemente, sempre caímos no lado mal da questão... Contudo, existem linhas imaginárias que nos fazem voltar a ser o que somos, fazer o que fazíamos antes e nada mais. Temo apenas realizar o que não se tem volta, ou seja, cometer erros (buracos enormes) os quais não se podem desfazê-los, apenas aprender com eles.

Bandidos e mocinhos podem ser simbolizados pelas figuras do bem e do mal, tal qual nesses desenhos em que ficam duas pessoas – uma com asa, outra com um cetro – no ombro do personagem em dúvida. Percebemos que ele só escolhe o do cetro... Mas isso é bom. O instinto humano realiza aquilo que possa talvez realizar, então, por ousadia, tenta realizar. E sob o manto da loucura, dos entraves, às vezes do sangue o faz, chorando... O ser humano não espera. Quer realizar de maneira pessoal o que pode ser esperado, assim realizando-o naturalmente.

A consciência, nesse caso, superpõe-se muito depois, aprendendo com o erro. Ela observa, de longe, nossa imaturidade na escolha e sorri ao lado de nossas cabeças, esperando uma nova chance de nos recompor ante a vida.

A consciência maior, aquela com a qual ainda não sabemos lidar racionalmente, deve ser a base, o referencial em nossas escolhas, em nossas vidas, ainda que teoricamente. Pois a prática, que nos faz mais humildes ante o mundo, nos leva a todos os caminhos, como em degraus, na ascensão a qualquer edifício, metafórico ou não.


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Educação, religião, filosofia... Ideal do homem comum.


Psiquiatras do mundo inteiro são dotados de um estudo voltado sempre ao relativo, isso atrapalha a concretização de uma resolução ao aprendizado não só dos jovens, mas também dos pequenos filhos, os quais são tão primordiais quanto os primeiros. Quando digo relatividade, quero opinar, não dissuadir, a todos que há uma possibilidade (ainda que remota) de montarmos uma forma de educar sob outros meios os filhos. Mas, como diria o filósofo maior, vivemos em meio a opiniões. Então, na minha opinião, temos sempre que nos basear em algum referencial que, ao contrário do que ao qual obedecemos, não deve ser um castelo de areia, e sim um muro com tijolos de aço. É um projeto.

O projeto deve ser visto como uma gota no oceano. Nós somos a gota. Não se pode visualizar apenas o oceano, de maneira separada, ou seja, sem que estejamos longe, de fato, do que nos é inerente. O oceano ao qual me refiro é o próprio mundo. A humanidade. O universo. O cosmo e além dele. Não é fácil. Todavia podemos fazê-lo por intermédio de um jogo imaginário, no qual nos vemos até mesmo como um grão de areia em meio a tudo isso...

Muitos mestres, assim, nos fazem pensar – ainda dentro do jogo semântico da imaginação – que o corpo é o próprio Uno, e nós, meras células trabalhando em prol dele. Ainda, na busca de uma racionalidade que nos aproxime da teoria, Deus é o corpo, e toda a natureza são seus elementos que o compõe e aqueles que o ajudam a trabalhar. Enfim, por meio de tais exemplos, é possível perceber o quanto estamos próximos em dizer que nada é por acaso. Nada é separado. Nada trabalha por si mesmo. Há uma consciência natural das células, assim como também o há em nós.

Nós, seres terrenos, acostumados a divagar em nossos momentos de solidão, tentamos buscar essa realidade, ainda que de maneira involuntária, pois sabemos que o sol, a chuva, as plantas, as hortaliças, as minhocas... Os animais trabalham em prol de uma lei a que estão acostumados e que são vocacionados para tanto. Por exemplo: não se pode pensar que o sol pode ser substituído por outro ser no mundo que não ele mesmo para a iluminação do sistema solar – ainda que haja pessoas que se julgam o centro do universo – não adianta.

Não há limites para esse joguete de consciência racional. Podemos até pensar que somos menos que o grão de areia citado, quando nos deparamos com a idéia de que o sistema como um todo é infinito, sem parada para descanso. E que, se não há finitos, não há ninguém, antes ou depois dele que o construa (gênese) ou destrua (apocalipse), mas há a lei que nos implica dizer que é preciso que alguém o tenha construído porque há coisa que não compreendemos, podemos muito bem dizer que o nome disso é mistério – ou, para os mais religiosos, milagres ocultos. Estranho...

