terça-feira, 26 de novembro de 2013

Que as Cortinas se Abram!

Temos que aceitar nosso pepel no Grande Teatro.



Atores somos de uma peça de teatro, como já diziam os gregos. O grande espírito nos deu um papel sem bater em nossos ombros e dizer “Qual dos personagens você se encaixa? Mecânico, professor, advogado...”, ou mesmo... “Olha, você vai ter que fazer esse personagem e pronto!”. Não, não foi assim.

Nascemos como pobres miseráveis, ou às vezes não nascemos; ou quem sabe, como ricos ignorantes, ou pobres sábios, não necessariamente desse jeito, mas as possibilidades são inúmeras! Sem falar naqueles (ou neste) que nascem com problemas físicos, psicológicos, ou sei lá, com doenças raras, ou simplesmente como um simples cidadão sem a mínima vontade de ascender na vida...

Não importa, mesmo que não sejamos atores renomados, temos, porém, que exercer nossos papeis da melhor maneira possível. Não adianta chorar, não temos como voltar para trás das cortinas, pedir ao grande criador que nos dê uma chance de escolher o que queremos. Não é assim.

Assim como grandes pessoas que nascem sem teto, lutam pelo seu abrigo, vão adiante, com todos os seus problemas, e não ficam a lamuriar pelos cantos da vida, devemos fazê-lo. Sei que há casos de pessoas que nascem com dificuldades físicas, tais qual esse que lhes escreve, contudo, exercer papeis e ir em frente, com uma sociedade que discrimina, preconceitua, e faz suas escolhas baseadas em seres perfeitos (?), é um desafio divino.

Não é fácil. Devemos buscar, em nosso âmago, referenciais fortes, ao passo, harmonizarmos com a vida, com a natureza e tentar fazer nossas escolhas em preceitos mais que claros, pois a vida – em nosso caso – não nos dá o direito de escolher muitas coisas. Reclamar desse manancial, buscando culpados, a clamar deuses, e se questionar acerca dos grandes problemas a enfrentar, faz parte, mas ir a fundo ao fosso é perigoso. Perdemos a noção do grande teatro, de nosso papel, que, com certeza, não é chorar a peça inteira... Mesmo porque não seremos expectadores. Mas atores!



Nossas vocações nos são dadas. Trabalhá-las sem medo de ser ou ter é nosso trabalho. Se eu nasci para varrer uma rua, deixa-la limpa, qual a vergonha, qual o medo que tenho disso? Se nasci para ser um garçom, destes simpáticos que são elogiados a toda hora, pelo trabalho que exerço, mas no fundo sinto vergonha em sê-lo, por quê? Não há que ter vergonha!


Exercer nossos papeis divinamente é a nossa meta, nosso ideal, ainda que seja difícil. Nada é fácil, pois as estruturas sociais mudam com o tempo, os homens mudam com o tempo, e seus conceitos idem. Mas o que temos dentro de nós, o que bate em nome da vida a ser vivida da melhor maneira possível, não muda. E isso é sagrado.






A J.A.L.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Lado Escuro

Viver, uma arte.


O lado perene das Horas




É preciso entender o que buscamos e para quê. Buscamos ser felizes, e isso independe de cargos, honrarias, elogios, ou seja, de qualquer manifestação externa de alguém ou da coletividade – seja da família ou de amigos. Isso não perdura.

A real felicidade, mais uma vez, em nome de tudo que é sagrado, vem de dentro, de escolhas que fazemos, de nossa vontade e equilíbrio. É bom ressaltar que nossas ideias acerca das coisas também são importantes, pois não adianta observar um fato, leva-lo ao extremo do que ele realmente representa, tornando-o além do que ele é, nos fará bem. Isso não é felicidade.

Não. Nada disso. Nossas ideias, aqui, a respeito do que passo, vejo, observo, é tão importante quanto nossas escolhas, pois estas dependem daquela. Isto é, se eu inicio um conceito a respeito de uma pessoa, e levo tal conceito para o lado escuro de meus sentimentos, então é preciso parar, refletir, entender que nesse momento há um vestígio de preconceito nascendo. E isso é a última coisa que precisamos para sermos felizes.

