quinta-feira, 13 de março de 2014

Rios Cansados

O cansaço vem e as palavras com ele.



Fria em gelo seco, esperas se vão.
Neros se formam em penumbras,
Tumbas se abrem em nobre falso,
Escuridão.

Luas se caem em noites gélidas,
Sóis se calham em selvas e brumas,
Horizontes se vão tão curvos,
É a solidão.

Matas se espelham no alto em mão,
Curvas se fazem, estradas, ferragens,
Alhures se perdem cegos,
Pavão.

Sons se estranham em verso,
Na aguda essência que se foi,
Universo infinito mudo,
O que queres que sou?

Amantes em folha verde
Num rio prata da noite vêm,
Respiram lentos o amor da vida,
Que se esvai ferida,
Pelos homens que não a tem.

E a montanha se cala ante a tudo,
Espera o dia nascer querido,
Cheio de brisas, ventos líricos,
Aludo.

Rosas presas à terra tocada,
Em cores virgens em tons de marcela,
Colírio aos meus pequenos,
À tua parte donzela.

E nela se vai meu coração vazio,
Minha alma pobre e vadia,
Que um dia, se foi fria,

Tão imortal pelo tempo,
pelo Rio.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Chamado

Viver, uma Arte.



Aceitar os desafios, ir em frente. Não voltar atrás.




Em “A Pedra da Luz”, de Cristian Jaq, egiptólogo, ao contar a história de um filho de agricultor que consegue se iniciar nos mistérios sagrados egípcios, percebemos o quanto o autor salienta a vontade do próprio eu, da vontade interior acima de qualquer circunstância em realizar-se. Seu nome Paneb.

Em meio a uma família pobre que precisava muito de sua ajuda nos campos, Paneb sente a necessidade intrínseca de desenvolver seus talentos manuais, não como agricultor, mas desenhista. E dos bons. Ao conversar com seu pai sobre “seguir seu talento”, vira que suas dificuldades ali se iniciavam, pois seu velho era totalmente contra um talento que não seria útil em casa.

Porém, determinado que era, saiu de casa (expulso pelo pai) para realizar seus sonhos de ser artista das paredes dos templos de Ramsés II, nos quais muitos ali já se sobressaiam, realizavam e se identificavam como artistas, não como escravos, pois estavam ali não trabalhavam apenas com a mente, ou coração, mas por uma vocação. E foi.

Hoje em dia, saber do que somos capazes está cada vez mais difícil, mesmo porque estamos em um sistema que o que realmente valoriza é o dinheiro. O Capitalismo. No entanto, em meio a essa cortina de ferro, podemos dizer que há pessoas que conseguem concatenar seu talento vocacional e sendo bem remunerado. Contudo, a prova maior disso vem quando falta o segundo elemento. O dinheiro.

Temos que alimentar a prole, claro. Ter nosso abrigo, pagar nossas contas, mesmo que nossos talentos sejam tão claros quanto pedras em água límpida. Contudo, sabemos que, mesmo que haja uma grande necessidade em nossas vidas, percebemos que o que realmente fala mais alto – dentro de nossas almas – é a vocação, pois nos locomovemos com esse motor divino, o qual nos faz acordar em plena madrugada e nos questionar a respeito de nós mesmos, e sentir que, seja qual for o momento, seremos úteis ao todo, não somente a nós mesmos.

Então, não adianta nascer com talento para roubos ou assassinatos, pois isso é vicio de um tempo que corrompeu o próprio homem. As reais vocações devem ser direcionadas ao sagrado, ou seja, ao Bem, ao Justo e ao Verdadeiro – a Deus, por assim dizer.


Fazer não por fazer...

Nesses dias, vimos o quanto precisamos entender essa questão. No Rio de Janeiro, cidade do Carnaval, garis, logo após a festa dos foliões que deixaram lixos por toda a cidade, estrategicamente, entraram em greve. E podemos ver o que o Carnaval traz consigo quando os responsáveis pela limpeza não fazem seu trabalho. Montanhas de lixo!