Se nossos pensamentos nos dizem o contrário, por que temos que ler certas coisas que nos dizem o contrário do que se pode pensar e não o que reafirmam eles (os pensamentos)? A comunhão de ideias, no entanto, em nosso mundo é perigosa. Nos dá impressão de que somos fanáticos por algo. Mas onde ficam as respostas? Dessa pergunta nos vêm uma série de seitas, partidos, Ordens, ou seja, cada uma tentando abstrair uma relatividade que chega próxima da realidade divina. Outras, claro, fogem, e muito, da realidade a que idealizam.


Mas não fujamos do assunto.

Quando refletimos acerca de uma natureza, pensamos externamente, nunca internamente. Não nos sobrevoa o pensamento de que tudo aquilo que vimos (e vemos) todos os dias tem um sentido religioso. O que significa que há uma religação entre o sujeito (nós) e o predicado (o que está fora). Não nos passa pela alma a tradução do que está além dos olhos. Mesmo que o melhor do yoga nos faça ser superinteriores (vamos deixar assim) não há como entender esse reflexo.

É a educação.
Não há outro meio de compreender o que está de fora, se não tentamos nos compreender. É um trabalho educacional, religioso e filosófico. Tal trabalho não é inerente aos animais, plantas, pedras, planetas... Ou seja, jamais iremos nos deparar com a ideia de algum animal vislumbrando o sol como uma estrela bela, ou mesmo beirando uma rosa na tentativa de compreender sua beleza passageira. Esse serviço é nosso. É um processo. É um ideal. Regado a tropeços, mas também a glórias. É, além de tudo, exteriorizar o belo, o que há nessa alma louca para voltar ao seu ninho.

“O ideal se esconde até mesmo dentro de uma xícara de café”, dizia mestre Jal. A realidade de um ideal também se esconde em nossos atos, tão naturais quanto o café de dentro da xícara. Esconde-se no sorriso de um bebê, na gargalhada de um amigo, na paz de uma floresta, no levantar do sol, no cair de uma chuva... No aroma de uma terra molhada, mas também no mal. Até o mal é natural. É necessário.

E o que nos resta é ir atrás desse Ideal, dessa condição humana, que chega a ser divina, gloriosa. Uma condição espiritual, justa, dentro do que Platão chamara de o Bem em nós.

Talvez, por ser tão complexo de entender através de uma linguagem racional, é que os egípcios levaram séculos para deixar claro que somos limitados, por isso o segredo de muitos textos. O racional – por ser mente – dualiza, não direciona, de imediato, o que é, inclusive, espiritual. Mas o espiritual não dualiza, pois ele já é o caminho, a resposta. Contudo, por ter muitas vias de acesso, singulariza, em metáforas, símbolos, deuses, uma realidade somente compreendida aos iniciados nos mistérios.

O iniciado não é um homem incomum. É o que podemos chamar de ponte ao que queremos. O ser que reflete o divino. É o ser religioso por excelência.

A educação, assim, vista como uma problemática atual, por ser meio pelo qual se informa acerca de tudo, é mentirosa. A religião, aquela que separa o homem dos mistérios, também o é. A filosofia, que exclui o trabalho voluntário, a educação e a própria religião, não chega nem perto do conhecimento.



R

quinta-feira, 15 de abril de 2010

A grande BATALHA


Vejo a vida como uma grande batalha, na qual legiões de guerreiros tentam sobreviver ao relento, ao sol e céu aberto. Em meio a sangues, em um chão que não se olha quem está morto – seja amigo, ou amiga, parentes ou afins... – tenta-se, de alguma forma, levantar-se a cada bombardeio, pois de joelhos se fica, quando bombas nos ensurdecem... Nos transformam a cada queda. Os estilhaços respingam nos rostos humanos, se infiltrando como sanguessugas, as quais, em cada lama, não perdem tempo – comem veias, salivando mais e mais sangues...

