segunda-feira, 11 de junho de 2018

A Fera que Não Dorme

Ele está lá, no fundo do labirinto, a espera de uma luta quase que justa, na qual ele, a Fera, se sobressaia e se mantenha forte a cada tentativa vã humana em vencê-lo. Lá dentro da sua grande moradia, adormece com apenas um olho, o outro, não, e vívido como uma criança traiçoeira, se prepara para defender seu espaço, com toda juventude que lhe corre nas veias; e de tão poderoso, sorri em gargalhadas, após inúmeras tentativas de combate dos pobres homens, os quais se perdem, se matam ou se fincam como presos eternos de suas garras, fortes e terríveis.

Não há como vencê-lo se não há caminho, se não há coragem, ou um projeto em que se pense em mudança a partir de si mesmo, pois o núcleo natural onde se inicia e morre a dor está dentro de cada um. O animal à espreita, que não dorme, ainda está lá e prefere enfrentar, assim como no mito, o melhor dos homens, ou simplesmente aquele que mergulha em seus ideais e dele não desiste, pois sabe que o monstro real subjaz às virtudes e morais que plantamos diariamente, mas não ao espiritual.

Ele não nos deixa esquecer, porém, dele nos esquecemos; vibramos e nos tornamos heróis provisórios em uma época que precisa se sustentar, se edificar com nossos atos, brilhando como estrelas celestes, nas quais nos referenciamos, mas, ele, o monstro, tão esperto quanto à hiena que espera o leão devorar sua presa e ficar com os restos, a fera, criada por nós, tornou-se o leão e nós a hiena...

Em seu trono inabalável, naquele labirinto magnânimo, feito dos tijolos mais belos e reluzentes pelos arquitetos dos sonhos, se inclina a provocar o homem, dando-lhe vitórias parciais, medalhas por seus feitos, presentes, por detalhes almejados em pequenas consecuções, seus músculos vão se tornando aços inoxidáveis, suas pernas, troncos de sequoias, sua mente, tão poderosa quanto à do mais vilão dos homens...

Mal sabem os homens que a fortaleza desse animal se faz pela distância do próprio homem aos seus valores reais, sobre os quais devia refletir e saber que ele mesmo possui potenciais naturais e incorruptíveis para mudar o mundo, entretanto, sem tais convicções práticas, não saberá jamais que dentro desse campo haverá sempre a volta do monstro se não houver pelo menos a pretensão de conhecê-lo e enfrentá-lo; ou seja, enfrentar a si mesmo.

Destituir o monstro por meio da consciência é o mesmo que ir à lua em sonhos, beber raios do sol em jarras, ou seja, é impossível; já sabemos que ele existe, que se manifesta ante a qualquer tentativa de mudança humana, e por isso nossos atos em relação ao mundo têm dias contados. Não por isso devemos ficar abalados, mesmo porque a guerra, seja no campo dual ou não, se alimenta da pobreza humana, e o monstro não é diferente, pois se eleva e se fortifica à medida que nos lançamos a qualquer feito em benefício social, porque usamos de armas frágeis -- como flechas sem ponta, usamos de vaidosismo, de intelectualismo, de interesses pessoais. 

A fera, assim, mais uma vez, bate no peito e diz "podem vir, e preparem as lágrimas de dor".

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Tinta de Sangue

Se eu tivesse a escrever com a pena dos clássicos que um dia faleceram de dor, o faria com sangue. Sua cor vermelha de combate, a cor do Deus Marte, o deus da Guerra, na era romana, nos revela mais, revela que estamos precisando repensar nosso comportamento ante a juventude, que se mata aos poucos, quando não literalmente, o faz em drogas, em grupos desordeiros, em prostituições, em falas, em crimes escusos de uma sociedade que dorme no mar de dor pelos seus filhos.

Falta de empregos, de objetivos, de ideais, os fazem perder rumos ou refazer alguns em direção ao nada, na grande maioria das vezes por não ter referenciais, os quais, desde a tenra idade, são representados pelos pais, ou mesmo parentes que os adotam, mesmo porque os primeiros, por circunstâncias da vida, às vezes, os largam nas ruas, e por consequência no mal.