Um gari, na realidade, por vocação, sentir-se-ia mal ao saber que as ruas pelas quais passam os indivíduos, e, mais que isso, não entraria em greve tão facilmente, pois seu mundo, o de realizar o Bem, o Justo estaria em jogo. Ou seja, aqui, teríamos um gari de princípios ou sei lá o que entenderem, mas resolver-se-ia de outro modo a questão, menos deixar-se levar por um sentimento fútil de ter...

Mas, em um mundo em que até mesmo os advogados e juízes das mais altas cortes se sentem prejudicados financeiramente, um gari, se não fizesse o que fez, não o seria, e sim um ser desavisado, desinformado ou mesmo um mestre fora de seu tempo. Por isso, a necessidade da greve...

Mesmo assim, com seus salários em dia, agora, entendem o quanto a necessidade de deixar as ruas limpas era tão importante quanto o que ganham. Sabem que não são apenas homens que fizeram uma prova para serem garis, varredores de rua, são mais que isso, são homens que nos deixam orgulhosos pelo seu trabalho, o qual, feito com dedicação, mesmo sem a extrema necessidade filosófica, ainda sim, são tão melhores quanto governantes que sujam esse país.

Para os pretensos a filósofos

Saber, em primeiro lugar, do que somos capazes e o que somos. Em segundo, entender que é preciso desenvolver uma meta, desenvolver nossos talentos, seja qual for, e nossas atitudes perante ele. Aprender e crescer é a nossa sina!

Assim como o egípcio, que saiu de casa, expulso pelo pai, por sentir a necessidade de ir atrás de desafios que o fizesse alimentar a certeza de sua vocação (seu ideal), devemos sê-lo. Vamos aceita-los como diria Milton Nascimento, “Como um namoro na frente do portão”, sem medo, dando nossos passos, um atrás do outro, como “mil passos que se iniciam com o primeiro”.

Todo esse exercício nos fortalece intelecto e moralmente, mas não nos iludimos, se tentarmos ser o que não somos, vamos atrofiar o verdadeiro eu, não desenvolvendo nossos potenciais nos quais a desenvoltura natural é essencial.

O chamado, assim como o de Paneb, deve ser ouvido. Dentro da Ordem Divina, todos nós somos chamados.



Vamos ouvi-lo.


terça-feira, 11 de março de 2014

Banquetes do Tempo

Viver, uma arte.


Banquete: esperemos sermos servidos.





Como imediatistas que somos, esperamos sempre que as divindades, ou divindade, nos acudam (que verbo bom!) nas horas mais difíceis, e em tempo hábil. Por quê? Um dia um grande comediante disse, “criamos a época da velocidade, e nos sentimos perdidos dentro dela”. É uma frase marcante ao nosso tempo, tão preso às necessidades do homem.

Mas há outra que diz, e essa é de um pseudo-filósofo da época de Platão, Protágoras, “O homem é medida de todas as coisas”... E o mestre, discípulo de Sócrates, rechaça tal afirmação de modo elegante... “Deus é a Medida de todas as coisas”.

Mas voltando ao imediatismo, podemos dizer que cada época teve sua organização em torno de tudo que seria (e é básico) à sociedade, no entanto, a grande Revolução Industrial, na época em que a Inglaterra era soberana do mundo, fez-nos ultrapassar nossas expectativas em relação ao ter e não ter. Motivo: foi dada a partida para a tecnologia.

Mais fábricas se abriram, mais empregos surgiram, mais circulação de dinheiro, e por fim, o bem-estar financeiro (financeiro, repito) nas mãos das grandes empresários, apoiados por elites, governos, criando uma tendência pra lá de capitalista ao mundo.

A razão de nosso imediatismo talvez tenha surgido nesse momento. Carros, televisões, rádios, telefones, tudo em seu compasso tornou a sociedade tão presa inversamente aos seus ideais  que foram obrigados a acelerar no quesito tecnologia, pois, a partir dali, o homem não conseguia dar um passo sem o comodismo dos avanços.

