terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Real e não Real




Hoje, em razão de nossas culturas vagas, em cujas entrelinhas vagam o saber irrisório e o não saber, depositamos toda a nossa confiança no presente, nunca no passado. Em determinados pontos estamos corretos, em outros – na maioria – errados. Quero dizer que nossa razão, aquela que deveria unir o céu e a terra, hoje burla sensações relativas, ao ponto de sentirmos o que é e, mais, achar que é real, mesmo sabendo de sua relatividade...

Estranho, não? Já perceberam o quanto somos insensatos e, às vezes, entre aspas, defendendo teses frias nas quais nós nem nos cabemos? É, deixa pra lá. Buscar razões dentro da razão é mexer com as mãos, fazendo com que elas, voluntariamente, se cortem com facas afiadas...

Mesmo assim, mexamos um pouco com a razão...
Ao perceber a perda de algo, sentimos a relação de falta, ainda que ela seja mínima. A sensação aumenta, buscamos enfim sanar a perda, pois, de alguma forma, aquela coisa fazia parte de nosso contexto... Será que ela pode ser trocada por outra? – sim, claro, no entanto, apenas ela tinha a sua característica, e, apesar de ser ‘trocável’, fazia parte de um universo relativo – ou seja, poderia se extinguir...

Daí vem a pergunta: que universo é esse? Criado ou incriado? Com certeza criado, para sanar as necessidades humanas, não a do universo incriado – não criado pelos humanos... Se fosse do Incriado, não se acabaria, estaria ali para todo o sempre, e desaparecia de forma relativa, mas sem a compreensão humana, mas universal.


Na Prática



Um dia, em meu escritório, quando imprimi um papel cheio de cores que torneavam uma foto, quando o peguei, percebi que não havia mais tinta na impressora... Fiquei naquela ocasião com vários questionamentos na minha cabeça. Do tipo: a tinta acabou, portanto terei que comprar um novo cartucho; e se não houvesse mais cartuchos, e se não houvesse mais lojas, mais shoppings, mais árvores, mais tudo... Por fim, cheguei a ficar sem mim mesmo. Desapareci da terra e fui parar na necessidade.

Será que tudo se esbarra na necessidade? Necessidade de estar ali, em algum lugar, ainda que não seja para uma eventual necessidade humana. Parei no verme que piso na grama, na barata da cozinha, no bico do pássaro que se alimenta do resto dos dentes do jacaré; subi um pouco e fui até a gaivota que imita os humanos na pescaria, ao jogar seu bico como vara de pescar, puxando o peixe até a margem do rio, beliscando-o até ele, o peixe, virar almoço.

Parei na nossa necessidade de estar vivo. Por quê? Como? Para que estamos andando, respirando, vivendo....? Claro que, no universo, somos de partículas irrisórias e todas elas, por mais semelhantes que sejam, são completamente diferentes! Assim, o ser humano teria que saber que, por mais incrível que nos assemelhamos, cada um tem o seu papel dentro desse cosmos... Mas qual?

“Há vários caminhos, mas só um leva a mim”, como diria Krishina, no Bagavagita, quando Arjuna, o discípulo, perdido no meio da batalha, o questiona acerca de seu papel no Universo. Na realidade, ainda nos vaga essa pergunta, em todos os lugares, em todas as batalhas que lutamos. Arjuna, personagem simbólico, representa a Humanidade perdida entre o céu e a terra, entre o que é perecível e o que eterno – entre o espírito e a matéria...

Na batalha, Arjuna vence, apesar de ir ao encontro de seus valores que se diziam reais, e consegue seguir com outros completamente diferentes, os espirituais. Que valores são esses? Teríamos que navegar na cultura egípcia, celta, maia, grega, romana, e principalmente indiana para conceber tal conceito e responder essa pergunta.

Contudo, o que nos resta é estabelecer sempre contato com questionamentos acerca desse assunto – o que é real e o que não é --, e sermos Arjunas, e na medida do possível encontrar referenciais baseados na natureza, não naquilo que inventamos mesmo que seja para a maior das necessidades...

O Fator Humano

Arjuna – continuando – também digladia consigo mesmo quando fala da morte. Questiona seu mestre, e este abre seu Coração lembrando que a morte não existe. Que todas as coisas vão para onde devem ir, e que sua essência vai ao encontro da grande essência – Deus.

Isso acontece porque o discípulo tem que lutar com todos aqueles que um dia o criaram, amaram e com ele viveram, como amigos, irmãos, pai... Assim somos nós.

Todavia, quanto se trata de pai, mãe, irmãos, amigos... o que é relativo se torna real, pois nossos corações e almas, ainda dentro daquela cultura falha por natureza e ao mesmo tempo bela, sentem suas ausências, tal como fosse parte de nossos corpos, vidas, e universo... do nosso universo.