Vejo o céu sombreado pelo furor divino, pelo qual se vivia há tempos. Uma sombra negra tal qual a noite fria em que se vive há mais tempo ainda. As nuvens reais morreram, e eu, filho da ignorância e da relutância, ainda claudico até o fim de minhas batalhas pessoais. Não sei por quê. Talvez por não entender o dissabor humano em competir, mesmo com a morte em seus olhos; morte de crianças, de jovens, de idosos, e de homens de bem... Competir, ainda que terremotos consumam a estupidez – até aí tudo bem --, mas também a inocência dos puros de natureza, não pude entender...

Nesses dias, a batalha da vida me fez ver o quanto, em guerra, somos indisplicentes, frios e bestiais. Houve o terremoto no Haiti, destruindo o velho mundo, e depois o real terremoto, além do principal, abalar as estruturas humanas: a corrupção, o roubo, o tráfico de crianças, a dor de pessoas implorando por comidas, fosse da pior qualidade ou não, clamando a Deus a resposta às grandes indagações negras... Ali, uma realidade me sucumbiu: a de ver seres da mesma raça disputando o que não havia – casa, comida, espaço – e distribuindo dores, gritos, apelos.

A minha batalha diária torna-se até celeste comparada à daqueles que ruminam larvas, pedras, barros no Haiti (e em outros lugares)... Ainda somos carmicamente beneficiados pelo destino, eles não. Já não bastasse ser um dos paises mais pobres do mundo, um grande terremoto o destrói quase por completo, levando milhões de inocentes com ele. Não há respostas humanas para tanto...

Ver na tela o que foi sentido de perto não nos traz o real sentimento de perda daqueles homens e mulheres, filhos da esperança. Não, não nos traz. Contudo, nos transforma em filhos do medo, da insegurança... As imagens são fortes e chocam.

Vejo, nesse mundo imenso, nessa pequena batalha diária, que somos humanos, mas apenas (apenas, repito) até o primeiro duelo chegar. Num nível maior, somos humanos até o primeiro abalo sísmico... Num nível maior ainda, até que nos roubem o que amamos... não há nada que se compara a um ser humano com seus interesses levados ao chão; nada semelhantes a ele, quando um filho, uma mãe, uma família são ofendidos... a realidade se vai, e uma decrepitude de sentimentos nos iguala a animais de cujo alimento foi tirado. Num nível maior (bem maior que o último), não nos igualamos a nada. Simplesmente, matamos, roubamos, infligimos... Nos alimentamos, tudo em nome da fome, da dor, da revolta que nos impuseram há muito, sem saber. Torna-se, quando vem o momento, grotesco – palavra que não chega nem perto do que quero dizer – o linguajar, o agir, a verossimilhança com o bestial, o pensamento... tudo, menos um ser espiritual em busca de uma evolução interna – é o que somos, até o momento.
A batalha continua... E mais um terremoto demonstra o que foi dito. No Chile, um país, aparentemente civilizado, abalado pela natureza terrena, sentiu em suas estruturas, humanas e prediais, o que o Haiti havia sofrido em menos de um mês...

Com todo aparato médico, além do de segurança – incluindo bombeiros, policia, exército... – o pequeno país de luxo, em relação ao primeiro país, demonstrara o que seus irmãos haitinianos não o fizeram: como urubus, voaram às lojas, saqueando, atirando, destruindo até mesmo esperanças. A meu ver, toda civilização, em meio a uma guerra, a um terremoto, maremoto... Desconhece a lei, assim como um soldado em batalha, que atira para todos os lados, que corre louco em meio aos bombardeios, que clama a mãe, sem tê-la, que mata o amigo no auge da insanidade que o torna desconhecido a ele próprio... O Chile, aparente país educado, tornou-se o símbolo da desordem ao ser surpreendido pelas forças de uma natureza que não escolhe lugar, horário e vida para agir. País pequeno, mas que era indiscutivelmente referencial em comportamento humano, pelo menos em relação a muitos... Naquele dia, tornou-se um homem surdo e mudo dentro de abalo.

