sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Paixão: a Guerra de um Homem Só.



Às vezes é preciso se apaixonar para dizer o quanto somos volúveis como sacos ao vento. É preciso mais que isso; é preciso ir ao fundo do fosso e dizer “como vou sair, pelo amor dos deuses!”, e mais tarde chorar porque saiu e viu, de longe, em que se meteu.

É, como diz a palavra a ela cognata, é de se apaixonar!
Quão fogo, larva, dor, terremoto, e ao tempo luzes, flores, sorrisos, paz... E depois, guerra, sangue, dúvidas, loucuras conscientes... Enfim, uma gama de luas e sóis permeando nas janelas de sua alma e ao passo... Dentro!

Faltava-me subir as paredes, escalar montanhas com as unhas, enfrentar gorilas, leões, comê-los crus no almoço... Bem... Uma coisa foi bem certa: todas as vezes que me vinha à consciência de meu estado, eu refletia. Mas uma reflexão inútil, pois me tornava pior com cada minuto que restava, quebrando tudo, distorcendo minhas emoções, desvirtuando meus pensamentos, desmistificando meu caminho...

A consciência, presa à loucura, quebrava a jaula dos idealismos, da religiosidade, e o pior... da própria filosofia... Lembrei-me das obras de Wagner ao iniciar com um grande órgão e explodir com os instrumentais ensurdecedores!

A educação, esmerada num principio significativo – a do legado de uma tradição --, mostrava-se crua, sem gosto, também inútil. Tanto quanto uma lula sem seus tentáculos, minha educação tornava-se deficiente, ou invisível. Motivo: a paixão! Esse monstro cruel que destrói famílias, desconserta sociedades, descaminha heróis, retira a pureza das flores, e assassina a todos. Esse sentimento baseado no sem-principio, na matéria carnosa, no sexo, nos lábios, no corpo, nos encontros, no nada... é como um filho desgarrado a transformar um canteiro zelado por Deus em migalhas pisoteadas pelo Diabo.

Assim, a empurrar o homem do mais alto abismo, a paixão sorri do alto e conta mais uma vitima – eu. Sofregamente embriagado, desfiz de meus princípios educacionais, cai na lona vermelha da vida, a ser pisoteado pelos mestres, os quais nem me viram pedir ajuda. Todavia, fui culpado de tudo. E estava apaixonado!

Nessa selva fria, sem uma fogueira para alimentar minhas esperanças, sozinho, com os piores dos animais – eu --, me punha a gritar em silêncio em meio a zebras, onças, cobras, tal qual o mudo em uma tentativa vã de ser ouvido. Meu grito, todavia, era interno, a causar uma dor maior, a da solidão, aquela praticada apenas em prisões turcas, nas quais nem mesmo a própria mãe sabe onde você está...

A tortura começava e não tinha tempo para cessar. Minhas mãos, trêmulas com cada ato, burlava meu rosto, quebrava vidros; meu rosto, sem poder mostrar a aparência denotativa, caía na conotação da alegria explicita, sem mesmo mostrar os dentes.

Meu coração, coitado, a mais de duzentos por minuto, tentava, em vão, sair do corpo, como no filme Alien, o oitavo passageiro – quando o monstrengo, depois de se alimentar das vísceras, tentar abrir, no meio de nosso estomago, uma fresta, esticando nossa pele... Assim eu me sentia.

A paixão é um verme que nos comanda. Ter consciência desse verme é pouco. É preciso estar preparado disciplinarmente e quando encontrá-lo vivenciá-lo como um poeta. Assim eu fui... Ou tentando ser.

De uma coisa estou certo. O amor pode ser confundido com paixão. A principio, leve como uma brisa, perfumado como uma rosa-criança, e termina como tsunami na alma, sequestrando nossos ideais mais íntimos. O homem apodrece, cai à lona, morre, ressuscita, tenta se elevar, mas os pés não andam, os músculos doem, o corpo inteiro não obedece... A guerra ainda não acabou.

Os poros de minha alma, também dolorida, me fazem sucumbir às palavras mais singelas, mas continuo com o sorriso trôpego, andando ao encontro de minha vida, e sendo puxado pela morte, esta que dá gargalhadas à beira de meu ouvido ferido. Não há, nem mesmo, alguém que venha do céu e me auxiliar a morrer, ou viver, apenas a me pisar na seca de meus sentimentos...

Mas a paixão se solidifica, torna-se tão forte quanto uma ponte. Difícil de desabar, e ao mesmo tempo rangendo suas tábuas mais podres a cada passo meu. As cordas, no corrimão, fragilizadas... E, mesmo assim, forte.

