terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Crianças, heróis de hoje e de sempre.

Crianças, heróis do dia a dia.



Debaixo dos escombros de um prédio atacado pelos soldados sírios, ressurge uma criança, com aparência tão triste que nossas almas se arrependem de estar em um mundo no qual homicídio não é palavra de escolha, e sim de dor. Ali, em meio aos destroços, pessoas de bem, civis, se consomem em lamúrias, como se fosse o fim de um tempo que não precisa voltar.

E na África, em guerras civis, quando massacres são velados, sentimos que as guerras particulares são tão piores do que as que declaradas ao mundo. São milhares de corpos estendidos ao chão, massacrados, queimados, enterrados como cães, e na maior parte das vezes deixados às moscas... E em sua maioria, crianças.

Nelas, em tais guerras, o fuzil, que há muito fazia parte do soldado treinado, pronto para morrer, pois acreditava na política da guerra e exercia suas obrigações de soldado-cidadão, agora estava nas mãos de um menino, filho de alguém que o vendeu, ou levado à força por guerrilheiros suicidas daquela antiga África da qual não gostamos de nos lembrar.

No mesmo país, após as guerras coloniais europeias, muitos deixaram seus resquícios lamentáveis, e até hoje cidadãos sofrem com restos de minas explosivas, que, deixadas ao léu, mutilam ou matam. É a geração que já nasce com as consequências das bestialidades anteriores. E aqui, pequenos seres que nascem para exercer sua natureza em meio aos campos de trigo, ou na terra que lhes resta, são as maiores vitimas.

E o racismo?

Não há muito tempo, negros e brancos se matavam por identidades, e faziam isso dentro de ônibus, de casas, em praças, em terras férteis, nas quais a maior preocupação era o lugar onde poriam os pés, e não o que comer. Mas a miséria se estendia aos quatro cantos do mundo, se arrastando a países conformados, a maioria, não.

A notícia de mortes lentas, de uma guerra sangrenta, chegava do outro lado, mas não poderiam os países do ocidente, naquela África terrível, envolver-se de modo particular, assim como o fez os americanos do norte, em várias nações. Não poderiam dar um basta nas mortes, tomar o governo, incutir uma democracia, e sentir-se como herói.

O problema era mais embaixo. Ao sair do campo dos olhos dos países, a situação era pior do que se aludia, pois, após o termino da época dos massacres, a noticia de que crianças foram o principal alvo dos massacres revoltou o mundo....

Assim o foi e assim o será. Enquanto houver o sentimento bestial de guerras, crianças serão usadas como artifício final para a realização de tarefas horrendas. E não muito longe estamos quando deseducamos uma criança, mesmo porque, se sabemos o que é educação, por que não levamos a sério a concretização daquilo que acreditamos? Será que somos pequenos o bastante para entender que as guerras reais são apenas o produto elevado de nossa ignorância, e que não é preciso que ela exista para que possamos eliminar a possibilidade de uma criança ter seus direitos e obrigações?

Não podemos ser crianças, temos que fazer algo. Exercer nossos papeis de pais e de seres humanos, principalmente. Não nos contentar com a frialdade de um mundo que nos leva a pensar que está tudo bem, tudo certo, e que há programas educacionais em prol do pequeno que nasce e se revela um louco nas horas vagas...

Não podemos nos deixar levar pelas propagandas de artistas, jogadores, empresários que lucram sua imagem quando abrem a boca e dizem, “eu tenho uma instituição para crianças carentes”... É preciso que tenhamos em nós o que é educação, o que é cultura, o que é amor. Todos eles se fundem e se revelam em uma viga de aço quando unidos pelas mãos do homem que segue a tradição.

E quando me refiro à tradição, ponho-me aos pés das civilizações que um dia nos deixaram legados em todos os aspectos, de modo que, até hoje, somos agradecidos em realizar algumas tarefas que tenham algum traço, alguma forma, dos olhos do passado.

De volta ao passado

No antigo Egito, a criança já nascia voltada ao respeito direcionado ao monarca dono das duas terras – o faraó. Nele se concentrava a figura dos deuses que estavam, em essência, nos dia a dia dos pequenos. Para eles, a dedicação ao Egito, desde a tenra idade, era o maior dos prazeres; entender a função de cidadão e saber o que significava cada um dos deuses dentro dos mitos, era como se enraizasse, em sua alma, um pouco do homem-deus.

