quarta-feira, 22 de maio de 2013

Em Busca de Grandes Homens (fim).


Uma lenda viva.




Para quem assistiu ao filme “Invictos”, com Mat Damon, um jogador derugbi, e Morgan Freeman, como o presidente recém-empossado da África do Sul, Nelson Mandela, sentiu a necessidade de tirar algo, um algo maior que o próprio filme. Apenas em duas ocasiões, no entanto, pude perceber que o autor do filme conseguiu fazer com que a vida do grande líder Africano fosse entendida... E intuída.

Quando o jogador, branco, líder de seu time, olhava pela janela de sua casa, com aquele ar pensativo, sua namorada o perguntara... “Estás pensando na partida de amanhã?”... Eis que ele responde... “Não... Não estou. A partida pode se ganhar ou perder. O que penso agora é no que eu ouvi ele (Mandela) dizer, depois de vinte sete anos encarcerado injustamente, sob os grilhões dos homens que o prenderam: ‘eu perdoo todos eles’”. A outra cena, quando todos, negros e brancos, pela primeira vez, se juntam, em uma integração, promovida pelo esporte...

Mandela era mais que isso, ou se tornou maior que seu idealismo que fora ponte para a consecução de sua luta contra o apartaide – regime de restrição naquele país na década de setenta e oitenta --, sobressaindo-se acima de valores que eram deturpados em leis, em atos, pela minoria branca.

Hoje, com cicatrizes do sistema que lhe fora embutido, e a outros de sua época, Mandela é mais consciência, mais experiência, mais sabedoria. Nada melhor do que olhar o passado, como paginas em livros velhos, e dizer... como fomos imbecis! – e foram.

No entanto, não poderia qualquer que fosse o líder comunitário, líder espiritual, líder de gangue... deixar que suas crias estivessem sob o manto injusto de uma minoria por muito tempo. Alguém poderia (e deveria) levantar-se, tomar as rédeas, peitar as armas, torturas, e ser um notório pelo que fez, mas Mandela, apesar dos pesares, disse “eu pendoo”!...

Mandela talvez, pelo inconsciente cristão, tomado há tempos, lembrou Cristo, o qual, na cruz, disse quase a mesma coisa “Perdoe, Pai, eles não sabem o que fazem”. E, na sua cruz, ou depois que a deixou no chão, após deixar a prisão de vinte e sete anos, Mandela, assim mesmo, foi sábio.

Entretanto, sabe ele, acredito, que a consciência maior, a experiência maior que adquiriu o transferiu para margem daqueles que simplesmente um dia foram sábios, não religiosos – talvez religiosos no seu sentido mais amplo, o que não acredito – e intuitivamente, com essa carga, entendeu que, mesmo após anos e anos preso, as coisas serão sempre as mesmas se continuarmos com nosso espirito de vingança, ódio... enfim, gerações poderiam perder-se, e milhares de pessoas morreriam à míngua com o desejo de morte aos brancos... Por isso, talvez, o “perdoo”, de Nelson Madela.

Ainda que haja beleza em seu ato, podemos dizer que Mandela serviu apenas – desculpe-me a todos – para uma determinada época. A questão é que o racismo, a discriminação, o preconceito ainda se praticam, talvez, com mais precisão do que antes, mas escondidos, formando apartaides em ruas, em sociedades ricas, em senados, câmaras, em festas... obstruindo vozes de novos Mandelas. Por isso, até hoje, assim como lutas de Martin Luther King, Steeve Becow, Malcon X, Mandela nunca será esquecido.

Não era assim, contudo, que queríamos lembrar dos idealistas, mas de uma maneira na qual pudéssemos retirar de tais lutas (de todas suas lutas) como um dia lembramos de Júlio César, o grande General, que, em meio a grandes batalhas, tinha um ato, simples, heroico, religado às divindades; tal qual Alexandre, o grande, que, após conquistar a Europa, disse “não tenho mais nada a conquistar”. -mas o tempo é outro, e luta também. A guerra que Mandela travou tinha seu lado mais social do que universal, e a razão, com certeza, era a falta de consciência de determinados grupos em relação ao que chamamos de integração, harmonia, ou seja, o que achamos ter e não temos. 

As sociedades precisam de heróis, sejam eles brancos, negros, amarelos, dos quais possam tirar lições de amor, respeito, ética, mas também bravuras indômitas, sem o “perdoo” ao inimigo, pois sabemos que o universo é regido por uma Inteligência Metafísica, dentro da qual somos abrangidos, e, com a nossa, argumentamos, desejamos e possuímos, com ou sem respeito, contudo... passamos pelo ônus e bônus universal, pois nada é por acaso, ou seja, se estamos dentro da batalha, é porque a procuramos de alguma forma; se estamos sendo presos, enjaulados, tenhamos a compostura de aceitar nossas dores – isso não vale para a Ditadura! – e saiamos dela com a mesma ética que nos fez nela entrar.

Os idealistas de plantão, enraizados nesses líderes, podem até serem admirados, e levados como norte para a modificação e na busca pela identidade de um povo, mas em relação ao passado, aos seus grandes heróis, podemos dizer que a energia dispensada por eles poderia ser canalizada, primeiramente, para si mesmo, em um ato revolucionário interno, aprimorando o que muitos ainda não sabem sequer o conceito. Estou falando de Amor, Verdade e Beleza, a partir de atos, pensamentos, seja num combate de luta armada ou simplesmente num abraço ao inimigo.


