
Quando se abre esse leque, qualquer necessidade extrema se torna uma alegria, uma viagem numa onda semelhante à desses surfistas que fecham os olhos no tubo criado pelas imensas salinas marítimas. Foi mais que uma necessidade, foi filosófico.
Com a idade de dois anos e meio, nada mais do que desorganizar o que se organiza pra ele. É um meio para chamar a atenção. E eu, seu pai, nunca me abaixei tanto para pegar, levar, trazer... Tentando lhe passar que tudo tem o seu devido lugar... E mais tarde, mais crescido, perceberá que não somente os cubos, mas também as esferas, as partículas (como legos ou não) se encaixam em determinados lugares, se formam, viram corpo, alma, universo... Deuses! Enfim, sempre se transformam ainda que não as observamos.
Mas Pedro precisa ser desorganizado. Ele é criança! Precisa adentrar naquele mundo do ‘desencaixe’ e saber o que tem dentro, assim como nós que, um dia crianças, fizemos o mesmo, mas, hoje, desenvolvemos a pesquisa, descobrimos coisas, vivemos em função da verdade que há na vida, e que precisa ser descoberta, ou pelo menos dentro de nossas possibilidades!
Mas o apego fica dentro daquele baú interno, do qual nem mesmo você abre. Lá existe o ursinho, o dragão, o boneco... etc, etc, etc , e você acredita piamente que cresceu, ficou maduro e pode enfrentar o mundo com seus terrores, assassinos, não, não pode.
Um exemplo dessa jornada ao centro de nós mesmos é a animação Toy Story, bem divulgada, vista e revista e elogiada por críticos e não críticos de cinema, na qual o Studio Pixar talhou essa realidade em todos os aspectos, levando-nos a uma viagem interna, na qual apenas você e você sabem da realidade que se passa em seu coração ainda cheio de algemas pelos bens que ainda te deixam criança eterna.
Nela, na trilogia, somos vistos no Woody, no Bus, no Wendy – menino dono dos brinquedos-personagens, dos quais se desenrolam aventuras incríveis, nas quais a tônica maior é o amor, a amizade, o carinho de um Cowboy de brinquedo ao seu dono, além da profundidade com a qual é exposta a emoção do abandono, do apego aos nossos valores arcaicos, dos quais nunca nos desfizemos e jamais o faremos.
No último episódio, há essa separação das algemas e do grande ser humano, quase iniciado, Wendy, talhado em um menino com um pouco pais de dezessete anos, que vai pra faculdade e tem a grande dificuldade em deixar seus brinquedos amados – que, quando criança, levou a sério todas suas aventuras ainda que lúdicas a nosso ver.
Mais uma vez a arte (ou animação) imita a vida.
(volto no próximo texto)