Controle Remoto

Claro que, se nos remetermos a épocas mais distantes, podemos chegar aos grandes imperadores romanos, os quais, também tinham seu conforto, comodismo, enquanto outros romanos, soldados centuriões, partiam para a batalha.

Porém, atualmente, em relação a esses homens do passado, ao seu comodismo, somos reis. Uma prova disso é o controle remoto, que, por trazer quase todas as funções da televisão, ou do aparelho de som, também, de um tempo para cá, resume o que somos... Modernos, preguiçosos, enclausurados, sempre a espera de um novo controle que guie nossas vidas, enquanto ficamos presos a um sofá ou cama, sem questionamentos acerca do que éramos antes dessa pequena ferramenta tecnológica.

O imediatismo nos tomou as pernas, os braços, e, se não formos conscientes disso, até de nossas inteligências. Mas o que é a consciência, quando já estamos quase que enforcados por nossas vontades relativas, miradas ao corpo, à personalidade, que se enfeitiça por tudo que significa conforto?

O controle remoto, em épocas passadas, não serviria, pois éramos mais garridos em tudo, inclusive no construir de estruturas, as quais, desde o tempo de Alexandre, o grande, algumas sobrevivem, e nos faz pensar o porquê que, por mais modernos que somos, em meio a ferramentas mais pesadas e complexas, com homens mais voltados a artifícios mais arquitetônicos possíveis, não conseguimos construir pirâmides como no passado, pontes, casas, viadutos, aquedutos, poucas provas, por assim dizer, que nos relevam quanto somos sem uma filosofia básica, ou mesmo uma modernidade que poderia trazer um pouco do passado, com vistas a fazer sempre o melhor não só para os humanos, mas para os deuses do tempo.

Banquete do filósofo.

Se fosse somente a preguiça que nos  guiasse em torno dessas questões imediatistas... Mas não. A loucura de querer que estejamos com a absoluta razão, além da resolução em tempo recorde te tudo que esperamos, é uma falta grave. Temos que esperar sempre a nossa hora, o nosso momento.

“Façamos da vida um banquete, no qual há pessoas se servindo do bom e do melhor. Não adianta ficarmos loucos com o garçom que os serve, pois, mais cedo ou mais tarde, ele vem te servir. E quando chegar essa hora, tenhamos calma e paciência, e servimos somente o que podemos, o que queremos, mesmo assim em pouca quantidade...” – Em uma tradução mais ou menos para o nosso tempo, parafraseio Epiteto, estoico, que sempre esperava que todas as coisas porque passamos tinham sua ida e volta.

A verdade é que, mesmo e apesar de tudo, não esperamos, e tentamos ir atrás do que acreditamos ser nosso por direito. E quando o fazemos esquecemos o Tempo, que sempre dita as regras de nossas consecuções, da disciplina para com ele.

E por termos nos lambuzado fora de nosso tempo, ficamos a observar as pessoas mais simples e felizes por serem harmônicas com o pouco que têm. Enquanto nós, “mais inteligentes”, ficamos a ver navios, a chorar nossas perdas.

O Filósofo

O filósofo espera, é disciplinado, é paciente. Enquanto todos se digladiam em torno da mesa (mundo, sociedade, família...) com reações vistas como naturais acerca de tudo, o filósofo espera, dentro de seus princípios, a sua vez. Vez esta que para ele nada mais é que uma consecução de sua busca pela verdade.


segunda-feira, 10 de março de 2014

As Ondas e as Rochas (ii): O ideal de cada um.



O Filósofo e o Mundo: Ondas e Rochas



É sempre bom nos remetermos à metáfora criada entre  ondas e  rochas. Ondas que, violentamente, saraivam águas torrentes, com intuito de quebrar-lhe o mínimo possível de pedras que a compõem. Somos nós, dentro de nossas possibilidades, tentando lidar com o dia a dia e com seus desacertos, os quais, de alguma forma, no batem, e chegam a nos violar a personalidade enraivada de forças, mas que, com o tempo, pode ceder.

