quarta-feira, 23 de julho de 2014

Evangelho de São Tomé: o fogo.

Nada melhor do que falar da tradição e sua sabedoria. Nesse diálogo, Cristo cita o fogo em nós, como uma sabedoria que nos foi dada naturalmente, mas que temos que nos conhecer para saber direcioná-la.



O fogo deve ser a vontade humana para o alto.




Disse Jesus... “Eu lancei o fogo sobre a terra – e eis que o vigio até que arda”.

Vulcão, incêndio, caos, fim do mundo! Parece-nos que o mestre cristão com seu dizer acima quer-nos passar uma realidade que traspassa qualquer sinônimo fim dos tempos... pode ser, mas eu, fora dessa realidade a que me referencio sempre, visualizo da seguinte forma...

Fogo, elemento que simboliza o mais enigmático dos sentimentos, dos desejos, da vontade humana. Fogo, elemento que no passado, ao ver dos alquimistas transformava, por meios “mágicos”, peças em ouro... Fogo, peça fundamental para compreender a paixão, a fuga da matéria, a inclinação para o ideal... Fogo, elemento do deus Vulcano, que norteava outros elementos para a criação do universo...

Enfim... Assim o vejo. E nas linhas do mestre cristão, posso dizer que o fogo a que se refere não é o fogo do caos, da desordem – não. Muito pelo contrário. Quando um avathar diz “eu lancei o fogo sobre a terra”, não é o mesmo fogo de nossas visões, muito menos ao que me referia pouco depois de sua máxima.

O Fogo dos mestres, já me referindo aos outros mestres de sabedoria, começa a nos levar a pensamentos refletidos acerca de quem somos e qual o nosso papel no universo. Uma maneira de dizer... “Conheça a Ti mesmo”, mas de uma forma mais forte e ao mesmo tempo mais radical, no sentido esotérico da questão.

O fogo sobre a terra, essa que nos conduz diariamente ao trabalho, que nos faz andar sobre duas pernas, que nos atém aos nossos problemas constantes, e que nos faz acreditar que somos nada mais que seres ambulantes (falo do corpo), na maioria das vezes nos enjaula, coloca-nos algemas fortes, e direciona nossos desejos a ele mesmo – ao corpo.

Isso porque, há milhões de anos, aprendemos que temos que nos alimentar antes de tudo, ficar de pé, ir atrás de nosso pão de cada dia, estar satisfeito com nossa saúde física... Nada de anormal até aqui. A questão, no entanto, é que, ainda que tenhamos aulas sobre espirito, assim como no passado, somos e estamos aferrados ainda mais ao corpo...

O fogo dos avathares do passado, assim como o de Cristo, nos faz pensar acerca de nós mesmos, refletir sobre o papel não só de nosso corpo, mas de nossas possibilidades em direção ao céu nosso de cada dia. Ou seja, de nossa felicidade. Felicidade física, psicológica, religiosa, familiar... profissional... Porém aquela para qual nossos sentidos foram criados, em nome de uma evolução natural, não trabalhamos direito.

Falo de nossos passos em direção à mônada, ao Reino dos Céus, ao Nous platônico... Ao Paraiso interno de cada um. E quando percebemos essa realidade, caímos confusos em busca de uma resposta real, exata, e ao mesmo tempo filosófica, que nos indique os caminhos da verdade. Aqui, “o fogo se faz na terra” quando nos aparece, não por acaso, nosso mestre interior, a nos direcionar para cima, com seu fogo da tradição.

E como todo fogo, começamos a perceber que as chamas se iniciam nas mínimas questões, nos mínimos atos, palavras, sonhos, a nos fazer crescer sem que percebamos. Nosso mundo começa a florescer, nosso céu se torna mais azul, nossas lágrimas são mais que choros descabidos, são emoções reais por um ato simples, como  o pôr do sol... uma poesia.

“E eis que vigio até que arda”, disse o salvador dos cristãos...
E como todo avathar é o cimo real de nossas possibilidades, é a própria montanha, ou melhor, o próprio Nous, há de convir que o mestre fala de Si mesmo em nós. Como se o próprio nous humano estivesse plasmado em nossa frente – no caso, na frente de seus discípulos – a dizer que está a vigiar nossas ações, nossas vidas...