As batalhas não são apenas as declaradas. Assim eu as vejo. Todos os dias o homem tem que (e deve) lutar contra si mesmo no sentido de saber lidar com esse leque de possibilidades ocultas aos seus olhos. A questão talvez não seja de cunho fácil, pois não se tem manual de como se comportar dentro de uma guerra na qual homens lutam pela sobrevivência de sua espécie, ainda que custe a vida dos outros – estranho não?. Um exemplo disso é a pobreza em que se encontram milhões de favelados em diversas cidades deste país. Subir e descer morros, não é algo gratuito, lisonjeiro, muito pelo contrário. Torna-se uma experiência diária àqueles que lá moram. Em meio a bandidos sem disfarces que andam até mesmo com bazucas aos olhos do mundo, transformando-se em heróis tortos às crianças daquele lugar, o morro é um estopim, onde policiais temem seus “donos”, e rezam pelos seus filhos que ainda não nasceram.

Essa é a batalha de todos. A nossa batalha. Contudo, há um mal muito maior disfarçado. O mal que se veste de homem de bem, que vê as favelas como algo de bom ao ser humano, criando redutos eleitorais a pessoas pobres, cuja honra é a única coisa que criaram, mas desfalecida pelo mesmo homem que anda e sorri, cheio de idéias sombrias, expressas teoricamente como a salvação do mundo favelado. Negros, brancos, mestiços tornam-se, ali, símbolos da discriminação, além da pobreza que lhes é dada ao nascer, pois não possuem a oportunidade de crescer, e quando têm, revelam-se homens cheios de maturidade a enfrentar mundo, no entanto, nem tanto, pois não conseguem sair do seu meio, acreditando que a solução é fazer algo pelas crianças, jovens e adultos, com uma educação dada pelos mesmos homens que o fizeram pobre no passado. Isso não é ser socialista.

Hoje, não entendemos a realidade das coisas, e podemos entendê-la somente quando uma maior nos bate a porta – como a dos terremotos, enchentes, desabamentos ou mesmo problemas pessoas, nos atingem, como disse. O Rio de Janeiro, exemplo maior de beleza natural, mas também reduto de imbecilidades, nos mostrou a maior realidade por que passa a comunidade daquela cidade, todos os dias. Nas favelas, nas estradas, nas pontes, enfim, em lugares que, se você fechar os olhos, não vê muita coisa, mas, se você começar a tentar entender, verá que o caldeirão é bem maior que nos mostraram as chuvas que caíram há semanas.

Morros desabando. Casas, idem. Mortes por todos os lados. Ruas inteiras alagadas. Rios transbordando. Bocas de lobo cheias de lixo. Buracos imensos, como clateras, como armadilhas aos carros. Para o carioca, o mundo acabou – assim como para o haitiniano, chileno...

Mais tarde (bem mais tarde), após flashs televisivos intermináveis, perceberam que a culpa era dos políticos. Realmente era (e é), mas também somos responsáveis por tudo que nos acontece em batalha, principalmente com aqueles que discriminamos pela cor, pelo estado social e por muitas diferenças.

Ao subir o morro, muitos sentem admiração. Sentimento esse que deveria ser substituído pelo de humanidade. Toda a favela, seja qual for, tem um pouco de nós – o mal de nós. Ela se ergueu pela nossa ignorância, pela nossa maldade, pela frieza que nos é inerente, e que nunca nos extinta. O político é a ponte dessa maldade. A democracia, o tapete onde são pisados todos os valores pelos quais devemos (ou deveríamos) lutar e a que, desde antes de nosso nascimento, temos direito. A sujeira se vê depois.

A maior batalha de todas por que passo talvez seja contra mim mesmo. Não todas aquelas que citei. Talvez porque sou tão medroso dentro da batalhas quanto qualquer criança que sobe um pé de manga e fica lá no alto sem saber do perigo da queda...

O que está faltando em mim talvez seja o “E se cair?...”/ “e se machucar?”... / Se cair, levanta, e se machucar, cura-se. Eu quero voltar a ter a coragem de poder modificar minha vida e subir em todos os pés de manga possíveis e cair, levantar, e se eu morrer na queda (!) que seja com honra. Ética. Humanidade. E se eu for para o inferno – coisa que inventaram aí para os ricos (pobre vai para o céu) – que eu me encontre com meus grandes amigos!

E que venham as batalhas.


Obs: até o fechamento deste texto, tínhamos notícia de que a China sofreu um terremoto no qual morrera mais de pessoas.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Canção Eterna


Mulher,
Canção que adormece o mais bruto homem,
Infinita voz da compreensão dos divinos mistérios,
Lua que desafia os sóis, envaidece a terra...
Que alimenta o filho, fortalece o esposo.

