domingo, 19 de maio de 2013

Meus Sonhos que Nunca se Vão


Meu filho: regando um grande sonho.
 
 
 
Depois de realizar desejos de meus pares – família, esposa e filhos, e de alguns amigos – as vezes me sinto pronto para partir – morrer mesmo... – ir embora, sorridente, no grande caixão (urna como se diz), centro das atenções das quais um dia jamais queria em vida. Apenas realizar sonhos. E hoje, quando preso em minha casa, respirando tão bem, preso a meras obrigações caseiras, faço-me questionamentos do tipo... “será que me realizei também?”..;
É um questionamento natural, daqueles que se fazem quando se levanta bem, pelo menos, umas cinco ou seis vezes por semana... E no meu caso, é raro, pois sou uma caixa de preocupações na qual flutuam do menor ao maior dos casos. E sempre cabe mais quando se nasce com responsabilidades e, com certeza, morre-se com elas.
Nada fortuito, sempre há pedreiras, assim como ondas em rochas; do jeito que se vê, as coisas são em minha vida. Nada fictício, nada romântico ou apaixonante. Assim, sou obrigado a desfazer de meus sonhos, por enquanto, claro, e resolver, esclarecer, trabalhar, de modo a sanar todos os problemas de um mundo que ainda bate em minha porta, e eu os resolvo, esclareço, soluciono e vivo.


 
Resolvendo, volto para o fim de semana lento e agradável, porém, necessariamente fechado, pensativo, ou melhor reflexivo, unindo o que se forma em minha cabeça e as tralhas que colhidas durante a semana... Paro para ler.
Tangenciado pela leitura, encontro nela a face de uma vida forte, viva, cheia de confronto dos quais não devo sair, apenas aprender. Tento trazer toda ela para uma realidade da qual faço parte, dar passos lentos, porém direcionados, fecho os olhos, penso, encontro meios de refazer o que fiz de errado, mas...
É uma parede. Um muro, um edifício. Sou obrigado, assim, dizer a mim mesmo que sou maluco e ao mesmo tempo corajoso, pois não há base para realizar caminhos baseados em premissas teóricas. Mais um erro meu...
Na realidade, há sim; somos humanos, e esquecemos; tratamo-nos como seres que apenas andam e se alegram com momentos rápidos, e esquecemos mais, que há em nós centelhas tão naturais quanto nossas risadas, nossos bons momentos, há a divindade tentando se realizar em algum ponto nosso, dentro, bem dentro de nossas almas. Não é mentira.
E tudo isso pode ser buscado pela leitura clássica, aquela que fala de nós, de maneira profunda, enraizada em preceitos verídicos, ou seja, sem portas de papel, mas ao mesmo tempo, com chaves bem elaboradas, que nos fazem repensar nossas origens, e com isso nos fazer buscadores, ou antes disso pensadores do que somos ou podemos ser. Aqui inicia o sonho deste.
Com o pouco que tenho – sou um mero funcionário público sem a mínima pretensão ascender a cargos, mesmo porque não tenho a mínima intenção de dar ordens a ninguém..., um marido feliz, assim como um pai que espera reeducar-se e passar ao filho a colheita de tudo que plantou, ou apenas um amigo que gosta de estar com os amigos. Tenho meus defeitos, como beber um gole de vinho, quando frio; de cervejas, quando o calor resolve dar os ares de sua amarelice, enfim, após a ida de minha deusa-mãe, não tenho muito o que pensar em fazer, apenas esposa e filhos sintetizam ouros que devo guardar.
Assim, descobri que muitos encontram sentidos, sonhos nas alturas, nas igrejas, nos deuses, ou em suas raízes, das quais se projetam outros e mais outros sonhos. E eu, filho que ficara desolado dos sonhos por muito tempo, acredito, encontrei razão de sonhar e realizar aos poucos o que seres humanos buscam em suas viagens, nas montanhas, em países ricos, em  buscas até mas profundas... a espiritual.
É... Fantástico. Máximas do tipo... “Não precisa viajar para encontrar um lugar tranquilo, idílico, calmo. A própria alma tem esse cantinho, lá dentro”. Não é piada. Sinto-me, aos poucos, como um general que, em meio a artilharias pesadas, lê um livro, e se aprofunda em relação ao seu inimigo. Eu me sinto o próprio Marcus Aurélius, general romano, dono da frase acima.
E quando olho as estrelas da noite, antes de dormir, penso no Nows Platônico, que reside, segundo o autor, acima de nossas almas, e faço minha oração, como um faraó que pede ao grande deus Num, o deus das águas primordiais, proteção a todos...
E nessa calmaria, meus sonhos vão se realizando, tornando-se mais fortes, pronto para resolver e realizar outros.