Enfim... O fogo que fora lançado pelos mestres é o mesmo que sempre esteve em nós. Contudo, é preciso que tenhamos olhos para o alto, como se estivéssemos em busca de uma estrela eterna, e sempre supondo, em sonhos, que um dia vamos alcança-la... É pouco provável se colocarmos de maneira física tal questão, mesmo porque nem a lua visitamos mais como antes, então saibamos que tal estrela há no alto do eu personalístico, está no Eu real.

E não nos esqueçamos de que o fogo sempre flamula para cima, para o alto, e, como uma fogueira eterna, pode nos direcionar ao nosso céu.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Evangelho de São Tomé: sementes.

É preciso que saibamos, no limiar de nossa jornada, entender o que nos traz as entrelinhas do mistério, ou pelo menos o inicio dele. Não podemos nos conformar com o que vemos, mas também com o que está implícito. Faz parte de nosso conhecimento próprio. Faz parte do homem ir atrás de um pequeno foco de luz, mesmo que se acostume com a escuridão.



A Semente cai em cada um de nós. Até mesmo no mais hediondo dos homens.






Disse Jesus: “Saiu o semeador. Encheu a mão e lançou a semente. Alguns grãos caíram no caminho; vieram as aves e os cataram. Outros caíram sobre os rochedos; não deitaram raízes para dentro da terra nem mandaram brotos para o céu. Outros ainda caíram entre espinhos, que sufocaram a semente e o verme a comeu. Outra parte caiu em terra boa, e produziu fruto bom rumo ao céu; produziu sessenta por uma, e cento e vinte por uma.”

A palavra de Deus, aos cristãos, ainda que entendida dentro de suas estruturas frágeis como algo de maior valor na vida humana, segue sendo, simbolicamente, universal, quando tratada à luz da filosofia clássica, quando nos referimos a ela como uma semente lançada ao mundo, como grãos de areia, ventilados pela brisa natural do tempo.

Esse grão de areia, no entanto, vem a ser a sabedoria dos grandes homens, a qual, lançada a determinados grupos, com singularidades naturais de homens e mulheres que querem o bem à humanidade, são mais que grãos jogados ao vento... São faíscas de pedras preciosas, que vão refletir mais tarde atos de civilidade ao próximo – como caridade, compreensão, amor...

Pode ocorrer, no entanto, as mesmas faíscas serem apenas pó insignificante, quando caem em outros grupos cuja tendência é transgredir, desfazer ou mesmo destruir a natureza das coisas. E transformar o mundo naquilo que ele é hoje.

A Terra, esse ser no qual pisamos e colhemos nossos frutos diários, possui a natureza de cuidar daquilo que nela se planta; fazer crescer a árvore, e nela o fruto, e em muitas vezes o abrigo aos que nela vivem. A nossa terra, essa na qual nos enjaulamos no entanto – o nosso corpo – também tem a tendência de nela brotar o que plantamos, de construir ou destruir nossos ideais, sem que percebamos.

Da terra, esse ser imenso, do qual só saímos após nossa alma dela desabitar, e mesmo assim, segundo algumas tradições, em razão do nosso materialismo, ainda ficamos permanentes nela após algum tempo, nos ensina que somos a semente, que caímos, nascemos em diversos lugares, que possuímos culturas e outras vezes não, mas sempre há a possibilidade de tangenciarmos às nossas ignorâncias locais, nas quais geralmente pensamos que somos obrigados a morrer.

Mas o homem comum, aquele que pensa, que reflete, que possui suas crenças, que entende Deus de uma maneira vasta, que não se inclina a valores dados, mas tradicionais, no sentido filosófico da questão, sabe que, mesmo com a estrutura que nasce, com a pequena ferramenta que os deuses que deram, pode, a pequenos passos, realizar seus sonhos, praticar o que há de mais humano em si; conhecer a si mesmo, e passar às gerações o que se espera de um homem.