Mandela, me perdoe.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Em Busca de Grandes Homens (i)


"Não foi de um salto que os grandes homens chegaram às culminâncas do êxito, mas sim trabalhando e velando enquanto outros dormiam"- James Alan.



Obama: querendo ou não segue de olhos fechados,


Às vezes fico pensando... “Quando é que teremos exemplos de grandes homens que defendiam seu país, seu povo, como no passado?”... Antes, havia uma pitada de espiritualidade advinda de um caráter mais que religioso – quase divino. Tal caráter se sobressaia em atos organizados em parâmetros universais – de acordo com as leis sagradas.

Hoje, o que predominam são, no mínimo, máximas de grandes homens que nos sustentam com seus exemplos desde épocas antes de Cristo, o que é aterrador. Talvez, eu esteja sendo um tanto quando radical, erradicando seres que estão aqui e ali, sempre nos realizando, e tapando nossos problemas com peneiras... Mas um grande homem, um grande ser, não há.

Presidentes


Uma prova disso é a própria época. Temos Barack Obama, como o primeiro presidente negro americano, passando por todas intempéries que um presidente tem que passar, sem grandes atos, nos quais o heroísmo, regado a grandes idealismos, não se vê; nele não há o que se pode dizer acerca de justiça paralela, ou como se diz, diferente, ao ponto de nos espantar com seus atos.

Muito pelo contrário... Obama, assim como todos que passaram pela Casa Branca, não possui a inteligência tangente, natural daqueles que levantam uma nação e a faz ser diferente no sentido mais moral possível. Segue, assim, seus antecessores, os quais tanto castigou com suas palavras bem colocadas.

É claro que, mesmo que ele queira, não será fácil, pois um Estado com dificuldades mil, advindas de vários outros que fizeram estragos, é como dar “cavalos de pau” em um navio em direção a um iceberg. Nesse caso, é melhor que espere bater, verificar as avarias, e iniciar o conserto...

Abraham Lincoln, talvez o melhor presidente americano, se sobressaiu, não porque fora lenhador, pobre sonhador, mas em razão de certos quesitos em sua época foram solucionados, baseados em uma tradição que ele mesmo seguira – a dos filósofos, os quais sempre nortearam, ainda que insipidamente, alguns governos atuais. E o dele, pela humanidade, simplicidade aliada a garra, revelou-se no ápice da liberdade restrita, indo de encontro a vários partidários da escravidão, conseguindo, com todo seu fervor e ideal, uma lei que beneficiasse a todos afro americanos.

Brasil


Lula: pego pela Ditadura.



Há anos – não muito – tivemos, aqui no Brasil, um presidente chamado Luiz Inácio Lula da Silva, ou apenas Lula, para os mais íntimos. Sua prerrogativa: desfazer a pobreza, elevar o patamar de vida de muitos miseráveis, fazendo com que se alimentasse, pelo menos, três vezes ao dia... Só.

Sem muita filosofia, a política do “presidente dos pobres” fez com que todos tivessem esperança em algo que há muito nos sucumbe, a pobreza. Mas um homem que viera do fosso, e que fora preso, no passado, defendendo interesses de trabalhadores, que fora visto como herói para uns e vilão para uma elite armada, o que nos poderia ser senão um defensor da pobreza?... Isso, inicialmente, claro. Porém, revelou o que muitos não fizeram no passado (recente...), o qual nos vem como síntese do que aprovamos ou não em urnas?...

Isso não importa. O que nos importou foi sua promessa, sua realização, e o... Desfazimento de sua pessoa. Sim... Lula, o defensor dos pobres, guardava, por trás de suas convicções políticas, o que todos os grandes políticos também guardavam, ou seja, a necessidade de enriquecer, pois a pobreza já não fazia parte de seus planos há tempos...

Claro que nem no nosso, porém, somos obrigados a trabalhar, trabalhar, e no meu da semana, ou no fim dela, fazer uma “fezinha” e esperar que saiamos do estado de endividamento, ou desconforto de um emprego que nos trás dissabores muitas vezes. E Lula, sem muitas palavras chiques, sempre deixou claro que viera de um passado triste, penoso, miserável, etc, no qual sua grande mãe sempre tivera uma pontinha...


Décadas depois, presidente pelo PT. Partido de sempre.


É assim mesmo... Políticos quando querem pedir ao povo permissão para ficar poderoso sempre falam de seu passado. E o povo consente. No caso de nosso presidente, hoje um ex-presidente que vive às custas do que “ganha”, que deve custar cifras em milhões, foi de imediato. Suas palavras, seus gestos, sua quebra de protocolo, sua barba imensa, seu linguajar... Já premeditavam a aprovação. Era o que queria...

Contudo, quando o poder nos sobe a cabeça, principalmente quando olhamos nosso passado desértico, somos picados pelo inseto do “querer mais”. Foi aqui que o símbolo das massas se foi, como folha ao lago, desesperado para subir o riacho. Foi aqui que o isolamento bateu-lhe a porta, a ignorância, ponte usada para comunicação com os demais desinformados, o “pé na pobreza”, a falta de cultura, a falta de incentivo à leitura, à ética, à moral, prevaleceram...

Lula é citado em processos que por sua vez podem leva-lo, ou não, mais possivelmente não, à cadeia, o que é uma impossibilidade aos políticos com escudos de platina como ele e outros... Mesmo assim, em razão do que defendia, pelo que idealizava, pelo que dizia amar não será lembrado, talvez quando ser for...

Lula não foi um salvador, não foi um grande homem que poderia igualar-se aos grandes do passado e nem passou perto. Não tinha nem mesmo máximas, palavras fortes, atos eternos. Lula foi o que muitos pobres de alma e dinheiro queriam ser, presidente.