O fator humano clama explicações à natureza pela dor que nos faz, e ao mesmo tempo ao Tempo que nos dá ânimo para viver mesmo sem eles. Os deuses são realmente necessários! E na busca pelas explicações, nos debruçamos às religiões, partidos, seitas... Sem mesmo consultar a rica Natureza, que, ao nosso redor, nasce, cresce e morre em essência, e se vai em relatividades sem que percebamos... Por tanto dizia Heráclito: “nunca nos banhamos no mesmo rio” – a filosofia já tratava da nossa doença maior !

Tudo se vai...

Assim como o cartucho de tinta que se foi, tudo um dia se vai. Cada um dentro de suas proporções, claro! Não vamos nem comentar então acerca da vida em nosso planeta, do apocalipse, das mortes em excesso, da terra...do sol... da nossa vida...

Acostumar-se com a ideia de que tudo é relativo... que coisa, hein! Não, nem tudo é relativo, pois o que nos faz humanos não é algo relativo, e sim real: o Amor, a Justiça, o Verdadeiro... Isso nuuuuuunca morre.



Ao mestre L.C.

Cartão a um irmão tricolor


E aí, meu querido, como vão as coisas por aí? “Por aí” que eu falo não quer dizer pelas redondezas, não, e sim pelos caminhos cármicos além-vida por onde passas agora. Claro que não podes me dizer, gesticular, me transferir pensamentos... Enfim, apenas a tua imagem bela de irmão saudável pipoca em nossas mentes como forma de comunicação; apenas a imagem de um guerreiro em seus últimos dias no hospital diz-nos o que realmente fora: um servo, um discípulo da luta, tentando nos passar a alegria que o acompanhou durante toda a sua vida... Esse é o maior legado de um homem que passou a vida tendo como espelho seu pai – o velho ‘Piaba’.

Mas, amigão – assim me chamava, então assim o chamo agora – quando se fora (não sei se tu se lembras), o nosso time querido, o Fluminense, tinha conseguido vencer o Coritiba, no campo deles, em uma jornada espetacular que o fez o melhor time de dois mil e nove, ainda que fosse contra o rebaixamento, mas espetacular pelo fato de que não conseguira perder uma partida, em dezessete, e se perdesse um vinte cinco avos de alguma delas, estaríamos hoje presos no mundo desconhecido da maioria: a segunda divisão!

Fomos patriotas de um time, pois fizemos naquele dia, no domingo, em nosso ultimo jogo, o símbolo do clube como a um país. Lutamos, morremos, ressuscitamos, sangramos, renascemos... Foi como se fosse a era dos romanos na qual a vida era sinônimo de batalha, e dentro dela os símbolos como referenciais. A camisa, o escudo; os jogadores, guerreiros imortais, à beira de enlouquecer para que o país não caísse e que seus indivíduos – a torcida – não caísse ou morresse junto.

As “gladiações” até o fim se mostraram cheias de técnicas, de uma qualidade grega; em seus ataques, nem mesmo o conjunto persa poderia se igualar, contudo, foi semelhante à frota grega que o Fluminense percorreu todo o trajeto de seu mar de fúrias, em meio a times fantásticos, cuja destreza em honraria não se toca, porém não tinham a força e a beleza de seu escudo, que os cegava, e às vezes os fazia se entregar antes da partida...

Assim, o nosso time, no ano em que você, meu irmão, se fora, conseguiu se levantar e dar mais uma lição a todos. Pena que não estavas por perto para sentir a beleza dos gols e da juventude de cada ataque... Pena que você se foi.

Hoje, meu querido amigo-irmão, embora ausente, nos lembramos de você como se ainda estivesses aqui, do nosso lado, a torcer feito louco por nosso time. Conheço muitos que torcem, que vão à loucura, mas você era o único que tinha a cara do Fluminense-guerreiro, de jovem, de um ser belo que brilhava ao longe sem ter o sol por perto, assim você era. Todavia, sua estrela se foi, e brilhas sorrindo ao longe em algum lugar e em nosso coração...

E o Fluminense? – vou te contar!
Depois de despedirmos um dos melhores técnicos do campeonato pasado, contratamos um ranzinza, cachorro, mau caráter, contudo de uma disciplina fora do comum. Seu nome Muricy Ramalho; é, aquele mesmo que derrotamos na Libertadores quando técnico do São Paulo, com o gol do Washington, que, esse ano... Pelo amor de Deus! Contratamos também Deco, o luso-jogador, que, após dez anos fora do Brasil fazendo festas na Europa, veio mostrar sua elegância. Trouxemos a pedido o chutador de grama Washington, que fora para o São Paulo, e retornou para chutar o gramado do Maracanã (por isso, em reforma!), mas que nos deu valentia em seu jogo.