A falta de programas estruturais, psicológicos em um sistema que os esquece, que os largam como cães na selva, a pedi-los que se virem, se arranjem como seres humanos que são, mas se unem ao nada, ao vírus da terra batida, ao lodo do mundo e se tornam mais vermes que os reais, a viver dos restos da vida.

Nada há, nos parece, a salvá-los, a não ser a sua própria vontade de mudar o mundo, quando percebem que "algo" está errado. E poucos heróis surgem, e de tão poucos que são, que iniciamos nossas venturas a repensar o que faziam no passado para sanar essa doença, ou mesmo o início dela. E vem-nos à mente seres fortes, que iniciavam seus filhos antes da guerra, ou mesmo em pequenas batalhas, nas quais viam seus pais salvar o mundo, sua cultura, a permanecer de pé ante uma sociedade que era contra tudo que pensava, definia, amava e por isso tinham que guerrear, estabelecer seus critérios após a dor da guerra, e, após, sujos de sangue, demostrar que estavam prontos para o início de uma organização melhor que a primeira. Havia, aqui, por incrível que nos pareça, a busca pela honra, pelo que o homem representava, não somente pela organização pós-gerra.

O que falta agora, nesse minuto, é refletir, organizar seus pensamentos, estabelecer metas, ver o caminho que percorre ou que poderá percorrer. Ver se tal caminho é compatível com suas metas, levá-lo a diante, não deixar-se esmorecer, entender que, na natureza, tudo é relativo: que pode ser realizado ou não, porém, pode ser levado a sério ou não; se levado a sério, continua-se com o projeto, com firmeza, com honra, com destreza e fome de realizar; não esquecer, no entanto, que, por ser relativo, há dois lados, e deve-se saber para qual deles está-se trabalhando -- para cima ou para baixo.
Se para baixo, colherá frutos pobres e podres, sem nexo, sem fibras que o alimentam para outro projeto; se para cima, conhecerás mais amigos, mais portas abertas, mais indivíduos que batalham em nome de uma sociedade melhor, de um ser humano melhor -- inclusive ele. Não há outro meio...

Prova disso é quando escolhes o sol, porque o verás em todos os lugares se o escolheres, porque dentro de si haverá mais forças, mais luzes e elementos que o fará ver, assim como uma rua que estava apagada há tempos, mais caminhos, mais formas para continuar a vida.

No Mito Grego de Dédalo e Ícaro, quando o grande pai, Dédalo, avisa ao filho sobre seus atos em direção à vida, ele, Ícaro, prefere não escutá-lo, e voa em direção ao Sol, e cai com as asas derretidas no mar. Não sejas Ícaro, não morra antes de perceber que há mistérios a seres desvendados, que há pessoas que se importam com seu caminho, com suas realizações, que te amam tanto quando você a si mesmo, pois dariam a alma delas por ti.

Não deixe que sentimentos irrisórios se transformem em vilões internos, assim como um dia vimos em cinemas -- na transformação em Darth Vader, quando o neófio não sabia para qual lado cair, e acabou caindo para o lado negro da força, ou seja, não seja  mais um que, na falta de ideais para prosseguir, prefere conhecer outros valores dentro dos quais nos perdemos ou melhor você se perde...

Na dúvida, olhe para cima, para o alto, o mundo é assim mesmo, apocalíptico, mas nasce todos dos dias.


Avante, Jovem!


quinta-feira, 7 de junho de 2018

"Bata e eu Abrirei"

Ainda que estivéssemos pacíficos em algum lugar isolados, ao ar puro de uma brisa levíssima, em uma ilha paradisíaca, ou mesmo plantados dentro de casa, com medo do mundo lá fora; ainda que estivéssemos debaixo da cama, empoeirados, calados, escondidos da vida... ainda sim, estaríamos a nos movimentar, rodando, à merce dos movimentos da terra.

Não adianta; mesmo "imitando" estátuas gregas, estáticas, em meio ao comércio, com fins lucrativos ou apenas por vaidosismo, sua pessoa estaria presa à inércia, algo que, confesso, levei um tempo para entender. Não a palavra, mas o nosso papel ante ela, que, querendo ou não, não nos seduz. E advinha por quê? Porque mexe com nossas fragilidades internas, nos fazendo ver, com nossos olhos de dentro, o olho mais biônico do ser, que estamos parados, e ao mesmo tempo obrigados a nos movimentar contra a nossa vontade...