Mas as metáforas da paixão serão sempre inacabadas quando se trata de expor os sentimentos na tentativa de compará-la. Nunca haverá palavra no mundo que demonstre o horror de suas características quando inclinadas a explicar o que sentimos.

Mas uma coisa é certa. Enquanto houver a mulher, esse ser que perturba e ao passo completa o homem, jamais na história da humanidade o homem entenderá o que é paixão – pois estará muito ocupado tentando se levantar da terra que o tenta consumir...


A todas às mulheres.
























R:)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Fúria de Titãs, epilogo.


Chegamos, enfim, à nossa reta final!


Desde que pensei em discorrer acerca dos mitos, achei que fosse algo, como diria os gramáticos, “gratuito”... Mero engano. Não há nada de gratuito, é preciso ter uma razão, um motivo, primeiramente, com a finalidade de dissertar sobre algo tão profundo... No entanto, da maneira como se foi falado – por mim, claro – não havia nada de profundo. Eu, simplesmente, enrolei, e, claro, fui displicente, tolo, mais ou menos culto em relação à tentativa, não ao texto, mas ao assunto e consegui expor de maneira bravia (porém tola) um pouco sobre o assunto...

No último texto, citava a Caverna de Platão, uma alegoria mítica, que o filósofo teria feito supostamente em homenagem a seu mestre, Sócrates, que, à época, segundo se tem notícia, desvirtuava a política do seu tempo, corrompendo os jovens, em conceitos filosóficos sobre a verdade, amor, beleza, ética, moral, coragem... Enfim, conceitos que, em nossa época, também estão tão desfalcados de suas origens quanto no passado. Por isso, foi levado a tomar veneno como castigo...

Mas não vamos, hoje, falar de Sócrates, vamos terminar nossa discussão sobre mitos, esse ser maravilhoso que se esconde e se mostra como a ponte entre o sagrado e o profano. Vamos tentar demonstrar em linhas breves o que podemos tirar desse manancial que nos deixaram como legado, e que, infelizmente, o percebemos com olhos de soslaio...

Mídia

A Caverna de Platão talvez seja a mais simples de se compreender, tanto no quesito simbólico quanto no metafórico, porque já nos apresenta elementos claros de sua intenção. Mas que intenção? A de que estamos presos a algo.

Mas o mito transcende esse sentido. Não nos passa, de pronto, seu sentido real. Se nos leva a questões de nível psicológico, não é do teor simples como Freud, o rei da psicanálise, acredita. Não tem nada a ver com o aspecto físico, biológico, sexual do homem, ainda que existam interpretações para tanto, mas, ao contrário do que se percebe com nossas lentes, sempre o psicológico voltado à Alma universal, como foi dito em eloquentes relatos, nos textos anteriores. Mas o que nos fez ver o mito com se fossem historinhas de ação? Será que foi a mídia?

O papel da mídia tem sido preponderante para que a educação humana se desvirtue tanto. Se não fosse essa deseducação, que faz com que a distância entre a realidade das histórias, dos personagens, das palavras, e enfim, dos mitos fosse tão lastimável, teríamos, pelo menos, uma visão menos assustadora do que ele significa.

A culpa, no entanto, não é dela, da mídia. A culpa é daqueles que desceram os degraus da iniciação, ou melhor, desistiram de resguardar os grandes segredos e repassaram para a massa, o povo. Este, cheio de relativas ideias, e confusas, desfazem naturalmente, no entender dos princípios, daquilo que é realmente válido. Ou seja, ainda que achamos que seja triste o papel daqueles que desceram os degraus para repassar, cheio de interesse, sua sabedoria ao povo, e este, tão ignorante quanto pedras incrustadas em cavernas... Há uma necessidade por detrás de tudo de decair no fosso dos princípios sem significância os valores humanos, caso contrário ainda teríamos Roma, e sua fortaleza; teríamos a Grécia, e sua sabedoria; teríamos o Egito, e suas belezas, além dos grandes faraós reinando...

O mito, uma dessas verdades que virou mentira, ainda brilha como uma estrela ardente em meio a um sol maior ainda, mas existe. Seu significado abrangente, assegurado pelos sacerdotes antigos, cujo legado nada mais foi que trabalhar para que o homem moderno não atingisse o cerne, a sua essência, ainda baila na alma universal.

Fúria de Titãs

Uma prova disso ainda são os filmes hollywoodianos, que, por mais que tenham a ideia de clamar heróis a todo custo, buscando o mesmo objetivo nos mitos – por exemplo, na de Zeus e seu filho, Perseu, como demonstraram em Fúria de Titãs --, apresentam, antes de tudo, a relação cósmica do homem com o uno, com deus, sempre se dualizando entre o espírito (Zeus) e matéria (Hades).

