segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Reviver

Toda manhã, antes do nascer do sol, me empenho em respirar fundo e me elevar ao máximo, para quando o sol vier, sentir seus raios mais fortes do que de costume. É uma sensação divina, pois parece-me que tenho só a alma, sem todas aquelas parafernálias de costume – zangas, choros, loucuras.... – enfim, a contaminação da terra ao homem.

Quando o astro vem, sinto-me triste, porque sei que não fora o bastante minha dedicação inicial a ele, além da dedicação final que nem sempre com ele coincide. Não há importância, fazê-lo de referencial a minhas possibilidades já é o suficiente para me tornar um pouquinho melhor como ser humano, que também, em sua essência, pode nascer, crescer e desaparecer ao longo do grande ciclo a que tanto se obedece.

Assim, prossigo. No trabalho, dedico toda minha alma aos deuses que acima de mim estão, brilhando tanto quanto o disco solar que assola-nos com seu calor de costume; sorrio às pessoas, tento entrar no mundo delas, extirpar o que há de bom em cada uma, e nelas entender seus conceitos de amor e verdade. O mundo delas está em divergência com o alinhamento dos astros, do universo, de Deus...

O meu também. Contudo, em minha empreitada para saber a verdade, desloco-me até o submundo de cada ser, mergulho em suas raízes e sentimentos, compartilho sua dor, revelo-me vulgar e volto à superfície – não se pode mergulhar tanto. A vulgaridade pode fazer parte do ser humano às vezes por escolha, às vezes pelo desequilíbrio entre o que é certo e errado, escolhendo o errado.

Minhas escolhas estão feitas. O sol é a minha escolha. No declinar da cabeça, não vejo o chão, mas meu coração em chamas, a pedir mais amor ao homens, compreensão entre eles, paz a cada ser que nasce e a cada ser que morre – sem deixar de trabalhar um só instante, internamente.

E nesse labor, meu sol se esconde como o sol da tarde. Configurando o céu em um cenário divino, meu ser descansa, deixando minha alma mais leve, suave e fraterna. O laranjado das nuvens prova que o deus esférico está se indo, mas também está se pondo em corações como o meu, que não dorme, batendo todos os dias em busca de desvendar o mistério da vida.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Educação Religiosa


Muitos dos colégios atuais, segundo pesquisa, são a favor da educação religiosa em salas de aula. É certo que tal educação, com relação a outras “educações”, é necessária, para fins informativos, não formais. Digo isso justamente porque há paises nos quais há essa preocupação – de impor a religiosidade em sala de aula --, no entanto, mesmo com a boa intenção, não conseguem frear o desmantelo de uma sociedade.

Não sei se é com esse motivo – ideal talvez — mas exemplos nos diz que a direção parece oposta ao da ideia original. A cada dia, a violência em sala de aula aumenta, mesmo em países cujas estruturas são de primeiro mundo. É de se imaginar que, aqui, no Brasil, não seria diferente, mesmo porque não somos levados a acreditar na educação como meio de evolução de uma sociedade – caso contrário não haveria problemas de professores, alunos largados, salas quebradas... Enfim, como é que podemos pensar em refletir sobre ensino religioso se não acreditamos nem mesmo na educação?

A educação, como modelo básico da credibilidade, como meio de sustentabilidade de um país, deve ser, acima de tudo, de tudo mesmo, o pensamento do governante. Nela, sabemos que se encaixa a filosofia, a família, a religião, a ética comportamental, o respeito ao trabalho, à condição humana... E assim por diante. Ou seja, respeitar o próprio desígnio da educação é a meta de cada um. Cabe ao governante levar a prática nas estruturas escolares, na experiência de cada professor, na formalidade tradicional, que sempre considerou a educação como meio natural de harmonização do homem com o próximo (e meio ambiente).

A religiosidade, hoje tratada à parte pelos especialistas, governantes, virou educação também, porém não da maneira tradicional; o que nos faz repensar o que seria religião, educação, e outros conceitos que foram transformados em cinzas pelo modernismo, ou marginalizados, quer dizer, quando necessitamos, o pegamos e levamos para dentro de nossas casas, tal qual crianças abandonadas, contudo sem conhecer suas raízes.