João Goulart


O presidente que deu certo. Por isso, exilado.



Voltamos a um passado maior, o de antes da Ditadura. Ao entrar em contado com a política, com seus grandes pensamentos ideológicos, Jango, João Goulart, hoje um enigma para a maioria política que o via como um comunista inveterado, por visitar países à época do mesmo naipe, trouxe pensamentos frios e rigorosos a empresários que sentiram que o Brasil estava por sucumbir a um sistema vermelho, mas...

Pensar em reestruturar um país a partir de ideias democráticas, nas quais apenas empresários se davam bem... É triste. Não que o grande político fosse comunista – ou que eu defenda tal sistema--, mas eclético, e seu ecletismo manchou suas mãos e vida. Até hoje é visto por muitos como um homem que admitiu o comunismo no Brasil.

O comunismo, seja no Brasil, seja em Cuba, seja em qualquer estratosfera, por si só, não existe em caso concreto. Mas a sua ideia, sim. Pois traz à tona valores básicos em defesa da família, da sociedade, e do próprio país. Isso, em um Brasil que pensava pequeno, e que a percentagem de seus benefícios era voltada à elite, era perigoso. Enfim, Jango caiu. Foi exilado... Morreu na Argentina. E a Ditadura se fez.

Por fim... A diferença em relação aos grandes homens fora deveras imensa, mas não ficara, no entanto, esquecida por aqueles que queriam comungar, mesmo que teoricamente, valores básicos.

Quando o idealismo surge...
Sem pretensões de ascensão a governos, e com emblemas em faces cruas, surgiram outros, que não eram presidentes, governadores, prefeitos, enfim, não eram partidários e sim guerrilheiros em favor de modificar estruturas desorganizadas por homens que se diziam de bem. Surgiram os heróis de imediato, os necessários da época em que surgiram, não de todas as épocas.

Luther King Jr.


King: "julgue pelo caráter não pela cor".


Antes deste, muitos defensores dos direitos humanos passaram por aqui, mas este, Martin Luther King Jr, enraizado em preceitos não violentos, conseguiu traduzir em suas palavras o que um grande homem do seu tempo, na ocasião mais certa, poderia  traduzir.

Em nome da não violência, em nome dos seres humanos, em principal dos negros que não tinham direitos na década de setenta, King deixou claro que a procura por culpar os negros era uma questão de caráter. E os brancos da época, pela violência que se aturdia nos ventos, em geral tornando-se uma patologia desde a infância, não sabiam, ou sabia a minoria, que o pastor tinha razão, tanto que, até hoje, não apenas os negros, como também brancos admiram a figura dele.

Na época, não apenas nela, era tão importante (e é) defender pontos nos quais somos diferenciados pela cor, raça, etnia, de modo a nos tornar isolados – ainda socialmente – pelos restos de nossos dias, trazendo à tona outros valores, só que agora com sabor de dor, e desumanos.

E quando nos deparamos com situações em que discriminamos, preconceituamos, temos em mente o grande discurso deste homem, que, levou tempo, mas conseguiu saciar sua vontade de unir e harmonizar muitos seres humanos, não só nesta, mas em muitas épocas que ainda se revelam discriminantes... “Eu tive um sonho... (...) no qual meu filho não era julgado pela cor e sim pelo seu caráter”... Não precisamos dizer mais nada...

O que podemos tirar desse aprendizado é que a sociedade precisa de vez em quando de defensores. Precisa de um Luther King, de um Gandhi, de um Che Guevara, de um revolucionário que espete a pele de um ditador, deixando claro que as vozes em favor de uma sociedade desmazelada, assim como a própria África na qual várias vozes se ergueram e defenderam com unhas e dentes – como nosso querido Mandela – os direitos, as obrigações e a humanidade daquela.

domingo, 19 de maio de 2013

Meus Sonhos que Nunca se Vão


Meu filho: regando um grande sonho.
 
 
 
Depois de realizar desejos de meus pares – família, esposa e filhos, e de alguns amigos – as vezes me sinto pronto para partir – morrer mesmo... – ir embora, sorridente, no grande caixão (urna como se diz), centro das atenções das quais um dia jamais queria em vida. Apenas realizar sonhos. E hoje, quando preso em minha casa, respirando tão bem, preso a meras obrigações caseiras, faço-me questionamentos do tipo... “será que me realizei também?”..;
É um questionamento natural, daqueles que se fazem quando se levanta bem, pelo menos, umas cinco ou seis vezes por semana... E no meu caso, é raro, pois sou uma caixa de preocupações na qual flutuam do menor ao maior dos casos. E sempre cabe mais quando se nasce com responsabilidades e, com certeza, morre-se com elas.
Nada fortuito, sempre há pedreiras, assim como ondas em rochas; do jeito que se vê, as coisas são em minha vida. Nada fictício, nada romântico ou apaixonante. Assim, sou obrigado a desfazer de meus sonhos, por enquanto, claro, e resolver, esclarecer, trabalhar, de modo a sanar todos os problemas de um mundo que ainda bate em minha porta, e eu os resolvo, esclareço, soluciono e vivo.