 

 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vencer sempre



Meu filho. Vencedor.


O Primeiro Passo


Vencer, subir ao pódio, levitar no céu após um primeiro lugar, sentir parte de um grupo que vibra, ama, se esbaldeia  de sentimentos além-razão.  Gargalhar. Talvez, desde que o homem é homem, a meta seja essa, ganhar, vencer, estar em primeiro lugar, ou romper barreiras. É o céu emocional.

Quando uma criança inicia seu processo de fala, em pequenas palavras que no deixam sem... Palavras; ou em seus primeiros movimentos em terra firme, ao engatinhar, e, no mais tardar, a harmonia entre suas pernas, consciência, gerando equilíbrio. É o caminhar. Aqui, a vitória é nata até certo ponto, pois sabemos que  mais cedo ou mais tarde cada individuo vai buscar esse novo processo, vai tentar buscar seus simples objetivos, suas pequenas metas...

Assim, estar de pé, preencher o chão com o peito dos pezinhos, sem se segurar em nada, é como conseguir vencer a primeira batalha natural, mas mesmo assim comemoramos e viramos foco de um momento eterno. O de andar.

Mas por que vibramos tanto pelo fato de um filho saber andar, ainda que saibamos que é uma consequência mais que natural na vida humana, animal, etc? Andar, com certeza, não deveria ser um momento glorioso, mas o é pelo fato de nós, humanos, já visualizarmos o futuro, que nos exige a mobilidade principal para poder compreendê-lo...

Andar significa, assim, não somente colocar os pés no chão, mas saber, por si próprio, ir atrás de seus objetivos – com raríssimas exceções --, os quais nos faz andar física e espiritualmente, onde quer que estejamos, seja qual for a raça, a etnia, a cor, o porte, a vantagem financeira...

Significa muito mais. É por isso que festas são feitas quando damos o primeiro passo.

A Dúvida do Vencer

Vencer, a depender de certos indivíduos, é sair da cama, sem qualquer sequela do dia anterior. É mais, é vencer aquele amigo que se diz amigo, o que na realidade é o seu pior inimigo; e quando vencemos as dúvidas quanto ao que ele é, vencemos de novo. Portanto, vencer, aqui, nos faz entrar no campo relativo, tanto que psicólogos há que chegam a elevar o moral do paciente dizendo “Você é um vencedor por natureza, veja bem, você conseguiu, entre milhões de espermatozoides, adentrar no óvulo, que por sua vez encarregou-se de te abrigar e fazer o que hoje temos aqui, você...!” – é de matar, não é?

Não sei, mas há psicólogos que se transformam em humoristas e humoristas que se formam em psicologia! Mas uma coisa eu sei, ao passo que nos reconhecemos como indivíduos que possuem leis internas e a elas devemos respeitar, somos mais que simples humanos, na tentativa eloquente em conseguir, seja no ato de andar, falar, chegar em primeiro em corridas, em nascer... Pois todos os seres, de alguma forma, andam, falam (ou não), ou simplesmente fazem gestos, o que não deixa de ser uma vitória...

Porém, há de convir, temos nos preparado com pequenas vitórias, mesmo que sejam no passar de um concurso, de um vestibular, ou antes na consecução de um emprego, o que não nos faz mais humanos do que aquele que ficou para trás. Aqui a meta de ser ou não ser vai depender e muito daquele que a persegue, pois, em cada caminhada, somos obrigados a nos deparar com circunstâncias relativas e ao mesmo tempo “meio iniciáticas”, porque nos põem a provas, às vezes, fora do comum!

E o homem, com a consciência na matéria e ao mesmo tempo no céu – como um Arjuna eterno –, vai encarar tudo isso como ajuda ou perseguição de alguma entidade que o observa de longe e lhe dá apoio ou não. O homem, fruto de suas emoções e desejos, assim, claudicará todas as vezes que triunfar, pois as divindades, como ele mesmo acredita, estarão de olhos em seus gestos e fala...

A relatividade, nesse campo, destrói o ser humano. Pois ele nunca vai saber se foi ele ou Aquele que mora no Terceiro Andar o responsável pela sua vitória. E a dúvida vai morrer com ele...

Na realidade, as vitórias humanas, quando me refiro a pequenos e grandes atos, são junções entre sua personalidade voltada à matéria ou ao céu e seu físico. Com exceção daqueles que não podem caminhar ou realizar, por si mesmos, seus atos. Estes são tão vitoriosos quanto muitos, pois realizam feitos simbólicos em cada ato, que representam, para nós, a força e a maestria em saber lidar consigo mesmo, rendendo lágrimas aos que a eles presenciam...