O mito grego de Zeus, Hades e Perseu se transforma na busca de uma realização heroica no filme, o que descaracteriza completamente seu ideal. Contudo, ao observar de perto a cultura que há séculos nos deu Dédalo, Minotauro, Teseu, Ícaro e vários personagens clássicos, sabemos que temos em mãos vários aspectos simbólicos a decifrar.

Hades, assim como todo problema, transfere a Zeus a inveja, o egoísmo e a relutância dos seres humanos, os quais vivem com Arjuna – outro personagem mítico da Índia – que nos representa também entre nossos valores materiais e espirituais. Perseu seria a realização, ou melhor, concretização dessa dualidade entre os deuses e seres humanos. O filho do deus-maior reluta em ser um pouco temperamental como o Pai, mas não tem jeito, todas as coisas pelas quais passa têm uma forma divina de serem realizada.

Zeus, para tudo, lhe dá presentes para combater o mal, e, mesmo na relutância, Perseu aceita. Contudo, mostra que, ainda seja semideus, realiza facetas com potencialidades tais, que nos assemelha em tudo, quando temos força em nós mesmos.

Significado

A guerra entre Zeus e Hades nos lembra a natureza de nossa razão, sempre no meio de uma linha imaginária, relutando entre o céu e o inferno (simbólicos), os quais pairam eternamente em nossos ombros como dois seres briguentos, cada um levando a razão para onde quer. Na maioria das vezes, em nós, Hades vence.

Hades, na Grécia antiga, tinha uma simbologia tão profunda, que não era pronunciado. Era proibido. O homem comum grego não era medroso, mas espiritual e tinha lá suas razões para não citar o nome do deus que representava o mistério mais profundo do universo ou da alma humana.

Zeus, uma potencialidade que se parece com o homem, sempre descendo e amando as mulheres humanas, fazendo semideuses, representaria, talvez, a descida do divino à terra com a finalidade de elevar o ser humano. Perseu seria a figura do ser humano divino, porém com o pé ainda na matéria – ou vice-versa.

No filme, Perseu vence as armadilhas de Hades, reconhecendo, enfim, Zeus como seu pai. Na película, ainda se vê o filho terminando como uma sacerdotisa, como se fossem filmes em que a mocinha termina com o mocinho, depois da morte do vilão.

A importância, ainda que esteja longe de ser dita, não está tão longe. Está tão perto quanto nossos corações de nosso corpo, apenas não percebida. E todas as vezes, será assim, vamos transformar tudo que não pode ser compreendido em meras visões humanas, na busca da real essência, o que seria impossível. A real essência de tudo se resguarda em um intimo universal, divino, sagrado, nas mínimas e simples coisas...

Fim

Ufa! Assim, entre mitos a humanidade se vai, o universo se expande; entre mitos, nascemos, crescemos, vivemos, envelhecemos e morremos com sabedoria, sem medo, sem dor. Entre mitos, somos mais que pedras paradas nas calçadas, mais que plantas em busca de água e ritmo, ou animais em busca de alimentos... Entre mitos, somos humanos beirando a divindade, ou buscando ser.






sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Teatro e o Ser


Um dia um grande professor nos disse em sala de aula. “Quando o artista sai de cena, ele se desfaz das roupas, da personagem e volta a ser ele mesmo. E quando sabemos que não somos o que vemos, no que acreditamos ser? Conseguimos nos desfazer de nós mesmos? Difícil”, completa.

Ele sintetiza o que os gregos chamavam de persona, uma máscara que acreditavam existir em nós, como uma capa que “cobre” o que realmente somos: um ser. Um espírito. Hoje, como diz o mestre, é fácil se desfazer alegorias da dramaturgia, mas como o faremos se percebemos que tudo isso que nos cobre é outra “fantasia”, uma máscara?

O teatro se revela universal justamente por isso, isto é, tenta nos revelar que até mesmo as coisas mais metafísicas ou que achamos como tal são meras máscaras, e o que realmente são vivem em um mundo perfeito – é o que Platão chamara de mundo das Ideias.

Mas transportando para o nosso mundo, podemos dizer que também temos o nosso mundo das ideias, de forma micro, assim como todas as coisas o têm. Contudo, esse micromundo denominamos Ser, aquilo que é intocável, indivisível, que subjaz a tudo que vemos e sentimos, e que, na antiguidade, chamaram de nows no homem.