A semente, a palavra de uma tradição que nos move internamente, pode ser levada pelo pássaro, ou como diriam os mais sábios, pelos homens que já nascem voando, ou pode ser comida pelo verme, isto é, pelo homem que devasta humanidades, como ditadores, fascistas ou por lobos revestidos de cordeiros, em sistemas democráticos.


A semente pode ser levada ao mais ortodoxo cristão até o mais sábio, no entanto, seu uso pode ser como o de uma faca que cai na mão de um homem que se alimenta de caça e que faz as orações junto com seus filhos à mesa; ao passo pode servir a mesma semente de uma faca, ainda que frágil e simples, assassinando pessoas, pelas mãos do homem que interpreta mal o conhecimento ou que o faz de arma para subsistir às multidões, pelos interesses que a ele convier.




Voltamos amanhã!

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Evangelho de São Tomé: o Leão de cada Um.

Vamos prosseguir com nossas interpretações filosóficas dentro da sabedoria cristã, envolvendo Cristo e seus discípulos, no Evangelho de São Tomé.


Hércules e o Leão: Nós e a persona.



“Bendito o leão comido pelo homem, porque o leão se torna homem! Maldito o homem comido pelo leão, porque esse homem se torna leão”...

Nas culturas antigas, principalmente na Grécia, para quem já estudou simbologia relacionada ao homem, sabe que muitos animais, não somente o leão, têm uma infinidade de interpretações simbólicas. Uma, no entanto, nos chama a atenção. E para quem leu sobre a vida de Hércules (o semideus, com seus doze trabalhos) sabe a que me refiro. Hércules, segundo o mito, teria matado com todas as suas forças, o leão de Nemeia, o qual aterrorizava toda a região.

A terrível criatura, diz o mito, não poderia ser morta por um homem comum, por ter o couro inviolável pelos mortais, muito menos uma arma – lanças, flechas. Mas o grande Herói, Hercules, também chamado de Héracles, teve a missão de matá-lo. E se tentou de tudo, com suas armas letais, e nada...  O que não desanimara o semideus, que, para dar fim ao grande leão, aplicou com sua clava, que carregava em suas aventuras, um golpe tão tremendo na cabeça do animal, que este caiu desacordado. Depois de estrangula-lo, Hercules extraiu o couro do animal com as próprias garras.

A partir daí, Hércules passou a usar a pele do animal como manto protetor, com a cabeça do leão servindo-lhe de elmo.

A filosofia por trás do mito

Sabe-se que o leão é um animal solar em certas culturas, ou seja, ele detém a simbologia de ser o maior e melhor dos animais por suas características, assim como muitos o são em outras civilizações; mas aqui, no mito, ele representa a força de uma personalidade que transita entre os homens, e que detém o poder de ser o que é. E mais, representa a própria personalidade humana, o que nos faz crer que precisamos entendê-la para supera-la, ou como dirá Blavatsky, “matar a personalidade”, mas isso é somente para iniciados, o que nos sobra é entender que precisamos evoluir com o pouco que temos, e para isso, não deixar sucumbir a uma personalidade – Sthula sharira, o nosso corpo;  o Prana, corpo vital; linga Sharira, que é o duplo etérico e o Kama Rupa, o corpo dos desejos, ou emocional.

Hércules, no mito, como semideus, ou seja, como um homem filho de um deus, com uma mortal, representa o próprio homem evoluído, que alcançara a divindade em si, por isso a chance de dominar o leão – a personalidade – ainda que bruta, monstruosa, implacável, que fizera medo a muitos durante décadas, foi mais fácil.

Isso, contudo, pode ser uma referencia ao homem evoluído que pode passar por deveras dificuldades, em níveis surpreendentes, une-se ao mais puro de si mesmo e ultrapassa os limites de uma personalidade cansada, preguiçosa, envaidecida, e cheia de desejos vulgares, os quais o atrapalham na consecução de seus ideais.