Na Antiga Roma, a grande república, crianças tinham suas amas, e por elas eram cuidadas com rigor e disciplina, o que era mais afincado quando crescidos e levados por pedagogos que tinham a obrigação de passar-lhes o que era, primeiramente, a ideia Roma.

A disciplina, a honra, e o amor a sua Senhora, como era conhecida, eram quesitos que se aprendiam como o ar que se respirava, pois isso todo o cidadão amava aquela cidade, amava seus heróis, e faziam o possível para que a criança se tornasse um.

Em Esparta, ainda que fosse em meio a um mundo cheio de guerras, já teria a singularidade de ser ou não um patriota das batalhas. Não poderia nascer com defeitos, pois, a depender da debilidade, seria morto. É claro, se fizéssemos hoje isso, seria assassinato, pois não somos uma civilização, não somos norteados por princípios de guerra, mas, mesmo assim, indiretamente, crianças são mortas ao nascer, por pessoas que têm medo de responsabilidades, e assim as jogam em lixos, em rios, etc. Não há propósitos claros.

Nesse mesmo país, a criança, a completar seus doze anos, teria que se iniciar, ou seja, passando por provas que antecederiam seus sentimentos em relação ao que iria encontrar nas batalhas. Era coisa de leão. Ou melhor, na maioria das vezes, tinham que enfrentar o olhar do touro, e se pestanejassem, não estaria pronto para a guerra – ou para o touro.

Educação Hoje

Longe se sermos uma potência em educação, confundimo-nos muito quando nos referimos a universidades, faculdades, cursos... como se fossem meios educativos. Não são. São meios informativos, os quais nos preparam para enfrentar um mundo externo, não interno. E deste mundo, viviam os generais, os faraós, na maioria das vezes, educados por escravos, os quais eram mestres iniciados. Alexandre,  grande, fora educado por Aristóteles; Marcos Aurélio, por Epiteto, etc. Estes homens não eram apenas generais, pois possuíam a real educação.

E hoje não temos noticias de que há professores que possuem relativo saber filosófico no sentido de ensinar qualquer pessoa, desde os doze ou quinze anos. Pelo contrário. Só temos noticia de que filosofia é bom depois de questionarmos as religiões atuais, mesmo assim ainda temos dúvidas acerca do que é filosofia.

Eu, em particular, se tivesse sido educado dentro desse manancial chamado Filosofia, teria, talvez, tido menos preconceito das nações, das pessoas, do mundo. Teria feito coisas maiores e melhores, teria sido mais decisivo nas horas mais dúbias.

Hoje, com o pouco que tenho, reflito sobre a soberba de um dia ter conhecido a Filosofia e sobrevivido entre pessoas que a detestam. Não importa. A cultura, depois disso, me abriu a mente, as possibilidades, me protegeu, me deu armas, e me fez, talvez, um pouco melhor.

E hoje, com um filho de cinco anos, tenho que ser mais meticuloso, nas horas em que lhe passo algo que, para os padrões de hoje, é execrável. Tento passar-lhe o amor ao país, à política platônica – de ter o bem e passar aos demais; ser aristotélico nas horas vagas, fazendo-o organizar seus brinquedos, deixando claro que cada coisa tem sua finalidade e seu local de origem; tento fazer-lhe entender as ações e reações de seus atos, pequenos ou grandes; e o mais difícil, lidar com seu instinto... E muito mais.

Vai ser uma jornada interessante.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Os Mundos de Hermes

Viver, uma arte



Deus Hermes. A descida do homem ao mistério.




É natural um ser humano ir ao fosso de suas possibilidades, é natural que ele se sinta às vezes sem o poder de lidar com as próprias forças, pois todas elas, a seu ver, já foram usadas na tentativa de não cair; contudo, lá estamos, presos, inertes, tentado entender o que nos ocorreu, para que pudéssemos ir tão fundo.

Na Antiga Grécia, um dos deuses que representavam esse estado era Hermes (ou Mercúrio, na visão romana). Deus olímpico, filho de Zeus e Maia, cuja função era ser mensageiro,  indo ao Hades e voltando, sendo guia das almas dos mortos para aquele reino. Essa, no entanto, é a função que nos interessa, mesmo porque ele possuía várias, entre elas a de ser companheiro e irmão de Apolo, o deus da unicidade, da música. Dizem até que fora assemelhado a Cristo, em sua função de intérprete do Logos...