Cristo

Acreditavam os gregos, não somente, mas também outras culturas sábias, que tínhamos em nós a divindade, essa tão escondida quanto uma estrela de dia, ofuscada pelo sol. Acreditavam que essa estrela em nós era tão pura e perfeita, que jamais seria dita com palavras e sim codificada por aquele que tocasse pelo menos em suas margens, ou seja, somente os grandes avathares que, com sua mensagem tão simbólica quanto eles próprios, levaria à humanidade a Verdade, o Caminho e a Vida, ou seja, o próprio Ser, de maneira racional-alegorica, às vezes, em forma de mitos, parábolas, etc...

Cristo, um desses avathares, com suas palavras codificadas, nos dá até hoje uma ideia do que seria o ser: “Somente a Verdade o libertarás”, aqui a Verdade jamais pode ser compreendida de maneira relativa, pois estamos falando de um individuo cuja natureza traspassou a nossa, estamos falando de um homem que se tornou o próprio Ser, ou seja a Verdade, o Caminho, a Vida – porém, ele estava se referindo ao nosso ser, aquele que em nós subjaz, e nos alertava que poderíamos ser um pouquinho avathar, na busca pela real verdade, pelo real caminho... isto é, estaríamos libertos se fôssemos nós mesmos, no sentido mais profundo da palavra.

“Venham a mim as criancinhas, pois somente os puros de coração têm o reino dos céus” – aqui, Cristo diz que, para que possamos obter o reino dos céus, é preciso que tenhamos a pureza tal qual uma criança, contudo conscientes, a fim de conhecer o próprio céu interior.




Nome Real

Ainda, quando Cristo dera o nome a Saulo de Paulo, sabia que em cada um de nós se resguardava um Nome, um ser; sabia que o nome a que damos aos nascituros são invenções nossas, mesmo que buscamos através da inspiração em rios, mares, montanhas, heróis, reis, comandantes... o nome, o Real nome, é apenas um – e cada um o tem individualmente. Por isso a cultura de algumas religiões de re-denominar aquele que entra para a seita. Cristo, por fazer Saulo seu discípulo, disse “a partir de agora, serás Paulo” – nome interno daquele individuo –; o avathar falava do espírito humano, da maneira mais própria.

E por essas e outras que é tão difícil relatar acerca do que está por detrás de tudo, embora saibamos. Sabemos ainda que divagamos e não temos uma experiência concreta do é o Ser, tudo parte de nossa personalidade, que se apaixona (por) e deseja tudo. E o que nos fez relativizar tudo tirou um pouco daquilo que é divino na natureza...

Um exemplo disso são as denominações dos Deuses – Zeus, Plutão, Netuno... – ao se referir às potencialidades que criaram o universo. Platão diz na república que um dos erros de Homero foi personificar as divindades, pois elas são vistas com olhares humanos, o que as distanciaria do que realmente são. Mas o homem não consegue sintetizar o que aprende e com ele ficar, ele sempre expõe o que sente, ama, admira, contudo, às vezes, quebrando o significado real das coisas – nesse caso, dos deuses.

E quando soubermos que não somos essa persona que se apaixona, ama, admira, come, bebe e age conforme os seus ditames? Será que vamos fazer o mesmo? Tentar relativizar o Ser em tudo que fazemos?

É o que o teatro faz, pelo menos fazia. Ele tenta demonstrar, pela nossa realidade, a maior das realidades, Deus – seja em nós, seja no uno. Todavia, sem vulgarizar, mas tentando se aproximar do significado do grande espírito.


Fico por aqui.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Teatro e Nós

Acho que já me reportei a esse assunto diversas vezes em meus escritos, mas é sempre bom deixar mais evidente, puro e simples a natureza de nossa personalidade, a qual é tratada de forma superficial dentro da nossa psicologia moderna.

O erro talvez seja o fato de que nos esquecemos de buscar, no passado, respostas para os imbróglios (confusões, distorções...) presentes. Isso em todos os aspectos. Caso contrário, perdemos fio da meada, e nos perdemos como Teseus em labirintos.

Na realidade, nós é que somos responsáveis pela criação de labirintos – sejam psicológicos, astrais-físicos... – e, assim, nos perdemos...

Com relação à persona, se nos reportarmos para a Grécia Antiga, época dos grandes heróis, dos grandes escritores, artistas, percussores de nossa educação, visualizamos na arena teatral as grandes cenas de teatros. Aqui começa o compasso para a saída do labirinto. No teatro, peças de nível altíssimo eram encenadas por pessoas que possuíam uma cultura vastíssima comparada à nossa. Não minimizando os nossos atores e atrizes, mas ali era o berço de tudo, portanto a gema da qual partem todos os exemplos do mundo atual.

Escritores há que dizem que o Teatro é tão antigo quanto o próprio movimento das pernas; concordo, todavia, quando transferimos a responsabilidade para os gregos, nos parece que foram (e serão) os mágicos únicos que souberam lidar com o que ele, o teatro, sempre representou: a condição humana.