A Educação, como ponte entre o comportamento humano e suas consecuções objetivas, virou educação religiosa. Não há outra forma de reconhecer, senão dessa forma. Realmente um abstracionismo fora do comum...Isto é, duas forças, assim como duas potências num mesmo espaço, o que nos dá margem para conceituá-las de qualquer maneira sem que saibamos quem realmente são.

Educação religiosa deveria ser, já que se criou esse seguimento, uma única forma de se educar, em todas as classes. Levando ao aluno a tradição de várias nações que um dia adquiriram conhecimento e transformaram milhões de pessoas durante séculos. Ainda, levar a ele a natureza da causa e consequência naturais, com as quais lida desde criança, mas, com a advento das novas educações, fora apagado, extinto, e dessa forma retirado do seu âmbito humano... Todas religiões nos trazem essa filosofia, e por isso é natural a todos os seres humanos entenderem isso, não apenas os jovens. Estaríamos assim a falar de uma re-educação voltada a todos, até aqueles que se acham conhecedores dela (de toda educação).

Levar aos alunos a reflexão acerca de si mesmo e de seus atos, por meio dessa grande lei (causa/efeito) seria tão necessário quanto sua passagem pelo mundo. Além dessa filosofia, fazer com que sua política comportamental mudasse dentro dos parâmetros Éticos e Morais – também incessantemente ventilados pela tradição grega, a qual nos deixou, visivelmente, legados culturais, políticos, religiosos, familiares, sociais, etc – mas que sempre fazemos vista grossa, por sermos tão falhos na interpretação do que é realmente valoroso a todos.

Falar sobre Deus incessantemente, também, e direcioná-los ao respeito que cada cultura tinha uma com a outra nesse quesito, nunca dizer que “sobre Deus não se discute”, pois estaríamos fugindo de uma outra natureza, a nossa, a que se esconde em tudo, em nós mesmos. Dizer que Deus é uno, e se esconde em todas as estruturas inatas (e natas), nas quais até o próprio homem se insere. Dizer que Deus não é (jamais), e sim que é; não deixá-lo conceituar as divindades, pois estaríamos vulgarizando a própria existência humana, universal, mítica, e a todos aqueles que um dia nos passou com sua real religiosidade tais informações.

O comportamento humano depende essencialmente da religiosidade. Objetivos materiais, psicológicos, financeiros e principalmente espirituais não seriam reais objetivos. É como se houvesse letras em uma partitura sem notas musicais. A música é a religião da letra; flores sem o perfume, noite sem a poesia; o dia sem o sol, e daí pra frente... O homem, em todas as suas atividades, precisa de algo que o religue, o eduque, o direcione em seu caminho (fora os descaminhos), levando em conta sempre suas experiências individuais a fim de um crescimento vertical, acima de tudo. Cada um dentro de suas limitações, claro.

A educação religiosa, ao englobar toda educação, teria a responsabilidade natural, não forçosa, em fazer com que todos os jovens observassem a realidade atual e, com o tempo, modificá-la, crescendo e desenvolvendo, vivendo sob a sobra da maior de todas as responsabilidades, a de que ele é hoje o que plantou ontem.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Abrigo Eterno

Um dia uma filósofa disse: temos que encontrar naquele cantinho da alma um lugarzinho feliz, onde sempre possamos nos refugiar e nos sentir bem. Acho primordial essa máxima, pois o que realmente precisamos é de um lugar interno, no qual, ao fechar os olhos, nos encontramos com nossa parte divina, aquela parte que nos revela a humanidade, como em uma oração.

Mas a filósofa, mais profundamente falando, nos convida a entender o mundo em que vivemos, de maneira a observá-lo e tentar localizar, por assim dizer, algo melhor do que aquele ao qual ela se referiu no inicio.

Hoje, cheios de lugares maravilhosos, o mundo nos leva a contemplar abrigos naturais, mas também abrigos feitos com a estética baseada no grande desejo do homem de descansar e viver bem, de acordo com parâmetros atuais – tecnológicos, psíquicos, amorosos... – enfim, de acordo com sua personalidade, a qual demonstra nuances.