Não terminei. Trouxemos da Europa Beletti, ou Delletti !, sei lá... Não sei por quê! De todas as partidas que participou empurrou, caiu, sai, tomou cartão, ficou no banco e pronto. Mas Muricy sabia das coisas...!

De todos os times que estavam no Brasileirão, o Flu foi o único que fez belas contratações a pedido do novo técnico e conseguiu fincar o pé no topo até o fim. Seguido por Corínthias e Cruzeiro, este último com o nosso Cuca, ou ex-nosso como diria Vicente Matheus, comendo pelas beiradas e quase, no fim, levando o caneco. O time de Ronaldo ‘Gorducho’, o menino prodígio da Globo e demais emissoras, veio com os seus cem anos de corrupção e besteirol como o time favorito para vencer a competição. Mesmo assim, com toda a festa, com toda a mídia a favor... Com corrupção à vista e a prazo, saltando os olhos do torcedor, ficaram com o terceiro lugar... Esqueceram que, na ponta, um dos maiores times do século estava despontando de novo, só que agora para vencer o campeonato, não para deixar o rebaixamento... Esse foi o mal da mídia: apoiaram o time errado, novamente...

Com Conca – o melhor centro-esquerda, atacante, meio-campista do planeta – o fluminense acendeu a chama da vitória antes de receber o prêmio. O brilho do argentino cegou todos os outros, em cada passe, em cada drible, e em cada gol. Ele tinha na veia a alma de um jogador brasileiro, a força argentina e a simplicidade de um pequeno mestre. Claro que não fora o único... Temos Mariano, o craque da meia-direita, contratado para a Seleção; na meio-esquerda, Carlinhos, que gosta de partir para cima dos zagueiros; Gum, Leandro Euzébio e o novato Bob, da base do Flu, ricos em sabedoria. Não nos esquecendo do Tartá, que caía na grande área apenas para cravar nosso bendito pênalti... Que mala maravilhoso; Rodriguinho, o atacante que passava por todos, mas que fingia dores quando chegava perto da meia-lua, Washington, o coração valente, que surtava com a bola, todo confuso, semelhante a crianças quando se enrola em fios de telefone.. Mas que merecia todo o respeito por ter sido o grande goleador de dois mil e oito pelo clube.

Havia outros, mas um, apenas um me fazia lembrar de você o tempo todo, meu querido João de Deus. Lembra-se de nossa última conversa por telefone, quando estavas enfermo em São Paulo? Pois é... Mesmo cheio de fios nas narinas, com a voz rouca de tantos remédios e cansaço... Você disse bem baixinho “O Fred vai pegar! O Fred vai pegar”!! – foi a deixa, naquele ano, para que eu nunca mais esquecesse o quanto você era o símbolo das batalhas gloriosas. E Fred, o grande atacante vindo para nos defender em dois mil e oito, não esteve presente em noventa e oito por cento das partidas; entretanto, para lembrar de você, o colocaram nas últimas partidas, “cheio do gás” (quase acabando...!), saltitando feito garoto no meio de índios Guaranis, atormentando a tribo, levando à loucura a torcida tricolor. Ali você estava, meu amigo.

O campo, não o mesmo de antes, era o Engenhão, campo do Botafogo, que botamos fogo a cada jogo, lotado. Nele, bandeiras tricolores com os grandes nomes pediam até mesmo a benção do papa João Paulo II para o time não descarrilar de novo como na copa Libertadores, como na Sul Americana, enfim, não saísse do trilho e caminhasse, como caminhou, com suas próprias pernas...


Vinte e seis anos depois, o Flu, meu querido irmão, não como naquela época, mil novecentos e oitenta e quatro, veio como um furacão cheio de vinganças na veia; cheio de ressentimentos de um passado que o fez descer até a terceirona – ganhando, claro, todos de lá pra cá; mas que, apesar de suas vitórias incontestáveis, sofreu com injustiças advindas de falatórios invejosos; mas o Flu renasce. Faz das injustiças degraus para a sua ascensão e glória, que hoje o fez ser o time estrela guia de todos os outros... Assim, vencemos o Brasileirão, superamos as dores, superamos a nós mesmos...

E nessa festa que se inicia, a lembrança do Flu é a sua lembrança. Em cada esquina, de carro ou não, com a camisa tricolor suja ou não, retrô ou não, iniciamos a era de um novo sol que nasce, agora, com três cores – Tricolor – ardendo de tanto sorrir, obrigando a todos olhar para cima e sentir esse sol, e como tatuagem ficar em nossos corações para sempre – semelhante a você, irmão.