Pódios

As Olimpíadas são tão antigas quanto às estátuas gregas, que reluzem a arte nas ruas daquela cidade. Sabemos também que os jogos olímpicos foram realizados com a finalidade de unir as nações, em guerras ou não, em homenagem às divindades, principalmente aos deuses Olympus, Ares, Athenas, os quais faziam parte das culturas partícipes das civilizações em guerra.

Nelas – nas Olimpíadas – as provas eram mais especificas, ao mesmo tempo sem muita competição. O que mais importava era realizá-las, voltar ao seu país e preparar-se para a guerra. Os deuses em primeiro lugar, claro.

Hoje, após milhares de anos, o que mais importa é o pódio, ligeiramente escondido em nossas subconsciências, juntamente com a medalha, desfazendo a raiz que a tanto deu frutos no passado. Nos desligamos dos nossos reais objetivos: ser o que somos.

Ao entrar na arena, ao arremessar seu dardo, ao vencer uma luta, o homem do passado o fazia pelo ideal grego de religar-se com suas origens, tão profundas quanto o próprio homem. Fazia pelos deuses, que estavam fora e dentro daqueles corações e alma. Por isso, a irrelevância em fazer guerras quando os jogos iniciavam, mas, depois deles, a real guerra, aquela que viria com um só proposito, organizar o mundo, não desorganizá-lo.

Vencer

Aquela criança que aprendera a andar, que iniciara sua fala, que passou por trajetórias, simples, porém tão simbólicas quanto sua natureza, talvez nos mostre a essência do vencer de hoje, pois o que nos interessa – aqui agora – é ascender a cargos além de nossa capacidade de competência, pelo simples fato de estarmos bem aos olhos (e interesse) de terceiros, não aos nossos.

Vencer, para mim, nada mais é que acordar e sentir que estou participando de um grande mistério advindo de uma grande inteligência, que nos ordena, nos trazendo ao caminho perdido, revelando (e velando), com suas fórmulas metafísicas (para além de nossas compreensões), o que podemos ser em cada passo nosso de cada dia.

É, ainda, olhar nos olhos da vida e entender que somos passivos de morte, de sorte, de amor e ódio; vencer e ser vencedor é entender que ainda há preconceitos, e que a maioria, em mim, já se foi, como água em ribeirão. Mas a consciência da vitória não existe apenas para em reconhecer, e sim e transcender defeitos e problemas enfrentando-os sem medo, de modo a extingui-los um dia. Se não há como extingui-los, saber que vencê-los é harmonizá-los, não deixando de ser, no entanto, você mesmo.

Vencer é mais que subir em pódios, ganhar medalhas. É acreditar que o real pódio e a real medalha são invisíveis aos nossos olhos, e que nos fazem emotivos na medida que vemos uma criança nascer, crescer, formar-se, é ver uma mãe sorrir, um amigo cantar... Vencer é estar vivo e entender o porquê.







Ao Meu Filho. Vencedor.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Festa no Céu: a hora da chegada.


Rosas que amava.




Rose, que a amava.





E o paraíso estava em festa, com anjos e arcanjos de todos os níveis de graduação das escolas de Deus, dançando músicas angelicais, naturalmente, tocadas  pelos Anjos da Lei, o conjunto do momento, que elevava a alma com seus pianos, arpas, violoncelos e violinos demasiadamente afinados.

Em meio àquela bagunça divina, todos se conversavam, colocando o papo em dia, principalmente para receber a mãe que, um dia, chegara à perfeição humana. O diálogo era intenso, e os anjinhos mais espertos voavam em direção ao portal apenas para saber se ela estava já nas imediações... Mas nada. E voltavam para a festa.

A indignação começava a fazer parte do salão, que, desde cedo, se preparava para o grande evento, no qual haveria discursos, eventos nos quais meninos anjos, vestidos de palhacinhos, senhores contadores de histórias, fogueiras santas acesas, enfim... Tudo para abraçar a mais bela de todas, a mais simples, a mais divina mãe.

Sabendo que tudo iria demorar, os Anjos da Lei resolveram tocar uma melodia mais dançante, ao ponto de fazer todos ficarem mais descontraídos. E deu certo. No entanto, passadas as horas, um dos preparadores da festa, o anjo Felício, foi até o palco da banda e improvisou um discurso... Antes, porém, pediu a atenção de todos.

“Meus queridos, sei que o quanto todos estão felizes por rever seus amigos anjos, irmãos anjos, e relembrar o tanto que trabalhamos em prol de uma vida melhor aos humanos. Sei também que somos pequenos, com asas grandes, e grandes com espirito pequeno, e belos, com a certeza de que somos grandes”  -- nem ele sabia o que estava dizendo – “bem, como diria o  mais enigmático ser, ‘é mistério’...”

