segunda-feira, 20 de março de 2017

Confiar







... Fiar, passar pelo mais difícil e ultérrimo tecido, sem titubear, cintilando pelas linhas magras, ou mesmo pelas vias estreitas nas quais somos obrigados, desde a tenra idade, passar. Fiar pelas ondas, pelos erros, pelos acertos, pelas montanhas, pelo mundo a fora, e no mais tardar pelo universo, tal qual um astronauta a sorrir perdido nas estrelas.

Fiar, fiar, fiar... Com alguém. A segurar nas mãos de outrem, partilhar a vida, cantar a música mais lastimável e na sensatez ouvir, antes do castigo, a Nona, as Quatro Estações e morrer fiando em Bach. Olhar ao sol, sentir seu rosto a bater no seu, pisar ao chão que fia, que penetra na mais simples artéria dos pés, que nos alivia pensamentos frios e egoístas; olhar ao céu, fechar os olhos, sentir que somos parte, e que esta parte, a menor, porém melhor, burlar como criança inquieta dentro de nós. a arrebentar o Deus em forma de energia que se eleva, ao passo nos destrói em dúvidas racionais, tais quais paralelepípedos em ruas, que se quebram tão somente para renovar.

Fiar em nome do confiar, do subir, do eu superior que, quase inalcançável, nos espreita com seus agentes elementais, ao que fazemos ou que deixamos de fazer para sua honra e glória. E nesse fiar interno, cheio de mistérios, descobre-se o mais superior de si mesmo, o mais mítico dos mitos, o mais assombroso dos Homens, que adormece em colchões quentes, a tomar seu banho em cachoeiras de mel, a ser amamentado por virgens celestes das quais tiramos a intuição e o respeitos às senhoras, às damas, ao logos feminino...

E fiando. confiando em si, apodera-se da vida, em uma simplicidade tão bela, que o igualar-se ao sol, ao cheiro da chuva, ao poder transformador da rosa, torna-se divino ainda sem ser. Aqui, nesse fiar, nesse emaranhado de fiações, penetramos no obscuro dos deuses, na compreensão idílica do coração, da alma humana e universal. e tudo se fiará em um.



Con-fiamos em nós.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Simples Ordem...

(Degraus iv)


...Ontem, em uma tentativa de explicar a meu filho o que era Ordem, meus pensamentos foram além do esperado. (Mesmo porque) Em um país cuja a expressão "Ordem e Progresso" não significa muita coisa, e mesmo assim dorme estampada no meio de uma bandeira linda, a flamular de graça nas esplanadas da vida, em frente a prédios imensos, embaixadas no exterior, tal qual propaganda enganosa de um produto que pede para ser comprado e ao mesmo tempo sem sabor, vazio, frio como uma marmita de trabalhador braçal, quando o provamos.

Ordem, eu disse a ele, ao meu filho, é uma dádiva do universo a tudo que precisa do seu lugar, a começar pelo mais simples ao mais complexo, e quando eu digo isso me refiro não somente às coisas com as quais vivemos -- brinquedos, meias, gravatas, roupas em geral, que devem, por obrigação, ter o seu lugar -- mas, principalmente, a nós mesmos, como nosso temperamento, nas emoções, no falar, no andar, no viver, enfim... A Ordem se faz em tudo.

De início, acredito, fui um pouco além do necessário, mas depois que meu filho iniciou uma leitura acerca do assunto, sabia, intuitivamente, do que eu falava, e vi que começara a gostar do assunto, e perguntou, e parou, e perguntou de novo, e o interesse subiu. Meu orgulho, mais uma vez, também subiu, e falei das estrelas, da terra, das cidades, das ruas, dos números, e lancei questionamentos, e mesmo titubeando nas palavras percebi que ele já tinha pego a essência da coisa...

"De qual assunto meu filho gostou mais? -- sobre Justiça ou sobre Ordem?"... E fazendo aquele barulhinho com a voz antes de responder disse... "Hummm.... Ordem!". E eu concordei. Mas acrescentei que não haveria, em nosso tempo, em nosso mundo, não muita ordem se não houvesse justiça, e que as duas, em algum ponto, se confundem ou se fundem, simplesmente pelo fato de que, um dia, Justiça significava Ordem em um passado distante.