Estamos todos com saudades.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amigos de Plástico

Sabe... Durante anos eu venho percebendo a necessidade de amigos aos homens de boa vontade. Mas apenas de boa vontade. E reais amigos! Porém, até mesmo nesse aspecto, não podemos ser claros, pois estão se formando, no decorrer do tempo, indivíduos capazes de formar “amizades” apenas para compor seu quadro social. Para estes, é um luxo. Para os mais tradicionais, é um lixo...

Não sei se esse fator Amizade faz parte da nossa criação, da educação alçada em preceitos naturais, talvez, mas acredito que não. Somos todos voltados a esse meio em que todos necessitam um do outro. E, dentro desse contexto, há aqueles que se emanam mais que outros, dando início a amizades – duradouras ou não. As duradouras, sempre voltadas a referenciais dignos; as não duráveis ficam sujeitas à reflexão humana...

Mas o que mais (me) nos machuca internamente é que uma das mais dignas formas de humanizar-se – porque não há animais que o façam --; uma das mais nobres e belas arte de se agrupar, sem que haja interferência de terceiros – pelo menos não era; uma das mais necessárias e universais maneira de se viver bem um com os outros... A amizade está sendo levada, como objeto da consecução humana, a compor quadros sociais, assim tal quais bonecos a preencher arquibancadas no lugar de torcedores, como frutas de plástico a preencher fruteiras para enfeite (já percebeu o quanto são belas, brilhantes, e que en-fei-tam a mesa?), está-se criando o amigo de plástico...

Assim estão sendo os caríssimos humanos, solitários, sem amor a si mesmo, portanto sem amor ao próximo. Às vezes, até com amor próprio, mas sem características naturais para encontrar amizades de forma natural... Assim, dentro de seus interesses, buscam trazer ao seu meio aqueles que se interessam por algo que ela – a pessoa que ‘convida’ – não é. E os dois, pelos motivos finitos, não se abrem, se abraçam, mas não amistosamente, não possuem assuntos louváveis das grandes amizades, não se unem, mas sempre estão perto um do outro; são risonhos, mas não possuem alegria; são amigos, mas não possuem a amizade...

Dessa forma, criam-se agendas lotadas de “amigos”, e seus telefones celulares, idem. Porém, não se liga para nenhum. Dezenas e dezenas de ‘amigos’ vão lotando agendas, telefones, estádios, festas, mas apenas um está ali a sua espera para se abrir de coração ou chorar em momentos difíceis. Apenas um deles irá a sua casa e simpatizará com sua família, apenas um amará você semelhante a um irmão. Apenas um verá sua mãe como uma segunda mãe, brincará com seu filho, com se fosse filho dele, apenas um deles terá a sua confiança. Esse é o seu amigo real.

Encontrá-lo não é difícil. Estará a sua espera nas situações mais inusitadas. Estará a sua espera, te admirando de longe, esperando uma conversa para dar inicio a uma longa jornada... E vai te respeitar como a um nobre, ainda que não pareça; fará brincadeiras sem graça, mas irá sempre pedir desculpas, dar-lhe-á um abraço e vai chamá-lo para um almoço na casa dele. Vai chamá-lo de irmão, pedir conselhos, e será uma torre a te observar sempre.

Mas as “frutas de plástico” ganham espaço na mídia, nas primeiras páginas dos jornais, abraçando um senador, uma deputado... um governador. Estes amigos plásticos serão contactados em nome da falta de reais amigos, destes que não se exibem por qualquer coisa, pois chamá-los a se mostrarem em imagens frias é como transformá-los em uma estátua cheia de fezes de pombos. E deste tipo de amizade, o mundo está cheio...

O real amigo escuta e leva consigo ensinamento nossos, ainda que não sejam ensinamentos raros; o amigo de plástico ouve, mas não escuta; fala, mas não a você, e sim a ele mesmo. O real amigo sempre renova sua amizade, o falso amigo, por ser falso, não se interessa em renovar nem mesmo as roupas que veste, quiça suas amizades. O real amigo está prestes a te fazer favores até mesmo debaixo de tempestades; o falso amigo está prestes para te pelas costas e sair correndo. O real amigo pode alçar voos, mas está sempre com os pés no chão; o amigo de plástico é racional, e não sabe a diferença entre céu e terra, por isso flutua no mau-caratismo.

Há inúmeras diferenças nas quais podemos identificar nossos queridos amigos, mas também os não leais amigos. E delas podemos tirar experiências incríveis, como, ao descobrir o não amigo, podemos torná-lo amigo real, algum dia.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Castelos de Areia





Hoje, em meio a uma sociedade que discrimina, que nos separa um do outro como se fôssemos eternos doentes – leprosos (!) – o idoso se vai. Cansado, se arrastando em frente à calçada, na tentativa de ser visto e contar uma história jocosa ou mesmo séria seja para um adulto ou mesmo para um jovem sem rumo, ele vem calado, preso a seu mundo, querendo ser forte e não chorar ao vento...