Depois disso, acrescentou o que todos esperavam... “Estamos, claro, por receber uma das mais incríveis pessoas que tivemos na história da humanidade, uma beleza em todos os sentidos. Posso ser exagerado? Claro que sim, pois ela está acima de nós em qualidade, em força e fé, em sacralidade, em tudo!... E, digo mais: não sou digno de estar aqui em falar dela, expor o que ela é, desde que nascera, pois seus atos de humanidade, desde pequena, foram voltados ao próximo, e nunca, jamais pensara em si mesma!” – nesse minuto, alguns anjos choravam copiosamente, e a banda, que ainda tocava baixinho, deixara de mão seus instrumentos, para ouvir Felício...

Assim continuou... “Não, amigos, até mesmo eu, quando humano, não fui tão humano quanto ela, e estou aqui, com essas asas tão alvas e quentes que às vezes me falta ar pela beleza que são. Porém, sem asas, apenas com duas pernas e braços, sem mesmo pensar em suas dificuldades, com uma consciência voltada ao grande Espírito, a Deus, essa mulher maravilhosa nos faz parecer apenas pequenos seres alados, desnorteados, ainda que nossos objetivos sejam os mesmos, ajudar os humanos”... – Alguns queriam se pronunciar, no entanto, Felício fez não com um gesto... “... Amigos, irmãos, ela ajudou mais pessoas em vida do que todos nós juntos!”...

Um copo caiu. No mesmo instante, uma empregada alada, em forma de beldade, passara voando e pegou o lixo e levou até o reciclador... E continuou o anjo: “Hoje, em nome do Grandíssimo, que nos deixou fazer essa recepção, quero que vocês reflitam. Pensem mesmo, lá no fundo de seus corações, será que somos dignos de receber essa criatura que se iguala ao mais lindo pôr do sol, a mais bela cachoeira grisalha escondida nas matas? Uma criatura que só se assemelha a si própria, pois até as estrelas em céu limpo de nuvens  não passam de pontos em um tecido escuro?... Não, não somos dignos. Mesmo assim – lacrimejou – vou dizer a ela que estamos a sua disposição, ainda que saibamos que, como ela é, com certeza vai querer viver do trabalho, do comando, da alegria, da paz, da vida... mas sempre nos ajudando a ser mais anjos.”

Quando terminara, a maioria, pelo menos mais de quientos anjos participantes, estavam eretos, porém com o coração firme, ao passo emocionado, e como pediu o anjo orador, reflexivos. Mas a festa estava por terminar antes de começar... Um anjo em forma de mensageiro, se esguiava no meio de todos, pedindo passagem, com uma carta na mão.

“Manu?...”, disse Felício ao anjinho apressado, “o que você nos traz, agora, nessa hora tão singular?”... Ele olhou para o andar de cima, indicando que a Carta teria sido enviada pelo Grandíssimo, que morava lá no alto. Pegando a carta, Felício olhava para todos como se estivesse espantado pelo Ato. Passou a carta para o anjo abridor de cartas, o qual, por coincidência, estava lá perto... “Agora, dê-me isso aqui, Berto!”, já com raiva da morosidade do anjinho...

Num gesto fora do comum, o anjo Felício pegou a carta, levou-a aos olhos bem perto, colocou seus óculos, e sorriu. Pedindo silêncio, ele disse “Gente, o que vou ler aqui e agora, eu gostaria que todos prestassem bastante atenção...”...


A Carta...

“Filhos meus, por meio dessa carta, sagradas palavras serão ditas, e queria que vos prestassem atenção: a festa que fizeram foi de agrado a este que vos fala; porém, tenho que expor-lhes minha felicidade, antes de tudo, em receber esse ser humano de que tanto falam, e com certeza falarão durante muito tempo. Uma mulher, talvez um rótulo vazio comparado ao que quero dizer, por isso, Eu, como criador, tenho a liberdade de chama-la Ser Divino, pois o que fizera em prol do humano, dos não humanos, além de tornar melhor a vida ao seu redor, e por onde quer que passasse, não a faz apenas ser humano, mas acima disso...

E mais, não sei o quanto queriam que ela estivesse aí, em vossa festa, após sua partida da terra, no entanto, vos digo, ela já está aqui comigo, a descansar o sono dos melhores anjos, e em respeito a ela, vos peço compreensão.

Assinado: Deus”








Feliz Dias das Mães a todas as mães!!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Fagulhas de Lembranças (iii): A bronca da professora gostosa.