Que vontade? uma vontade personalística, egoísta, medrosa, que não pensa em ter sonhos, realizá-los, e que, há muito, foi domesticada, como um pequeno cão, a ter tudo, menos ir atrás do que realmente lhe interessa como vontade. Isto a faria ter dormência nas pernas, levantar-se do sofá, levantar a mão e mudar a água do chuveiro, abrir a torneira, escovar os dentes... como se fosse uma batalha diária...

E como um menino que não cresceu, desenvolve tumores racionais, buscando razões para que fique estacionado na vida, no universo, no cosmos! Pois quer ser um deus, inamovível, observando, como paralíticos dos pés aos últimos fios de cabelo, pessoas, e, o pior de tudo, as criticando por não fazer-lhe nada, trazendo à toa lágrimas naturais de um ser que morreu antes do enterro próprio.

É preciso enxergar além da vida, das pessoas, de si mesmo, do próprio interesse, em querer tudo, mesmo porque tudo tem existência própria, e ainda que não assistimos ao tal encanto, se mexem, trabalham, vivem e se harmonizam com outras partículas, não visíveis. Estas, mais fortes, pois são a força das primeiras, das segundas, e daquelas que ainda estão por surgir. E se observarmos bem, estamos vivos pelas partículas da alma, e esta pelas partículas de outra, a maior delas, a Alma maior que faz o Cosmos respirar, em movimentos aos quais não temos nem sombras de acesso.

A importância reside no fato de que tudo trabalha para algum ideal, desde o átomo mais indivisível, à partícula que ainda será descoberta. Toda ela se enraíza em funções religadas uma nas outras, como grandes teias, em meio a outras teias e assim por diante. Muitos filósofos já declararam ter visto essa teia, como Nietzsche, que, ao buscar a verdade, preso a sua vontade egoísta, teve, diante dos olhos, não físicos, o universo religado em si, até ele próprio estaria nele... (não é preciso, claro, ser um Nietzsche, para isso)...

É preciso elevar a vontade, sair da escuridão, entender que a vida relativa -- essas nossas opiniões, modos, vida, morte, pensamentos, todos -- tem micropartículas que se vão em nome de uma vontade ainda maior, e que nos conduz para cima, a querer ou não, e por isso não adianta esconder-se, se fechar, sem motivos, pois há motivos: o medo de ver que há, nesse mundo, competições e que nelas podemos perder ou ganhar, mas quem observa com a vontade de cima, sabe que a moeda é uma só, que não existe o perder, nem mesmo o ganhar, existe a beleza de viver aprendendo sempre o que Deus nos guarda, todos os dias.





Aos Jovens que ainda não se foram.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Espelhos Quebrados

Diziam os sábios que a vida é eterna, e que nossas almas reencarnam sempre à medida que nossas imperfeições devem ser moldadas dentro do grande mar em que somos partículas que pensam e que modificam seu destino, com o livre arbítrio que temos. Para outros, menos sábios, a vida é eterna, ao lado do Criador, ou do Avathar* que colhe aquele povo que resgata os valores de sua nação de forma espiritual, em tudo que faz.

Não sabemos a verdade, apenas seguimos tradições a partir do que somos, individualmente, e buscamo-la de forma simples, aberta, sem restrições, porém com desamor, sem irresponsabilidade, o que nos faz mais humanos, frente a mistérios os quais nos esperam para ser desvendados à luz do amor ao conhecimento, à sabedoria.

Hoje, sabedoria tem tudo a ver com informação, raciocínios rápidos, inteligentes, direcionados à mente, ao egoísmo, ao vaidosismo -- ilusão. Por isso, quando nos olhamos frente a um espelho, com pretensões físicas, nos sentimos maiores, entretanto, quando enfrentamos um ancião com um mínimo de verdades sagradas, nos sentimos filhos de asnos, os quais nasceram em circos, a levar chibatadas de mestres falsos que nos batem de forma oculta.