 
Resolvendo, volto para o fim de semana lento e agradável, porém, necessariamente fechado, pensativo, ou melhor reflexivo, unindo o que se forma em minha cabeça e as tralhas que colhidas durante a semana... Paro para ler.
Tangenciado pela leitura, encontro nela a face de uma vida forte, viva, cheia de confronto dos quais não devo sair, apenas aprender. Tento trazer toda ela para uma realidade da qual faço parte, dar passos lentos, porém direcionados, fecho os olhos, penso, encontro meios de refazer o que fiz de errado, mas...
É uma parede. Um muro, um edifício. Sou obrigado, assim, dizer a mim mesmo que sou maluco e ao mesmo tempo corajoso, pois não há base para realizar caminhos baseados em premissas teóricas. Mais um erro meu...
Na realidade, há sim; somos humanos, e esquecemos; tratamo-nos como seres que apenas andam e se alegram com momentos rápidos, e esquecemos mais, que há em nós centelhas tão naturais quanto nossas risadas, nossos bons momentos, há a divindade tentando se realizar em algum ponto nosso, dentro, bem dentro de nossas almas. Não é mentira.
E tudo isso pode ser buscado pela leitura clássica, aquela que fala de nós, de maneira profunda, enraizada em preceitos verídicos, ou seja, sem portas de papel, mas ao mesmo tempo, com chaves bem elaboradas, que nos fazem repensar nossas origens, e com isso nos fazer buscadores, ou antes disso pensadores do que somos ou podemos ser. Aqui inicia o sonho deste.
Com o pouco que tenho – sou um mero funcionário público sem a mínima pretensão ascender a cargos, mesmo porque não tenho a mínima intenção de dar ordens a ninguém..., um marido feliz, assim como um pai que espera reeducar-se e passar ao filho a colheita de tudo que plantou, ou apenas um amigo que gosta de estar com os amigos. Tenho meus defeitos, como beber um gole de vinho, quando frio; de cervejas, quando o calor resolve dar os ares de sua amarelice, enfim, após a ida de minha deusa-mãe, não tenho muito o que pensar em fazer, apenas esposa e filhos sintetizam ouros que devo guardar.
Assim, descobri que muitos encontram sentidos, sonhos nas alturas, nas igrejas, nos deuses, ou em suas raízes, das quais se projetam outros e mais outros sonhos. E eu, filho que ficara desolado dos sonhos por muito tempo, acredito, encontrei razão de sonhar e realizar aos poucos o que seres humanos buscam em suas viagens, nas montanhas, em países ricos, em  buscas até mas profundas... a espiritual.
É... Fantástico. Máximas do tipo... “Não precisa viajar para encontrar um lugar tranquilo, idílico, calmo. A própria alma tem esse cantinho, lá dentro”. Não é piada. Sinto-me, aos poucos, como um general que, em meio a artilharias pesadas, lê um livro, e se aprofunda em relação ao seu inimigo. Eu me sinto o próprio Marcus Aurélius, general romano, dono da frase acima.
E quando olho as estrelas da noite, antes de dormir, penso no Nows Platônico, que reside, segundo o autor, acima de nossas almas, e faço minha oração, como um faraó que pede ao grande deus Num, o deus das águas primordiais, proteção a todos...
E nessa calmaria, meus sonhos vão se realizando, tornando-se mais fortes, pronto para resolver e realizar outros.



 

 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vencer sempre



Meu filho. Vencedor.


O Primeiro Passo


Vencer, subir ao pódio, levitar no céu após um primeiro lugar, sentir parte de um grupo que vibra, ama, se esbaldeia  de sentimentos além-razão.  Gargalhar. Talvez, desde que o homem é homem, a meta seja essa, ganhar, vencer, estar em primeiro lugar, ou romper barreiras. É o céu emocional.

Quando uma criança inicia seu processo de fala, em pequenas palavras que no deixam sem... Palavras; ou em seus primeiros movimentos em terra firme, ao engatinhar, e, no mais tardar, a harmonia entre suas pernas, consciência, gerando equilíbrio. É o caminhar. Aqui, a vitória é nata até certo ponto, pois sabemos que  mais cedo ou mais tarde cada individuo vai buscar esse novo processo, vai tentar buscar seus simples objetivos, suas pequenas metas...

Assim, estar de pé, preencher o chão com o peito dos pezinhos, sem se segurar em nada, é como conseguir vencer a primeira batalha natural, mas mesmo assim comemoramos e viramos foco de um momento eterno. O de andar.

Mas por que vibramos tanto pelo fato de um filho saber andar, ainda que saibamos que é uma consequência mais que natural na vida humana, animal, etc? Andar, com certeza, não deveria ser um momento glorioso, mas o é pelo fato de nós, humanos, já visualizarmos o futuro, que nos exige a mobilidade principal para poder compreendê-lo...

Andar significa, assim, não somente colocar os pés no chão, mas saber, por si próprio, ir atrás de seus objetivos – com raríssimas exceções --, os quais nos faz andar física e espiritualmente, onde quer que estejamos, seja qual for a raça, a etnia, a cor, o porte, a vantagem financeira...

Significa muito mais. É por isso que festas são feitas quando damos o primeiro passo.

A Dúvida do Vencer

Vencer, a depender de certos indivíduos, é sair da cama, sem qualquer sequela do dia anterior. É mais, é vencer aquele amigo que se diz amigo, o que na realidade é o seu pior inimigo; e quando vencemos as dúvidas quanto ao que ele é, vencemos de novo. Portanto, vencer, aqui, nos faz entrar no campo relativo, tanto que psicólogos há que chegam a elevar o moral do paciente dizendo “Você é um vencedor por natureza, veja bem, você conseguiu, entre milhões de espermatozoides, adentrar no óvulo, que por sua vez encarregou-se de te abrigar e fazer o que hoje temos aqui, você...!” – é de matar, não é?