Hermes, assim como todos os deuses, potencialidades naturais assimiladas em mitos, singularizava um universo do qual o homem se nega a participar para o seu próprio crescimento, evolução. Um universo que se estende do “Céu” ao “Inferno” como meios de lograr a espiritualidade humana e quem sabe a compreensão do Todo.

A humanidade precisa disso. Não há aquele que, por mais sábio que seja, que não tenha passado por ou estado em um lugar psicologicamente sombrio. Nós, em particular, não somos sábios, e nem o queremos, mas precisamos passar pelo nosso inferno, seja em qual nível for. Se levamos algo conosco, não sabemos; se aprendemos com ele, fica de cada um.

A questão, no entanto, vai mais além. Não reconhecemos, às vezes, que estamos no fundo e precisamos de evidências para tanto. Há outros, no entanto, que, mais radicais, não só veem como prova divina, como também querem ser santos no outro dia. Na maioria das vezes, o inferno se mostra como um pequeno estado de dor e lamentações as quais se revelam desagradáveis ao ver do sujeito, o qual desiste das provações e da vida.

Outras vezes, as provas são pequenas demais, como pequenos infernos cujas chamas nem mesmo se parecem com tais, e fica fácil dele sair; mas, na maioria das vezes, saímos, e entendemos, e por vaidosismo humano, ou ignorância, voltamos para um pior. A morte.

Nossos sentidos vão ao chão, e este se abre, e em nosso corpo, uma dor que não dói, mas que arde por dentro, semelhante ao que chamamos erosão rápida. Nossas mentes pesam ao ponto de nos deixarmos estáticos. As mãos, os pés, o coração, tudo se esquece de suas funções... E o pior de tudo. A alma vai ao inferno. Não conhecemos ninguém. Nossos ouvidos se lacram para as palavras de conforto, e desenhos no céu começam a se formar... Chegamos ao Hades.

E para voltar dele é preciso que tenhamos um ponto que reluz frágil, e a depender de nós, tal ponto nada mais é que nossas convicções, nossas filosofia, nosso idealismo em relação a algo maior e melhor. Assim, como Hermes, nossas pequenas asas, presas aos pés, iniciam seu voo, de volta à origem – seja ela psicológica ou não. É preciso entender o lado sombrio do Hades e o lado luminoso do Olimpo, os dois, em nós, tão perfeitos e reais, pedem que nos harmonizamos com eles, e tenhamos as consciência de que não há uma vida somente de céu, mas também não só de inferno.

Hermes, essa consciência grandiosa que vai ao dois mundos, faz seu papel assim como fazemos o nosso materialmente. E nós, que galgamos os dois mundos, o material e o espiritual, temos, em cada âmbito, o céu e o inferno.

Iniciados

Os grandes homens, os iniciados, por exemplo, como os faraós, para quem já leu obras nas quais detalhes há sobre suas iniciações, sabe que nenhuma é gratuita. Todas elas possuem seu preço. Quer dizer, se se quer chegar ao espirito, ou pelo menos à compreensão dele, se aproximando dos deuses, passa-se, primeiramente, pelos deuses dos infernos – na escuridão, no perigo vital, e logo após,  sobe-se, eleva-se, iluminando-se.

Outro exemplo que devo citar é o de Sidarta Gautama, o buda, quando saiu de seu castelo quando todos dormiam, e fora em busca da sabedoria – das respostas do mundo. Mais tarde, embaixo de uma grande árvore, envelhecendo, passou por infernos internos nos quais deuses do mal e do bem se digladiavam pelo seu nome.

O mesmo ocorreu com Cristo, no deserto, quando se despedira provisoriamente dos seus discípulos para conversar com Deus. Lá, passara por provações, por desafios, nos quais o diabo era o coadjuvante na tentativa de reverter seus princípios. Contudo, em sua Vontade, o filho de Deus o espantou e só fora atentado um pouco antes de sua crucificação. Mesmo assim, ele venceu.