Temos que entender que o sábio é um pouco do que somos, nele nos encontramos, e nele nos alojamos, às vezes, como filhos, outras vezes como fiéis discípulos que esperam somente uma só palavra para dizer... "Sim, mestre".  O racionalismo, aqui, se vai como água dentro de um grande copo, a qual transborda, cai ao chão, para dar um ar a mais no recipiente, que, simbolicamente, é a nossa mente, na qual, em eras passadas, graças à evolução moderna frente ao materialismo, se tornou divindade.

Nem todo racionalismo é ruim. mesmo porque somos racionais, que pensam, agem, vivem em função da mente que necessita refugiar-se em abrigos racionais, com invólucros fortes, como madeiras de lei, difíceis de arrebentar. Mas, ao saber que, mesmo e apesar de tudo, precisamos entender o porquê das leis, do porquê das frestas na madeira que nos dão medidas para entrar o simples, o belo, o verdadeiro, e deles, além da matéria, sobreviver.

Assim como o copo que precisa ser esvaziado para a água sair um pouco, nossa mente precisa se organizar dos conflitos, das pequenas batalhas que geram as grandes guerras dentro de nós, formatar -- como se diz hoje em dia -- nossa alma, voltar a sentir o sol, a poesia, procurar a Beleza, por meio da arte realmente bela, não complexa; saber viver, não sobreviver em meio à crise, mesmo porque somente ela nos diz o que somos e para onde vamos.

Saber esvaziar de sentimentos de morte, e procurar ideais de superação em detalhes que estão ao nosso lado, como pequenas vozes que nos ditam, pedem e clamam nossa presença. Não demos ouvido a descrença, ao racionalismo doentio que se afoga sem respostas por não deixar entrar a Vida.




Aos Jovens 






segunda-feira, 4 de junho de 2018

A Maior Batalha de Todas (Fim)

... O mundo é repleto de símbolos e desde a antiguidade o homem os respeita, porque sabe que um dia, no passado (e até mesmo no presente), foram responsáveis para a compreensão de diversos mistérios nos quais ele se identifica. A exemplo, o Elefante, na antiga e atual Índia; o pássaro nas culturas egípcias, gregas e romanas e hoje, no norte da América. O dragão, no oriente; o javali, em outras, enfim, todos os eles, e mais uma enormidade de seres que, na essência, podem representar as fraquezas, a beleza e porque não dizer a fortaleza do Homem.


E com o sentido de compreender tais seres, nas escolas iniciáticas, com vistas ao crescimento espiritual, havia sempre na porta, ou mesmo dentro das salas restritas, várias figuras, ornamentos, pinturas, estátuas, sempre a significar o mais profundo do indivíduo. A principio, chega-se a dar medo, mas depois, repassado todos os ensinamentos a ele, ao neófito, familiariza-se, encontra-se e a partir daí começa a entender que a natureza por inteiro tem um significado ao homem, que, como ser único, tem a responsabilidade de respeitar e fazer respeitar o todo a partir daquela ponte.

Muitas culturas o respeitam, como das tribos indígenas, principalmente às da América do Norte, os chamados peles vermelhas, que possuem sua forma de preservação natural baseada em princípios tradicionais, por meio de seu chefe -- ou como diria por aqui, o pajé -- mas mui raro isso nos acontece na América do Sul, onde se há uma mescla de cultura indígena com a dos chamados "homens brancos", desmistificando o que poderia durar séculos. Mesmo assim, algumas das tribos que se "escondem" daqueles homens, em florestas do tipo Amazônica, sabem que a necessidade de preservação de seus rituais significa a preservação da própria espécie.

O que posso tirar disso é que vai se chegar um tempo em que teremos apenas livros a contar histórias a respeito de índios reais, não imaginários como os de hoje, que sucumbem ao modo de viver nas cidades, graças à modernidade que o catequiza como ondas que molham, bem devagar, as areias de longe. Vai chegar um dia que não saberemos identificar o que são ou quem são os índios que nos ensinaram a preservar a natureza.