No entanto, àquele que persegue firme seus objetivos, sejam quais forem, entende que deve passar por realidades internas, talvez mais perturbadoras que um homem que tenta passar por minas terrestres, em tempos de guerra. E a personalidade – esse leão que nos devora a todos, todos os dias – se inclina a mandar e nos retrair com seu rugido, e, na maioria das vezes, voltamos à estaca zero. Entretanto, pequenos leões, à medida de nossas experiências, são mortos por nossas garras, por nossa vontade de querer ser e ter. E quando menos percebemos, estamos de frente do maior leão, daquele que, a depender do que queremos, é morto pela clava do idealismo maior.

Como disse Cristo a seus discípulos, “Bendito o leão comido pelo homem”... Ou Bendita é a personalidade que foi ponte de evolução ao homem, e que, em toda a sua vida, simplesmente foi o bem real, nunca deixando de lado a sua natureza... E “Maldito o homem comido pelo leão, porque esse homem se torna leão”... Maldito o homem que sucumbiu à sua persona, pois deixou de evoluir como humano, sendo objeto de seus desejos, quiçá de suas vulgaridades pessoais, norteado apenas pelos seus interesses frios... E se tornando o próprio leão.


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Fuga da Manhã






"Olho para ele e me vejo".



Nas horas mais frias da manhã, quando não se consegue nem mesmo respirar por causa dos gelo de uma temperatura que se diminui, e nossa ânsia em busca do mais quente prossegue sem sucesso, meus olhos não acreditam. Nessas horas, talvez, é que sinto que realmente são eles as janelas da alma, essa, objeto de questionamentos eternos, dos quais reverberações tão complexas e ao passo tão simples se dissuadem através dos tempos, pois vejo uma imensidão de nuvens a brincar, quase que literalmente, em um céu estático, concatenando com o laranjado  do belo sol que tenta acordar.

Não sei se sou um poeta, ou se somos poetas, desses que observam flores, capins, matos, borboletas, joaninhas, e besouros tais que em nossa imaginação não há. Sei apenas que não consigo apenas observar a vida, mas muito mais, como imprimir um pensamento paralelo à imagem, além de questionamentos simples, reais, às vezes, infantis, e quando meu ódio ao mundo aflora, mais outros, do tipo... “Qual o motivo desse céu ser tão belo?”... “Por que a vida lá fora é ainda mais bela apesar de todos os problemas humanos?” – até parece que as coisas freiam e se perguntam... “Por que os seres humanos brigam tanto, guerreiam tanto, se detestam tanto?”...

Não há a mínima possibilidade... Não há quem ou o que que sinta pena, dó, ou qualquer sentimento humano por você ou por mim, de modo a nos refrear a dor do coração ou mesmo que pague nossas dividas junto a banco, ao mundo... Não, não há. No entanto, penso, não existem por existir. Não podemos cair no existencialismo da matéria como se fosse direcionada ao humano, assim como belezas que são construídas para e pelos reis de outrora com vistas à majestade eterna.

É melhor entender a vida ao contrário. Tentar entender o porquê de nossos dias, de nossas ações perante a esse céu que se antepõe ao que somos, e queremos ser. Desse sol criança, que se revela mais criança quando colore o espaço humano no inicio da manhã e no fim da tarde...

Não sei o que dizer quando passo por serras, e nelas o verde a se debruçar ao laranja, como um cordial cavalheiro a obedecer as regras do universo. O sol, como um rei menino, aparece sorridente, meio quente, em razão do solstício, acredito, solta suas palavras misteriosas ao mundo, e não o escutamos, como surdos ao que resta de bom, belo e verdadeiro, o qual nunca percebemos.

Não tem importância... Se são eternos, acredito que de alguma forma também o somos. Não sei dizer como... Mas poderia citar filósofos do passado que um dia disseram que moramos e residimos nas reminiscências de um passado que se mostra sempre diante de nossos olhos, não lembramos, no entanto, o que não seria prova contrária, mas a pequena prova dessa eternidade em nossa alma estaria nela mesma, quando olhou aquele sol, aquela montanha, aquela conjugação natural e não esqueceu jamais.

Isso foge ao que racionalizamos, ao que aprendemos em escolas, em universidades, ou mesmo ao que nossos pais nos passaram em tempos mais recentes. Mas não se aprende isso dos homens normais, por assim dizer, apenas daqueles que olham ao céu, questionam a realidade da beleza, da arte, e encontram nela focos de si mesmo, sem machucar o que veem.