Logus

Em nosso Logos, o humano, não tem outro meio de reconhecer quem somos, sem que tenhamos que passar por dificuldades. Marco Aurélio, o estoico, já dizia, “só acontece com cavalo coisas inerentes ao cavalo”, enfim, o que ele quis dizer é que correr de nossas naturezas, por mais difícil que seja, não há como. Temos que correr riscos, passar por eles, vivenciá-los, senti-los de perto, ou como diria um professor, “sentir o cheiro da morte de perto, para que a tenhamos como uma realidade!”.  Eu fico com o general filósofo, mais uma vez, “Se a morte te sorrir, sorria para ela!”.


Não somos iniciados tais quais os grandes do passado, mas nos sentimos um pouco a cada dia na resolução dos pequenos e grandes problemas diários. Querendo ou não, crescemos no confronto diário com os monstros internos e externos. Hermes está dentro de cada um a fazer seu papel diário, de levar seu recado ao mundo mais sombrio do homem; tem a função de lidar com o próprio Hades, de salvar o mundo; de nos fazer conectados com os dois aspectos da vida. E quando ele chega do submundo, sorridente, com a prova de que é apenas algo tão natural quanto o ar que respira, ele representa o homem sábio.

Para o sábio, não há o inferno, mas o mundo do mistério.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

À Sombra dos Degraus do Conhecimento

Viver, uma Arte.


Degraus que nos seguem.


"Se pretendemos encontrar a Deus, já o temos em nossas possibilidades"
L.C.


Homens não nascem sábios, não aparecem do nada e começam a fazer discípulos antes de seu nascimento. Há séculos, antes do aparecimento de Cristo, quando profetizavam a tua chegada, reis acreditavam que assassinar crianças poderia frear a vinda daquele ser tão especial. No entanto, quando veio ao mundo, depois de ter passado pelas intempéries de seu surgimento,  o iniciador do Cristianismo teve que passar, logo mais, por diversas fases naturais, tal qual um ser humano normal. Estudou, educou-se, trabalhou, e quando chegou aos doze anos... Pum! Ninguém sabe o que houve. A Bíblia não diz. Nesse ponto não houve normalidade...

É possível que tenha ido para uma escola especial. Muitas obras acerca de Cristo dizem que ele viveu entre essênios, uma comunidade pacífica na qual se ensinava leis tradicionais acerca do universo, do comportamento humano, e do espirito. Algumas outras dizem que, nesse época, assim como os filósofos Pitágoras, Platão, Anaxágoras, Anaxímenes, entre outros,  Cristo fora para o Egito – mas aí, teria que ter sido com uma idade mais avançada – enfim, iniciou-se por lá.

O que quero dizer é que, se temos propósitos, nos aferremos a ele. Se possuímos uma estrela que brilha intensamente desde a tenra idade, por que deixá-la se apagar com opiniões, reverberações simples, de pessoas que preferem seguir outros caminhos? A verdade é que, hoje, o mundo, ao contrário do mundo passado, tornou-se uma coletividade de opiniões baseadas em preceitos modernos, retos, estanques, sem qualquer ligação com o passado.

É claro que temos que nos perguntar qual é o nosso propósito. Ser materialista, seguindo pessoas com frialdades internas, ou termos uma base, seguindo uma harmonia que a tanto o homem no passado seguia, e graças a ele ainda temos algo a buscar...

Um dia alguém me disse... “Se você quer economizar e comprar um carro, seja qual for, você pode, você o tem”. E, “Se você procura o sol, de alguma maneira, você já se sente iluminado..., então, quando buscamos a Deus, já o temos, aqui dentro, em nossos pensamentos, corpo, e por que não dizer em algumas de nossas práticas?”...

A escolha é nossa. Os degraus estão em nossa frente, a escadaria é grande, talvez até maior que as outras que vimos em nossas vidas, porém se nossos passos nos levam para cima, sentimos em nossos corações se estamos no caminho correto, não importa a velocidade. Aqui, talvez, cabe a história da lebre e a tartaruga, em que a lebre, em uma corrida, por ser a mais rápida, acredita piamente que chegará antes do pequeno, lento, porém correto e sábio amigo. No fim, todos já sabem: a tartaruga vence.

Na maioria das vezes, queremos ser espirituais da maneira mais fácil, isto é, já estando no topo da escadaria – aqui cabe a história dos pequenos pastores cristãos que não têm nada a oferecer, e mesmo que não tenham uma experiência mínima, querem ditar as leis do livro sagrado às pessoas mais simples, porém mais sábias que ele... – e nada mais. A lebre venceu e nada sabe sobre as regras da corrida.