Broncas de professores: como nos são uteis!




Eu ainda era imaturo, chegando a ser desinformado, tristemente desinformado. Parecia mais um cãozinho que havia caído no meio de uma sala de aula, esperando que alguém adotasse minha amizade. Era terrível. Ser sensível demais em uma época em que todos precisam ser duros, era o fim no inicio, ou melhor, talvez fosse o inicio do fim...


Mas só transparecia na realidade, pois hoje, com... q... anos, percebo o quanto foi necessário tudo aquilo, como diria a música de Oswaldo Montenegro, sem “aquela coisa toda”, eu jamais teria sido o que sou hoje, um aluno, quase mestre no que faço... Só não perguntem o que faço, pois não sei rs.

Na realidade, hoje, sou formado, pós-graduado, e possuo especialização em Língua Portuguesa, pela Universidade de Brasília. Mas nada me faz esquecer o dia em que a gostosa professora quase me bateu quando descobriu que eu citava adjetivos sem ajuda dos exemplos que ela havia dado nos livros... É, meu amigo, foi a época da humilhação!

Em sala, com idades de dez a doze anos, a maioria homens, uma professora morena, com a superfície traseira maior que a porta da sala, parecendo mais um contrafilé ambulante, descontratava completamente de seu aspecto psicológico...

Quando entrava, olhávamos para ela, abaixávamos a cabeça, sorriamos, baixinho claro, dávamos um toque no parceiro ao lado que fazia firulas, obrigado a cessar no mesmo instante, e rezar. A infeliz nos dava medo, e ao mesmo tempo tesão... Coisa de adolescente, né?

Quando a infeliz faltava (quase nunca), não sabíamos o que sentir: alivio ou dor... Na realidade, era mais alivio, e eu, dor. Até que um dia...

Abram o caderno, escrevam vários adjetivos, depois me falem o que escreveram!”, isso da maneira mais sutil possível, só se igualando a um general de despedindo da tropa. E fizemos, e passamos horas com cadernos abertos, mesmo porque o exercício era fácil, e não tínhamos o que temos dessa vez.

Quero que todos, agora, falem, um por um, o que colocaram!”... Disse a gostosona-morena, com cintura de Brigite Bardôt, e língua de João Figueiredo (ultimo presidente ditador do Brasil, que mandava bater e arrebentar tudo e a todos), enfim, o fizemos...

O medo só se comparava a de um filme de terror moderno. Desde o primeiro aluno, ao último, a infeliz queria saber se este tinha feito o dever. E mais, todos os adjetivos tinham que ser diferentes um do outro, senão, acredite, a infeliz diria que estaríamos copiando um do outro, não importando a distância do colega...

Era um exercício fácil, e ao mesmo tempo louco. Pois, se o seu dever ficasse quase igual ao do outro lá na frente... Considerar-se-ia mortinho da silva. E eu morri. Não por te copiado, mas, por um detalhe, por  achar – coisa que não podia na ditadura – que meus adjetivos estavam fracos, fechei meu caderno e iniciei meu processo de mumificação... Ou seja, quando a gostosa me pediu para falar os meus... fechei o caderno, sorri para ela – coisa que não podia também, e num ato puro, quase angelical, comecei a falar outros além dos do caderno...Foi a morte.

O que você está fazendo, rapazinho!!”, naquele instante, urinei duas vezes na calça, isso em menos de um segundo. “Quem mandou você fechar o cadernoooooo!!!!”, “Tá pensando o quê????”... – mais uma mijada... sentei-me, chorando intempestivamente, loucamente, tristemente... e haja mente depois disso.

Após o show dos horrores, a cretina ficou pálida por me ver chorar. Todos olharam o rostinho dela, que, apesar de lindo, era do demônio... Foi, para ela, o fim. Depois de meu choro, que levou a todos a tristeza inconteste, fiquei para o fim da aula, para uma conversinha, tipo face a face.... E meu medo aumentou...

Porém, descobri que por trás da infeliz, além daquele enorme bum-bum, havia um coração (no bum-bum, acredito!... ), e se mostrou apenas entre duas pessoas, eu e ela. Constrangida pelo que fez, me vendo com ódio em lagrimas, tocou em meu ombro e disse “desculpe-me, não achei que você fosse tão sensível...”...Acho que nem o exterminador do futuro seria menos!...

E saiu. Eu, com os olhos vermelhos, ensanguentados de choro, com dor no fígado e coração (principalmente...), olhava de soslaio aquele ser que possuía uma beleza anormal, uma bund... anormal, mas também uma fúria que jamais esqueci.

E depois de anos, hoje penso: como eu amava aquela infeliz!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Fagulhas de Lembranças (ii): o banho demorado.