Não sei se sou um desses homens, mas ao sair de casa com todos os meus problemas, e por mais que sejam hediondos a alma, até mesmo ao que vivo, vejo nele – nesse tempo frio, porém maravilhoso – uma saída, uma fuga divina, assim como um dia um grande general estoico, em suas batalhas nos disse, debaixo de saraivadas de flechas inimigas, “quando se sentires mal, tente sair um pouco de si. Vá para o mais longe possível de si mesmo, e tente ver o que te faz assim”...


E com isso, é claro que dele não me lembro nesses momentos, me sinto melhor, talvez me encontrando um pouco, ou dando uma chance à minha alma de tangenciar o mínimo possível desse corpo sofrível, dessa caixa egoísta, que só pensa em si mesma. E ao olhar um céu inalcançável, fico feliz por ele... Não posso sujeita-lo aos meus desejos, ou guarda-lo em meu bolso, mas alimentar minha pequena vontade de estar lá em cima, nem que seja por alguns minutos, vivenciando o que o homem sempre quis... A Paz.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Evangelho de Didymos Tauma (II). Em busca de si mesmo.

Nós. O inicio de uma busca infindável.




É difícil. Na realidade, é querer desfazer os frutos de uma árvore, não os cortando, mas fazendo-os voltar ao que eram. Raiz. Mas, como diria o sábio, na própria raiz temos a própria árvore, então, em nosso caso, se tivermos a tendência em plantar o que nos vem como ideia, fazer com que pessoas acreditem em algo razoável, e que se estenda a gerações a sabedoria investida nessa raiz, nessa ideia, é preciso que sábios a plantem, não homens cujas tendências genocidas e interesseiras resolvam soluções em prol de um mundo que necessita de tudo, menos deles, ou melhor, de elucubrações insensatas em torno de si mesmas, fazendo com que sejamos cães atrás do próprio rabo...

Sei que fui um tanto quanto tangível em relação ao nosso assunto com esse inicio, mas é preciso ressaltar que, quando me refiro a sábio, falo de homens cujo legado nada mais é do que nos fazer um pouco melhores, todos os dias, mas sempre nos baseando em castelos fortes, referenciados desde épocas passadas nas quais guerreiros, heróis, generais, e até mesmo o mais simples do humano um dia se baseou e não precisou ser sectário, muito menos ser dono da verdade, apenas orando de joelhos, frente ao seu deus de pedra, e respeitando toda essência por trás do grande mistério que ela escondia... Isso é Deus.

A certeza de que os grandes avathares trouxeram essa filosofia ao que nos deixaram em forma de palavras, discípulos, escritas, é  muito pequena, mesmo porque sabiam que a própria humanidade tem seus reveses, suas desconfigurações, com o passar dos séculos, e por isso, quando o fizeram, o simbolismo do que deixaram foi tão profundo, tão mistérico, que chegamos a ter dúvidas do que diziam, quando nosso senso humano nos desperta para a verdade....

E com essa premissa, vamos tentar encontrar um meio, em nossa ignorância, mas tão consciente quanto um cientista que descobre uma estrela, de abrir pequenas portas tão fechadas pelo tempo, ou melhor, pelos homens de bem que um dia pisaram nesse chão, para a nossa própria ânsia ser desfeita, um dia.

Vamos lá...

São Tomé e Cristo.

6. Perguntaram os discípulos a Jesus: Queres que jejuemos? Como devemos orar? Como dar esmolas? Que alimentos devemos comer? 
Respondeu Jesus: Não mintais a vós mesmos, e não façais o que é odioso! Porquanto todas essas coisas são manifestas diante do céu. Não há nada oculto que não seja manifestado, e não há nada velado que, por fim, não seja revelado. 


Seus discípulos questionam o mestre com perguntas com pontos de vista terrenos (étero físico ao kama  manas ), e Cristo, mas uma vez, responde-lhes sob o ponto de vista do céu (átmam, buddi e manas), o que torna a questão mais difícil de ser interpretada...