Mulher,
Sombra das deusas de uma natureza concreta,
Sorriso da vida frente à morte,
Religião da paz, guerra dos dias,
Batalha incessante...

Mulher,
Ópera que flameja as almas doentes,
Fúria serena em meio à dor,
Água que cura o corpo faminto,
Ser divino.

Mulher,
Mãe da terra, dos homens, das criaturas,
Descobre forças do nada, nas larvas da vida,
Não sucumbe à falta e nos torna fartos de tudo.

Mulher,
Quando grito ao céu distante,
Clamo às deusas, que ouvem minha oração...
Viro um rio de lágrimas ao chão vazio,
E no amor de tua presença sinto uma profunda
Canção...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Brevidade


Ontem, 8 de abril, fomos a um enterro. Eu e todos do serviço. A mãe de uma caríssima colega partiu. A mobilização foi incrível. Não faltou ninguém. Na capela, familiares desconhecidos para nós; apenas Luciana, nossa amiga, e filha da falecida, a sorrir um sorriso meio trôpego, na tentativa de se aliviar do ocorrido e nos passar, ainda que com dificuldades, o descanso forçoso, natural e quase obrigatório de uma pessoa que amava tanto.

Na lugar, todos de pé a saldá-la, e Luciana, a abraçar a todos, com uma pequena bandeja de chocolates, sendo distribuída por ela, a todos que ali prestavam a última homenagem, ou mesmo uma presença simbólica daqueles que nem mesmo a conheciam, mas que conheciam Luciana e seu esposo.

No momento, passou-me pela cabeça o recente encontro dos meus familiares e amigos no mesmo lugar. Um dos meus irmãos havia morrido, velado e enterrado ali naquele cemitério. A vida é assim.

A bandeja de chocolates, servida pela colega de trabalho, me lembrou alguns filmes americanos, nos quais, em velórios são servidos bolos, tortas, até pizzas, no “último encontro” com o morto. Coisa de americano(?). Bem... Deveria ser! Fiquei sabendo que, mais tarde, a mesma colega teria feito um almoço aos familiares e amigos destes, talvez, pelo mesmo motivo. Respeitemo-la... Contudo, teria eu que me educar em relação a esse comportamento. Acho que determinadas culturas, por mais belas que sejam, por mais progressivas, ou mesmo avançadas, têm a sua cultura, seu modo de lidar com seus mortos – e nós, a nossa. Em respeito, mais uma vez a minha amiga, digo que ela foi excelente recepcionista, mas nunca eu trocaria a religiosidade, a simplicidade, a união, pela idéia que levou americano a servir tortas ou sei lá o quê (com todo respeito, é claro), no enterro do parente... ou seja, prefiro a cultura nossa com toda ignorância que nos deram.

Um pouco mais tarde, fomos levados a partilhar a última caminhada atrás do ente querido que se foi. Muitos que não conheciam a senhora falecida choravam. Outros, retos como postes, caminhavam eretos, mas o coração tremulava como bandeira ao vento – dava pra sentir tudo isso quando se é apenas expectador. Quando se participa da dor, da real dor, fica muito difícil...

No local, muitas lápides, muita gente, muita paz. Fiquei um tanto quanto distante do enterro, junto com um colega. Ali, comentávamos acerca da brevidade da vida... “Não nos esquecemos que a morte é do corpo”, disso eu a ele. Sem falar que, no inicio, eu cumprimentei Luciana dizendo, em tom apaziguador de choro que sua mãe teria ido para o “desconhecido” (!)... Quanta bobagem, pensei! Quem vai refletir sobre isso? Quem vai querer compreender o que significa “desconhecido” naquele lugar em que todos já sabem e tem a certeza de que todos que morrem, principalmente mães, vão para céu?? Caramba, que besteira...! Mas Luciana, minha colega, “supercultaeinformada”, disse “É mesmo...”, além do sorriso expresso no rosto, com coração cheio de mágoas...