"Quando quero tudo, tenho tudo; quando não tenho nada, sou livre" F. Pessoa.


Meu filho: Livre




Nossos pensamentos, para mim, devem sempre ser presos a referencias seguros, no quais possamos ter uma esperança de paz, aqui dentro do coração. Buscar empobrecer nossas almas com pensamentos tolos prejudica nossas mentes, coração, alma... Tudo. Não há como fugir. Para isso há provas de que há mais pessoas em hospitais em razão de seus problemas emocionais (diversos) do que meramente físicos.

Alimentar nosso eu personalístico, travar lutas constantes entre o bem e o mal, saber identificar o mal, afastá-lo, jogar-se em idealismos, em ideais, ser um pouco divino. Essa é a nossa tônica. Tudo depende apenas de nós, desse que lhes fala, daquele para quem falo, não de seres metafísicos, ou esotéricos, como 
Deus e o Diabo...

E quando relembro minha infância, penso apenas em recordações livres de empecilhos cármicos, da violência porque passei, das dores em, um dia, ter me submetido a coisas indizíveis. Poderia, mas não vou...
E para isso, elencarei, em nome de minha mãe, algumas recordações de uma memória que, querendo ou não, estão por se apagar em breve, pois a idade, essa sombra que nos segue, revela, discretamente, que devemos deixar alguns legados escritos, caso contrário não teremos nada mais para nos lembrar, pois tudo, um dia, se apagará...

O Banho Demorado da Infância...

Minha família estava completa. Minha mãe, irmãos e irmãs, todos eles sem filhos, sem filhos com filhos, sem preocupações modernas, como a de celulares, computadores, etc..., tudo era na base do diálogo, pobre, mas enraizado nos mais severos princípios familiares e respeitosos, o que nos dava mais união àquela época.
Eu, um mero coadjuvante em meio a irmãos que só pensavam em ir a bailes com calças boca de sino, não compreendia uma palavra deles – a pureza fazia parte de mim, como uma pétala o fazia para a rosa. Não estava muito para a vida, para as responsabilidades, para nada... Eu tinha uns sete anos de idade...

Idade linda, da qual posso dizer que fora uma das melhores de minha vida, e tenho a certeza de que para muitos também, pois se sofria menos (ou nada) em relação às crianças da mesma idade de hoje, que são obrigadas a voltar para casa às seis da tarde, sentarem frente à TV, jantar assistindo ao desenho favorito, e curtir o celular...

Em minha época, além dos meus vícios, que atualmente se confundem com virtude, eu tinha, intuitivamente, meus deveres, sem que mães ou pais me dissessem o que fazer e onde. Depois, lia um livro, fazia meus deveres de casa, assim que eu chegava do colégio, tomava banho até ficar branco!

E foi nessa época que me ocorreu um algo do qual nunca irei esquecer... De um banho, no quintal de minha casa de madeira. Quintal largo, onde se plantava tudo, colhia-se tudo, e ali estava eu a olhar para o sol, sentado em uma pequena bacia, com água bem geladinha, colocada por minha mãe, tomando meu banho. Aqui, não sei como, tive pensando... foi uma das últimas vezes que me senti tão livre. Eu cantava com minha voz de criança, bem alto, uma canção desconhecida, sujava a água, e um tanto quanto esquelético, sorria para o mundo ao meu redor: todo ele, o meu milharal, meus pés de goiabas, de bananeiras, em um chão de barro que se esticava até o fogão de lenha de minha mãe...

E o tempo passava, e se ía, e ía... enquanto “passavam, eu passarinhava” rs. O mundo desabava, caia em complexidades mil; se arrastava em Vietnãs, em comunismos, em capitalismos frios, em mortes de estudantes, em universidades invadidas... E eu, em meu banho demorado, vivia o melhor dos sistemas,  a paz que tanto buscavam lá fora.

E foram horas e mais horas, quando o sol começou a arder. De repente, minha mãe se lembrou de mim, pegou-me, levou-me ao quarto, trocou-me para o colégio, e entre durezas doces, fez-me ir para a escola que me esperava depois de horas iniciada! Foi belo.

Quando cheguei à escola, com cabeça baixa, entrei na minha humilde sala, lotada, e talvez por isso não me perceberam, de modo que me sentei e, sem professora naquele instante, pude olhar a todos, com sorriso nos lábios, e pegar com eu amigo do lado o que estava sendo dado até minha tímida chegada...

A professora? Para ela, eu era apenas mais um. Já que eu não tinha esse vicio de entrar depois de iniciar a aula, não me falara nada quando me viu. Acho que até me deu um breve sorriso rs.