Queria muito falar com ele a respeito da Ordem no sentido mais sutil possível, como a de Mâat, a deusa do Equilíbrio, da Justiça, da Ordem, no sentido mais uno possível. Mas vamos deixá-lo crescer um pouco mais né.







quarta-feira, 15 de março de 2017

Sonhos de Justiça

Degraus (iii)



Não se pode tão facilmente igualar-se ao sol, que nasce com sabor de açúcar e dorme com o sabor de querer mais. Não se pode nascer com o espírito do copo de vinho, que transcende ao próprio objeto, e se torna uma taça, um  receptáculo da bebida mais elegante do mundo... Não se  nasce como uma xícara, que, pequena, às vezes média, grande, bordada, em relevo ou não, mas sutilmente recebe o seu café, bem quentinho, na medida...

O homem é um pote, uma junção de pernas, braços, cabeças e sonhos, filho, na maioria do desespero, da pobreza espiritual, da riqueza sem dono, que não se sente realizado como um sol, uma taça, ou mesmo uma xícara... e tenta, de formas diversas, encontrar sua vocação justa dentro de seu meio.

Não é de hoje, mas de muito séculos, que visualizamos em histórias sobre nações civilizadas nas quais seu protagonista é o homem, que a premissa básica é fazer-se rei, sacerdote, filhos dos deuses, ou mesmo um herói que recorre aos céus em nome do seu povo. Não é de hoje que mulheres são a religação entre o céu e a terra, que crianças são frutos de uma árvore amorosa entre os dois. Entretanto, a busca pelas riquezas, pelo domínio territorial se faz mais eterno que a própria busca interna... Isso, deveras, contribui para que a distância entre Deus e homem se torne cada vez maior e mais estreita.

Os sonhos, no entanto, são as únicas formas de direcioná-lo ao seu lugar de origem, de modo a iluminar seu caminho, trazendo-o faíscas simbólicas, não literais, acerca de seu mundo. Aqui, o homem deve abarcar um certo grau de cultura, caso contrário, não terá como interpretar o que os deuses lhe deram de presente... Ou avisá-lo sobre um mundo que tenta chamá-lo à matéria.

Como todos os sonhos, temos que nos remeter a nossa ideia original de que não somos além humanos, muito menos escolhidos sagrados, mas simplesmente homens que possuem a vertente humana em sonhar e realizar seus desejos de Bem,de Justiça e Amor à verdade -- da qual ele faz parte.
Se o sol tivesse um sonho, seria a de ser sol; se a xícara, o de ser xícara, e assim por diante... Não podemos nos dar o luxo de querermos ser super homens, deuses, ou fazer parte de uma constelação quando morrermos. Temos que olhar ao céu -- isso sim -- e nos questionarmos acerca do que somos, para onde vamos e porquê. Nesse caminho, encontraremos o das estrelas sem sê-lo, o caminho do sol, iluminando nosso caminho divino, sem ser o sol; teremos forças para nos levantar, sorrir e abraçar um mundo, como um deus, sem sê-lo.

Olhemos, para isso, dentro de nós, para a nossa alma, não muito distante, de nossos desejos, que só entendem a linguagem do pedir e ter e remetê-los ao que realmente necessitamos -- de humanidade, de harmonia, de uma felicidade natural, sem pedras, rochedos, além da brisa que nos bate pela manhã, quando o deus esférico nos surge, devagarinho, no horizonte.

O homem, desfazendo a primeira premissa, não é apenas uma junção de corpo, olhos, coração, objetivos. Não. Ele é a parte que mais interessa aos deuses pelo fato de tê-los em si, e a tudo no universo.



Tenhamos  um ótimo dia!

quarta-feira, 8 de março de 2017

À Mulher sacerdotisa, deusa do Amor, Rainha...





Ainda que eu me expresse em palavras mais claras e límpidas, como um céu pela manhã, quando o sol, em suas rajadas amarelas, confronta-se com o céu azul, deixando marcas de uma violência bela, ao teor de um sangue alaranjado, escorrendo no rosto das nuvens, incitando no nosso lágrimas que jamais entenderemos.

Ainda que rebusque em meu coração a mais complexa paz, somente para entender que a guerra é necessária, a dois, não a três ou quatro. E que tal guerra nada mais é que um teatro divino dentro do qual evoluímos, e nos tornamos  um pouco divinos a cada perdão, a cada abraço, ou mesmo um carinho...