Voltando... Perto do local, ainda a filosofar, para variar, falei dos antigos egípcios, que acreditavam na reencarnação. Falei ao colega que olhava os canteiros humanos, do coração daquele que morria e lá julgamento, ao lado dos deuses, perto de uma balança, sentindo a respiração do deus da morte, o Chacal, que o coração do morto era colocado na bandeja juntamente com uma pena, representando a Justiça, a Ordem, a Disciplina Universal, na outra, e que, se o seu coração pesasse mais que a pena, você reencarnaria... Ou seja, sempre. No entanto, o egípcio sabia que reencarnar era mal, pois o mundo, para eles, era apenas um reflexo, uma ilusão, e que a realidade era viver no pós-vida, além de nossas compreensões... O faraó, claro, disse eu, jamais voltaria, pois seu coração era leve tal qual aquela pena... Lindo, não?

Ainda comentei sobre Barqueiro – uma simbologia profunda, na antiga Grécia, da qual, até hoje, tentam tirar algo dela, mas não conseguem; a pessoa morre, é cremada, com seus olhos amarrados em moedas. No portal dos deuses, a pessoa pega uma barca e, ao final da viagem, paga o Barqueiro, e consegue a plenitude. Daqui também se pode lembrar da Barca de Isis, e de muitas outras culturas de simbologias semelhantes.

Enfim, pude me deliciar com outras culturas dentro do âmbito em que nos falam acerca do pos mortem, e pude perceber o quanto o cristianismo derrubou tais culturas e implantou outras absurdas em todo o mundo. A cultura do céu e do inferno, tão sem base, sem estrutura, que não se consegue entender, ainda que se leia tanto, a clássica Bíblia, talvez por que nos tiraram a chave da interpretação... Resultado: todos acreditam em reais céus e reais infernos!... Fazer o quê?

A vida, assim, nos remete a simbolismos acerca de tudo, até mesmo da morte, essa indesejável criatura. Nos remete mais que isso, a livros inteiros – não os de páginas e capas duras – livros belos cuja compreensão somente o sábio sabe ler. Nós, não, ainda temos que ler muuuuuito! E nos reais livros!

Assim, meio que confortável com a conversa, fomos embora, ou melhor, voltamos ao trabalho. Voltamos ao ciclo.

Religare

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Nascer todo dia, esse é o meu conselho. Se todos passamos por diversas intempéries naturais de um ser humano, é porque somos seres humanos, não cavalos, porcos, aves, periquitos ou macacos. Somos seres que acordam em meio a guerras diárias, mas também em paraísos escondidos, e não sabemos. Estes, tão escondidos em nossa alma, porém, tão visíveis quando nossa própria imagem no espelho, são os grandes responsáveis pela nossa vivência – ou melhor – pela nossa sobrevivência num mundo de pessoas que não se compreendem e não esperam se compreender, mesmo porque não as interessa.
Somente quando lhes toca o “calcanhar de Aquiles” é que se tornam vulneráveis a qualquer diálogo em sentido até mesmo bíblico. Não podemos esperar que nossos calcanhares sejam arranhados, tocados... e olharmos para o céu pedindo perdão a Deus, não, não podemos. Olhar para si mesmo é compreender que somos seres religiosos, seres que perdoam, que amam ou que podem compreender o amor; olhar para si mesmo e ver um grande sol se fazer pela manhã, tão belo e ursal, sorrindo em nome de tudo que é misterioso e divino. Olhemos. Oremos.
Ele se vai na tarde, claro, mas nós não; ficamos a observá-lo novamente nos questionando “o que ele ganha com isso?”, “Por que tamanha bondade se somos seres tão brutos e não lhe damos absolutamente nada?” – são apenas indagações advindas de nossos corações frios e sem amor, cuja sabedoria não passara nem perto.
E assim, permanecemos intactos ante sua beleza indo embora, transparecendo um deus que se deixa luzir em sua calda alaranjada, até se acabar... E não aprendemos nada sobre ele, de novo.
Suas chamas ainda ficam em nossa memória, como uma miniexperiência filosófica sobre a qual não temos nem mesmo ferramenta para entender, mas buscamos à medida que sorrimos a alguém, abraços alguém, damos amor a alguém. É ele, o sol em nós, fluindo misteriosamente feito sangue invisível em uma alma perturbada e ao mesmo tempo cheia de raios aos semelhantes que por ela passam.
As chamas desse grande deus continuam na música de Bach, elevando a alma ao mais quente dos cimos. A música enfeitiça como uma lua que brilha nas ondas de um mar distante, sem ninguém, apenas um observador, o próprio espírito, ao longo, na praia, clamando nosso nome.
Nada disso é imaginação, nem mesmo abstração. É revelação. É religião.