Aprendizado...

A liberdade que senti era tanta, que até hoje, quando me lembro, sinto minha alma um pouco mais leve.  Talvez porque meus compromissos atuais me façam pesados ao ponto de eu tentar, no passado, por meio de figuras, ações, aventuras sadias, algo que é tão difícil hoje quando encontrar goiaba em pés de manga.

Porém sinto que a pureza que me havia tomado, naquele dia, não era a de outros quando antes era mais consciente. A liberdade seria um ato inconsciente advinda de nossos mais íntimos sentidos? Talvez um ato involuntário, um sentimento sem sentir consciente?... Uma percepção pós-consciência? Não... acredito que não.

Acredito que seja mais uma questão de ser ou não ser, como diria Shakespeare . Se sou um pássaro, tenho minha liberdade apenas dentro que sou, um pássaro, ou dentro do âmbito mais profundo do que temos sobre aves... O que nos faz, com certeza, ser mais introspectos e dizer “da ideia de ave”, como diria Platão. Ou como diria Aristóteles, depende da Fôrma...!

Mas sou humano, e quando mergulho em mim, encontro a pureza inconsciente, involuntariamente, sou livre. Livre das amarras racionalistas acerca do que é ou não é; amarras físicas, emocionais, psicológicas, históricas e prefiro, sem saber, viver em função do que sou.

Hoje, quando tomo meu banho, sinto uma água fria me tomar o corpo, mas à medida que cai ao chão, em segundo, lembro-me de coisas que me preocupam, de pessoas por quem sou responsável, da família que criei, do amor forte que plantei, do aprendizado do dia a dia...

Assim, fica apenas a saudade de uma liberdade que tive, um dia, assemelhando-me ao sol, ao vento e à chuva.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fagulhas de Lembranças (i)

"Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te."

Shakespeare





Mães que se unem: o mundo está salvo.



Não adianta, minha querida, não vô-la esquecer-te jamais. Teus olhos caídos, teu andado lento, teus cabelos grisalhos, tua fortaleza viva, tua voz, sorriso... Um manancial de conhecimentos dos quais minha vida retira todos os dias, mesmo depois de um ano que se fora, toda força e fé, todo amor e dedicação, todo ar que respiro. E, a depender de mim, estarás estampada no quadro de minha alma eternamente.

Eu...    
                                         
Não sei se fui um bom filho, mesmo porque me dera toda educação advinda de suas raízes, nas quais o homem era (e sempre foi) o mais inteligente, o mais forte, e o conhecedor maior de Deus, pois no livro sagrado, ao citar a máxima “E Deus o fez à sua semelhança”, trouxe à tona, como em tradições que se fizeram em cima de literalidade dos símbolos, a falácia de ver o Senhor em terra, ou sua imagem.

Mas, como saber se tínhamos a inteligência e a força necessária se ela, a grande gladiadora do presente, com toda sua energia, se levantava, com ou sem dores, nos fazia por os pés no chão cheios de raiva e ao mesmo tempo cheios de humor...! Como? Uma pessoa que resolvia todos os conflitos, não só nossos, como os dos amigos e amigas, por intermédios de conselhos, de broncas, e se fosse possível levantaria no meio da noite, só para saber se aquele filho, com mais de quarenta anos, estaria bem ou não?... Não sei se temos a mesma força e inteligência.

Coisas de mãe? Talvez.

Não seria triste se generalizássemos tais atos a dizer “É assim mesmo?”, ou “É coisa de mãe!”... para mim, não somente é como também vos digo “é coisa de alguém que nunca mais existirá no mundo inteiro”, pois atravessamos o oceano do modernismo, no qual mães e pais se digladiam feitos inimigos em nome de uma educação fria, cheia de riscos, e medos.

A tradição arcaica, ainda que houvesse seus defeitos, nos trouxe uma pessoa cuja grandeza, a meu ver, só se compara a das grandes rainhas, cujo cetro invisível baila na mão direita, na qual homens e mulheres observam aficionados a espera de um comando...

Uma rainha de modos simples, que se misturavam aos mais complexos, os quais no momento em que se sentia mal por causa de uma derrota, dizia... “Levanta, levanta, tá na hora de levantar!” – sem um resquício do que tínhamos sofrido no inicio do problema... E levantávamos.

Uma Senhora que educava não sutilmente, e em cada palavra a tentativa de ver sua cria bem cuidada... “Já tomou café?”, “Já almoçou?”... E se a resposta fosse negativa, lá vinha, com suas mãos flácidas e ossos fortes, a xícara ou o prato maravilhosos, com o melhor do café ou do almoço, fosse improvisado ou não.