O mundo é cruel. Nem mesmo os filhos e netos dão mais espaço ao idoso, pelo fato de a grande mídia acelerar o rumo da história e o fazer se perder em sua realidade, esquecendo-se de que, ali, ao seu lado, a história em pessoa claudica, quase se acabando em dores na coluna, no coração... Mas o pior é que a mesma história é uma pessoa e precisa ser ouvida, senão morre e seu castelo desaba em uma praia deserta sem mesmo alguém tê-lo visto, apreciado ou amado... A pior dor é aquela que não há médico para curar.

As ruínas, assim, se fazem. Depois de entender que somos mais cruéis que nazistas uniformizados, não queremos envelhecer. A propaganda maciça em torno do idoso é tão fria e incabível que – para os sensatos – a morte a eles já chegou. A partir do filho, passando pelos netos, família, sociedade, depois governo, observa-se que a há paredões de fuzilamentos metafóricos, nos quais nós mesmos somos o pelotão, com a pior das armas: a tentativa de rejuvenescer com plásticas, cirurgias no corpo, remédios forçosos, enfim, confrontando com a natureza indestrutível, despejando no rosto da vida o ódio de ser idoso esquecido... O ódio e a vergonha de ser velho e com conhecimento em uma era cheia de seres vazios...!

E assim, não há mágoa, nem mesmo uma lágrima. Apenas esquecimento. Como na cultura Iglu, em que os mais velhos, depois de anos, são deixados ao relento... Aqui, a cultura se faz, mas se tratando de Ocidente não temos saída... somos realmente desumanos.

Espelhos

Ao olharmos a espécie humana de forma discriminante, estamos nos vendo em um grande espelho, no qual passamos despercebidos por nossa grande inveja, egoísmo, frialdade (não a inorgânica da terra), e com uma lucidez fora do comum, quer dizer, temos “consciência do que fazemos” (!) e preferimos ser o que (não) somos; alimentar nossos defeitos, levá-los ao jantar à noite, no almoço, no café da manhã, e aos parques junto com os filhos...

Somos realmente insensatos. Preferimos retardar nosso conhecimento e viver uma eterna vida de Hilanders ignóbeis, com nossa alma antiga, a encarar nossas idades e entender que juventude não tem nada a ver com liberdades relativas, mas sim quando temos nosso espírito “banhado de ideais” – como dizia um filósofo.

Mas não é somente a juventude que decrepita ainda mais o homem. É a própria cultura pobre que nos bate à porta com seu cinismo, lembrando do idoso como um ser a ser cultivado com respeito, mas, por trás, a mesma cultura o atropela, o mata, e destrói todas as suas expectativas de vida e morte – nem mesmo a morte o quer, às vezes, pois, em seu leito, demora partir...


Civilização

Mal sabemos nós que, no passado, na longínqua Grécia, na grande Esparta, ser idoso era sinal de conhecimento, divindade. Todos eram tratados como seres divinos que andavam entre os seres normais, pois havia neles tanta juventude, em seu modo de lidar com a vida, em suas doces palavras, que jovens faziam rodas em torno deles, sempre querendo ouvir suas histórias de guerras passadas, de heroísmo, de companheirismo, sempre regadas à filosofia, ou seja, com muita humildade e amor.

Transbordavam contos, mitos, lendas de suas bocas. Seu modo de vestir era tal qual a deuses que transformavam a simplicidade em troféus. Em Esparta, a cada evento esportivo, quando chegavam velhos para a eles assistir, todos se levantavam, aplaudiam, clamavam até aquela criatura doce e ao mesmo tempo forte se sentar.

Na antiga Roma, o senado era feito de senhores anciãos, os quais eram trazidos de famílias nobres, nas quais estes eram como heróis que por disciplina e amor ao país, eram escolhidos para compor o quadro dos grandes homens do senado romano. Não era pouco. O legado desses homens era incomparável. Até mesmo quando Roma era invadida o próprio senado ficava por ultimo, não pela proteção, mas, pelo respeito dos inimigos.

Conta-se uma história que diz que, quando Roma fora invadida pelos bárbaros (de novo!), um dos senadores saiu às ruas para ver a guerra entre os homens. Um dos soldados viu aquele ser fantasticamente vestido, com uma barba branca belíssima, com uma seriedade além do normal em seus olhos, parou, ajoelhou-se vislumbrado, mas fora golpeado pelo senhor que, acima de tudo, era romano.