O preconceito, no entanto, de acordo com a tradição, não é mau. A questão é que usamos sempre este termo no sentido frio da questão, ou questões. Exemplo... Posso muito bem olhar um tomate e ter preconceito dele quando vir em sua superfície uma parte amassada, ou podre; ou mesmo em uma manga, quando a pego, olho e vejo que ela está com um lado  ruim... Assim, em ambos os casos, o preconceito existiu.

Com pessoas, não. Não posso subjuga-las como maçãs, bananas, ou outras frutas; mas fazemos. Os mestres sempre nos dizem que a integração, o diálogo, o conhecimento mútuo, para o homem moderno, são como se fossem pontes para iniciação – ou seja – é mais que necessário atingirmos, em nosso nível, em escalas universais, nosso crescimento. E não há outro meio senão comungarmos nossas ideias com outras pessoas, conhecendo-as e, quem sabe, amando-as.

Mas a felicidade é interna. Ainda que encontremos a pessoa de nossos sonhos, não nos enganemos a respeito do nosso ideal. Pessoas são volúveis, possuem suas opiniões, há sempre divergências imaturas, há sempre distanciamentos de ideais, enfim, não que tenhamos que nos distanciar  delas, mas nunca entregar nossos caminhos a elas, pois, na maioria das vezes, a realidade delas é outra, a do filósofo, que busca internamente seus valores, idem.

Há, no entanto, casais, grupos, sociedades, que comungam as mesmas ideias acerca da natureza e por ela vivem. O casal, independente de onde estão os dois, se amam tão apaixonadamente quanto da primeira vez; o grupo, seja qual for a ideia que os une, se encontra nas esquinas, nos bares, em qualquer lugar, sem que palavras ou atos vulgares sejam característicos ou identidade dele. Em sociedade, há as associações, as escolas de Teosofia, de Filosofia, Igrejas, as quais visam ao bem de todos, ou pelo menos poderiam...

O lado escuro, contudo, existe, e é uma realidade. Este nos faz andar por pontes quebradiças, por areias movediças, nos apaixonar por coisas que não nos convém, e a dar passos em falso ante aos caminhos sagrados. E por isso que são necessários. Um dia um filósofo nos disse, “não descobriríamos a luz, se não fosse a escuridão”.  Porém, a partir do momento que sabemos  da existência do ponto luminoso, a areia já está em nosso pescoço. É preciso mais que força, é preciso consciência, idealismo, vontade, e saber quem nós somos.

Saber que temos desafios, caminhos, além do próprio sol para nos basear e levantar de nossos colchões. A areia, assim, aos poucos, vai nos deixando, e nosso corpo dela saindo, e quando menos percebemos, estamos dando aulas acerca de onde pisamos.

O lado escuro nos empurra de volta, pois nos deslumbramos com o pouco que a vida nos oferece. Quantas pessoas se acham felizes pelos títulos que conquistou?... Muitas. Mas será que são felizes? Será que souberam distinguir o que está sob o controle delas?... Pouco provável.

Temos que ficar menos vulneráveis aos papeis de parede que nos oferecem – honrarias, cargos, títulos, prêmios – de modo que, ao assumir qualquer posto, ao receber qualquer honraria, saibamos lidar com isso como os romanos, que, em sua época dourada, quando os grandes generais tomavam outros países, era natural que voltassem a Roma com toda pompa de conquistadores.


Em meio a um povo que amava seus heróis, o general chegava com seus escravos, feitos durante a conquista, com seu carro com mais de dez cavalos puxando, além da roupa vermelha e branca, em homenagem aos deuses, havia outro escravo, o de costume, atrás desse herói, na mesma carruagem, com o louro na mão, acima da cabeça do general, a dizer... “A glória é passageira, a glória é passageira”.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Berços do Espírito

Viver, uma Arte.



