segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Ponto de Encontro

Esses dias descobri porque somos tão voltados à orações. Talvez haja discordâncias quanto ao que vou dizer, mas é sempre bom compartilhar o que se descobre nesse campo. O que descobri é que nelas, na orações, quando olhamos para o alto, para as estrelas, ou para dentro de si mesmo, quando estamos a dialogar (ou monologar...!) com o Criador, tentamos falar conosco mesmos. Não existe aquela fórmula natural de tentar uma conexão com o mais alto, com o ser mais misterioso a que damos o nome de Deus. Se houver, está aqui, dentro de nós.

Mesmo se clamarmos em voz alta, no sentido mais literal possível, estamos acordando nossos sentidos numa tentativa de nos fazer elevar ou mesmo buscar o que tanto almejamos. Nada mais. Ainda que estrelas estejam sobre nossas cabeças ou mesmo quando olhamos face ao chão, como nesses templos hindus, estamos alimentando nossas almas de preciosos pedidos, porém há os que abusam de si mesmo, da potencialidade adquirida de forma inata, e pedem que suas vidas melhorem materialmente. E conseguem. Mesmo porque consegue-se aliar força, vontade e prática em torno daquilo que pediu ao deus. Na realidade, foi a si mesmo.

O questionamento que nos segue ante ao fazemos, que vivemos, é o seguinte: por que então esperamos ajuda de cima, do céu, sempre que oramos? A ajuda vem de si mesmo, que, querendo ou não, possui um religare com a natureza, com o todo, com Deus externo,o qual pode ser plasmado junto de si com inclinações naturais, não necessariamente orações, rezas -- pedidos em particular. Jorge Angel Livrarga, filósofo moderno, com vistas à tradição, um dia nos disse que "Nossa melhor oração é o Trabalho".

Em tudo que fizermos se buscarmos o Bem, a Justiça, o Amor e a Verdade, sempre nos focando naquilo que somos -- humanos -- a própria Natureza se encarrega de nos transformar em seres belos e felizes. A regra também vale para os filhos da ignorância, que desnorteados, sem princípios, sem vontade própria de mudança, esperam algo da vida, serão agraciados com justiça e equidade, de acordo com sua capacidade.

As orações são feitas para nós. E diante do que somos, temos que temer nossas palavras e pedidos, mesmo porque somos sagradas criaturas que têm poderes latentes e não sabemos. Interpretá-los, trabalhá-los em nome de uma boa vivência, já é meio caminho andado. E quando tivermos de olhos cerrados, a contemplar as estrelas internas do escuro do silêncio, na calmaria do grande oceano de nosso microcosmos, sejamos francos e divinos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Passado que passou.

Completei cinquenta anos, no último dia dezesseis. Por mais incrível que pareça, tornei-me um pré-idoso. Não sou mais o mesmo física e mentalmente, e espero outras agruras da idade daqui pra frente. Meus olhos, minhas pernas, meu corpo não são mais aqueles heróis bio e fisio dos anos oitenta -- ano em que trabalhei e estudei como louco. Diziam até que eu era inteligente! Que absurdo!

Passados os anos noventa, achei que seria eterno, mas os anos dois mil me jogaram na parede. Pareciam dizer "Peguei você, hahahaha!" -- é as saliências da vida existem e temos que enfrentá-las como aqueles protagonistas de mitos gregos que pulam de torres, voam, sobem e... morrem. Mas antes do rasante, sobrevivem o máximo para dizer que são imortais. Assim fui eu (ou nós) a contemplar a eternidade por alguns anos, dificultando até mesmo a compreensão do porquê dos cabelos brancos que nasciam sem permissão.

Tudo em mim (em nós) se solidifica como passageiro, como qualquer coisa física que nos padece. Menos a alma, esse ser invejável que desestrutura nossa compreensão científica, biológica, semântica e filosófica da vida. Por não ser tão clara, objetiva, visível, muitos se relevam contra ela, e a detém como um ser à parte, como que não fizesse parte de tudo. E faz.

Mas as lembranças, essas nas quais tento me deter e delas... lembrar, ficam como sendo a própria contradição entre o corpo e a alma. Simplesmente porque, ao serem mentais, e que se edificam graças à nossa nossa experiência -- seja ela física ou não -- me faz acreditar até certo ponto que não são interessantes. Para mim, hoje, agora, com essa idade, com a essa perda de memória -- ou como diriam os cientistas, da membrana cerebral, responsável pela guarda de dados, que perde suas células, não tenho mais amor ao passado.