Temos que ser fortes, firmes, naturais, invioláveis, como as rochas que nasceram com essa natureza. E assim, são os filósofos, que não se deixam ser corrompidos com princípios alheios, com opiniões fortuitas, nas quais a imbecilidade paira em suas sombras quando colocadas a esmo.

E por isso se deve observar as intensões de indivíduos que acreditam ter a verdade, a espiritualidade e o próprio bem em forma de palavras elegantes, caráter elástico, mas que conquistam a todos, menos aquele que entende que a busca sem amor é vã.

 A busca, com meios tortuosos, com fins de maquilar a verdade, como no passado o fora com os falaciosos, só vale para uma sociedade que não quer entender que o principio de tudo pode ter como espelho o próprio microuniverso do homem. Ou melhor, este com imagem do principio de tudo.

O que, para nós, significa começar a entender melhor o ser humano, sua cultura, seu intimo, no sentido religioso da questão, seus poderes latentes, seu papel na sociedade, no mundo e no universo. Não separá-lo jamais desses quesitos.

Fica mais fácil, no entanto, entende-lo em uma sociedade, pois há quem diga que o homem é fruto do meio, o que para mim não é verdade. Acredito na tradição, a qual diz que o homem é fruto de suas ações, sejam elas consequentes ou não. Acredito que não há  o “por acaso”, como dizem, e sim o “porque foi necessário, justo”, mas que, a depender de tal premissa, podemos de alguma forma, com nossos próprios atos, por meio de vontades, mudar nosso destino.

No sentido religioso, o homem atual se confunde com suas próprias consequências. Prova disso são conflitos entre cristãos, muçulmanos e judeus em torno de uma bíblia que prega a paz, o amor e bem a todos. Está certo que, ainda que sejamos de ruas diferentes, entendemos de maneiras diferentes as questões, então, não se pode pedir compreensão às culturas em torno de algo que exige profundidade humana... Nunca terão.

As preocupações, pelo que temos percebido, são de proteger politicamente Igrejas, Palavras, Santuários, os quais foram citados em versos bíblicos, os quais, mal interpretados pelo tempo, causam danos a gerações.

O filósofo, na história, sabe que há a necessidade de cada cultura lidar com seus referenciais. No entanto, não se pode cair em armadilhas culturais, históricas, nas quais o maior de todos os problemas não é a incompreensão, mas a falta de simples questionamentos, tangíveis, que servem para melhorar ou balançar a estrutura, no bom sentido, da humanidade.

Se isso fosse possível, talvez, teríamos caminhos, antes percorridos erroneamente, hoje, bem traçados e percorridos pelo homem atual.

No universo, por mais difícil que seja em visualizar, mais ao mesmo tempo tão inata quanto os valores, pode o homem se sintonizar, porém, não a curto prazo, pois, mesmo os filósofos distantes, que tinham como ideia o homem como um microuniverso, sabiam que tal ideia não “pegaria” tão fácil assim, pois somente alguns discípulos puderam ver e entender que tal realidade só se é possível aos iniciados, ou aos que nela acreditam como evolução do homem religioso. Não o de hoje.

Nesse grande manto, o universo, tão misterioso quanto qualquer vida além-vida, não se pode dar passos além estrelas, com intuito de descobrir se há ou não vidas além universo, pois propiciamos com isso a miséria em larga escala, pois esqueceremos do próximo, e de nós mesmos.

É um belo assunto...

Vamos quebrar essa rocha!


As Ondas e as Rochas

A Ataraxia não é o símbolo do filósofo.


"Não sou um sábio, sou um filósofo" (Pitágoras)




O Filósofo, aquele que anda de acordo com seus princípios, que opina baseado em suas premissas internas, nunca dá um passo para trás. Suas convicções, ao contrário daquele que se intromete deliberadamente em assuntos alheios, são seus ladrilhos, são seus tijolos de um castelo que ele mesmo construiu. Por isso, é Filósofo.