"O Egito não é desse mundo" S.III.



Os egípcios, há mais de dois mil anos, no tempo das grandes iniciações, sobreviviam com filosofias sagradas, nas quais e das quais o faraó vivia e tirava proveito para o seu belo povo, sempre guiado sob os preceitos divinos, os quais culturalmente tentamos entender. O pouco que entendemos, no entanto, é tão pouco que precisamos confiar em grandes escritores, que vão a campo, pesquisam e relatam a sobrevida do que encontrou. São os egiptólogos.

Mas não é preciso ser apenas egiptólogo, mas também um pouco filósofo, respeitando as essências do que aquela nação nos deixou, seja em forma de pirâmides, relevos em suas paredes; seja em forma crença pós-morte, sua visões acerca dos deuses, enfim... O egiptólogo, que busca somente informações as terás, mas não saberá lidar com elas, se se nelas não se aprofundar, pois, a querer ou não, todas as civilizações do passado tiveram um lado que, naturalmente, são alvo de críticas contundentes até hoje.

O Egito, como uma dessas nações, não seria diferente...  Por isso, ao adentrar em razões que não nos cabe, quando temos ideais, é ir de encontro a ele. Assim como conhecemos uma pessoa, um microcosmo, um pequeno universo, uma partícula, todas elas de algum modo esconde uma face pouco aproveitável.

Um dia um samurai disse, “para baixo ou para cima, não há finitos, sempre há o que encontrar”. Sábias palavras, porque a realidade em que vivemos sempre nos demonstra, para baixo, situações dantescas, hediondas, nos deixando abismados em todos os aspectos. E se procuramos, na própria realidade, a seguridade do alto, do céu, de suas nuvens, de seu sol, seja metafórico, simbólico ou não, teremos o infinito em nossas possibilidades...

Justo Meio

Contudo, lembremos daquele grande mito, de Dédalo e Ícaro, no qual pai e filho, presos em uma torre grega, decidem pular e voar, com asas de seda feitas à mão, pelo gênio Dédalo. “Não voes alto demais, filho, suas asas podem derreter!”... “E não voes  muito baixo, pois cairás nas águas molhando suas asas e se afogando...”... O rapaz, sem escutar seu pai, assim como todo adolescente senil, voa o mais alto que pode, e ao chegar perto dos raios do deus sol, sente que suas asas começam a derreter... Cai e morre.

Saber lidar com o justo meio foi assunto de muitos mitos, entre eles está o de Sindarta Galtama, o Buda, que havia se iniciado debaixo de uma árvore, depois que ouvira um senhor, ao lado de uma criança, dizer “não deixe que as cordas afrouxem, pois podem não  tocar. Não as estique demais, pois podem se arrebentar”...

Depois de te lido essa história, comentei a um grande professor de filosofia, o que havia entendido. E lho disse, “Temos café, temos o leite. Supondo que os dois têm naturezas distintas, e tem. Misturando-os, temos a terceira natureza. Seria esta um justo meio?”... Ele riu, e nada respondeu. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde eu iria encontrar a resposta.

Voltando ao Faraó

E descobri que o justo meio era uma questão de praticidade, no sentido literal da coisa. Era descobrir a essência de cada ser humano, de cada espécie que nos ronda. Calma... eu disse praticidade, mas dentro de minhas possibilidades. Eu olhava, e começava a enxergar que somos hiperdiferentes, em tudo, em comportamentos, em físico, em pensamentos, em ideias, em personalidades, caráter, mas em nós, naquilo que subjaz a tudo que sabemos a respeito de nós mesmos, somos iguais; somos divinos; somos o sol que não cessa de brilhar. A chama que não se apaga. Ali, em nós, na parte que se iguala ao grande Espirito, os sábios dormem, e acordam sorrindo em meio a um mundo eloquente, sem dono.