No tecnológico, pode-se demonstrar um abrigo (uma casa, mansão...) voltado ao homem cansado: no bater às mãos, uma na outra, a luz se acende; um pequeno botão, ao lado da primeira parede, poderia acender ou apagar, mas este, ao girá-lo em sentido horário e anti-horário, nos faz ver uma luz amena ou mais forte, dependendo do movimento que se faz. Um controle remoto, em cima de uma pequena mesa inútil, vigiando uma televisão de setenta e duas polegadas, não serve apenas para ligar o aparelho, e sim ligar um aparelho de som, com seis caixas de dois metros embutidas nas paredes da casa, no qual se liga, também, o fogão à gás, lá na cozinha de cinquenta metros quadrados, onde quadros modernos, iguais aos da sala, predominam apenas para colorir o ambiente... E outras facilidades mais traduzem o conforto buscado pelo homem atual. Contudo só se esqueceu de que a luz também é artificial, e pode faltar em algumas horas, assim como a sua paciência para esperá-la. Mas não tenhamos pressa, há técnicos para tudo no mundo...!

No psicológico, o homem tem várias salas cheias esculturas sentido, como essas modernas que parecem mais uma rosa, parecem mais um jardim, parecem mais... Uma planta. Parecem, mas não são. Ainda nesse terreno, a sala do abrigo possui livros de psicólogos freudianos, além do mestre na arte da psicologia, Freud. A dono do abrigo fala muito, tem muitas respostas para tudo, mas tem muitos problemas de ordem psicológica, no trabalho, na família...

No amoroso, como todos aqueles que são apaixonados, seu abrigo mostra-se perfeito para morar, para viver, mas, como toda personalidade apaixonada, vai ao encontro da moda, do amor passageiro, da paixão. Na sala, há quadros de família, de filhos, cadeiras confortáveis, outras não; a vida do dono deste abrigo é tão volúvel quanto o vento que muda toda hora de direção.

Claro que há abrigos nos quais podemos sintetizar sempre a personalidade humana, a máscara grega, em que mudança é a palavra de ordem. Simplesmente para que se possa sentir-se bem, sempre em consonância conosco mesmo, seja baseada na moda, seja em nossos vícios, virtudes... Mas sempre levada a mostrar o que temos dentro: a vontade de estar bem com nossa alma.

E foi a partir daí que veio a necessidade de a autora (filósofa) levar-nos a refletir acerca do que temos em nós, sob esse manto chamado corpo, sob essa personalidade que nunca para de refletir sobre o que se guarda dentro dela mesma. É para isso que serve o racional: pensar, refletir, meditar acerca do que é elevado em nossas vidas. É com ele que se pode constatar que queremos algo melhor em todos os sentidos, mas algo que dure, que seja eterno.

Quando a autora nos fala de alma, fala-nos daquela parte que nela se guarda o melhor de nós, a parte que “pensa” no espírito – ou seja, em nós. Na alma há lugares em que a personalidade se fixa, e não consegue sair. São coisas da moda, da vida externa, dessas coisas que estamos cansados de falar, viver, sofrer, calar, apaixonar... De coisas que nos destroem, mas que são válidas, no entanto não é desses lugares que conseguimos filtrar o que é realmente necessário para entender o abrigo, o real abrigo, aquele para o qual devemos ir sempre que sentimos necessitados quando estamos desesperados e inclinados ao mal. A autora está falando de um lugar (apenas) onde se pode dormir e acordar em paz; onde flores podem ser vistas com olhos cerrados; onde o amor é real, a paz é real!

Todavia há caminhos que nos podem retirar desse grande abrigo que se resguarda em nossa alma. É o caminho da dúvida. Acreditar que esse abrigo existe é o primeiro caminho. Depois, buscá-lo na medida de suas necessidades internas e externas, pois sabemos que todos a temos... É só meditar envolto a músicas clássicas, a quadros e estátuas míticos; onde se possa sentir o silêncio.

Os abrigos naturais são necessários ao homem, no entanto também são passageiros, pois podem se perder em nossa consciência fria e problemática, por isso, desde já busquemos o que temos em nós, como forma de viver uma vida melhor, mesmo que seja tão difícil visualizar o abrigo dos sonhos. Mas como dizia outro grande filósofo “Se está em nosso caminho, está mais perto a cada passo”.