Não sei, mas há psicólogos que se transformam em humoristas e humoristas que se formam em psicologia! Mas uma coisa eu sei, ao passo que nos reconhecemos como indivíduos que possuem leis internas e a elas devemos respeitar, somos mais que simples humanos, na tentativa eloquente em conseguir, seja no ato de andar, falar, chegar em primeiro em corridas, em nascer... Pois todos os seres, de alguma forma, andam, falam (ou não), ou simplesmente fazem gestos, o que não deixa de ser uma vitória...

Porém, há de convir, temos nos preparado com pequenas vitórias, mesmo que sejam no passar de um concurso, de um vestibular, ou antes na consecução de um emprego, o que não nos faz mais humanos do que aquele que ficou para trás. Aqui a meta de ser ou não ser vai depender e muito daquele que a persegue, pois, em cada caminhada, somos obrigados a nos deparar com circunstâncias relativas e ao mesmo tempo “meio iniciáticas”, porque nos põem a provas, às vezes, fora do comum!

E o homem, com a consciência na matéria e ao mesmo tempo no céu – como um Arjuna eterno –, vai encarar tudo isso como ajuda ou perseguição de alguma entidade que o observa de longe e lhe dá apoio ou não. O homem, fruto de suas emoções e desejos, assim, claudicará todas as vezes que triunfar, pois as divindades, como ele mesmo acredita, estarão de olhos em seus gestos e fala...

A relatividade, nesse campo, destrói o ser humano. Pois ele nunca vai saber se foi ele ou Aquele que mora no Terceiro Andar o responsável pela sua vitória. E a dúvida vai morrer com ele...

Na realidade, as vitórias humanas, quando me refiro a pequenos e grandes atos, são junções entre sua personalidade voltada à matéria ou ao céu e seu físico. Com exceção daqueles que não podem caminhar ou realizar, por si mesmos, seus atos. Estes são tão vitoriosos quanto muitos, pois realizam feitos simbólicos em cada ato, que representam, para nós, a força e a maestria em saber lidar consigo mesmo, rendendo lágrimas aos que a eles presenciam...

Pódios

As Olimpíadas são tão antigas quanto às estátuas gregas, que reluzem a arte nas ruas daquela cidade. Sabemos também que os jogos olímpicos foram realizados com a finalidade de unir as nações, em guerras ou não, em homenagem às divindades, principalmente aos deuses Olympus, Ares, Athenas, os quais faziam parte das culturas partícipes das civilizações em guerra.

Nelas – nas Olimpíadas – as provas eram mais especificas, ao mesmo tempo sem muita competição. O que mais importava era realizá-las, voltar ao seu país e preparar-se para a guerra. Os deuses em primeiro lugar, claro.

Hoje, após milhares de anos, o que mais importa é o pódio, ligeiramente escondido em nossas subconsciências, juntamente com a medalha, desfazendo a raiz que a tanto deu frutos no passado. Nos desligamos dos nossos reais objetivos: ser o que somos.

Ao entrar na arena, ao arremessar seu dardo, ao vencer uma luta, o homem do passado o fazia pelo ideal grego de religar-se com suas origens, tão profundas quanto o próprio homem. Fazia pelos deuses, que estavam fora e dentro daqueles corações e alma. Por isso, a irrelevância em fazer guerras quando os jogos iniciavam, mas, depois deles, a real guerra, aquela que viria com um só proposito, organizar o mundo, não desorganizá-lo.

Vencer

Aquela criança que aprendera a andar, que iniciara sua fala, que passou por trajetórias, simples, porém tão simbólicas quanto sua natureza, talvez nos mostre a essência do vencer de hoje, pois o que nos interessa – aqui agora – é ascender a cargos além de nossa capacidade de competência, pelo simples fato de estarmos bem aos olhos (e interesse) de terceiros, não aos nossos.

Vencer, para mim, nada mais é que acordar e sentir que estou participando de um grande mistério advindo de uma grande inteligência, que nos ordena, nos trazendo ao caminho perdido, revelando (e velando), com suas fórmulas metafísicas (para além de nossas compreensões), o que podemos ser em cada passo nosso de cada dia.

É, ainda, olhar nos olhos da vida e entender que somos passivos de morte, de sorte, de amor e ódio; vencer e ser vencedor é entender que ainda há preconceitos, e que a maioria, em mim, já se foi, como água em ribeirão. Mas a consciência da vitória não existe apenas para em reconhecer, e sim e transcender defeitos e problemas enfrentando-os sem medo, de modo a extingui-los um dia. Se não há como extingui-los, saber que vencê-los é harmonizá-los, não deixando de ser, no entanto, você mesmo.

Vencer é mais que subir em pódios, ganhar medalhas. É acreditar que o real pódio e a real medalha são invisíveis aos nossos olhos, e que nos fazem emotivos na medida que vemos uma criança nascer, crescer, formar-se, é ver uma mãe sorrir, um amigo cantar... Vencer é estar vivo e entender o porquê.







Ao Meu Filho. Vencedor.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Festa no Céu: a hora da chegada.


Rosas que amava.




Rose, que a amava.





E o paraíso estava em festa, com anjos e arcanjos de todos os níveis de graduação das escolas de Deus, dançando músicas angelicais, naturalmente, tocadas  pelos Anjos da Lei, o conjunto do momento, que elevava a alma com seus pianos, arpas, violoncelos e violinos demasiadamente afinados.

Em meio àquela bagunça divina, todos se conversavam, colocando o papo em dia, principalmente para receber a mãe que, um dia, chegara à perfeição humana. O diálogo era intenso, e os anjinhos mais espertos voavam em direção ao portal apenas para saber se ela estava já nas imediações... Mas nada. E voltavam para a festa.