Desse ser que desconhecemos, viviam os grandes iniciados – Pitágoras, Platão, Zoroastro, Cristo... – e antes deles, levando os deuses ao seu grande povo, o faraó, o homem-deus, cujos atos, moderados, unidos ao sereno, fantasticamente simples, divinos ao nosso ver, eram a prova do justo meio.

Uma das maiores provas do divino homem era não deixar-se influenciar por terceiros, pois seus atos, baseados no sagrado, eram inquebrantáveis, ainda que países o fizessem, que nações inimigas tentassem corrompê-lo no sentido de levar seu mundo a filosofias diferentes, adotadas em seu mundo, a terra vermelha, não conseguiam.

Era um homem deus, pois vivia daquela parte que está em nós, e ele, o grande homem, graças às iniciações, que davam mais forças ao ser, sobrevivia a cada ataque, fosse psicológico ou não. Na maioria das vezes, era em forma de invasões, nas quais inimigos mais fortes até, tomavam, escravizavam, e torturavam aquele grande povo, mas a potência que se escondia nos sábios homens, ainda que em um homem só às vezes, fazia com que nada se perdesse.

As esperanças tinham nome. Faraó. Como uma célula que se desenvolve – e que aparece das ideias sagradas – cresce, leva mais seres em sua volta, consome todo mal, revitaliza seu povo, e volta mais forte que o inimigo. Assim, o Egito  prevaleceu; serviu de exemplo ao mundo, como seus homens de ferro, de grandes rainhas, de sacerdotes mágicos, os quais para o homem atual eram Ets que um dia vieram e construíram pirâmides.

Eram mais que isso.

Em relação à terra, antes de tudo, não admitiam sabotagem contra ela, nas quais atitudes negativas poderiam tomá-la e, como uma doença degenerativa, leva-la. O Egito, para o seu povo, era o céu. Era melhor do que qualquer terra, que qualquer paraíso religioso, culturalmente falando. O pior para o cidadão egípcio era morrer longe de sua terra, e esse sentimento não temos com relação ao nosso país – seja ele americano, inglês, espanhol... – por mais belo que seja, não há mais esse amor.

Nas ruas, se houvesse alguém que comentasse a respeito da má política, tudo era trabalhado para que ali mesmo se esvaísse; a má política veio depois, quando os faraós já não significavam mais homens deuses, e sim criadores de túmulos, escravagistas, líder sem povo... E hoje, infelizmente, o que se guarda é essa a imagem, tanto que em livros clássicos, como a bíblia cristã, o que se pode perceber é quase uma propaganda contra a terra que governou há mais de cinco mil anos o mundo, e que fora berço de tudo que vemos, seja em medicina, religião, respeito, disciplina, está sintetizada em escravagista e ditadora.





Volto com mais divagações.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Deus e a Tsunami

Quando ela vem, nos leva para a origem.




Após muitos anos de experiências em estudos voltados às religiões, ao comportamento das pessoas que delas fazem parte – alguns mais afincados na fidelidade à seita outros não; mais alguns com pé atrás; e mais outros, somente quando um fato que lhes imprime dor, se voltam à fé... Começo a entender que as divindades – potencialidades presentes e passadas – ou como dizem em Game Of Trones, deuses modernos e antigos, não deixo de refletir acerca de uma metafórica tsunami.

Parece engraçado. Mas não. Assim como um rio que nos atravessa as pernas, uma grande cachoeira que vem de cima; assim como uma grande quantidade de água que nos vem do nada e se vai para lugar ao algum – vejo Deus.

Nossos pensamentos, nossas opiniões acerca do que é ou não o Absoluto não importa. Nossos pedidos, reclamações, orações... Sintetizam apenas o que de fato nos compete a fazer, realizar. Mas, se esperamos que alguma mudança de acordo com nossos interesses de realize, é simplesmente um ato egocêntrico, dentro do qual não se raciocina, não se pensa.

E se há algo dentro de nossas vidas que mude, é porque buscamos, com nossas ferramentas, sejam elas internas, sejam externas, mas que, pelo que venho percebendo, não são atos advindo de uma Natureza imutável que o quer.