Talvez eu não tenha tido um grande passado. Talvez eu até teria tido, mas não me lembro... Se me pedirem para me sentar, escrever algo parecido com aquilo que passei, não sei se alguém o leria, compraria, gostaria... ou mesmo amaria. O pouco do que me vem à mente me faz rir, sentar, refletir, pensar... mas nunca voltar a ele ou nele ficar.

O que me faz amar o passado, viver dele, não é ele exatamente; mas o ar que me traz e vai me trazer sempre quando dele bebo, o chamado espírito natural com o qual aprendemos realmente andar.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Solidão da Matéria

Um átomo que atinge seu apogeu de forma concreta dentro do espaço não possui a vontade, nem delibera a favor ou contra aquilo que encontra pela frente, simplesmente nasce, se expande e se transforma, assim como tudo que é matéria. Uma estrela é uma estrela, por exemplo, mas a depender das circunstâncias podemos chamá-la de átomo, dentro de um infinito que cresce e evolui. Até mesmo o nosso Sistema Solar pode ser chamado de átomo.

A questão é que somos humanos, somos dotados da capacidade de sair de nossa condição de átomo, reduzidos pelo nevoeiro da ignorância e crescer, aparecer, tomar lugar em nosso tempo. Podemos ser a estrela real que brilha mais que outras ou mesmo a pequena brilhante que desaparece entre outras. Podemos ser o que queremos.

Contudo, o que nos inclina a ser o que não somos é a vaidade e a vontade mal direcionada. Assim nos perdemos em torno de espaços dentro dos quais não nascemos para crescer ou nele morrer. Somos humanos, e isso basta. Não precisamos querer ser o que não somos, buscar referenciais aleatórios somente porque querem que o façamos. Nietzsche dizia que precisamos nos olhar ao espelho interno e encontrar o deus que nos torna livres do deus inventado. Creio nisso também.

Entretanto,  o deus que criaram ainda é mais forte que nossa vontade que se educou pelos vigias de uma imensa igreja, que não nos deixa sair dela tão fácil. A própria Bíblia diz Deus está em todos os templos! Haja vista que a palavra templos, aqui, se refere a nós, não ao externo, frio, decalcado e mentiroso, criado pela imaginação do homem moderno, o qual estanca os valores do passado, quando esquece que os templos clássicos eram tão sagrados quanto os de hoje, pois eram voltados à Natureza Cósmica, não ao homem e seus interesses.

Não precisamos refletir muito acerca do que vemos nos espelho -- senão cairemos em prantos! -- mas no que se resguarda dentro de nós, no real espaço que foi feito para orar, buscar e sintetizar o que podemos fazer daqui pra frente. Assim... A matéria se vê solitária e vai fazer o possível, em sinal de birras, para tirar-nos do sério, da realidade que nos aguarda há milênios.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Futuro pra quê?

Uma pessoa muito especial um dia me disse, "A felicidade é como uma plantinha que, regada todos os dias, podada, cuidada, tem-se a certeza de que crescerá linda". Depois de pensar nisso -- e não sendo xiita na obediência dessa máxima, mesmo porque ninguém o consegue -- vi que a realidade desse grande dizer pode ser embutido em tudo que quisermos, até mesmo ao futuro. 

Se podemos plantar, literalmente uma plantinha com cuidado, regando-a e alimentando-a com seu elemento preferido, que é a água, podemos fazê-lo com a mesma substância que nos alimenta, que nos carrega sempre que a clamamos: a esperança de um futuro melhor.

Mas, sabe, fico a pensar nessa máxima não somente em replantar simbolicamente nosso mundo, não somente individual, como também coletivo, mas principalmente naqueles que simplesmente não regam suas vidas, não as movimentam, e mesmo assim querem um futuro. Há aqueles que nem mesmo sabem regar suas vidas ou o fazem de maneira complemente errônea (quem sou eu pra dizer isso?), e ainda sim querem não apenas que suas vidas tenham um futuro,  ou mesmo uma árvore sequoia em sua floresta.

Ledo engano.
Um futuro deve ser visto com os pés no chão. Não somente pensando ou extraviando pensamentos como cometas que passam ao lado de planetas desorbitados. Somos mais que isso. Quando nos propomos algo que nos faça levantar do sofá ou mesmo parar as guerras que estão se iniciando, queremos e fazemos. E isso, sem precisar de videntes. Deixemos de lado um futuro de perspectivas, e nada de práticas; vamos pensar no agora, naquela planta que necessita de alimento, da criança que morre nos lixos ao lado de casa; vamos aparar a grama, tapar as frestas nas quais as goteiras se infiltram e fazem a festa; vamos deixar de mão essa política e praticar a nossa, que é ajudar o próximo!