A indignação começava a fazer parte do salão, que, desde cedo, se preparava para o grande evento, no qual haveria discursos, eventos nos quais meninos anjos, vestidos de palhacinhos, senhores contadores de histórias, fogueiras santas acesas, enfim... Tudo para abraçar a mais bela de todas, a mais simples, a mais divina mãe.

Sabendo que tudo iria demorar, os Anjos da Lei resolveram tocar uma melodia mais dançante, ao ponto de fazer todos ficarem mais descontraídos. E deu certo. No entanto, passadas as horas, um dos preparadores da festa, o anjo Felício, foi até o palco da banda e improvisou um discurso... Antes, porém, pediu a atenção de todos.

“Meus queridos, sei que o quanto todos estão felizes por rever seus amigos anjos, irmãos anjos, e relembrar o tanto que trabalhamos em prol de uma vida melhor aos humanos. Sei também que somos pequenos, com asas grandes, e grandes com espirito pequeno, e belos, com a certeza de que somos grandes”  -- nem ele sabia o que estava dizendo – “bem, como diria o  mais enigmático ser, ‘é mistério’...”

Depois disso, acrescentou o que todos esperavam... “Estamos, claro, por receber uma das mais incríveis pessoas que tivemos na história da humanidade, uma beleza em todos os sentidos. Posso ser exagerado? Claro que sim, pois ela está acima de nós em qualidade, em força e fé, em sacralidade, em tudo!... E, digo mais: não sou digno de estar aqui em falar dela, expor o que ela é, desde que nascera, pois seus atos de humanidade, desde pequena, foram voltados ao próximo, e nunca, jamais pensara em si mesma!” – nesse minuto, alguns anjos choravam copiosamente, e a banda, que ainda tocava baixinho, deixara de mão seus instrumentos, para ouvir Felício...

Assim continuou... “Não, amigos, até mesmo eu, quando humano, não fui tão humano quanto ela, e estou aqui, com essas asas tão alvas e quentes que às vezes me falta ar pela beleza que são. Porém, sem asas, apenas com duas pernas e braços, sem mesmo pensar em suas dificuldades, com uma consciência voltada ao grande Espírito, a Deus, essa mulher maravilhosa nos faz parecer apenas pequenos seres alados, desnorteados, ainda que nossos objetivos sejam os mesmos, ajudar os humanos”... – Alguns queriam se pronunciar, no entanto, Felício fez não com um gesto... “... Amigos, irmãos, ela ajudou mais pessoas em vida do que todos nós juntos!”...

Um copo caiu. No mesmo instante, uma empregada alada, em forma de beldade, passara voando e pegou o lixo e levou até o reciclador... E continuou o anjo: “Hoje, em nome do Grandíssimo, que nos deixou fazer essa recepção, quero que vocês reflitam. Pensem mesmo, lá no fundo de seus corações, será que somos dignos de receber essa criatura que se iguala ao mais lindo pôr do sol, a mais bela cachoeira grisalha escondida nas matas? Uma criatura que só se assemelha a si própria, pois até as estrelas em céu limpo de nuvens  não passam de pontos em um tecido escuro?... Não, não somos dignos. Mesmo assim – lacrimejou – vou dizer a ela que estamos a sua disposição, ainda que saibamos que, como ela é, com certeza vai querer viver do trabalho, do comando, da alegria, da paz, da vida... mas sempre nos ajudando a ser mais anjos.”

Quando terminara, a maioria, pelo menos mais de quientos anjos participantes, estavam eretos, porém com o coração firme, ao passo emocionado, e como pediu o anjo orador, reflexivos. Mas a festa estava por terminar antes de começar... Um anjo em forma de mensageiro, se esguiava no meio de todos, pedindo passagem, com uma carta na mão.

“Manu?...”, disse Felício ao anjinho apressado, “o que você nos traz, agora, nessa hora tão singular?”... Ele olhou para o andar de cima, indicando que a Carta teria sido enviada pelo Grandíssimo, que morava lá no alto. Pegando a carta, Felício olhava para todos como se estivesse espantado pelo Ato. Passou a carta para o anjo abridor de cartas, o qual, por coincidência, estava lá perto... “Agora, dê-me isso aqui, Berto!”, já com raiva da morosidade do anjinho...

Num gesto fora do comum, o anjo Felício pegou a carta, levou-a aos olhos bem perto, colocou seus óculos, e sorriu. Pedindo silêncio, ele disse “Gente, o que vou ler aqui e agora, eu gostaria que todos prestassem bastante atenção...”...


A Carta...

“Filhos meus, por meio dessa carta, sagradas palavras serão ditas, e queria que vos prestassem atenção: a festa que fizeram foi de agrado a este que vos fala; porém, tenho que expor-lhes minha felicidade, antes de tudo, em receber esse ser humano de que tanto falam, e com certeza falarão durante muito tempo. Uma mulher, talvez um rótulo vazio comparado ao que quero dizer, por isso, Eu, como criador, tenho a liberdade de chama-la Ser Divino, pois o que fizera em prol do humano, dos não humanos, além de tornar melhor a vida ao seu redor, e por onde quer que passasse, não a faz apenas ser humano, mas acima disso...

E mais, não sei o quanto queriam que ela estivesse aí, em vossa festa, após sua partida da terra, no entanto, vos digo, ela já está aqui comigo, a descansar o sono dos melhores anjos, e em respeito a ela, vos peço compreensão.