A regra nos diz que há leis a serem obedecidas. Desde o mais infinito até o mais material do ser, há leis. Passamos por elas, realizamos nossos desejos, nos inclinamos a outras, mas nunca deixamos de viver um pouco do que os deuses deixaram desde a primeira manifestação. Desde o ser mais materialista ao mais espiritual, não há como deixar de perceber que somos e estamos envolvidos em algo que nos diz que, se agirmos, teremos uma reação de igual poder a nosso favor ou contra; não há como negar que há uma lei imaginária que se estende em todos os sentidos – tanto horizontal quanto vertical – e que violá-la consiste em duvidar dela, e ao mesmo tempo personaliza-la, como o fizeram até hoje, a criar deuses pessoais – ou um deus pessoal.

Não somos donos da verdade, pelo contrário. Até o mais sábio dos homens disse que nada sabia! Somos inclinados ao Bem, à Verdade, à Beleza. Somos humanos que tentam harmonizar-se com o simples, e nele encontrar os elementos que nos fazem felizes. Somos feios, errados, até meio radicais, mas nossa intenção é entender a beleza da vida, encontrar os caminhos certeiros e sagrados que nos elevem internamente, e mais, temos, por natureza, que sermos fortes, pois pessoas há no mundo que escolhem o desprezo, a dor, a animalidade, a loucura, o fanatismo religioso sem questionamentos; há pessoas que não amam, ou distorcem o amor, e viver na inércia de um mundo que roda em nome da grande lei.

Termino com uma máxima de um homem que batalhou a vida toda debaixo de flechas, e dentro dessas grandes batalhas, aliou o seu amor ao próximo, por meio de uma filosofia tão maior que a própria ignorância dos homens de hoje, tanto que sua obra, escrita sob os ataques inimigos, sobrevive depois muito tempo...

Se a vida lhe oferecer algo melhor que a justiça, verdade, sabedoria e coragem – em outras palavras, melhor que a paz que vem do agir conforme a razão ou em acordo com o destino quando os eventos estão fora de seu controle – se, como eu dizia, a vida lhe oferecer qualquer coisa melhor que isso, acolha-a com todo o seu coração e goze-a plenamente”..

Marco Aurélio.





quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Espelhos Quebrados



Aos pedaços que nos faltam.



Olho ao horizonte,
Não me vejo.
Ao céu que se desfaz
Em nuvem,
Ao mundo que se
Destrói em guerras,
Nas terras fugidias,
Onde mora a canção.
Na antemão das
Esquinas,
Dos carros que
Voam,
Das crianças que
Passam,
Das donas que
Lamuriam...
Do homem que
Pede.
Não me vejo.

Não me vejo
Ao som do sol,
A cair nas águas
Das belas sereias,
Das areias,
Das ruas,
Suas luas trêmulas,
Em suas vestes tão
Pequenas...
Tuas vozes amenas,
Que cintilam
Nas brisas
Que se vão.
Ao meu coração,
Cheio de bíblias,
De alcorões,
Tábuas e leis,
Sem mandamentos,
Apenas momentos,
Alentos...

E sinto o teclar
De minhas notas,
O sino de minha alma,
O pedir de minha
Calma,
A paz, nunca mais,
Se vai,
E fica a atribular,
À semelhança
De uma criança
E pedir, a sorrir,
Por esperanças,
Em crédulas
Andanças,
Danças,
Ancas,
Só.

Dó em meu peito,
Sem dor,
Na clausura
De te ver,
Amar,
Como mãos
Em violão...
A afinar as cordas
De teu mundo,
Ante o meu,
Imundo,
Submundo
de meus sonhos.

Não me vejo,
E me vejo
Em tudo que não

Sou.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Donos do Destino

Viver, uma arte.


Os caminhos nunca são iguais. .




"Temos caminhos diferentes, porém nos encontramos em seu final"
Bagavah Gita 




Sempre de algum modo sentimos inveja. Ao presenciar uma pessoa com todas as honrarias que um dia pretendíamos ou pretendemos ter, ficamos reflexivos, e quem sabe ser aquela pessoa...