O Direito de Ser


Em meio a guerras e conflitos pessoais, humanos e mais humanos se desencadeiam na evolução psicológica dos fatos, das informações; seus gestos, suas falas, a cada dia mais avançados são naturais de uma época que não pede educação e sim confronto, luta e discursos inúteis. Assim, como diria, Charles Chaplin, “Assim caminha a humanidade...” cheia do nada!

Uma prova disso: para onde estão indo aquelas informações que, desde criança – naquela tenra idade – recebemos de bom grado dos pais, avós, como se fosse nossa última tocha acesa na escuridão do último túnel, sem mesmo a quem o a que recorrer? Foi para os espaço, fazer parte dos programas espaciais americanos ou para a rua serem pisadas em meio à multidão infernal revoltada por salários dignos? Talvez.

Mas o que procuramos não é a informação de outrora, e sim nossa honra, nossa ética, nossos direitos de ser... Humanos. Queremos reconquistar esse direito, além de respirar fundo, acima desse mar de lama que nos impuseram, soltar uma gargalhada como quem enganou o inimigo direitinho... Queremos mais, muito mais que isso. Como diria Gonzaguinha “mostrar a bunda na janela” aos políticos, corruptos, aos miseráveis homens que vivem somente por viver, ou por interesse próprio, ou por atrapalhar a vida de quem quer ser feliz... Mostrar a esse gente infeliz que corrói na infãncia, juventude e que nos transformam em velhos mentirosos!

A quem recorremos? Não tem ninguém, pois papai e mamãe já não pensam como nós, e estão em uma esfera diferente do nosso planeta, porque a experiência – aquela que cultivamos individualmente – nunca é igual a outra. E nossos pais... Ah, nossos pais, por estarem ainda vivos, tentam nos atar ao nó eterno de seus colos e nos apegar a eles como filhos eternos que fizeram bobagens eternas... Além de, é claro, abraçar nossas consequências, aquelas pelas quais somos responsáveis... Não recorremos, então, a eles.


Recorrer aos saudosistas, aqueles que adoram voltar ao passado, cheios de dores do presente e que, sem querer, se machucam com lembranças frias e quentes, mais frias do que quentes? A esses eu desejo uma âncora, e que por ela saiam do atoleiro, pois o mundo precisa de idealistas que, pelos quais, conseguimos nossas honras, ou pelo menos um pouco dela...


Aos mentirosos de plantão, que vivem apregoados em casa, em busca de aventura; porém, nada melhor do que um bom filme para “ilustrar” a sua vida mansa, calma e cheia de moscas? Não a esses um empurrão, ou mesmo um chicote da vida para lhes mostrar o quanto falta a viver, sorrir e buscar o melhor da vida – seja nas crianças, seja no amor.

Enfim, é difícil buscar soluções dentro de uma decadência de valores nos quais até mesmo os cientistas têm duvidas quanto o que encontram. É preciso sentir, como em uma corrida solitária, o vento no rosto, o coração bater, o cheiro das rosas no campo, a brisa do mar, a poeira molhada, a verdadeira paz interna... E criar uma sociedade pessoas verdadeiras!

É preciso viver. Sair de casa, sair da televisão, criar formas de vida, sem que sejam influenciadas pelo mal que nos assola, mesmo quando estamos dormindo. É preciso criar filhos invisíveis, responsabilidades, com as quais não sentimos o peso e sim a leveza de realizá-las, semelhante aquele homem que saia de casa, todos os dias, e ia ao encontro da santa, puxando uma carroça, cheia de lixo, pesada, porém, ele, feliz...


Assim, na resposta àqueles que nos acham filhos do nada apenas porque somos realizadores de alma, não de concretos, diremos que, sem alma, não há corpo, mas há muitos corpos sem alma.

Vamos realizar! Mas antes, filtremos as informações, sempre dentro de parâmetros simples, nunca racionais!

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....