Assinado: Deus”








Feliz Dias das Mães a todas as mães!!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Fagulhas de Lembranças (iii): A bronca da professora gostosa.


Broncas de professores: como nos são uteis!




Eu ainda era imaturo, chegando a ser desinformado, tristemente desinformado. Parecia mais um cãozinho que havia caído no meio de uma sala de aula, esperando que alguém adotasse minha amizade. Era terrível. Ser sensível demais em uma época em que todos precisam ser duros, era o fim no inicio, ou melhor, talvez fosse o inicio do fim...


Mas só transparecia na realidade, pois hoje, com... q... anos, percebo o quanto foi necessário tudo aquilo, como diria a música de Oswaldo Montenegro, sem “aquela coisa toda”, eu jamais teria sido o que sou hoje, um aluno, quase mestre no que faço... Só não perguntem o que faço, pois não sei rs.

Na realidade, hoje, sou formado, pós-graduado, e possuo especialização em Língua Portuguesa, pela Universidade de Brasília. Mas nada me faz esquecer o dia em que a gostosa professora quase me bateu quando descobriu que eu citava adjetivos sem ajuda dos exemplos que ela havia dado nos livros... É, meu amigo, foi a época da humilhação!

Em sala, com idades de dez a doze anos, a maioria homens, uma professora morena, com a superfície traseira maior que a porta da sala, parecendo mais um contrafilé ambulante, descontratava completamente de seu aspecto psicológico...

Quando entrava, olhávamos para ela, abaixávamos a cabeça, sorriamos, baixinho claro, dávamos um toque no parceiro ao lado que fazia firulas, obrigado a cessar no mesmo instante, e rezar. A infeliz nos dava medo, e ao mesmo tempo tesão... Coisa de adolescente, né?

Quando a infeliz faltava (quase nunca), não sabíamos o que sentir: alivio ou dor... Na realidade, era mais alivio, e eu, dor. Até que um dia...

Abram o caderno, escrevam vários adjetivos, depois me falem o que escreveram!”, isso da maneira mais sutil possível, só se igualando a um general de despedindo da tropa. E fizemos, e passamos horas com cadernos abertos, mesmo porque o exercício era fácil, e não tínhamos o que temos dessa vez.

Quero que todos, agora, falem, um por um, o que colocaram!”... Disse a gostosona-morena, com cintura de Brigite Bardôt, e língua de João Figueiredo (ultimo presidente ditador do Brasil, que mandava bater e arrebentar tudo e a todos), enfim, o fizemos...

O medo só se comparava a de um filme de terror moderno. Desde o primeiro aluno, ao último, a infeliz queria saber se este tinha feito o dever. E mais, todos os adjetivos tinham que ser diferentes um do outro, senão, acredite, a infeliz diria que estaríamos copiando um do outro, não importando a distância do colega...

Era um exercício fácil, e ao mesmo tempo louco. Pois, se o seu dever ficasse quase igual ao do outro lá na frente... Considerar-se-ia mortinho da silva. E eu morri. Não por te copiado, mas, por um detalhe, por  achar – coisa que não podia na ditadura – que meus adjetivos estavam fracos, fechei meu caderno e iniciei meu processo de mumificação... Ou seja, quando a gostosa me pediu para falar os meus... fechei o caderno, sorri para ela – coisa que não podia também, e num ato puro, quase angelical, comecei a falar outros além dos do caderno...Foi a morte.

O que você está fazendo, rapazinho!!”, naquele instante, urinei duas vezes na calça, isso em menos de um segundo. “Quem mandou você fechar o cadernoooooo!!!!”, “Tá pensando o quê????”... – mais uma mijada... sentei-me, chorando intempestivamente, loucamente, tristemente... e haja mente depois disso.

Após o show dos horrores, a cretina ficou pálida por me ver chorar. Todos olharam o rostinho dela, que, apesar de lindo, era do demônio... Foi, para ela, o fim. Depois de meu choro, que levou a todos a tristeza inconteste, fiquei para o fim da aula, para uma conversinha, tipo face a face.... E meu medo aumentou...

Porém, descobri que por trás da infeliz, além daquele enorme bum-bum, havia um coração (no bum-bum, acredito!... ), e se mostrou apenas entre duas pessoas, eu e ela. Constrangida pelo que fez, me vendo com ódio em lagrimas, tocou em meu ombro e disse “desculpe-me, não achei que você fosse tão sensível...”...Acho que nem o exterminador do futuro seria menos!...

E saiu. Eu, com os olhos vermelhos, ensanguentados de choro, com dor no fígado e coração (principalmente...), olhava de soslaio aquele ser que possuía uma beleza anormal, uma bund... anormal, mas também uma fúria que jamais esqueci.

E depois de anos, hoje penso: como eu amava aquela infeliz!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Fagulhas de Lembranças (ii): o banho demorado.

"Quando quero tudo, tenho tudo; quando não tenho nada, sou livre" F. Pessoa.


Meu filho: Livre




Nossos pensamentos, para mim, devem sempre ser presos a referencias seguros, no quais possamos ter uma esperança de paz, aqui dentro do coração. Buscar empobrecer nossas almas com pensamentos tolos prejudica nossas mentes, coração, alma... Tudo. Não há como fugir. Para isso há provas de que há mais pessoas em hospitais em razão de seus problemas emocionais (diversos) do que meramente físicos.

Alimentar nosso eu personalístico, travar lutas constantes entre o bem e o mal, saber identificar o mal, afastá-lo, jogar-se em idealismos, em ideais, ser um pouco divino. Essa é a nossa tônica. Tudo depende apenas de nós, desse que lhes fala, daquele para quem falo, não de seres metafísicos, ou esotéricos, como 
Deus e o Diabo...