Atualmente, quando se fala em filósofos, se teme. Pois temos, aí, uma palavra que, ao ver de determinados grupos, significa não crente, ateu, ou mesmo aquele que não faz nada por uma sociedade que dele precisa. Na realidade, quando um filósofo é criticado, podemos dizer que a mesma sociedade ou grupo que o critica são tão perdidos quanto o primeiro, porque temos aí homens que vieram com a ânsia de modificar uma estrutura para o Bem, sempre levando em conta o artigo mais difícil dela: o homem. E nunca foram reconhecidos por isso.

E assim, como sempre se diz, cria-se premissas, diálogos, caminhos com o intuito de conhecer esse microuniverso (o homem), com vistas a modifica-lo; porém, como o Universo é uma roda cujas extremidades possuem seus altos e baixos, e nesses dois extremos temos filósofos e “filósofos”, é natural colocar em dúvidas palavras que foram ditas no passado na boca de homens que se prejulgam detentores da verdade...

O filósofo real não é dono da verdade; mas a busca incessantemente, doa a quem doer. E, com esse propósito, em épocas nas quais ladrilhos há somente com intuito de passar homens incrédulos à sua mudança, as dúvidas são mais que normais; são necessárias. E por ela, a própria sociedade cria em seu âmago outra necessidade... A de ir em busca das verdades básicas nas quais ela própria é a coadjuvante.

Enquanto se busca as verdade básicas, como a mudança de governos corruptos, liberdade de expressão, respeitos aos valores sociais, religiosos, enfim, ao que agrada ao olhos do primeiro expectador, o filósofo, que se sintoniza com a natureza que o cerca, que tenta compreender a si mesmo, no sentido de compreender o próximo, parte para de um ponto mais vulnerável, mais difícil de lidar, tão latente ao olhos do externo homem, que chega a ser utopia quando se fala em “Conhecer a Si mesmo...”.

No entanto, considera-se atemporal toda a busca. Pois não se pode dizer que se resolve problemas a curto prazo quando a proposta é o próprio ser humano. Daí as críticas. Mesmo assim, pode-se dizer que está dentro do leque filosófico reações contra ao que se pode expor, pois ninguém, às vezes, nem mesmo o mais intelectual dos homens acredita.

Ponto Forte

Um dos pontos fortes do filósofo não é somente ser um ignorante que busca, que ultrapassa os limites reais do visível, mas a alegria de viver, de ir atrás dessas novas cortinas que lhe darão novas cortinas para abrir novos universos a decifrar. Tudo isso dentro do que lhe compete, ou seja, conhecer a si mesmo a fim de que um dia, se é que haverá, possamos partilhar com uma sociedade mais forte o que tanto sonhamos.

E dentro desse ponto, o que me consta é ser forte em meio aos “detentores da verdade”, que já nascem sabendo, ou possuem filhos com tal talento, que, por serem detentores desses valores, não opinam, ou mesmo buscam, pois não precisam.

Por essas e outras, deve-se manter a raiz da busca latente, sempre em sintonia com a natureza, com os homens de bem, com aqueles de caráter elevado, e fazer de nossa busca, por mais tosca que seja, uma busca maior que nós mesmos, de modo que sejamos, sempre em épocas como essa em que vivemos, apesar de tudo, honrados.

Questionamentos

Nada tira do homem natural, no entanto, o poder der ser um filósofo, pois o somos de forma inata. E isso me lembra quando um dia aludia acerca da Bíblia junto a um amigo, dentro de um ônibus. Ele, fiel aos conceitos cristãos, me ouviu falar acerca do primeiro filósofo, que, segundo a tradição, difícil de dizer quem é ou era, pois nascemos todos com inerências de questionadores de um mundo, sociedade, vida, e quando falei do primeiro filósofo, nesse sentido, ele me disse... “Então, Adão foi o primeiro filósofo?”... Eu tive que rir e confirmar!