Mas, quando o mestre diz, “Não mintais a vós mesmos”, nos faz nos sentir, mesmo com nossos sentidos primários, uma culpa do que somos e idealizamos ser e ter. Não mentir a nós mesmos, do meu ponto de vista terreno, é encontrar a própria essência sem rodeios, é saber que há a verdade em nós, e o resto nada mais é que elementos naturais, que se assemelham a outros no próprio universo externo, que nos auxiliam a esse encontro, porém, como disse antes, usamos a “faca para outros fins...”

E quanto ao “Não façais o que é odioso”, vem ao encontro da primeira premissa que nos faz questionar a respeito do que somos e o que pretendemos obter. Isso só norteia mais o humano, desfaz suas algemas internas com relação a si mesmo, e o faz galgar mais degraus em sua pequena, gradativa, porém, para o homem, natural evolução.

“Porquanto todas essas coisas são manifestas diante do céu”, disse Cristo, o que afirma o que fora dito, dentro de minhas possibilidades, claro, o que fora dito até agora acerca do Céu... Enfim, o mestre salienta que o Ser, ao qual referenciamos, sob diversas formas de cultura, há tão concreto como qualquer ideia, como qualquer muro, e dele devemos viver com as ferramentas com as quais nascemos...


E em nossos caminhos, por meio dessa empreitada, há de se descobrir os mistérios que há em nós, em tudo; o conhecer a Si mesmo se faz de uma forma lenta, ao passo necessário, se descobre; e o ônus da vida, desse universo que tanto almejamos, vem em forma de revelações internas.

Cristo, assim, quis dizer, a meu ver, que se o que fazemos vai ao encontro do Céu -- não o céu pós-mortem, ou o céu físico, muito menos qualquer forma literal de céu, mas o Céu interno, em comunhão com o que diziam os tradicionais esoteristas, os quais sempre mostram que céu é metáfora do não alcançável facilmente, seja no limite superior, ou em qualquer sentido  e por isso Céu é sempre posto como o  mais puro elemento do homem, ou a figura mais simbólica de uma tríade, ou o deus mais complexo das culturas.

E Cristo não difere dos demais quando fala em Céu... (Reinos dos Céus, Pai, etc)... mas ao mesmo tempo diz que se manifesta em qualquer ponto, de modo a dar um nó a mente do homem, que não consegue entender essa Realidade, pois, com o tempo, até mesmo naquela época, a dividir o Todo, individualizando ou mesmo antropomorfizando-o...





Amanhã tem mais.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Evangelho de Didymos Tauma (I). O Reino.

Vamos renascer a cada linha.






Vamos lá.

Com nossas parcas ferramentas, repetindo, mas com vistas a seguir a tradição no quesito tradução, tentarei aos poucos trazer à tona – não aos humildes reais no saber, muito menos aos sábios, mas apenas aos meros buscadores – uma realidade latente que há muito pede passagem, mas, graças ao homem moderno, a cada dia, se vai nas ruelas de culturas que se dizem as melhores do mundo, contudo, desfazem qualquer iniciativa educacional de transformação ideológica.

Bem, baseando-me no que fora dito em vários textos passados, e nos que me basearei daqui para frente, sempre nos clássicos, trago as linhas de diálogos entre o mestre cristão, Jesus, e Tomé, ainda discípulo, nas quais a depender do leitor irá discordar (ou não), porém terá toda a possibilidade de ir atrás das fontes que cito durante toda a minha interpretação... Ou pelo menos em minha tentativa...

Ei-los.

1-“Quem descobrir os sentidos dessas palavras, não provará a morte”

Nos textos clássicos, aqueles que jamais serão tocados, há ensinamentos sagrados dos quais o próprio homem duvida. Por que duvida?... É a parte “Tomé” de cada um, ou seja, é natural que sejamos assim, por mais que tenhamos a matéria em nossa mão, com todas as respostas, e mesmo assim vamos duvidar.