A Falta de Ideal

A questão, porém, é que fugimos de nossas obrigações tais quais vampiros de cruzes, talvez mais. A velhice mora aí. Na falta de atitudes em relação à própria vida, na falta de objetivos a serem realizados, ainda que estes estejam pertinho de nós; assim, nesse medo de nos depararmos com o mistério da louça lavada, da cama arrumada, das meias enroladas uma nas outras... Percebemos que o maior dos mistérios não é correr à noite, com medo dos traficantes, ou mesmo ir à lua em busca de água, não. Mas ali, em nossa casa, como o cálice do rei que mandara ir atrás dele nas grandes florestas, e que na verdade estava ali, ao seu lado... Ser velho é ter medo de experiências simples, sejam elas quais forem, ou mesmo aquelas que exigem um pouco mais de nós. Ser velho pela idade é acreditar que aquele adolescente que ‘morre’ nos sofá, assistindo à TV, é tão jovem quanto o idoso que dá voltas e voltas de bicicletas no parque, que surfa, que trabalha até altas horas e, no outro dia, nos parece um robô novinho!

Nunca, jamais deveríamos nos reportar a um senhor de idade como se fosse um ser que já terminou seu trabalho na vida, e que já se prepara para a partida final. Tenho a certeza que, partindo desse ponto, estaremos nos enganando sempre... Tudo isso são mistérios naturais pelos quais devemos passar com naturalidade, sem forçar a vida, sem querer ser o que não fomos ou não somos. Um desafio, talvez.

Os mistérios, tais qual o cálice, estão ao nosso redor, loucos para serem desvendados, como crianças que querem brincar de esconder e depois colocar a cabecinha e dizer “achô!”... Querem ser vistos e nos dar mais pistas para novos mistérios, mais, mais e mais... São infindáveis.

De volta ao nosso Século

Olhemos com amor todos eles. Olhemos seu passado, e, a partir dele, sejamos corteses, amigos, irmãos, netos... Sei lá... Mas escutemos o que eles têm a dizer, ainda que sejam coisas simples, bobas, as quais se assemelham a das crianças. Vamos rever nossos conceitos de velhice, de amor ao próximo, de juventude, de humanidade... E se ainda nada em ti modifica, lembre-se: um dia serás um deles. É a lei.






quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Vento Forte

Eu queria fazer um texto em que as pessoas se sentissem bem quando com ele se deparassem com a esperança, com a vontade, com o amor. Um texto que relatasse, sem rodeios, a luta sangrenta, porém glorificada daqueles que saem de casa, beijam a esposa e vão batalhar sob o manto dos ditadores revestidos de capitalistas os quais acreditam, naturalmente, que agem sob o manto de Deus, e que criam leis nas quais o subordinado é a cada dia que anda um escravo assalariado...

Queria dizer nesse texto, se possível, que essas gentes não estão sozinhas, não estão abandonadas ao relento dos poderes pútridos criados somente para fortalecer aquele ditador sorridente, que apanha crianças no colo, que dita o modo de vida do humilde trabalhador... que acredita que entende tudo de solidariedade ao entregar, em mãos, o lixo no final do mês.... Queria dizer que estamos aqui, nós, homens da esperança renovada, formulando um meio em que todos serão respeitados e levados, novamente, à condição de humanos.

Talvez ele – esse ditador – não saiba (ou sim), mas o humilde trabalhador necessita, urgentemente, de ferramentas emotivas, não capitais, não materiais – pois já a temos em demasia. Precisa da comunicação direta, do diálogo quente, no qual as palavras se transformam em armas para o dia a dia, não apenas o teu salário, que compra, que o faz feliz por segundos, e acaba.. Este homem, que representa a grande maioria, precisa ser ouvido, até que suas pobres palavras cheguem ao limite...

Contudo, a cada dia que passamos, nos submetemos à imagens da natureza humana violando um dos preceitos mais básicos de sua existência: a humanidade!... Não apenas em empregos lastimáveis, mas em condições subumanas (!), ou pior... Talvez estejamos em uma época em que somente nela vemos seres disputando comida com urubus, reciclando vermes, consumindo fungos, deixados aos corredores desumanos dos hospitais, pisados em multidões, rodando em mesquitas, explodindo em atentados, jogados nas esquinas...

Talvez eu esteja errado, mas a história, um dia, nos retratou humanos que se preocupavam com humanos, acima de tudo. A prova disso talvez é que, no passado, tivemos grandes mestres nos quais poderíamos confiar e dos seus caminhos partilhar. Todavia, tais mestres se foram e seus resquícios ainda gritam na história tais quais formigas na lua, o que já nos é alentador, pois alguns “iluminados” discípulos tentam, com suas forças, defender, não na teoria, como alguns em cima de uma cama com seu controle remoto, ou mesmo engravatado a falar racionalmente do que é certo e errado, mas com sua vocação em amar o povo, o humilde, o real ser que nos segura a pirâmide colossal dessa sociedade dantesca.