Um dia um grande mestre de filosofia me disse “se você pretende passar pelos mesmos caminhos que um dia eu passei, eu te sigo”. Com certeza são caminhos íngremes, estreitos, ou como diriam no passado, afunilados. Desses que somente pessoas que se aventuram a encontrar cascatas encontram...

Eu não tinha ideia do que ele passou, mas, um dia, percebi, sob o olhar de outro mestre o que o primeiro havia me falado. Não era para eu me igualar a ele. Pelo contrário. Não era. Mesmo porque temos caminhos diferentes, quer dizer, não apenas eu e ele, mas todos nós.

Se eu tenho uma vida regada de estreitezas, de dificuldades, é porque a própria vida me deu tal natureza para sobressair, viver, elevar-me, ainda que com dificuldades. Se eu tenho, hoje, tudo o que pensei em ter um dia, não foi gratuito; mas há muitos que pensam que foi assim, de um dia para o outro...
E nesses pensamentos, unidos à admiração e inveja, não nos questionamos a respeito de nossos caminhos, o porquê deles, da realização mística em poder traçá-lo, como se fôssemos donos de nossos destinos – e de algum modo o somos! Por que não?

O grande Nelson Mandela, ao sair da prisão após vinte e sete anos de torturas, trabalhos duros e muita discriminação, poderia, após, vingar-se em meio a um poder no que ele foi escolhido. No entanto, disse “Eu sou dono de minha alma, dono de meu destino”, preferindo perdoar a todos os que um dia, à época de sua prisão, foram por ela responsáveis. E mais, tentou integrar a todos por meio de um jogo, o qual, na África do Sul, é tão popular quanto futebol.

Mas isso é para poucos. A maioria das vezes, observamos a ascensão do outro, estacionados no tempo. Com isso, surge a admiração, surge até uma vontade movida pelo objeto, o qual, a partir de agora, é um referencial do primeiro.  Daí, surgem celebridades que passam a morar no subconsciente do jovem, e sobrevivem na alma dele até que um dia vem a maturidade.

Não podemos esquecer. Admirar é bom. A inveja corrompe nossa personalidade e a faz querer ser e ter o que, na realidade, não é nosso, e sim daquele que um dia lutou para tanto. Admirar é pensar em relação ao próximo como algo que mora em outra dimensão, mas ao mesmo tempo nos dá chaves para abrir nossas portas internas – assim como a mestre, um religioso, um pai... De repente um amigo.

Não podemos pensar que algumas pessoas desfrutam de privilégios e nós não. Devemos pensar que, se alguém consegue triunfar na vida, é maravilhoso, é nobre, é humano! Porém, se tal pessoa não fez o bastante para consegui-lo, esqueça, ela não os merece. E assim o mesmo para nós que galgamos pequenas coisas da maneira mais honesta e virtuosa possível, devemos ter orgulho do que temos.

Aquele mestre, que um dia chegou lá, não foi por acaso. Não foi o mesmo mestre que leu vários livros, e sentou-se em uma cadeira apenas para responder todas as perguntas advindas dos viciados em respostas inteligentes. Aquele mestre nasceu para sê-lo, pois seus olhos irradiam humanidade, amor ao próximo, caridade. Levantou-se de seu leito pondo os pés no chão a dizer que o bem da humanidade era o seu ideal. Harmoniza-se, sorri ao sol, abraça a todos literal e simbolicamente. Irradia força aos presentes, toca nossos corações, e depois vai ler um livro que, naturalmente, vai fazê-lo mais forte ainda.


Essa pessoa é, porém, é humana, e podemos ser, em nossas possibilidades, um mestre, um professor, um ser humano que na simplicidade do dia a dia, sem esperanças de ser ou ter, nos ensina com seus breves passos o que somos.






Ao Mestre L.C.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A Brisa dos Homens de Bem




Romanos. Frutos de outras civilizações.





Sei que vocês irão concordar com isso, e é por isso que posso dizer que conheço inúmeras pessoas com cargos elevados e de péssimo caráter. Trabalho com vários, mas há um em especial que faz questão de levantar o braço (quase que literalmente) e dizer “sou mau caráter sim, e daí? Mas o mais importante eu tenho...’poder’!” – faltando apenas aquele riso estrondoso no final da frase, tal quais os vilões de Walt Disney.