E quando relembro minha infância, penso apenas em recordações livres de empecilhos cármicos, da violência porque passei, das dores em, um dia, ter me submetido a coisas indizíveis. Poderia, mas não vou...
E para isso, elencarei, em nome de minha mãe, algumas recordações de uma memória que, querendo ou não, estão por se apagar em breve, pois a idade, essa sombra que nos segue, revela, discretamente, que devemos deixar alguns legados escritos, caso contrário não teremos nada mais para nos lembrar, pois tudo, um dia, se apagará...

O Banho Demorado da Infância...

Minha família estava completa. Minha mãe, irmãos e irmãs, todos eles sem filhos, sem filhos com filhos, sem preocupações modernas, como a de celulares, computadores, etc..., tudo era na base do diálogo, pobre, mas enraizado nos mais severos princípios familiares e respeitosos, o que nos dava mais união àquela época.
Eu, um mero coadjuvante em meio a irmãos que só pensavam em ir a bailes com calças boca de sino, não compreendia uma palavra deles – a pureza fazia parte de mim, como uma pétala o fazia para a rosa. Não estava muito para a vida, para as responsabilidades, para nada... Eu tinha uns sete anos de idade...

Idade linda, da qual posso dizer que fora uma das melhores de minha vida, e tenho a certeza de que para muitos também, pois se sofria menos (ou nada) em relação às crianças da mesma idade de hoje, que são obrigadas a voltar para casa às seis da tarde, sentarem frente à TV, jantar assistindo ao desenho favorito, e curtir o celular...

Em minha época, além dos meus vícios, que atualmente se confundem com virtude, eu tinha, intuitivamente, meus deveres, sem que mães ou pais me dissessem o que fazer e onde. Depois, lia um livro, fazia meus deveres de casa, assim que eu chegava do colégio, tomava banho até ficar branco!

E foi nessa época que me ocorreu um algo do qual nunca irei esquecer... De um banho, no quintal de minha casa de madeira. Quintal largo, onde se plantava tudo, colhia-se tudo, e ali estava eu a olhar para o sol, sentado em uma pequena bacia, com água bem geladinha, colocada por minha mãe, tomando meu banho. Aqui, não sei como, tive pensando... foi uma das últimas vezes que me senti tão livre. Eu cantava com minha voz de criança, bem alto, uma canção desconhecida, sujava a água, e um tanto quanto esquelético, sorria para o mundo ao meu redor: todo ele, o meu milharal, meus pés de goiabas, de bananeiras, em um chão de barro que se esticava até o fogão de lenha de minha mãe...

E o tempo passava, e se ía, e ía... enquanto “passavam, eu passarinhava” rs. O mundo desabava, caia em complexidades mil; se arrastava em Vietnãs, em comunismos, em capitalismos frios, em mortes de estudantes, em universidades invadidas... E eu, em meu banho demorado, vivia o melhor dos sistemas,  a paz que tanto buscavam lá fora.

E foram horas e mais horas, quando o sol começou a arder. De repente, minha mãe se lembrou de mim, pegou-me, levou-me ao quarto, trocou-me para o colégio, e entre durezas doces, fez-me ir para a escola que me esperava depois de horas iniciada! Foi belo.

Quando cheguei à escola, com cabeça baixa, entrei na minha humilde sala, lotada, e talvez por isso não me perceberam, de modo que me sentei e, sem professora naquele instante, pude olhar a todos, com sorriso nos lábios, e pegar com eu amigo do lado o que estava sendo dado até minha tímida chegada...

A professora? Para ela, eu era apenas mais um. Já que eu não tinha esse vicio de entrar depois de iniciar a aula, não me falara nada quando me viu. Acho que até me deu um breve sorriso rs.

Aprendizado...

A liberdade que senti era tanta, que até hoje, quando me lembro, sinto minha alma um pouco mais leve.  Talvez porque meus compromissos atuais me façam pesados ao ponto de eu tentar, no passado, por meio de figuras, ações, aventuras sadias, algo que é tão difícil hoje quando encontrar goiaba em pés de manga.

Porém sinto que a pureza que me havia tomado, naquele dia, não era a de outros quando antes era mais consciente. A liberdade seria um ato inconsciente advinda de nossos mais íntimos sentidos? Talvez um ato involuntário, um sentimento sem sentir consciente?... Uma percepção pós-consciência? Não... acredito que não.

Acredito que seja mais uma questão de ser ou não ser, como diria Shakespeare . Se sou um pássaro, tenho minha liberdade apenas dentro que sou, um pássaro, ou dentro do âmbito mais profundo do que temos sobre aves... O que nos faz, com certeza, ser mais introspectos e dizer “da ideia de ave”, como diria Platão. Ou como diria Aristóteles, depende da Fôrma...!

Mas sou humano, e quando mergulho em mim, encontro a pureza inconsciente, involuntariamente, sou livre. Livre das amarras racionalistas acerca do que é ou não é; amarras físicas, emocionais, psicológicas, históricas e prefiro, sem saber, viver em função do que sou.

Hoje, quando tomo meu banho, sinto uma água fria me tomar o corpo, mas à medida que cai ao chão, em segundo, lembro-me de coisas que me preocupam, de pessoas por quem sou responsável, da família que criei, do amor forte que plantei, do aprendizado do dia a dia...

Assim, fica apenas a saudade de uma liberdade que tive, um dia, assemelhando-me ao sol, ao vento e à chuva.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....