Se há doenças que vem e vão, se há alguém que se vai para o invisível, ou mesmo que estava quase por morrer, não significa um ato de uma sombra humana que nos salva; simplesmente o ato não se realizou – seja ele de vida ou de morte.

Somos pequenos para entender isso, mesmo porque temos, desde o inicio das civilizações, meios para acreditar que deuses modificavam a estrutura de uma sociedade por meio de homens-deuses, os quais, em nome de seu povo, buscavam melhorar o estado. Tais homens, místicos, no melhor sentido da palavra, se iniciavam para se comunicar com o além, com aquela organização natural da qual falei no início, com vistas a respeitar e a obedecer, e ao passo manter o respeito a Eles.

Dentro do que somos, no entanto, modificamos nossos caminhos, destorcemos conceitos, fazemos leis sem a mínima característica com o Todo. Acreditamos nessas leis, levamo-las ao extremo, e, dentro de nossas concepções errôneas, fabricamos almas celestes do nada. Daqui nasce o Deus pessoal, enraigado de características humanas: de misericórdias, de perdão, de amor e ódio.

A Natureza maior não tem características humanas. Talvez o sábio entenda que buscamos o inverso, mas somos covardes na busca e na compreensão. No passado, quando homens se fizeram místicos, e nos trouxeram os mitos, não foi para fazer dos deuses humanos, mas para revelar que temos deuses em nós. Revelar a certeza de que nada anda ou corre, sente, rasteja, grita ou simplesmente vive por nós. Revelar que somos parte dessa Natureza que vai e vem, que a ciclicidade  existe em todos os pontos, dentro e fora de nós.

“Você se torna aquilo que pensa”, já diziam os estoicos. E se acredito que há uma esfera que está em torno de mim, com objetivo de me proteger... que seja! Mas a realidade é outra. Se acredito que almas vão para um céu, que as más descem ao inferno, e que metade daqueles que se arrependeram – ainda que tenham praticado crimes hediondos – ainda tem uma chance para morar ao lado de Deus... E se eu acredito que largando tudo que tenho, deixando minhas roupas, amigos, filhos, mulher de lado, para ganhar o céu, que assim o seja, mas não conte com a Natureza para isso. Se acredito que, por meio de boas ações divindades estão me concedendo boas reações, então, ainda que seja bonito, temos que ir a fundo em nossas concepções, pois há pessoas que fazem isso todos os dias, e, no entanto, não recebem auxilio de ninguém...
A tsunami real

A tsunami real atravessa casas, cidades, sociedades, levando crianças, jovens e adultos e cães que estiverem na frente. Com ou sem suas concepções religiosas, ela vem e leva, sem pena, sem amar ao próximo, sem deixar os escolhidos, muito pelo contrário. Não há escolhas.


Por isso, devemos aceitar a Natureza das coisas, saber que nada nos acontece pelo que pedimos ou imploramos, mas porque deve acontecer. As interpretações são em demasia normais acerca dos ocorridos, pois, como disse, racionalizamos tudo. Devemos, contudo, sermos menos covardes, menos ignorantes, mais filósofos e buscar entender o papel dentro de nossos contextos, pois quando houver qualquer tipo de água, seja ela metafórica ou não, que nos leve, que tenhamos desempenhado os nossos papeis sem medo de partir.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O Banquete de Diógenes

Diógenes. Modelo de pessoa, em tudo.




Não falarei aqui do Banquete, de Platão, no qual o filósofo alude acerca do Amor. Falarei de outro banquete, o nosso.

Já perceberam o quanto ficamos apressados em comer quando com fome estamos? Parecemos cães deixados por donos, e quando sentimos o cheiro da bendita, não pensamos em outra coisa – mesmo! – senão em nós próprios. Nesse ato instintivo, esquecemo-nos do comportamento e de nossas raízes, pois ultrapassamos a qualidade de sermos seres educados, reflexivos, homens de bem, enfim, a única coisa que nos passa eliminar a fome...