Filos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Oração de Cada Um


Há muito nos foi ensinado a orar. Um ato pelo qual nos comunicamos com Deus. Uma ação humana em que todos, sem exceção, sem debruçam, seja a uma parede, seja a um santo de barro, seja a uma natureza aberta ou fechada, para demonstrar sua devoção, amor e acima de tudo respeito às entidades (ou Entidade Maior).

No Antigo Egito, os iniciados nos mistérios ajoelhavam-se ao que representava o símbolo, não ao símbolo, pois sabiam que a matéria era uma forma de ponte pela qual a energia universal (cosmológica) se ligava ao homem – e mais – o próprio homem seria santuário de entidades que se manifestavam diariamente nele mesmo, por isso, cultivava, em si, o respeito a seu corpo, morada da divindade, do mistério.

Em culturas ameríndias, a Lua, entidade que representava o Logos feminino, traduzia a força sensível no seu humano, uma potencialidade, assim com o sol, representante do Logos masculino, várias forças energéticas no homem, também.

Nas escolas pitagóricas, havia os acusmáticos, discípulos que estavam ali apenas para ouvir, não para falar. Segundo conta-nos a história, o mestre os deixava até cinco anos sem pronunciar uma palavra, mas não era bem assim. O discípulo falava apenas o necessário, ou seja, quase nada. É o que nos acontece se falarmos apenas o que é razoável. Enfim, sabia o mestre que o ser humano tinha muito mais que ouvir os sons da natureza, a voz dos mestres, a voz interna de cada um, em vez de falar e falar impensadamente.

Na Índia, em respeito a várias religiões do país, todos oram em lugares diferentes, no entanto da mesma forma: olhando a si mesmo como peça fundamental do todo. A Índia, como país que foi, possui ainda alguns resquícios tradicionais, e um deles é a iniciação – ainda que não da mesma forma do passado. O indivíduo, depois de ter passado sua vida voltada ao sagrado, entrega-se à morte simbólica, jogando-se no rio Ganges, onde se manifestam várias formas de ritos da região. Ali, mergulhando como um ganso em busca de um alimento, o discípulo, orquestrado por seu mestre, sai da água e volta, molhado, à uma nova vida. A ressurreição.

Em meio a juramentos de desapegos à matéria, ele se vai, sem olhar para trás, em busca de seu próprio caminho simbólico, para o qual todos, segundo eles, somos designados. A oração se faz, o adeus aos parentes e amigos, e até mesmo ao próprio mestre, mostram o abandono ao mundo velho, a renovação espiritual, a proclamação de um mundo novo ao qual trilhará daqui para frente.

Hoje, não sintetizamos tais comportamentos como normais, pois somos de culturas informais, complexas, a cair em detrimento da nossa falta de informação acerca de outras culturas, e achamos que estamos corretos dentro de uma ilusão sem base, no entanto também tradicional.

Uma prova disso é que, quando Jesus, ao se tornar Cristo – iluminado – nos deu uma oração para ser feita todos os dias, em homenagem ao nosso Deus interior. “Pai nosso, que estás no Céu, santificado seja o Vosso Nome, assim na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai a nossas ofensas, assim como tens perdoado aquele que nos tem ofendido. Não nos deixai cair em tentação. Livrai-nos do Mal.”.


Repleto de simbolismos o falar do mestre, depois de iniciado, passou aos seus discípulos orações voltadas ao Todo, a Deus, ao Pai. Assim, como todo ser que passou pelos mistérios, sua linguagem notória do grande Espírito que sobrevoa o mundo, como uma potencialidade a qual o homem comum não internalizou, é de difícil compreensão. Por isso, se tentássemos traduzir uma oração de Cristo, temos que resgatar chaves próprias para a interpretação não só das orações, mas também de muitas passagens nas quais ele se refere ao Pai.

Contudo podemos adiantar que, na Antiguidade, Céu seria o ponto culminante, que faria parte da Tríade humana – dentro da grande Tríade universal --, e Terra, a parte física, pétrea, material, até mesmo vegetal do Todo. Pão, na linguagem cristã, significava o corpo de Cristo; o vinho seria o espírito; enfim, a oração cristã tem uma série de simbolismos, que, unidos, estariam relacionados ao Deus interno de cada um.