Quando digo ‘mágica’, estou me referindo ao sentido mais egípcio da palavra, que nos induz aos grandes sacerdotes e suas magias secretas, nas quais apenas os iniciados nos mistérios conseguiriam ‘ver’ o invisível. O grego via o que estava por detrás das cenas de cada peça, ou seja, a própria essência do que realmente significava e significa o teatro.

O ator, imbuído do sentimento histórico, entrava em cena com apenas poucas roupas e uma máscara – fosse com a face sorridente ou triste, mas representando aquele momento em que a personagem traspassava. Isso aos nossos olhos é fácil de imaginar, contudo difícil de lidar quando se traz à tona aos dias de hoje, simplesmente porque, atualmente, o individuo que contracena não tem esse intuito, essa visão, mas apenas presença, o que dificulta a vestimenta psicológica no momento do espetáculo.

O ator grego sabia que não era apenas uma máscara que o induzia a mudar a cena, mas que havia o aspecto simbólico em cada fala, em cada ato, e na própria máscara, que representava a própria vida, quiçá o universo. Não era um espetáculo no qual todos iam, mas também se viam. A vulnerabilidade da vida na saída na troca da máscara, o amor à persona quando eles se fixavam naquele ser vestido, enfim... até mesmo a natureza era representada na grande arena.

As danças das árvores, a queda dos frutos, a vida, a morte, o nascimento, o renascimento eram símbolos de uma divindade a qual não se poderia representar tão simplesmente com uma cruz ou com uma santa... santos, mas com a “voluveidade” e beleza a que temos direito natural.

Quando digo simbólico, não me remeto apenas ao aspecto metafórico, mas universal da coisa, o que dificulta aos olhos do leitor de hoje identificar o que é algo simbólico, e que é ao mesmo tempo pararracional. O simbólico-grego era a ligação a uma esfera maior e transcendente aos olhos do homem moderno, pois religava aquele aos deuses – também representados no teatro.

Atores Modernos

Há atores dessa época – a nossa -- no entanto que se vestem, se enraízam, buscam e mostram a beleza de compor uma personagem. Atores como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Marília Pera... são notáveis representantes do teatro, trazendo à tona um passado vamos dizer... Meio grego, cheio de virtudes, belezas e incontestáveis apresentações.

No mais, outros dificultam e se enraízam no modernismo simpático, no entanto, relativo aos olhos de um passado que se mostrou universal em cada ato. E se vão relativizando até desgrudar-se da tradição.

O teatro pede, todavia, que se olhe para ele como um ser que nos demonstra a beleza de representar profundamente cada personalidade que anda, vida, corre – sendo ou não humana – na harmonização de um todo, em homenagem ao sagrado que vive fora e dentro de cada um de nós.


Volto no próximo...




quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Fúria de Titãs, terceira parte.


O mito é u´a comunicação do homem com sua essência. E como toda essência que se resguarda em labirintos, bosques, cavernas, deve ser transformada em objeto de busca. Mais que isso, é um ideal de vida. O homem procurando o Homem em si mesmo. Tudo isso levado, sutilmente, secretamente, pelos mitos.

Antes dos mitos, contudo, vale dizer que os contos de fada eram a forma pela qual os iniciados – druidas, sacerdotes, bruxos (bons) --, se comunicavam e transferiam naturalmente à camada menos sábia – mesmo porque eram educados para entender que era um meio simbólico de tradução do sagrado – a filosofia do que viria a ser uma realidade profunda, mas que trazia os deuses até eles.

Os contos, mais tarde, deviam ter a mesma potência, no entanto foram deixados para trás – entre aspas --, pois foram introduzidos aos povos de maneira simplória, ainda que arquitetando a beleza do próprio homem. Deles, surgiram princesas que aparecem, até hoje, do nada, e fogem com o príncipe, também um belo cavalheiro que a salva sem pedir nada, sem mesmo saber quem é ou será a donzela – sem falar nos dragões, “pobres animais” que eram mortos sem ao menos uma defesa prévia... Os contos são assim: simples e complexos.

Cada elemento do conto nos levava a um ponto: a alma humana – correção, nos leva. Sua fragilidade, sua leveza, sua natureza volúvel transformou o mundo dos contos de fadas enriquecedores e educadores de crianças à beira das fogueiras. Hoje, em meio a tiroteios de mídias, competições, modernidade fugaz, o que nos oferecem são contos modernos, às vezes, sem sentido algum, ou sempre com o fundo voltado a uma educação mais fugaz ainda.