Claro que não se pode exigir de uma criança faminta ou de um senhor ou senhora pedinte que sejam corteses quando passam por situações idênticas a animais, e, no mais tardar, quando encontram algo para saciar a fome, sejam delicados. Hoje, me refiro aos famintos de saber, de homens que levam para si o pensamento Diogeniano (de Diógenes) de padrão comportamental.

Dizem que Diógenes, um dos grandes filósofos clássicos, o qual, ainda que vivesse humildemente, tinha padrões eruditos de ser. Claro que, na maioria das vezes, era uma chamada a elite da época, que, sintetizava outros padrões, o da comodidade e do intelectualismo. No entanto, seus gestos eram nobres, suas palavras eram claras, e sempre sabia que as coisas tinham seu poder de volta.

O que seria isso?

Hoje, em meio a tudo que vivemos, sempre queremos mais e mais. Seja em forma de pecúnia, seja da maneira espiritual; cada um acredita que tudo é um plano divino de consecução de suas realizações. Todos, ou pelo menos a maioria, não acredita que seus atos, por menor que seja, geram reações em cadeia, pois estamos sempre “vigiados” e abençoados e perdoados por Deus.

Mas quando nos vêm as reações do Tempo, imploramos para que não sejam conosco. Diógenes, ao contrário disso, dentro do seu padrão de vida, sabia que a natureza não era imediata, tudo possuía uma razão de ser, e que, como um banquete, teríamos que ter atitudes de cavalheiros, no qual o comportamento seria acima de tudo filosófico – elegante, moderado.

Em um banquete, fora os piratas, exige-se a finesa, a elegância, modos, e muito mais. E quando nos é passada a refeição, refletimos acerca do que podemos ou não comer. E nele, no grande banquete, por mais famintos que estejamos, temos que comer um pouco de cada coisa, usando mais a reflexão do que o instinto.

Assim era Diógenes, modelo de pessoa, a quem referenciavam os grandes homens que um dia passaram a conhecê-lo. Assim, podemos, dentro de nossas possibilidades, nos referenciar, seja em Diógenes, seja em Heráclito, no qual também refletia tais qualidades, e viver uma vida regada de disciplina; entretanto, sabendo que a vida vai nos oferecer reservas de provas nas quais o instinto, fora de sua contenção, falará mais alto.

Saibamos que o banquete, a depender da mesa, é imenso. E por isso, esperemos a nossa vez, pois seremos servidos pela vida, seremos ‘lembrados’ pelos deuses, pois nossas ações sempre geram outras, e que delas podemos plantar e colher alhos e tomates, ao passo também podemos plantar e colher veneno.

Pessoas


Quem não tem uma pessoa para sentir raiva? Quem não se sente tolhido em quebrar tudo por não ter conseguido algo que alguém não conseguiu? Vamos esperar. A nossa vez sempre chegará e vamos provar da maneira mais perfeita possível, sem quebrar, sem eloquências, apenas provar regadamente o que o céu nos enviou.

Assim também em relação ao trabalho, ao estudo, a tudo que priorizamos e queremos uma resposta imediata. Lembremos do banquete, que, na realidade, simboliza nossa ignorância perante à natureza, perante os mistérios da vida, os quais estão se realizando todos os dias, nos ensinando que, por mais forte que seja a fome do homem, deve-se respeitar quando nosso objetivo estiver em nossa frente.


A própria vida pede para ser vivida moderadamente.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Liberdade Clássica

Estoicos. "Liberdade é seguir a Deus".


Viver, Uma Arte.

Um professor meu dizia que, quando as sociedades falam de amor, é porque lhes falta amor; quando falamos em paz, é porque, de alguma forma, nos falta; e hoje, depois de muito tempo, após várias gerações de escravidão negra pelos países do Ocidente, ainda se fala muito acerca da liberdade.