Queria levar essas palavras ao meu pai, que saíra de sua terrinha para se aventurar em um emprego aqui, na Capital; queria homenagear, além dele, todos os milhões de trabalhadores que morreram sorrindo em busca de um cantinho para abastecer seu amor à família – alguns mais heróis que outros, mais fortes que outros, mas todos dentro daquele contexto em que todos – posso dizer – salvaram a nação da falta de história e de moral. Sem eles, não haveria os grandes prédios, as grandes casas, as pequenas, os cantinhos escondidos dos homens de bem... Enfim, estes foram e serão homens com os quais poderemos sempre contar, pois eles nos deixaram ventos que nunca se acabam.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Jovens do Mundo


Vejo nos olhos dos jovens de hoje a refletir a saga, a vontade de viver, correr quarteirões, se envolver na vida a todo custo. Ter amizades com as quais podem se abrir, sorrir, abraçar, cumprimentar de várias maneiras (à americana, quem sabe), cheias de firulas, e, a demonstrar o físico, tatuagens, passar a mão de leve nos cabelos da menina simpática que passa na rua...

E na alma deles...

Vejo a juventude com o sol que nos bate a vitrine pela manhã, a nos dá esperança de um dia melhor. Vejo como um fruto pequeno, simples, de uma árvore bela, com folhas carregadas de um verde forte, e troncos brutos, onde o vento bate e não farfalha, apenas sorri.

Vejo ainda a juventude ao longe, vindo a cavalo – um corcel branco – abraçando a brisa no rosto, pálida, cativa, cheia de aventuras nas veias, ao galope belo em meio aos homens velhos de ideais.

Vejo a montanha ser alcançada em dois passos, sem perigo, sem lágrimas, sem esforços, apenas alcançada pelos jovens que sonham e querem realizar, a todo custo, seu idealismo interno.

Vejo a chuva chegar, molhar a terra, exalar seu cheiro, dar cor e vida a tudo, como a juventude que chega, dá vida, e exala seu cheiro. Todavia, a chuva é passageira, a juventude, não. Ela está em nós, a clamar, como nas histórias antigas, a liberdade de dizer “podemos conseguir”, e levantamos, e almejamos... E Caminhamos!

Assim como heróis do passado, como os grandes generais, como os pequenos exércitos que venceram os grandes, como pequenos injustiçados que viraram grandes homens justos, a juventude brilha em algum lugar de nossa alma, cheia de virtudes e sorri a nossa espera...

Mas no presente...

Esse ainda não é o retrato de uma juventude bela que se encontra em nossos dias, não, não é. Às vezes, para em frente a um computador, tentando bater recordes de permanência na internet, em jogos tecnológicos, nos quais guerras virtuais, brigas e até namoros à distância, é o esporte preferido deles.

Vejo-os no desgaste obscuro dos becos, trocando vidas por drogas. E no mesmo beco, prostituições, ofensas, declínio de gerações que se apegam ao vazio, caindo no fosso frio, na solidão...

Vejo músicas corromperem almas tais quais mordidas de zumbis em shows de sangue ao vivo. Vejo a morte sombrear seu presente em assaltos fúteis, em crimes simples.

Vejo a decadência fértil a cada dia nos olhos dos mandantes, nos interessados pelo estado estático de cada ser que nasce, cresce e morre revolta pelo ensino, pela religião, pelo amor à família ou por uma sociedade melhor.


Vejo a máscara dolorida no rosto dos governos, como máscaras astecas, feias, mas ao contrário destas sem sentimento ou simbologia alguns.

Vejo a estática dos jovens frente ao mundo e sua mudança, a falta de preencher as ruas em um grito uníssono em nome da paz, do amor, da justiça... Não, não há mais.

Na Esperança

Contudo... Enquanto jovem, podemos virar o jogo, ganhá-lo, levantar a taça... Demonstrar que somos livres e dentro dessa liberdade encontrar um meio de voltarmos ao que éramos antes de poluirmos nossas mentes com preguiça, depressões, agressões, corrupções, frialdades que nos consumiram e nos clamam perdedores simplesmente pelo fato de perdermos uma partida...

E depois de vencermos a tudo isso, vivamos em nome do grande espírito belo que roça nossas almas no momento de uma grande poesia, de um belo por do sol, de uma paz silenciosa, na qual até mesmo nossos pensamentos são tráfegos de carros barulhentos, mas, enfim, que podemos pará-los, estacioná-los e ver, de longe, a beirinha do oceano indo e vindo...