Ainda que eu tente entender o caminho dos céus, das estrelas mais radiantes, a encontrar o porque de sua beleza, de seu amor, de sua dedicação, de sua preocupação com os detalhes que nos fazem donos de um motor que não pode parar.

Ainda que eu tente entender sua dedicação milenar a Deus, por meio de suas vestes, às vezes por meio de seu véu natural – teus cabelos lisos,-- que escorre como ondas negras acima de seus olhos, que me condenam a ser feliz, ou antes, hipnotizado por seus dons de fúria, que balançam o mar da vida, outras, pelo sorriso que me destrói em uma simplicidade tão infantil quanto o do filho que nasce...

Ainda que eu volte a milhares de anos, que chore a teus pés, quando rainha eras na mais perfeita das cortes, e eu teu rei, discorra feito menino acerca de minhas lutas e de minhas guerras nas quais venci, vem tu, com semblante sagrado, beija-me suave os lábios, destitui-me o ser guerreiro e me vences, sem armas.

Queria ser o Deus que perpetuasse sua vida, sua alegria, e te desse frutos de uma árvore não proibida, porém que ninguém mais além de ti pudesse tocar.

A ti, mulher, cujos dias são sempre os dias que nasceram e morreram na aurora; a ti, sacerdotisa, que une a família, os homens de bem; a ti, guerreira que nasce todos os dias, na sombra, nos sóis, que persegue Deus nas mínimas coisas, e por ele levanta pedras, edifícios, remove mares quando teu filho que passar.


A ti, esposa, cujo amor eterno cintila na casa, desejo que o mais belo dos dias seja somente teu, assim como todos os dias o são.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Degraus (ii): O Respeito a Cada Um



Olhe ao seu redor

A palavra respeito em sua essência significa "olhar ao seu redor", saber onde você está e com quem você se encontra, e isso nos remete um pensamento um pouco mais periférico, maior às margens do que normalmente observamos, de modo a refletirmos sobre nosso comportamento. Onde estou? em cima de uma montanha? em um quarto? em um meio no qual se encontram várias pessoas com modos e pensamentos semelhantes(!) ou diferentes?... como irei agir?

Assim, ao refletir sobre todos e tudo, vem o respeito; em um trem, por exemplo, há pessoas que querem ler, ouvir seu rádio baixinho, ver a paisagem ou mesmo tirar um cochilo; ao perceber isso, temos a nítida certeza de que o momento não é para conversas extravagantes, piadas ou histórias em grupo. Percebemos que o público daquele trem deve ser respeitado, e que nosso comportamento tenha pelo menos algo a ver com eles.

Aqui, não cabe a liberdade mal versada, o gargalhada excessiva, nem mesmo assuntos patrióticos e políticos, além de comportamentos pessoais como esticar pernas em cadeiras, cantar alto a música preferida, fumar o cigarro que incomoda, ou mesmo o beijo sensual na namorada... Pode despertar a falta de pudor em crianças.

O respeito nos faz falar a linguagem alheia que nem precisemos nos comunicar verbalmente. Isso cabe em qualquer lugar, seja na igreja, em cemitérios, na própria casa, quando estamos nos alimentando, assistindo algum programa, enfim, o respeito à pessoa humana parte do principio que não enxerguemos apenas a nós mesmos, mas a todos e tudo. A própria natureza também agradece.

Por outro lado, se estivermos em um ambiente solitário, no qual somente nós e mais ninguém se encontra ou somente pessoas de nossa "tribo" lá estão -- com modos gêmeos aos nossos -- não é falta de respeito ouvir a música preferida em qualquer tom, ou mesmo a sua voz, cheia de falhas verbais, não. Pelo contrário. Pelo fato de se estar só, cria-se a própria lei de comportamento, sempre com vistas a pessoas que chegam e saem.

Às ideias

O respeito mais profundo, no entanto, é às ideias alheias dentro das quais se resguardam experiências, conhecimentos e opiniões relativos, mas humanos. Todos, de alguma forma, os têm. Mesmo o mais exagerado, o mais ingênuo, o menos ou o mais conhecido na sociedade, enfim, as ideias são formas inatas que nascem e morrem como semânticas naturais, mas o homem, único ser que poder capitá-las, as transfere para o seu mundo de uma forma relativa, outros quase que absoluta (esses são sábios), mais na frente, em forma de país, sociedade, mundo...