Então, quando respiramos o primeiro ar, quando iniciamos esse processo de seguir a vida como ela é, com nossas intuições primárias e primitivas, temos em nós uma fatalidade... a de sermos filósofos. Pois nada nos passa, e questionamos, vamos atrás, seguimos, batemos a cabeça e seguimos com ou sem dores.

É belo por excelência, é real, é humano.

E como Epiteto diria...

O Filósofo, aquele que anda de acordo com seus princípios, que opina baseado em suas premissas internas, nunca dá um passo para trás. Suas convicções, ao contrário daquele que se intromete deliberadamente em assuntos alheios, são seus ladrilhos, são seus tijolos de um castelo que ele mesmo construiu. Por isso, é Filósofo.





Vamos brilhar no escuro.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Relâmpagos

Todos temos o direito de dizer o que provavelmente podemos pensar.




E continuando com nossa busca, em nome dos mestres que nos deixaram legados maravilhosos, gostaria de salientar um pouco mais nossos referenciais. Nesse caso, somente os mestres o são, e sempre serão, pois são a imagem de um universo ao qual devemos galgar Um universo simbólico guardado em nosso mais intimo e puro ser.

Não há, no entanto, aquele que diz “ah, encontrei um mestre, encontrei aquele que me direcionará a Deus”, não, não haverá este. Se encontramos, é íntimo, é forte, é incondicional. É involuntário a tudo que temos como personalidade, pois esta, se pudesse agir por ela mesma, e de vez em quando o faz, diria, “não posso seguir ninguém, estou livre, e sempre o serei”.

E a partir desse engano, sofrerá penas mitológicas nas quais direção e caminho nunca serão palavras de uma mesma oração, de uma mesma pessoa que, por si mesma, deixará de acreditar em algo maior em troca de algo que, por meras opiniões acerca da liberdade, justiça, poder... E morrerá como muitos que ainda vagam em nome do nada.

Ser forte. Ser vontade. Estar acima sem saber, apenas pelas chaves simples oferecidas por um homem que nunca julgar-se-á mestre, e sim apenas homem. Pois assim o são aqueles que, no podar de uma planta, de um jardim inteiro, deixarão sempre sua marca, seu amor. E mais tarde, transformará alguém (discípulo) no seu jardim, modificando-o, internamente, para além da compreensão da maioria dos mortais.

Acreditar é a palavra. Acreditar como a própria vida o pede. Como a própria matéria sempre faz em nome de uma vontade fria, mas que conquista, transforma, no entanto, para a derrocada humana, rebenta em uma rocha argilosa, a própria personalidade...

E dela, desse segundo ser matéria, filha de um universo visível, nos materializamos também. E nos esquecemos de que viemos do invisível, do Nada e pousamos no Tudo, dando origem ao que somos hoje. É mais que filosófico, é sem palavras.

Nenhuma busca, por isso, deve ser vã. Sabemos. Após esse misto de materialidade e consecuções internas, entenderemos, sempre, que há mais perguntas a serem feitas, mais respostas a serem reveladas, mais universos a serem descobertos; e tudo isso, em nome de algo que ainda não sabemos, mesmo assim damos o nome Deus, pois subjaz ao que mais pensamos, aludimos, pesquisamos, amamos com nossa alma impregnada de frialdade, e mesmo assim queremos entender o que nos ocorre no mais difícil de questionar... O que é isso, Divindades!

É a percepção humana levada ao extremo, na tentativa de elevar-se e conduzir seu mais firme ser ao que mais nos dedicamos antes mesmo de nascer. É o ideal.

E quando me refiro a referenciais, sei o quanto é necessário, pois são regras naturais pelas quais passamos, mesmo em tom de significados, metáforas, todos eles passam por nós como ventos insignificantes, em forma de placas, de montanhas, de nuvens, sol... E não entendemos. Até que, um dia, nos vem um ser de corpo e alma a nos ensinar o que somos, e o custo que temos pagar para entender isso.