Pensar no futuro, pra quê? para ficar refletindo sobre o mundo, sobre a política, nas sociedades, na vida, enfim, em Deus, que nos pede e implora movimentos em favor de um mundo que desfalece todos os dias em nome do mal -- qual a diferença?. Ou seja, se não olharmos para aquilo que está ao nosso lado, ou embaixo dos nossos pés, futuro não há. E se há, não fomos nós que o plantamos.


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Não Fui Eu !

Não adianta mesmo. Nem diante das provas cabais que nos culpam claramente pelo que fizemos, não somos sinceros em dizer... "Fui eu". Sempre encontramos alguém ou alguma coisa para levar a culpa, seja da casca de banana encontrada na porta, que foi objeto de queda do pai ou da mãe, do irmão ou sobrinho; seja do carro que estava na nossa frente, e quando freou teve a lataria amassada; e mais, do cofrinho nosso de cada dia, no qual tínhamos economizado desde sempre, mas agora não tem nem mesmo aquela moeda de vinte e cinco centavos, que com outra daria os famigerados cinquenta! E assim por diante...

Em cenários maiores, também nos desviamos de tudo, o que nos demonstra a falta de maturidade e respeito que tanto recebemos desde pequeno, mas que, graças ao modo como tratamos e cultivamos nossos legados, negamos até mesmo o nome de batismo, se a coisa nos cai como avalanche.

Isso tudo parece ser parte de um teatro no qual nascemos com valores os quais determinamos com o intuito de nortear nossos princípios, fortalecê-los, e trazer à tona, na prática, o que precisamos demonstrar a futuras gerações -- mas falhamos. Na hora agá, sentimos medo, pavor, terror e todas as coisas inerentes ao homem, que um dia fugiu da realidade e não volta mais.

Hoje, no campo político, ao contrário do passado no qual nos mostrou somente homens valorosos, do quais até então com eles aprendemos em livros de filosofia, história entre outros, o que passeia em nossa mente é o que temos de pior quando pronunciamos a palavra Política, pois nos traz lembranças revitalizadas de uma modernidade na qual se aprendeu a não se responsabilizar pelo que se faz nesse campo. Ouve-se desde 1960 parlamentares a dizer "não tenho nada com isso", "Não fui eu, e pretendo mostrar isso nos autos, depois de lê-los!" -- por mais claro que sua culpa seja clara quanto um riacho não descoberto! E a mais interessante é a "É do meu amigo... Não é meu".

No campo político é drástico nos acostumar, mas há um, no religioso, que, sempre, pronunciamos e não abrimos mão... é a "É coisa do inimigo!!" -- inimigo leia-se o anjo caído, o Diadorim, o demônio não socrático, o Coisa Ruim, etc. Em todas as vezes que se é pronunciado por alguém que se encontra em terreno sutil, como o do religioso, como eu disse, pode crer que é alguém tentando se desviar de sua culpa, e colocar culpa do outro...

Irrelevando tais agruras psicológicas e mentais, passamos a perceber que um dia tudo cansa, e que um dia temos que nos dizer a nós mesmos que somos o culpado por outras agruras, a do meio ambiente, da  educação, da má política, da má religião, da extinção dos belos animais, da má compreensão do próprio parceiro e ou parceira, dos filhos, da família e por fim de nós mesmos. O primeiro passo é descobrir que pelo simples gesto do pensar já somos responsáveis pelo céu e pelo inferno que nos ronda.



Abraços, parceiros.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Humanos Complicados !

Conversa vai, conversa vem, e a gente sempre termina com a frase ser humano é complicado! já percebeu? isso é porque a gente chega a um ponto da conversa que estamos chegando perto de falar um pouco de nós, mas não continuamos o diálogo, encerrando tudo ou inciando outro, do tipo, carros, mulheres, jogo de futebol, enfim, o que interessa aos mais baixos instintos...

Mas eu sempre continuo. Quando se trata de ser humano, acredito que somos meros fugitivos de resoluções que nos abarca, que nos responsabilizam. Se conversamos acerca de política, estaremos lá, falando do infeliz que rouba o dinheiro público ou sendo julgado pelo que fez ou não fez; no futebol, idem, porque há sempre alguém que não gosta de tal time ou de jogador, que traiu seu time e foi para outro. Não tem como fugir. Toda conversa será em torno de seres humanos, que fizeram algo que amamos ou odiamos, e então qual o motivo de não falarmos de nós mesmos, no sentido interno, melhor, com vistas a melhorar o que somos ou de nossas pretensões? por que não?