As ideias não podem ser desprezadas, e sim respeitadas, porque escondem um pouco do que somos, e muito do que pretendemos em relação ao próximo, seja num projeto, seja em um ideal.


sexta-feira, 3 de março de 2017

Degraus (i)



                                          Em um mundo em que tentamos entender o porquê de tanto desrespeito, é sempre bom buscar, com nossas parcas ferramentas, o conceito de respeito, e de outros valores inatos ao homem, para que, em um futuro não muito distante, ou mesmo agora, possamos praticá-los. Nesse mesmo mundo, com exemplos infiéis e incoerentes dos chamados formadores de opinião, ficamos tristes somente em pensar que nossos filhos podem fazer parte (ou já estão fazendo parte) dessa trama infinita para desestabilizar o próprio crescimento humano.

Mas o ser humano, de alguma forma, sempre evolui, seja para o bem ou para o mal. E cabe a nós, dentro de nossos ensinamentos, de nosso conhecimento -- natural -- não se deixar diluir como pequenas porções de sal no mar, e perder nossa razão (leia-se visão de mundo), a partir do que somos, de nossas experiências: pessoas que encontramos, das quais nascemos, com quem vivemos, trabalhamos, aquelas que amamos (ou não) e de nossas tendências. Não levemos, aqui, em consideração o que temos nesse caminho, pois tudo nada mais é que uma consequência do que colhemos...

Se não olharmos de frente aquela pessoa com quem vivemos, trabalhamos, com a qual nos casamos, jamais saberemos que mistério a vida nos resguarda; não precisa ser um cientista, um biólogo que ama as plantas, mas detesta os seres humanos, ou mesmo um veterinário, que ama os animais, porém possui um empatia com os de suas pernas. Não. Temos que ser apenas gente. Temos que observar nossos modos, com vistas ao diálogo, ao comportamento, que nos dará respeito e fará dar respeito,  além da harmonia, paz, humanidade em uma evolução constante, devagar, mas concreta e espiritual.



Voltamos depois.


quarta-feira, 1 de março de 2017

"Cão-parações" filosóficas.






....Estava longe do último voo de Falcão. Ele aprontou e muito! Houve um momento em que pensei em dá-lo, vendê-lo ou mesmo pedir metade do preço que nele dei ao antigo criador de cães pastores -- o que era a melhor saída. Nem passou pela minha cabeça fazer qualquer negócio com "especialistas" em cães, assim como são os "especialistas" em bebidas, que, não podem ver uma garrafa de vinho, que começam a mudar o vocabulário, mostrar palavras desconhecidas de um vocabulário pífio.
Não eu não queria isso.

Embora em tivesse motivo para tanto, eu não queria. E sim mostrar a mim mesmo que sou responsável não somente pelas pessoas que cativo, mas pelos animais também, e meu cachorro, ainda que tivesse seus instintos de lobo à flor da pele, um crescimento além do imaginável, dentes que me davam medo, não poderia abrir mão dele. E se o observo assim, imagine as pessoas com quem vivo ou mesmo os transeuntes de um bairro pacato, onde só se criam pequenos cães na coleira -- e o meu, imenso, fora dela.

Falcão chegou a um tamanho considerável -- porte de um animal adulto, sem ser adulto ainda; um latido que abafava qualquer outro da rua a quilômetros! Estes "detalhes" pude vê-los com satisfação, pois percebi que cuidava bem dele, dando-lhe ração na hora, caminhando, brincando, enfim, tudo em seu devido tempo -- as vezes, tinha que se adaptar ao meu horário, mesmo porque eu tinha um filho, uma esposa e um trabalho antes dele (ou depois?).

Eu estava começando a me cansar, quando chegou, sem minha autorização, a época do cio dos animais da rua, das casas, do bairro inteiro, de modo que meu amigo pastor não ficara fora da festa. E nela, quem mais se prejudicou foi eu... pois nem sabia o que fazer quando a pequena cachorra, que vivia no mesmo terreno que o meu, e que era da minha irmã, começava a se insinuar para os cães de fora e de dentro do terreno. Era o momento fértil dela, sem reflexões, apenas instintos, arrebentando e arrebatando corações.