Muito trabalho, muitas formas de experiências, as quais traduzidas se revelam cortinas de um teatro só nosso. O céu grego se faz. E não por isso devemos ficar alucinados, fascinados, mas andar, sempre, como se nada houvesse, a fim de alcançar o que não pretendemos de inicio, o que não havia em nossas pretensões, nem mesmo em nossos sonhos, agora é ele próprio.

E quando sabemos lidar com ele – com esse referencial – olhamos para tudo, colhemos somente o que ele representa, o que ele diz, revela, sussurra. É a grande peneira de Sócrates, o grande filósofo, que nos representou numa época tão estranha, cujos valores decadentes estavam somente se iniciando.

E hoje, em uma bola de neve de tamanho global, precisa-se de referenciais, de pessoas, ainda que leve caráter bondoso, de heróis, ainda que sejam individualistas; de homens que se revelam em favor de uma política mais humana, e de uma Religião que não segregue o mundo do resto do universo (muito menos o homem de Deus).

Há muito o que dizer, mas muito mais do isso, há muito mais a fazer e realizar.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Desenterrando a Ética

Ética eterna, homens idem.




Quando falamos em ética, moral e virtude como valores de uma sociedade, não estamos nos referindo a novos valores, ou qualquer um que permeia em algum lugar, em alguma cultura, sociedade, país... Não. Estamos a nos referir a eternos modelos de vida baseados em premissas antigas, tão antigas quanto o homem.  E será sempre assim, até o fim dos dias, dos tempos.

Por quê? É preciso que haja uma estrutura muito mais forte do que aquelas que citamos em nossos partidos, em nossa família, sociedade e ao mesmo tempo trazê-los à tona nesses contextos, se não iniciaremos, com nossos prismas, envaidecidos, novas formas de éticas as quais traduzirão nossas dores de cabeças. Temos que traduzir o eterno.

Assim eram os faraós, quando embebidos de sua religião, tentavam, harmonicamente, levar a Ética (com e maiúsculo) a todas as atividades que lhe eram inerentes. Prova disso é que sempre perguntavam ao seu ministro da Reserva acerca do Nilo, o rio sagrado que cheio significava fartura, colheita, sonhos; ao contrário, seca, sacrifício. E por ser o chefe Maior, fazia questão de manter harmônico o relacionamento com os países vizinhos, os quais, na maioria das vezes, o tinham como rei absoluto.

O faraó, talvez, seja o símbolo maior da concretização de uma ética que há muito não se vê ou se fala no mundo, porque não  se relativizava, ou se individualizava, e sim abrangia uma humanidade, baseando-se num todo.  Dizia-se homem-deus não por acaso, pois nenhum homem, a não ser ele, traduzia ou fazia-se de elo entre os deuses e sua terra, seu povo, e conseguia manter por tanto tempo uma ética de respeito seja com aqueles que o amavam ou o desrespeitavam.

Assim, iniciaram-se, a partir desse modelo, outros exemplos, em outras civilizações, nas quais um efeito celeste percebia-se, mas não sabíamos como e por quê. Tanto que, quando citamos vários filósofos gregos, podemos dizer que a maioria teve formação (por meio de iniciações) egípcia, em templos nos quais somente aquele que um dia por ele passou sabe que nada sabe...

Sócrates não teve essa sorte, mas fora tão especial quanto qualquer um; mas Platão, Anaxágoras, Anaxímenes, Plotino, Tales de Mileto entre outros puderam beliscar o que normalmente, no Egito, era uma realidade palpável. E desses grandes, podemos dizer, vieram escolas que um dia fizeram soprar ventos clássicos em nossa literatura, transformando, um pouco, nossas irrisórias vidas.