Mas o termo, assim como outros, sempre vai nos soar como se fosse um arquétipo, ou simplesmente um gerador de manifestações, dentro de uma sociedade que, por si só, vai às ruas por qualquer motivo. Essa não é a questão.

A questão é que Liberdade, essa bela palavra, nos traduz um sentimento oposto ao de prisão, encarceramento, seja ele subjetivo, metafórico, simbólico, literal, de maneira que, quando a pronunciamos, nos sentimos um pouco livre de nossas amarras materiais ou não. Não tem importância. Podemos, sim, ver dessa forma.

Porém, só não podemos nos distanciar do seu real objetivo, de sua raiz, como se um fruto – conceito – caísse longe da própria árvore que o gerou. Isto é, todos os conceitos relativos à liberdade devem, por assim dizer, estarem próximos da realidade de sua semântica que, um dia, fez o termo se religar ao sagrado, ao divino.

Estoicos.

Desde Sócrates, não se via conceitos tão bem empregados, levados à pratica por uma sociedade fechada, porém séria ao ponto de ser respeitada até hoje, mais de dois mil anos depois de sua criação.

Os estoicos, em seu comportamento, eram vistos como homens de bem, apesar de se manifestarem pouco junto às pessoas – ao povo; mas eram, acima de tudo, filósofos que traziam à tona conceitos que revitalizam – quando práticos – o núcleo essencial daquela sociedade, que, com o tempo, infelizmente, foi se esquecendo, deixando de lado, e desvirtuando para interesses relativos, pequenos, e porque não dizer fora da esfera mística o real sentido da vida – que era seguir o Ideal.

A palavra liberdade, a que clamamos hoje, tais quais filhos presos pelo padrasto, tem sua finalidade social, mas os estoicos tinham uma frase que, na compreensão humana, pode nos dizer tudo: “Liberdade é seguir a Deus”. 


Deus, não pessoal, não antropomórfico, não sombra do homem, era o infinito, a Lei. E dessa lei retirávamos o leite natural de nossa vida, o amor real, a harmonia com o Todo. Não era algo frio, nem ilógico, mas prático. Assim como as sociedades egípcias, hindus, que um dia puderam nos mostrar como era a liberdade – seguindo seus deuses –, os estoicos olhavam para cima, e em nome da tradição – tão antiga quanto suas filosofias – resumiram conceitos, e nos deixaram a beleza de segui-los com a praticidade dentro do que podemos...

Comportamento Nosso

Hoje, quando saímos em busca de aventuras, fora de nossas obrigações diárias, sintetizamos a palavra liberdade no fazer o que queremos, onde queremos, com quem queremos. E mais, arriscamos vidas alheias além da nossa, caímos em bueiros, viramos modelo do mal, refletimos às avessas, nos vingamos... E a liberdade, quase que esquecida, só nos lembra que devemos deixar de seguir leis humanas, divinas, e correr junto às montanhas em busca de nada.

Esse é o nosso erro. Pois, se não seguimos qualquer lei, seja ela humana, divina, pessoal, intuitiva, estamos deixando de lado – e muito – o que tanto buscamos: Liberdade. Prova disso, é quando entendemos a lei da gravidade. E a respeitamos, pois, se não se pula todos os dias de prédios de vinte a trinta andares conscientemente, a não ser que esteja com problemas internos. Mas a gravidade é uma lei na qual o corpo menor é atraído pelo maior, tanto aqui como em qualquer lugar do Universo, e quem quiser tirar a prova disso vai ter que fazê-lo de paraquedas!

O sol nasce todos os dias, disciplinado, justo, claro, com chuvas ou não, ele está sempre lá, “de de pé”, assinalando seu lugar. Quando rodamos uma pedra presa em um barbante, e quando o soltamos, ela sai, bate em algum lugar longe; ou seja, nunca, jamais, em nome do interesse humano ela vai ficar estática no ar. Assim, entre milhões de exemplos, cito alguns naturais, no quais sintetizamos a liberdade em que podemos estar inseridos, e estamos.