Temos que deixar o ego de lado. O egoísmo destrói perspectivas. Se ele (o receptor) fala dele mesmo, temos que ouvir, dar conselhos, dar soluções baseadas em nossas experiências ou, se não, de pessoas que são organizadas internamente, pois se mostram externamente com características explícitas. Se o fazermos a espera de falar de nós mesmos, como uma criança que quer falar mais e mostrar mais brinquedos, estaremos mostrando o que não interessa a outra parte, que, de nós, espera maturidade, crescimento, força, coragem para ouvi-la, e principalmente sinceridade.

A complexidade humana começa quando deixamos de lado o que somos e buscamos o que não somos. Fazendo uma analogia simples, posso dizer que a fuga de si mesmo é como começar a fazer o almoço sem perceber que a louça está suja. Temos que lavar a louça, pois nela comemos. Iniciar um processo de autoconhecimento para que não fujamos mais dos diálogos que se assemelham a nós, os quais são fundamentais para seguir em frente, seja em qualquer lugar, pessoa, sociedade, mundo... É um caminho natural e evolutivo.


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Justiça Invisível

Sabemos que a Justiça é invisível e que todo ponto de vista baseado em justiças relativas nada mais é que uma opinião baseada em premissas necessárias a quem a defende. Ou seja, sabe-se, de pronto, que não a temos, mas reverberamos acerca dela, nos propomos a falar sobre ela, mas estamos longe em entendê-la, por isso, nossas  palavras vãs quanto ao assunto Justiça.

Todavia, é preciso que busquemos referenciais fortes quanto ao que salientamos nesse caso. Porque nada mais sonoro do que frases do tipo "Acho isso uma injustiça", "Quero meus direitos", enfim, de modo que não nos sintamos afastados do real significado desse ser chamado Justiça.

Platão (filósofo grego) faz uma bela abordagem em seu livro A República, no qual, na boca de seu mestre Sócrates, com lastro em vários outros conceitos tradicionais, chama de Justiça a natureza como um todo e seu papel junto aos seres, sejam humanos ou não. Para o grego, Justiça seria cada um exercer ser papel no universo, sempre, de acordo com sua natureza e ou capacidade junto às circunstâncias nas quais é ou foi proposto, assim como o sol, a sombra, a terra, e passando para os personagens de sua Filos Cidade, do guardião ao sapateiro, da cadeira à cama.

Se observarmos bem, não é tão simples entender tal conceito, mesmo porque, saliento, temos a mania de relativizar tudo da maneira que nos convém. Nossa mente, na qual se infiltram definições a cada segundo, é preparada para olhar para fora, não para dentro; preparada para cometer gafes, duvidar, alegar, racionalizar em nome do egoísmo, etc. Nada melhor do que partirmos do ponto filosófico, com a consciência centralizada em descobrir rumos diferentes, sem que sejam os nossos, porque podemos cair no ostracismo, no frio mundo da pedra que não se move.

E para não cair nesse erro, na tentativa de nos trazer à tona valores nos quais mergulhamos diariamente sem nos afundar, Platão nos traz racionalmente, como um ser normal (que não é), entre eles, o real valor do ser Justiça -- pelo menos concordo -- quando ele parte do simples ao complexo, ou seja, da ponta de uma célula humana à alma que se instalou em nosso corpo, há milhares de anos...

Platão diz que não devemos confundir justiças relativas (ele diz isso o tempo todo) com a Justiça que nos transcende; a olhar para horizontes, para o universo, perceber o papel de cada esfera, e antes disso de cada molécula fria, de cada átomo a ser formar concreto, até a formação da vida organizada no micro e no macro universo, não enxergar como casual, nem mesmo distante -- o que nos atrapalha a compreensão na maioria da vezes dos reais valores humanos e universais. Cita mitos fantásticos como o de Er e de Gizes, nos quais devemos, antes de tudo, praticar o que é justo sem que haja necessariamente seres a nossa volta.

Dar a cada um o que lhe é necessário de acordo com sua natureza e capacidade hoje em dia não é fácil, mesmo porque somos obrigados a nos desviar do que somos, para suprir necessidades básicas que nos insistem bater à porta todos os dias. Mas Platão, com seu mundo, nos deu a porta e a chave para perceber que somos justos sim, mas para isso é preciso que tenhamos que olhar para dentro com vistas a descobrir o sentido de nossa alma.




Abraços, mestres;

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....