Tomé reflete um pouco dessa personalidade, de nossa alma que coça, que sente aquela pontada pela ervilha que dormira debaixo de sete colchões (símbolo dos sete elementos), que se indigna, que, a depender de nosso universo, de nosso entendimento, começaremos a criar meios para alcançar o céu interno (ou objetivos imediatos) e compreender a imortalidade da essência da vida, sempre por meio de nossas dúvidas, questionamentos, busca.

Cristo, em sua filosofia, deixou claro que nossas atitudes são válidas a partir do momento em que temos uma direção, um caminho. Suas palavras, mecanismo natural responsável pela imortalidade do todo, trazem a brandura codificada, ou como fora dito, de um elemento – Manas – universal, do qual faria com que nós seres humanos iniciássemos a compreensão do Todo, mas não de forma gratuita, mesmo porque temos uma personalidade que, por si só, reencarnada, sintetiza que trouxe em si a reminiscência de um passado material, não espiritual.

Ou seja, de acordo com sabedoria antiga, se estamos aqui, agora, é porque somos o somatório do que fizemos, pensamos, passamos ao tempo, e que, ao ver do grande universo, como diria os indianos, dos “Lipitacas” --- os quais são responsáveis pela memória da alma humana – tínhamos que voltar à matéria...

Não por isso, no entanto, as palavras perderam sua imortalidade, no sentido simbólico da questão, pois elas trazem escritos verdadeiros, porém simbólicos dos quais somente aqueles iniciados no esoterismo (interno), retiram dele a verdade. Contudo não é preciso tanto para entender que todos eles, do cimo da montanha interna, do Manas, pois se chamavam seres manvataricos por isso, nos traduzem a realidade nas palavras, nos revelam a imortalidade, mas não conseguimos a chave para abrir.
  


2. Quem procura, não cesse de procurar até achar; e, quando achar, será estupefato; e, quando estupefato, ficará maravilhado - e então terá domínio sobre o Universo. 


Uma procura não muito conveniente aos materialistas de hoje, os quais, em subterfúgio primário, o etero físico, em seu sentido mais amplo, procuram, encontram e morrem satisfeitos com o que encontram; porém, a saga humana, desde os primórdios de nossa civilização, de algum modo, vem com essa premissa, a de conseguir a todo custo, seus objetivos externos, sem que modifique o sentido de toda sua essência...

Por isso, séculos se fizeram, e neles os grandes avathares- entre eles Cristo e os demais filósofos, desde Zoroastro a Platão, iniciados em seus mistérios, mais do que ocultos aos nossos olhos, e com razão, unificaram-se em outro tipo de busca, talvez a mais rara e difícil de todas, a humana.

Uma busca que, realizada a passos curtos, em direção a Deus, no sentido mais amplo da palavra, verá não só o sentido da existência humana, mas de tudo, de todo universo, da grande Inteligência que assombra o mais moderno cientista, o qual, em sua cientifica busca, não  consegue traduzir, nas entrelinhas, o porquê de Tudo.

Os filósofos, no entanto – entenda-se filósofo por todo aquele que se questiona a respeito da essência da vida, e não se contenta com o racional voltado para baixo e tenta elevá-la ao pico em forma de pensamentos, atos, e acompanha em natureza -- erra e sabe disso, mas sabe que a busca é inexata ao passo de nossas dúvidas, mas exata no momento em que a certeza se faz em forma de simples atos.

É a maior busca de todas, e quando a fazemos... “ficamos maravilhados”,  e quando a conseguimos – quem sabe um dia – teremos o “domínio sobre (nosso) Universo”...



3. Jesus disse: Se vossos guias vos disserem: ‘o reino está no céu', então as aves vos precederam; se vos disserem que está no mar, então os peixes vos precederam. Mas o reino está dentro de vós, e também fora de vós. Se vos conhecerdes, sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis em pobreza, e vós mesmos sereis essa pobreza.


Aqui, a prova maior que estamos no todo, e que o somos. O reino a que tanto Cristo se referia na Bíblia nada mais é que a própria tríade comentada pelo passado do homem, no qual ameríndios, persas, hindus, gregos e até mesmo parte dos cristãos tinham em sua cultura, e que, em textos passados, sob  forma de Nous, o deus no homem, Platão falara.