No entanto, em nossas personalidades, ainda meio deseducadas pelo tempo, ampliamos nossas irresponsabilidades e esquecemos que o termo em questão está em nós também. Em nossos atos, em nossos pensamentos, caminhos, como se fosse uma senhora a nos ditar condutas sagradas, mas que, graças aos apegos constantes, raciocinamos para baixo, não para cima, de acordo com nossas reais naturezas.


A liberdade, para finalizar, já seguindo os grandes estoicos “Não é o direito ou a capacidade de fazer o que se quer, mas a compreensão dos limites de nosso próprio poder e dos limites naturais estabelecidos pela providência divina.”





"Segue teu coração e serás livre."

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Cinzas quentes

O que somos, de onde viemos; por quê?



Se nosso objetivo é andar, damos passos; mas antes, engatinhamos. Se nosso objetivo é realizar um sonho de consumo... Economizamos, mas antes, temos que trabalhar para tanto. Se nosso objetivo é ser feliz, que encontremo-nos nas mínimas vias porque passamos, mas antes, entendamos a felicidade, o amor, a vida, seus conceitos.... E sejamos humanos, para que, em caminhos tortuosos ou não, sejamos práticos. Simples não?

O progresso espiritual é assim mesmo, um tanto quanto mais denso, afunilado como uma pirâmide que se encontra com sua ponta erguida, ou mesmo uma montanha que se julga, com seu cimo, inalcançável.  A espiritualidade em nós permeia somente depois de chegarmos a um desses pontos, porém internos.

E se chegamos até aqui, nessa elucubração filosófica, é porque somos fortes, firmes e homens de bem. Somos mais, somos humanos em busca de algo maior que nós mesmos, nos sentido mais teórico da palavra, sim, mesmo porque é preciso práticas diárias que nos faça entender uma natureza latente, que pede, implora, clama nosso nome interno – e às vezes não entendemos.

E isso é belo por natureza. Quando temos em nossas mãos a liberdade de acender nossos pavios de sabedoria, ainda que ilumine apenas um pequeno e simples cômodo em nossas mentes. É a chama que, um dia, vai nos iluminar por completo. Assim eram os estoicos, os pitagóricos. Não precisavam dizer o que ou a quem seguiam. Iluminavam com sua presença.

Podemos ser assim. Mas somos meigos em beleza, somos ínfimos na busca. Somos mais racionais que intuitivos. No entanto, nossos âmagos são feitos degraus, nos quais subimos a cada estação, e nelas choramos, realizamos, sonhamos e vivemos o melhor de nós.

Assim eram os homens de bem. Entendiam suas vocações, iam atrás delas, não importando o que representavam, mas sabiam que tudo era o inicio de uma revelação interna, e mais. Davam o melhor de si, em pesquisas, em buscas pessoais, a fazer de suas vidas a própria filosofia. O amor à sabedoria.

Para nós, entender a vida é difícil. Assim como a morte, e entende-la nem passa pelas nossas cabeças. Por isso sofremos. Impor em nossas cabeças valores relativos, como se fôssemos meramente robôs, é uma falha coletiva ocidental, pois perdemos o sentido da vida, desse manancial que nos cobre e se realiza independente de nós.

Assim, se criou o etnocentrismo, esse coletivismo (quase que individualista) do Ocidente, dentro do qual o medo se tornou uma arma neutra que nos fez criar religiões diferentes, de um Deus racionalista, que cuida apenas de seus filhos, os quais ninguém sabe quem são, pois, todos os dias, cria-se um céu com seus eleitos.

E assim, nosso semblante, mais coletivo ainda, corre as vias naturais sem busca, sem direção, apenas em nome de um materialismo doentio que nos amarra a partir de nossos desejos. Mesmo assim, em nome da felicidade, filósofos tradicionais, por meio desse desejo, de nossas escolhas, tentam traspassar uma realidade a que temos direito desde o dia em que nascemos: o que somos, de onde viemos e por quê.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....