Ele é apenas um produto do seu meio, e nada fez para mudar. Conseguiu nas entrelinhas da vida o que e para o que fora educado: cargos, honrarias, elevação social, dinheiro... E hoje prevalece a dúvida sobre o porquê de sua estada na terra... Pois nada de bom ele nos traz, assim como milhões que são ensinados e levados a crer que somos apenas corpo e mente, presos a valores referenciados em uma pirâmide de cabeça para baixo.

Eu, em nome de minha mera e falha, porém simples e respeitosa educação, a qual veio de gerações que um dia subiram em pau de arara e caíram em terras férteis de imaginação, hoje, respeito e sempre irei respeitar o próximo, e por isso, talvez, não caiba no poder tamanha “discrepância” a um modelo que reserva apenas aos filhos do mau o sucesso...

Sucesso?...

Sem reputação, sem exemplos a dar, sem pequenas virtudes, ou qualquer seguimento ético a passar para futuros homens que buscam o espiritual, fica difícil conceituar o que isso significa: sucesso. Nos dias de hoje, a busca pelo poder, reputação, o cimo de uma sociedade elegante, na qual figuram pessoas que se subjugam de bem, com risinhos brilhantes, harmonizando com seus ternos (ou brincos, se mulher), incutindo o que há muito os romanos temiam... A união do poder ao que ele não representa.

Muitos se questionam a respeito da sociedade romana, a qual sempre deixou claro que sabia lidar com esses valores – ético, morais, cívicos, divinos – e que, um dia decaiu em razão de supervalorizar o que estava transparecendo e não a ideia que fez de Roma um dos berços mais dignos da civilização humana.

Os romanos, antes da derrocada, tinham seus generais, seus heróis, seus deuses, suas leis, que até hoje batem como brisa em nossos rostos, tinham seus ideais, e um deles era a própria Roma, isto é, torna-la a melhor de todas as cidades do mundo, em reino, em comportamento, em tudo – e conseguiram por um bom tempo.

Até hoje, seus aquedutos são usados pelas vias italianas como meio de transpassar a água da chuva, além de suas estradas, que um dia arquitetadas, foram feitas ao longo das batalhas, por soldados que, além de serem os melhores do mundo, construíam pontes, estradas, etc – e isso é real. Sem falar na medicina, na crença aos deuses, enfim, pontos que os fizeram invejáveis, admiráveis.

Contudo, uma coisa nunca compreendemos, nós homens de hoje, que a civilização romana foi enraizada por outras várias civilizações, que, um dia, trouxe à própria Roma elementos fortes que deram frutos com o passar do tempo, ou seja, não foi de um dia para outro que romanos se sentiam elevados, reis, divindades. Eles tiveram berço. Tiveram caráter anteriormente.

E nós, já que não somos romanos, e não pretendemos sê-los, ainda que os admiramos, e muito, temos que prosseguir com a busca em saber lidar com nossa personalidade quando nos deparamos com situações externas. E baseando-nos na tradição – talvez em Marcus Aurélio, o general-filósofo – a qual nos diz que não precisamos de honrarias para sermos de bem.

Não precisamos sobreviver em nome de algo que se vai com o vento, se podemos nos prender a algo mais forte e belo, como a nossa própria filosofia. Se somos, no entanto, personagens com cargos elevados, nos situemos, e saibamos lidar com ele, assim como aquele general cheio de glórias,  que sabia que tudo era passageiro. Nosso caráter não.

Contudo, um mal maior nos vem de pronto. A inveja nossa de cada dia, a depressão, a falta de algo externo, como a opinião do amigo, do irmão, a qual nos conforta nas horas da dor... Não podemos deixar nos levar por isso, pois nos gera, mais tarde, medo e perda de tempo, e não gera conhecimento, e sim mais medo e mais dor.

O caráter independe de profissões, de satisfações externas. Não importam as festas, o convite, as celebridades, um amigo que ficou famoso, não precisamos disso. E a falsa ideia de que realmente necessitamos de dinheiro, de reputação, de cargos para ajudar os outros, é outro meio hipócrita em tentar nos esguiar de nossos ideais. Dentro desses, sabemos, há formas mais justas e naturais em fazê-lo, mas se temos o bastante para auxiliar o próximo, por que não fazê-lo?