As aves do céu precedem sim o Reino dos céus, mas antes devemos crer que tais nada mais são que seres que possuem uma consciência diferente da dos humanos, assim também uma lei que corre em paralelo à nossa, o que não as deixa de “fora” do contexto, ou qualquer animal que visualizemos seja no céu ou a rastejar nas terras.

O homem, por obter em si um elemento importante, o kama manas – o desejo em forma de ponte para a consecução de seus fins, sejam eles materiais ou imateriais, psicológicos, pode-se dizer que já possui uma alma voltada à lei que a rege, isso em sua natureza divina. E isso deveria facilitar a ele, mas não...

O Reino dos Céus, interpretado de várias formas, em culturas diversas, pode ser, em razão dessa dificuldade de interpretação, qualquer lugar, menos aquele Cantinho Idílico, como diria Marcos Aurélio, dentro do próprio homem, ou fora dele, pois aprendemos a bipartir o mundo como duas forças, a do Bem e a do Mal, em lutas acirradas em uma disputa cruel pelos seres humanos.


E por isso devemos, com o que temos, dentro de nossas possibilidades naturais, não materiais ou sob o comando de muitos, nos conhecermos (lembra-se do “Conheça-te a ti mesmo?”) com fins de Conhecer a Vida e o que ela nos guarda, mas sempre lembrando que somos um pouco de Deus, e isso fica mais fácil.




Por enquanto é só.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A Saga Continua...



Olá, meus amigos, tudo bem? Sei que nesses trinta dias últimos nos quais se deu a Copa do Mundo, não tivemos nenhum texto, nem mesmo um “estou de férias”, mesmo porque, realmente estive de férias (prêmio!). Não queria eu me despedir de vocês, como se fosse um programa de televisão, a dizer “voltamos no mês que vêm”, já sabendo que o que eu faço, aqui, não tem compromisso nenhum com qualquer ato parecido, mas, se estiverem esperando uma desculpa... Então, desculpem- me, de coração.

Sei também que o último texto (abaixo) foi muito mais atípico aos meus textos filosóficos do que todos os outros, e é claro, como diria o mais combatente dos generais, “no amor e na guerra, perdemos a visão”; e como era o Dia dos Namorados (12/6), e inicio da Copa do Mundo, achei melhor me “despedir” sem visão do que dar tchau, adeus, ou qualquer coisa parecida, o que seria, a meu ver, chatíssimo.

Mas tudo isso nada vale agora, e sim, o que daremos a partir dos próximos textos, os quais se basearam em premissas mais que profundas para explicar os diálogos encontrados no Egito, sob forma de papiros, que, mais tarde interpretados, revelaram que eram de Jesus e de Tomé, o discípulo que, ao ver da maioria, era o incrédulo, ou pelo menos o mais...

E com tais premissas, certas em Platão, Plotino, Blavatsky, entre outros, pelo simples fato de que, antes, filosofias passadas se formaram com o objetivo de entender o universo a partir do próprio homem – leiam A República, de Platão, para tanto. Não somente, mas também com o intuito de desvendar em tais diálogos, entre Cristo e Tomé, alguns aspectos psicológicos e universais, que sugerem a tangência de ideologias cristãs atuais, mas que jamais foram conhecidas pelo homem atual...

E como homem comum, como buscador, e com a essência que Deus me gratificou com vistas às minhas particulares descobertas, coloco-me sempre à disposição daqueles que me criticam ou pensam nisso, pois o que não faltam são pessoas sem critérios, sem referencias, ao passo intelectuais demais para o gosto do público, porém sem o norte do respeito, sem o norte da virtude, sem o norte do bem quando expõem seus vícios em forma de textos.

E eu, desde que criei este blog filosófico, nada mais faço senão respeitar o passado, respeitar aqueles que seguem a tradição, pois nela, somente nela, podemos buscar nossa origem, sob forma de arte, religião, política, além de outros valores que percorrem as veias humanas, mas, à medida que caminhamos, esquecemo-nos deles.



No próximo texto a continuação de nossa saga.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....