O conto possui uma natureza simples em comparação com o mito, tornando-se, pelas figuras que o caracterizam – anões, princesas, maças, heróis de chumbo, animaizinhos, florestas, lobos-maus, etc... – visualmente mais voltados às crianças, as quais entendem tão bem quanto o adulto.

Mas o mito – voltando --, pela estrutura, nos remete a forma universal, com elementos suprarreais – cavalos alados, semideuses, deuses, enfim... Sem os quais não haveria a possibilidade de formação de um universo, de uma tradição...

A Caverna

No livro Sete da República, de Platão, escrita há mais de mil anos, o filósofo fala de uma alegoria – chamada o Mito da Caverna -, na qual cria diversos símbolos partindo de uma realidade semelhante à nossa.

O mito nos conta que, em uma caverna extensa, moram vários indivíduos algemados de costas para a entrada e de frente para o seu fundo. Como desde pequenos estão ali, não sentem nada em relação a muitas coisas, principalmente à liberdade (conceito filosófico).

Por trás deles, queima uma fogueira imensa, que, por refletir em seus corpos e de outros que nela moram, mandam e vivem, sombras nela se fazem. Assim, todos vivem do reflexo, não da realidade – segundo Platão.

Mas quando se trata de ser humano, ainda que parecidos física, psicologicamente, temos uma alma cuja natureza é buscar, descobrir, se irritar, ir atrás de seus ideais, por mais dificultosos que sejam – assim diziam os sábios – e desgrudar de arcaísmos, e é aí que somos essencialmente diferentes; porque não tomamos partidos de determinadas coisas coletivamente, mas instigamos para isso, ou seja, a partir de reações individuais pode haver ações coletivas.

A partir disso, Platão fala de um dos indivíduos que se mexem entre todos os moradores, tenta desfazer das algemas a principio, e, mais tarde, o consegue. Ao perceber que estava sem as algemas, começara a perceber a realidade aos poucos, andando em direção oposta àquela que desde pequeno vira; vê a labareda que os enganava com suas formas em sombras, percebe que há uma saída, e para finalizar vê o sol. Acreditando naquilo que sente – vê, sente, ouve, pega... – tem apenas um objetivo: levar aos irmãos a sua realidade, a verdadeira...

Tradução (@&*...)

É vã encontrar a extensão do significado desse mito. Porque é enorme. Daria pelo menos duas ordens de mil páginas apenas para introduzir... Mesmo assim, estaríamos tentando apenas fazê-lo, pois a visão relativa do homem cai no racional e nos transfere o que a inteligência tem certeza – o que para a real tradução não passa de uma forma também relativa.

Vamos nos basear no aspecto filosófico da questão, não outro. Digo isso porque, em razão de muitos historiadores, políticos, religiosos, donos de botequim lerem o mito, e dele fazer devaneios interesseiros.

Os mitos, como foi dito, possuem ferramentas para a compreensão humana e universal, contudo, não temos para compreensão do que cada ferramenta nos serve. Por isso, nos alimentamos de metáforas pelas quais assemelhamos fatos corriqueiros com a ficção. Assim, para nós, o Mito da Caverna nada mais é que algo relativo também, ainda que tenhamos um ponto de vista filosófico, o maior que podemos ter...

Assim, em minha tentativa vã, tentarei com o que tenho reverberar acerca do Mito.

Desde a caverna, seus moradores, as algemas em suas mãos; passando pelas sombras – reflexo –; o individuo que se sente incomodado; o fogo, o sol, a natureza... Tudo possui um simbolismo metafísico, todavia, em nossa esfera, podemos dizer que tudo está em nós. Pois nossa alma, aprisionada, sente a necessidade de busca pela verdade, a qual está no próprio homem – estamos falando do divino.

Sua natureza volúvel, no entanto, nos aprisiona à matéria – não somente à física, mas também ao nosso passado, às nossas dores psíquicas, ao nosso mundo que tanto defendemos com unhas e dentes.

Por fim, estamos presos, de alguma forma, à minicavernas cujas estruturas são tão fortes quanto às reais. Platão, não sei, talvez, quisesse dizer isso. E prosseguimos com a tentativa de “desobscurecer” a caverna.

O individuo, quando tenta sair de suas algemas ou percebe o fato de que elas não são algo natural à sua identidade, se mexe, puxa, se incomoda... e sai daquela realidade imposta a ele desde criança... Após isso, começa a busca por algo que a todo ser humano é inerente: a busca pela verdade, pelo conhecimento, pelo Amor, Justiça, pelo Bem. Depois de seguir em frente, saindo da caverna, e ao encontrar o sol – símbolo tradicional do sagrado -- entende que a Justiça, a seu ver, é agir de acordo com sua possibilidades, natureza e capacidade; que Beleza é um conceito arquetípico (pararracional); que o Bem ilumina a todos... Que o Amor é vontade divina, não humana; e o filósofo ainda chama de político (filosoficamente) o ser que saiu e voltou para a caverna a fim de ajudar os outros que nela ficaram – e que nunca nele acreditariam.