Cristo, Sócrates, Plotino, Zenão, Epíteto, Pitágoras foram homens que tiveram em suas vidas apenas um ideal, e dentro dele foi criado o caráter de elevação espiritual ao homem, à humanidade. Sigamos seus conselhos, tenham-nos como referenciais quando nos questionarmos a respeito de caráter, de objetivo e profissões, de pensamentos para com seu próprio país. Qualquer que seja a nossa prática diária neles referenciada, pode ter certeza, estamos perto das divindades.




Voltamos com mais brisas.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A Fortaleza de Giordano

G. Bruno: ele viu.





Giordano Bruno, um dos homens mais incríveis da História da humanidade, conseguiu algo que a maioria das pessoas se negam em sê-lo. Verdadeiro. Em uma época em que a Igreja queimava, assassinava, excomungava, traía princípios, o filósofo, que há tempos partilhava das “verdades” dos bispos, conseguiu ver a verdade.

A maioria dos homens que não entendia o porquê da incontroversa em relação à igreja o fazia diferente. Claro, ficava bem melhor àqueles esconderem-se em suas casas ou cavernas e discutirem acerca do que era Deus, enquanto o próprio Giordano nunca se escondeu.

Quem já leu um pouco sobre a Idade Média, sabe que por isso e por outras, fora condenado, açoitado, preso, mas seus ideais, enraizados em premissas tradicionais, nunca saíram de sua alma, portanto de sua boca muito menos. Como dizia um grande professor... “ele simplesmente via e não abria mão disso”...

Hoje, quando nos afincamos em nossas pobres filosofias, crenças, ou muito menos do que isso, somos corrompidos por um mundo que cresce para baixo em valores. E, já que não temos a fortaleza interior de que tanto precisamos, por isso, empobrecemos e sucumbimos ao mal.

Não podemos deixar que isso aconteça. Claro que não somos um Platão, um Sócrates, um Plotino, o qual tentara de todas as formas, em seu tempo, concretizar o ideal platônico erguendo uma cidade dentro dos parâmetros de “A República”, mas, de alguma forma, se temos, assim como o grande Giordano, elementos que nos dizem que estamos progredindo em razão de nossa filosofia, seja ela sempre para alto, então deixemos de escutar os invejosos, os críticos, os quais, na atualidade, são tais quais os bispos do passado, que acreditam em histórias sem base, e que nunca lhe deram qualquer tipo argumento para um crescimento interior, e por isso criticam...


O crescimento é silencioso, e lento, como os passos de uma lagarta, mas também deixa rastros como caracóis – de brilho. A fé, aqui, é um instrumento necessário. Giordano descobriu que fé nada mais era que entender uma realidade que existe independentemente do homem, e ele, que viu, entendeu, teve seu alento, não precisou sair por aí, a fazer a mente de todos, semelhante aos radicais de plantão, que um dia se desfizeram de livros, de pessoas, de crianças, de mulheres, com intuito de começar uma nova História.

A fé do filósofo era (e é) saber, dentro daquilo que busca, da verdade sagrada, da qual beberam homens cuja sabedoria é eterna; dos homens que um dia se iniciaram de acordo com os mistérios; homens que não sucumbiram, simplesmente pelo fato de que um prego ou dois lhe cravaram as mãos na hora da verdade.

Devemos ser fortes. Basear-nos em premissas sábias. Erguer nossos ombros, nossas cabeças, andar de maneira correta nos caminhos que traçamos, nos quais os deuses sempre estiveram. Abrir mão de nosso ideal, do nosso progresso – psicológico, material, e principalmente espiritual – e estamos a falar desse último, é ser frágil em nossos princípios, ou é um principio frágil, feito de areia, como castelos nela construídos. Cuidado.

A tradição nos define, nos mostra, nos leva a caminhos escritos de maneira tortas, porém tão retos quanto à própria luz que sai do sol. E devemos mostrar que somos por ele iluminados, em nossos atos de humildade, seguindo nossos preceitos éticos e morais, passando por todos como a um rei e ao mesmo tempo como a um plebeu que ainda busca a verdade.

A inveja e a crítica vão persistir, mas, um dia, dentro do que somos, dos valores que buscamos, vamos irradiar nossos sóis internos, tocaremos o coração do próximo, e seremos admirados. Temos, no entanto, para que tudo isso seja uma realidade, acreditar em nós, em nossos princípios, a partir de nossas buscas, pois do contrário, teremos reais motivos para sermos execrados...




A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....