Talvez um ato simples, mas se perde quando em uma roda de conversas percebe-se que há pensamentos de mulheres contra e ao mesmo tempo levemente discriminosos em relação ao que se deve uma mulher fazer aos seus filhos ou marido.

A tradição arcaica, mesmo que ainda sejamos preconceituosos em relação a ela, nos trouxe a certeza de servir aos membros da família e de todos, não a dúvida acerca do que podemos ou não fazer, do que somos ou não. Isso nos faz um passo atrás de um conhecimento que nem mesmo o era, e nos faz crianças choronas sem destino.

Hoje, as rainhas estão se indo. Não mais há nas vias da vida, a servir com amor e vontade, pois o amor saiu de moda e deu lugar ao ecletismo, ao feminismo que se sobrepuja ao que realmente as mulheres podem fazer ao próximo. O machismo, em sua triste desinformação, vê isso como o pico da realidade: o de ser servido.

Porém, não se sabe que o universo é feito de ações e reações, dentro das quais somos inseridos. E quando uma mulher doa seu coração em um ato, deve o homem dar-lhe com mais coração ainda em um segundo ato, o amor. Pois, em verdade vos digo, se não deres o amor à pessoa que o ama de todo coração, não vales a pena, pois tua alma é pequena...

E ao buscar compreender essa alma imensa, dessa senhora que nos atribuiu toda sua paz e vida, fico perdido, pois não consigo compreender a profundidade dessa humanidade, ainda que tento, nos meus dias solitários, na busca mais que intrínseca, mais que divina... Não consigo, porque não sou nem mesmo a fagulha de sua sombra, minha querida e divina mãe.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Homicida




Fim do mundo: primeiro no homem.





E o homem se predispõe à baixeza, e vai ao fundo do fosso; sorri. Prova da angústia fria de seu instinto na lama, não se lembra do beijo da mulher na cama, do abraço do filho, e mastiga a dor sem saber, e só o faz pelo desamor que o instiga, na briga, de um presente passado.

Esmagado pelas palavras que um dia se foram como larvas. E cai. Não sabe a fundura de tua ignorância e da lambança que fez. Pois morreu em pernas e braços, em alma e espirito. Se não... Falece nas trevas de tua consciência, que deixara de existir ao passo de seu andar claudicante, trôpego, pesado, bêbado...

Não foge, porém, de si mesmo. Esmaga pensamentos de vida, pois dela não quer saber. Precisa de ajuda, e chora, esperneia, torna-se sangue, sujando as paredes de seu quarto consciente, ao mesmo tempo olha para a tampa do céu, ainda azulada da manhã que se está indo, e clama a um deus que nele não acredita, pois se deixou esvair todas as possibilidades de humanidade...

Acabou. Enterrou-se nele mesmo. Não há nem mesmo terra para se enterrar, porém. Foram destruídas pelo veneno que criou, pelos frutos frios dos quais todos comeram, e quase por ele se foram. Nada, agora, pode soar como esperança... Ela se foi.

Jardins queimados pelos olhares de desprezo, florestas inteiras de paz foram queimadas com o fogo do ódio da guerra fria. Não destruíra ninguém. Apenas zumbis perambulando com fome, a pedir esmolas ao nada, que, antes de tudo, tem menos ainda.

Dizer adeus ao que ainda permanece é lutar contra um gigante que come cérebros e pretensões humanas, ou alimentar a pobreza que permanece rica, no solo, no ar, tanto como o sol negro, como nuvens que já se foram.


E o homem pragueja a si mesmo, e não tem mais o que dizer. Seus cabelos caídos pela violência de suas mãos que o maltratam, cobrem um chão formando um tapete ridículo, grisalho, a mostrar sua sombra tenra, que nasce e morre, como ele.

Adeus, homem, não há mais saída. Homicida de esperanças, agora encarna a si mesmo, reencarna em si próprio, desfaz desejos, vontades, eloquências, racionalismos, fé... Pois o Deus que a tanto para ti olhava, não estava tão longe de sua face, de seu corpo, mente e alma. Estava adjunto de seus atos mais belos, que se esvaíram na incerteza de seu egoísmo, interesse e desamor.

Deus sobrevive, no entanto, aqui e agora. Mas você também o matara quando olhara a incerteza entre o que eras e o que não eras.  E preferiu a morte, a falta de vida, o vegetar em edifícios, a falsidade em família, o desprezo quando tinhas todos ao seu lado.

Não há mais pegadas, como aquele poema da areia. O tempo e o vento as apagarão. E você será apenas mais um átomo que iniciou, um dia, o princípio de um sonho. E com você, todo o universo se vai.

Adeus.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....