O fogo, em muitas tradições, revela-se a espiritualidade simbólica, sempre vertical; na caverna, estou longe de saber. Mas as sombras, desde o inicio, são todas as coisas em que acreditamos materialmente, ou seja, objetivos palpáveis a nós embutidos por criaturas misteriosas, as quais Platão chama de Amos da Caverna.

Os amos da caverna podem ser os políticos de sua época, que condenaram Sócrates; podem ser nossos políticos, que fazem questão de nos puxar para o mundo relativo, objetivo, cheios de nuances, espertezas, racionalismos exacerbados – não estou falando somente de congressistas! – e ao mesmo tempo falácias.

Mas Platão não queria apenas servir este presente ao grande homem apenas, seu objetivo era deixar claro que seguimos uma educação paralela à Real – ou seja, aquela que nos é de direito do dia em que nascemos ao dia em que morremos: o conhecer a si mesmo.







Continua...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Fúria de Titãs... continuação.


Os labirintos são imensos para a compreensão dos mitos, no entanto não podemos deixar de citar alguns que, como contos de fada, nos atraem pela forma psico-histórica e pela relação evolutiva do universo; entre eles está a batalha dos Titãs – Hebe, os Gigantes, Tifão e Ofion --- entre outros, os quais enfrentaram Zeus, são figuras mitológicas, ainda que nos traspassem sentimentos semelhantes aos humanos.

Zeus, filho de Urano e Gaia, teve que matar seu pai em razão de um dia querer devorar todos seus filhos. Mas o filho maior conseguiu rebelar-se e soltar seus irmãos. Assim, Zeus tornou-se o maior de todos os deuses em razão da vitória desse embate, por fim sendo deus do Olimpo.

A batalha, a criação do todo, revela-se, como diria os cientistas de hoje, a manifestação da matéria, a dissolução do Caos – outro deus. E os Titãs nada mais são que elementos dessa matéria, potencialidades impessoais, sem sentimentos – paixão, instinto, ciúmes, como demonstram as histórias para as crianças, ou mesmo nos filmes. Mas Platão, na República, já avisava que antropomorfizar os deuses seria um tanto quanto perigoso ao mundo. Todos eles transbordam de significados míticos a fim de traspassarem o entendimento-terra do homem, por isso não temos base para montar em nossa psique a força de seu significado.

Será que é só isso?
Nossa cultura atual precisa se enriquecer no tocante a esses elementos simbólicos, nos quais o personagem representa uma peça chave para interpretação do mito. Isso, com certeza, nos resvalou das mãos em épocas negras, todavia, mitos semelhantes jamais perderam sua razão de ser. Apenas o modernismo transformou o que era fonte de inspiração para a compreensão divina em um materialismo psicológico, afundando as possibilidades de resgate – ou quase.

Mas como nos enriquecer?
Na realidade, a dificuldade em voltarmos à crença de que tudo pode ser divino está muito longe; pois há formas partidárias de pensamentos – além de ideias – religiosos, políticos, sociais, etc, nos quais o âmbito da questão com certeza se perderia. Seria dar cavalo de pau em um navio a centímetros de distância de um iceberg!

É, estamos prestes a virar comida de tubarões (a linguagem é metafórica, por favor!). Enfim, precisávamos de uma guinada – uma “revolucionada” – em nossos atos, pensamentos, tudo. Como se voltássemos para um ventre e dele saíssemos e começássemos a repensar nossos atos frente a nós mesmos. Pois esse é o trabalho do mito: não somente nos enriquecer culturalmente, desmistificando segredos divinos, mas principalmente os nossos.

É preciso entender porque aqueles seres mágicos, vivendo em sua época dourada, obedeciam aos deuses; pensar no porquê daqueles seres que pareciam escravos trabalhavam alegremente em nome de algo tão forte quanto nosso amor ao filho, construindo pirâmides, totens, etc..; precisamos retirar os óculos da vaidade, da matéria, do capitalismo doentio e rever nossos conceitos de espiritualidade. Precisamos entender porque todas essas sociedades, que um dia tinham que ir, viam o mito como uma fonte de inspiração na hora da guerra, da doença, da crença, da política...

Elas sabiam que o mito resguardava um pouco de tudo. Que os sábios sacerdotes ao elaborarem os mitos estavam não apenas construindo algo maior que o próprio homem, mas algo tão fértil quanto o próprio universo.