Mas, voltando, o ensinamento, ou o real ensinamento, nos faz ver com outros olhos o que a vida nos reserva como seres humanos para um devido crescimento interno, com vistas a ver caminho que um dia o universo nos deu. Ver o que há por trás do dragão, o qual segundo a filosofia oriental nos diz, que é a soma dos quatro elementos e que o guerreiro que luta com ele não o vence, mas o domina, ou seja, inicia um processo de conhecimento de si mesmo, pois domina a água, representada nas barbatanas; o ar, a ser representado pelas asas; a terra, pelas unhas, e o fogo, pelo elemento que lhe sai das narinas.

Mas o dragão é apenas um dos grandes símbolos a representar o universo no qual os mistérios nos edificam a partir do instante em que damos nossa alma para desvendá-los. É uma das formas mais claras de que precisamos para nos conhecer e conhecer o universo, assim como diria o mestre grego Platão, que, dentro do seu racionalismo fértil, nos deixou inúmeras formas de compreender por meio da busca, e uma delas é o primeiro passo em direção a si mesmo, regando todos os dias um pouco da planta que se enconde dentro de cada um, com a água dos pequenos atos que religam o homem a Deus.



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*Esses três textos foram em homenagem a meu filho, Pedro Achilles, que passou por três tratamentos, antes de passar pelo maior deles, a rádio cirurgia, e ficar livre de vez dos resquícios do AVC, e voltar a ter a paz que tanto busca, e ser criança novamente.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A Maior Batalha de Todas (ii)

... Dizem que os Vikings, guerreiros nórdicos, antes de serem o que eram, fanáticos por batalhas, compreendiam, à luz de sua educação, desde a tenra idade, a luta entre os deuses, a grande batalha entre eles, representada no Ragnarök, onde Thor, Odin, Freya, além de Lock, irmão adotivo do deus vingador, lutam contra o mal que se alastra no Olimpo Nórdico. Lá Hel, a rainha do Mal*, assim como Seth, no Egito, o Anjo caído, no Cristianismo, é encarregada de comandar uma luta que, na visão dos guerreiros, existe com um só fundamento: que os deuses, em algum mundo, sutil que seja nosso entendimento, precisam renascer.

E com o mesmo entendimento, ensinavam seus filhos, lhe davam todas as histórias de forma minuciosa, clara, de modo a mergulhar nelas e quem sabe entender o que eram os deuses. Com o tempo, a admiração e o respeito iam se tornando tão concretos quanto seus machados que cortavam cabeças em batalha -- pois tinham receio que o inimigo voltasse depois do pós-mortem. Mas para eles, já que tudo era uma questão sagrada, baseadas na educação de guerras, sobre as quais ninguém mais além deles tinham poder, a melhor forma então de se igualar aos deuses era combater.

Um combate contra não somente ao inimigo, mas contra tudo que acreditavam ser contra seu modo de viver, em família, em sociedade, em festas, nas quais saboreavam do bom e  do melhor, sempre após uma pequena  (ou grande) batalha, e se possível um ritual em homenagem aos deuses Thor e Odin, pai dos deuses.

Na pré-adolescência eram levados à guerra, antes mesmo de entender porque iam. Lá, no entanto, protegidos pelo pai, guerreiro-mor, assistiam a quedas e mortes dos guerreiros, às vezes a do seu genitor. Mas no fundo, assim como crianças atuais, compreendiam que por trás de tudo havia uma pequena fagulha de necessidade de fazer parte de tudo aquilo... -- não eram como, hoje, filhos de funcionários públicos visitando o trabalho do pai, não. -- mas um ritual educacional, de crescimento, de que um dia iriam fazer parte de tudo aquilo, assim como um pássaro é para a árvore, e assim como o fruto é para a boca.

Ao chegar seus vinte e pouco anos, diferente dos demais filhos de hoje, que amam videogame, e se assentam em suas poltronas, clamando a janta ou almoço, os vikings tinham a particularidade de fazer seus filhos, nessa idade, irem embora -- não para sempre --, e voltarem somente quando fosse um guerreiro que acabou de chegar. A maioria, depois de cinco ou seis anos de iniciação, após lutar contra ursos, matá-los, fazer sua própria refeição, mergulhar em rios congelados, voltar e matar o jovem medroso em si, voltaria a sua família para viver em nome dos deuses e quem sabe subir para Valhalla, o céu, o Olimpo, o paraíso dos guerreiros. 