E dessa literatura, podemos dizer o quanto estamos atrasados em termos de ética, moral, virtudes, pois, se analisarmos, todos os grandes filósofos não foram apenas filósofos, foram homens que tentaram mudar sua sociedade, como o grande Platão em sua caverna mitológica, sem falar nos grandes mitos gregos, os quais nos revelam o quanto somos propícios a problemas e, ao mesmo tempo, com nossas ferramentas, podemos resolvê-los sem quebrar a hegemonia humana, ou seja, sem nos transformar em bestas-feras.

Mas a tradução desses grandes mitos, que se revelam a cada dia mais modernos, nos parece mais livres, o que não poderia. Não podemos mexer na literatura antiga com vistas a mudanças baseadas em nossos valores, mas deixá-la, com suas vertentes, com seu brilho, com suas chaves, de modo a nos ensinar, aos poucos,  que somos realmente ignorantes e temos uma eternidade para aprender o que negamos todos os dias.

O Enterro da Ética

Dentro de tudo que nos foi passado, o que nos resta nada mais é que traduzir em práticas o que é uma Ética (teoria), uma Moral (prática). Sim, e é o que venho, desde a formação desse site, conduzir a todos, e a mim mesmo, claro, a práticas individuais clássicas, dentro das quais podemos intuir o que é bom e o que é mal em nossos caminhos, pois a ética relativa, baseada em premissas (mais uma vez falando) eternas, pode nos conduzir a uma consciência maior, em que a sabedoria (ou pelo menos a sombra dela) pode nos guiar pelo resto de nossos dias.

Sei quanto é difícil. E pude perceber, nesse fim de semana, que estamos em escalas anormais quando tratamos de comportamentos éticos mesmo com todas as nossas boas intenções em relação a pessoas, lugares, circunstâncias; ou seja, estamos longe do foco ou iniciando uma abertura ao frio modernismo acelerado, sem saber. O que quer dizer que estamos sendo levados a atos voluntários desproporcionais ao que somos: humanos.

Foi assim...

Meu cunhado teve seu irmão morto por uma doença que há muito leva a todos, sem questionar. É o câncer. Depois de ter sofrido em um leito de hospital por muitas semanas, descansou. Em seu funeral, a família (quase) inteira pôde fazer parte. E, por ser uma grande família, muitos aproveitaram para tirar fotografias... Até aí, tudo bem, mas, como todos sabemos, estamos em uma época em que pensamos mais em nós mesmos, mais em sites, mais em dissuasões informativas, mais em tudo, menos na ética do momento... Menos nas pessoas, menos no respeito alheio, e iniciamos nosso processo de vaidosismo intenso.

Em meio a lágrimas, a comunhões, a um culto feito pelo pastor da família; em meio a pessoas que se seguravam pela emoção, e outras não; em meio a um astral doloroso, lá estava o celular, preso às mãos de uma senhora simpática, com um ar serio, fazendo o que seria tudo, menos sério, em um local (cemitério) cuja natureza “seria” de respeito, paz e sacralidade... Mirando a família como uma câmara de fotografar.
A senhora, como um ato normal e ao mesmo tempo frio e antiético (em todos os sentidos), focalizava, como uma garotinha que vai postar no face sua foto, a mirar e fotografar os familiares, unidos em torno do morto...

“Eu vejo hoje, amanhã eu sei”, disse Tutancâmon.

E quando vi tamanha discrepância do ocorrido com o ato lúdico (é o que me pareceu), sai do círculo e fui refletir nas imediações da capela. “Que triste!”. Pensei.  De tudo porque havia passado até ali, até mesmo as mortes mais hediondas, os atos mais criminosos que tenho notícia, achei que aquele fora a última gota d'água do mundo.

Entretanto, estava sendo radical e ao passo infantil, pois estamos em um mundo vil, do qual não se pode tirar muita coisa, a não ser o sumo de uma sabedoria que nos aventa pela literatura Oriental e Ocidental, com intuito de nos fazer rebelar com tais atos, que nos causam repulsa.


Haverá outros atos tão piores quanto, mas seguiremos no rastro dos mestres, sempre com um ideal debaixo do braço, de cabeça erguida, felizes, e se Deus quiser coerentes.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....