Volto no próximo texto...


Fúria de Titãs...


Em todas as culturas orientais e ocidentais, antes de Cristo, o simbolismo era muito enraigado quando o assunto era formação do universo. Contudo, não se podia revelar ipsis literis aos leigos os mistérios profundos de uma realidade a que jamais o homem poderia expor de maneira que fosse tão clara quanto o sol que vimos, todos os dias...

Mais do que isso, nessas culturas, o próprio homem e sua personalidade eram temas em contextos mitológicos nos quais, para aquela cultura, era tão normal quanto ir para a escola, ou mesmo se sentar em um banco da praça. Discutia-se, de forma intrínseca e ao mesmo tempo filosófica, quase científica, o simbolismo de tudo.

Quando se chegava ao homem, por mais que fossem especialistas – cientistas da época, filósofos, etc – não havia outra forma senão experimentar, na própria carne, a vivência do mito. Assim, tínhamos a educação propriamente dita.

E por falar em educação, os escravos – no caso grego – ensinavam filhos de militares a se comportar, a serem estrategistas, e a respeitarem as culturas, os mitos...enfim, não havia escola pública, nem privada, apenas o saber advindo daqueles que possuíam experiência para tanto. Assim, nasciam Julius Césares, Marcus Aurelius, Adrianus, sempre em meio a filósofos como Epíteto, um dos percussores do estoicismo, entre outros.

Depois que se criou o mito e seus simbolismos perfeitos – isso por volta de dez e quinze mil anos antes de Cristo, por iniciados, todas as explicações em torno do mundo se tornaram “fáceis” do ponto de vista grego, romano, egípcio, celta... Mas não do nosso ponto de vista. Tanto que, hoje, a palavra mito significa mentira, longe, e muito, do seu significado real.

O mito, como diziam, retratava, simbolicamente, uma realidade profunda. Não é um conto, uma lenda, nem mesmo uma história, embora muitos acreditam em finais felizes e, quando assistem a filmes americanos com o título “Fúria de Titãs”, acreditam que seja uma história contada com monstros, heróis, deuses, havendo, portanto, um final feliz – talvez haja, mas não é com esse intuito que o mito exista, mesmo assim esperamos.

Na História de determinadas civilizações, como a da própria Grécia, houve um processo mitológico por detrás da narrativa. Homero, grande historiador, conta em Ilíada e Odisseia dez anos de batalhas entre espartanos e gregos, nas quais deuses e heróis jamais vistos em nenhuma narrativa se fundem com uma realidade que fora o nascimento de uma grande civilização. Aqui, ficam dúvidas da existência da batalha, mas arqueólogos já encontraram vestígios do que fora a maior guerra de todos os tempos. Todavia, procuram ignorantemente os cientistas os fantasmas dos heróis, como o do grande Aquiles, o qual ganha notoriedade por suas características: grande, forte, belo, semideus e que confrontava as divindades da época como ninguém, além dos próprios inimigos.


Aquiles foi vencido pelo calcanhar. Quando pequeno, sua mãe o banhara no mar da imortalidade, pegando-o pequeno Aquiles pelos calcanhares, esquecendo de molhar estes. Assim, nasceu a sábia expressão “todos têm um calcanhar de Aquiles”. Razão porque o mito nos traduz algo maior e mais profundo, todavia, superficialmente, a fim de que possamos interpretar – vamos dizer assim – ao nosso dia a dia.

Assim como o mito de Aquiles, que morrera com uma flechada no calcanhar, apesar de sua enorme habilidade de guerreiro, temos outros mitos que nos retratam a alma humana, de maneira sutil e ao mesmo tempo indecifrável aos nossos olhos. Talvez por isso as más intenções na relação entre o que se vê e o que se compreende.

Mitos como o do labirinto no qual se resguardava o Minotauro, metade homem, metade touro. Nele, Teseu, o herói se inclina em matar a fera, levando consigo um novelo de linha para não se perder. Nesse mito, apesar de sua profundidade, conseguimos nos infiltrar e sentir que somos mais uma vez vistos como o próprio labirinto, e que a fera que nele mora são nossos instintos, ou em um nível universal a decadência do mundo.

Ainda no labirinto, o herói, nossos princípios, convicções referenciadas no sagrado, tenta por meio de um novelo, talvez a própria filosofia grega, encontrar o animal e destruí-lo; assim, como em uma prova iniciática, nossos instintos são domados – ou isolados de nossa esfera – e, aproveitando o novelo, saímos do labirinto, nos tornando jovens internamente, pois nossos valores são outros.



Volto já.



A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....