Minhas dores de cabeça, pressão, físico, tudo tomou proporções sem limites, sem escalas, pois Falcão e seu latido, suas inquietações, além de força que fazia na coleira, me deixaram quase doente (ah se fosse só isso); ainda me deram quedas, quando quase fui arrastado por ele ao ver um outro cão invadindo seu território no qual sua donzela se resguardava para ele (?), ou para outros, que ela mesma escolhia. Toda ação exige uma reação.

E eu, após tempos, encontrei um amigo que me predispôs um outro, que era adestrador. A este contei histórias tristes, alegres, amargas, incríveis, abaláveis, enfim, não adiantou nada. Ele me cobrou uma grana preta para adestrar o inadestrável Falcão.

Foram quatro semanas, doze aulas, e quase mil reais de gastos, Mesmo assim, Falcão, o "Marley" da vez, não conseguiu ser completamente disciplinado. Não porque o rapaz era ruim, mas pelo fato de eu, este que lhes fala, ter deixado passar tanto tempo sem chamar alguém para pô-lo na linha. Foi o que me dissera antes de me cobrar a última aula. E tinha razão.

Um cão como ele, daquele porte, não poderia ser disciplinado da maneira como eu estava fazendo. Com liberdade, com ansiedade, com tapas, e as vezes pancadas, durante um ano. Porém, ressaltei a ele que, antes de completar um ano, chamei um adestrador que se achava, para ficar com meu cão durante uns dias, para reconhecimento -- isso quando ele tinha uns sete ou oito meses -- mas o faker disse que tinha que esperar dar um ano para que iniciasse o procedimento. E quando chegou, não quis saber do meu cão.

Falcão, hoje, graças ao real adestrador, e às minhas tentativas de reeducá-lo frente ao que me ensinara, está mais calmo, mais manso, morde pouco, e é tratado com amor pela minha esposa. Meu filho, que já o amava antes de qualquer ensinamento, o ama muito mais agora.




Ensinamento

Aprendi que somos covardes. Não queremos mudar nossos vícios, mas somos obrigados a mudar o dos animais, dos jovens, das crianças, burlando seus instintos, como pequenos cães, leões, mas nos esquecendo de que temos uma personalidade que jamais deixará o instinto para trás. Vai nos fazer cães no cio, desrespeitosos, e pensar somente em algo "inadestrável", como o sexo.

E quando penso na coleira em que levo meu cachorro, penso no grande exemplo que meu antigo mestre me fez dar em relação aos deuses, que nos dão disciplinas por meio dos problemas e que não aprendemos. A coleira, nesse caso, seria a própria experiência conseguida durante anos, ou mesmo nossa sabedoria, que não nos deixa sair ao léu para um mundo irreal, dentro do qual acreditamos ser a saída para a real liberdade...

Estamos sempre errados. A liberdade é uma lei, segundo os antigos. A coleira, assim, seria a nossa lei, que nos prenderia em nome de um conhecimento além vida, do qual somos eternos biscadores. Não os cães. Teríamos um mestre a segurar nossa "coleira" ou mesmo os deuses ou uma grande experiência pela qual passamos e percebemos que sem ela não iremos a lugar algum... E se nada nos segura, nossos instintos, opiniões, racional, vontade pessoal, tudo desfaz nossos objetivos ou nosso ideal.

No entanto, descobri que, para se ter essa ideia, é preciso que tenhamos, na prática, uma liberdade falha, opiniões sem propósitos, vontades instintivas, as quais nos tornam cães humanos, além de experimentos que nos proporcionam o mal em si. A passar por isso, procuramos nossa próprias coleiras ou elas mesmo surgem com o passar dos anos, em nós.

E posso dizer com propriedade, todos esses anos em que passei sem coleira, usufruindo de liberdades vulgares, dando opiniões voláteis, posso dizer... todo homem precisa de um compromisso, de um ideal, de uma liberdade real, que nos possa levar aos deuses, ou pelo menos sobre eles refletir e mudar um pouco o que somos, humanos, mas também cães nas horas em que os instintos falam mais alto.













A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....