E quando isso acontecer, em meio a esse trânsito psicológico, respiramos e continuamos nossa aventura, a aventura de ser jovem.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Brisa do Mal


Em uma conversa bem informal acerca de tudo, com uma colega de trabalho, fiquei pensativo com o que ela me disse sobre um homem que havia cometido um crime e que havia passado quarenta anos preso. Até aí, normal. Mas o que me fez refletir não foi isso, e sim o que ele disse ao sair da cadeia. “Nossa, como as pessoas estão diferentes. Todas andam apressadas, com telefones no ouvido, outras escutando musicas; elas não olham uma para as outras; realmente, muita coisa mudou!”.

Não sei bem se ele disse dessa forma, ou mesmo disse, não sei o nome dele, nem mesmo o crime que cometeu, mas uma coisa é certa: ele foi em cima de uma ferida que assola uma sociedade: a falta de amor, de humanidade, de carinho... Enfim, não necessariamente nessa ordem, ele simplesmente cutucou, com sua voz sóbria, com seu pensamento simples e profundo, o que se revela nas manhãs, nas noites; o que se revela no trabalho, na família, em todos os cantos do planeta onde há seres humanos: o mal que se alastra em forma de violência, de construção de cercas, de desentendimentos, de corrupção...

Tudo isso gera a separatividade – o medo do próprio ser humano. Medo de que sejamos assaltados, ofendidos, falados, presos, injustiçados, barrados, discriminados nos faz passar perto, olhar para cima, para o lado, olhar de viés, de soslaio; com o olhar para baixo... Não há como parar. É uma avalanche fria de natureza metafórica a desabar nos telhados de nossas casas.

A mãe com medo de deixar o filho brincar com o outro por causa da cor dele, ou pelo fato de ser pobre, ou pelo medo de que as crianças gerem conflitos com os quais o vizinho pode querer se intrigar... Medo da falta de educação alheia, na qual a ofensa é estandarte, e até mesmo a própria violência, em voga em qualquer lugar, se situa.

Criou-se depois do medo o pânico. Uma forma de medo maior. Com ela, não se sai de casa e se assiste a vídeos, escutam-se rádios, mas, na mesma casa, não se falam, não se amam, e se odeiam, pois ideias contraditórias geram discussões, e nelas gera-se separação de irmãos, filhos, mães... Pais.

O pânico nos trouxe a dor não partilhada. Não se fala mais em ajudar a pessoa sem que seja “pelo amor de Deus”, caso contrário, não se ajuda a ninguém... O mal está feito. Está lacrado em nossas mentes. E a construção do século da solidão se vê nas mortes organizadas em boates por jovens que desatinam a se drogar, a dançar ritmos frenéticos em nome do nada ou em nome do tudo que lhe acontece na pobre vida rica.

Lá vem o andarilho a pedir uma informação, pois está perdido, todavia vai continuar... o medo nos fez correr apressados, nos fez ter medo daquele homem com aparência sombria, medo do velho, do novo, da criança que carrega algo, pois, a depender de sua cor, pode ser que seja um pequeno ladrão – e então corremos.

Um homem caído no chão. E vai continuar caído. Não há ninguém que possa perguntar o porquê de seu estado, o porquê de ele estar ali caído, em meio a uma multidão tão fria quanto aquela avalanche.

La vai uma senhora atravessando a rua. Pega-se em seu braço. Leva-se uma cotovelada. Vem um palavrão. O medo criado pelo século dos homens maus a fez criteriosa em relação aos seres humanos. Será que estamos cegos?


A televisão nos ajuda a discriminar -- com exceção de raríssimos programas – e propagar esse mal nas ruas e vias por onde passamos; assim somos obrigados a acreditar na imprensa que determinadas cidades estão hiperviolentas e que os bandidos estão tomando conta das sociedades. Até mesmo os bandidos acreditam nisso! E juntando a fome com a vontade de comer, ninguém sai de casa, apenas o malandro a roubar seu carro, a espreitar sua casa; o bandido, a planejar o assalto a prédios, casas; armados até a cintura, a caminhar em morros, em nossa própria rua, graças às manifestações inconscientes de que o mundo é dos bandidos...

Assim, o medo é deflagrado, surtindo efeito até em autoridades que se julgam justas, mas não saem de suas casas com menos de trinta seguranças. Seriam justas, no entanto, se usassem a inteligência e desmistificasse a lenda do bandido que entra e toma facilmente; desmitificasse a lenda de que somos medrosos e que o a arma é o único remédio a uma sociedade presa em seu próprio lar.

E a cada dia, olhar para o próximo fica cada dia mais difícil. Entender suas pretensões, saber o que guarda em seu coração, saber se somos irmãos, e descobrir que temos ideais em comum, fica mais difícil ainda.




A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....