A Maior Batalha de Todas

Todos sabemos o que são os rituais de iniciação. São formas relativas de entrega física, emocional, psicológica, na maioria das vezes para se entregar ao espiritual ou simplesmente para compreendê-lo. Muitos o fazem com o sentido de tangenciar seus referenciais e adotá-los na prática, como no passado, nas grandes potencias sagradas, que sabiam lidar com os ritos. 

Na Inglaterra Medieval, a exemplo, muitos se autoflagelavam, de preferência em silêncio, no porão, ou em seus quartos particulares, na tentativa de pedir perdão a Deus pelos erros irreversíveis que cometiam, e que, para serem perdoados, teriam que se castigar, na maioria das vezes fisicamente -- como chicotadas em si mesmo, nas costas!  -- Esse autoflagelo, para muitos, é uma forma de iniciação porque representava a necessidade de o homem voltar-se a Deus ainda que de forma contundente, o que fazia dele um pouco melhor antes de cometer outro "pecado". 

Nas Escolas iniciáticas, na Grécia clássica, antes de qualquer aula com o mestre Pitágoras, muitos dos seus discípulos tinham que se preparar não para a dor, mas para se reter em seus vícios, como, por exemplo, falar em demasia, o que para o mestre era um problema humano, para outros ainda hoje é algo natural e bom, mesmo porque somos os únicos a portar essa característica -- falar demais. O discípulo que assumisse o compromisso ante a seus mestres naquela Escola teria que entender que não era um processo democrático onde poderia se expressar e debater opiniões, e sobre as quais fazer alusões interessantes ou não... Era uma Escola na qual aprenderia acerca do espírito, e por isso, segundo regras, teria que ficar calado - ou falar apenas quando lhe era permitido -- por cinco anos!

No exército dos exércitos, quando espartanos iam para batalha -- fosse na Guerra do Peloponeso, fosse contra os persas, atual povo iraniano, todos os inimigos, antes de entrar em batalha contra eles, tinham seu momento de emoção, pois, ante aqueles que brilhavam em batalha, não era apenas homens que portavam escudos prateados, ou lanças, ou martelos, machados, enfim, não eram simples guerreiros que ganhavam lutas em campo, eram espartanos, dos quais saiam somente homens com finalidade de luta, de entrega, de dedicação, não a batalha, mas aos deuses da guerra, aos quais obedeciam, e por eles viviam.

Na infância, espartanos de sangue eram cuidados pela mãe ou pela ama, mas sempre com vistas a melhorar seu caráter frente a um mundo frio e ao mesmo tempo sagrado, contra o qual teria que guerrear eternamente, ainda que não houvesse inimigos visíveis. Na Adolescência, após o corpo está bem desenvolvido para determinadas provas, o pai, guerreiro maior, lhe apontava a objetivo: às vezes, um leão, outras vezes, um touro, e assim por diante. 

O rapaz, depois de entender que era preciso viver em meio a linhas imaginárias das leis,  e que agora soubera encarar as provas, parte para a maior delas, respeitar os símbolos, e por meio deles entender que há uma outra luta, a de se manter com o sagrado. Não entendendo essa última não poderia respeitar as lei ou a grande Lei. Porém, como na maioria das vezes compreendia, substituiria o grande pai nas batalhas, e se tornaria, assim como muitos em Esparta, um grande guerreiro.

No Antigo Egito, antes de um grande faraó ser o maior representante do povo -- ou o homem-deus -- teria que entender, desde a infância, rituais internos dos quais aprenderia a viver, praticar e levar para seus protegidos o sagrado. Na adolescência, a depender da leitura que fazemos a respeito do simbolismo, teria que se abster do vaidosismo, da desarmonia, do egoísmo, enfrentando, "face a face", um animal de grande porte. 

Era um ritual necessário, pois um governante não poderia assumir com tais desejos, pois se absteria de lidar com o real, que seria, no caso egípcio, com os deuses. O compromisso com estes se revelaria em seus atos, na busca por um Estado melhor, sempre com vista ao Espírito, por isso, a consulta ao universo interno, dentro dos templos, dentro de si.




Volto Logo.



A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....