O Nome, em maiúsculo, segundo nos diz a tradição, é algo que temos antes mesmo de nascer, é o real Nome – não o que obtemos em nosso nascimento dado pelos pais. Há uma passagem bíblica em que Cristo dá o nome a Saulo, que mais tarde tornar-se-á Paulo, por designação do próprio mestre que o fez seu principal discípulo. O nome ‘Paulo’ é o real nome do humano que nascera. E todos temos nosso real nome. Basta encontrar um real mestre para nos dizer.

A oração, voltando, independe de culturas, de homens, ricos e pobres, ela é mais que palavras que se vão na noite ao encontro das estrelas. “São comunicados que se entrelaçam com a de outros seres humanos, em uma grande comunicação”. Ela independe de templos, a não ser que a façamos em nosso templo em particular; ela revela a humanidade de cada um, na busca pelo espírito maior, na consecução de uma família, sociedade e um mundo melhor.


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Ser ou Não Ser


Nascemos e crescemos e adotamos na personalidade, essa máscara grega, uma série de fatos, acontecimentos, até mesmos nuances dramáticas, como tristezas, alegrias, amor, doenças... As quais sintetizam um universo pelo qual passamos todos os dias.

O teatro vai além. Ele supera até mesmo a maneira de entender o universo, de cada um, em seu nível. Mas o real teatro, aquele pelo qual todo universo dança, sacode, vai e volta, como uma sinfonia de Vivaldi, somente o grande Sábio compreende.

Um deles um dia disse: “A Vida é um grande teatro, no qual pensamos que cada cena é real, porém, quando menos esperamos, estamos em outra peça”. De longe percebemos que em alguma coisa nos encaixamos. E essa coisa é a nossa vida em particular, essa pela qual (e nela) lutamos com nossas garras, armas, travas, arcos e flechas, e às vezes com a nossa própria vida.

É o teatro se formando. Quando entendemos que em cada esquina há um sentido, seja ele obliquo ou paralelo, triangular, esférico, cheio de prismas, aí sabemos que estamos dentro de um contexto não casual, porque sentimos dores, alegrias, remorso, paz, guerra... Ou seja, aquela esquina, aquela pequena esquina, a que tanto aguardamos uma pequena virada, nos esconde mistérios da nossa personalidade – essa máscara que carregamos e com ela nos identificamos e a amamos até o fim de nossos dias...

Comecemos desde o início: os gregos sempre diziam que o teatro era composto de seres eternos: nós. As máscaras seriam todas formas volúveis humanas – esse relativismo que impera em nossa alma. Nós, no teatro, seríamos o ator, e ess ator, tal qual hoje, encarnaria vários papeis ao mesmo tempo em muitas cenas. Isso pode ser visto atualmente no teatro moderno, resquício do passado grego; pode ser visto em novelas, o folhetim diário das noites, e também nos filmes, uma forma extensiva de folhetim, que, de certa forma, não diferencia do teatro grandemente.

Enfim, cada ator, seja de novela, filme ou mesmo do próprio teatro, depois que retira sua fantasia, vai para o seu camarim, respira fundo, veste-se com seu traje normal, toma um banho, vai para casa ou não, e volta a ser uma pessoa normal, com todas as características de antes, talvez até gêmeas do seu personagem profissional – no teatro, novela ou filme.

Os gregos sabiam que esse ser que se veste de um personagem pode ser, dentro de um contexto filosófico, um modelo inspirando no grande universo que nos coloca máscaras quando concebemos a vida. Essa máscara seria todas as situações nas quais passamos; seria, dentro de algo mais sutil, o que sentimos – como fora dito mais acima. O grande ator, que recebe pele, ossos, caras, pernas e braços, seria o verdadeiro ator – seria nós. Tal ator passaria, segundo a tradição, por muitas vidas, a fim de se aperfeiçoar internamente, evoluindo em cada cena – tornando-se, um dia, Ator e Expectador do grande teatro universal.

Mas dentro do que somos, podemos ter essa realidade embutida em nossas vidas – de que somos partícipes de um pequeno teatro, e que, dentro dele, podemos ser um pouquinho melhores a cada dia. Baseando-nos nos grande atores de tvs, filmes, teatros, podemos, em cada cena, improvisar, baseados no livre arbítrio, ter idéias relacionadas a melhoria das peças, fazer todos entender que é só um meio pelo qual temos que passar, sentindo o que devemos sentir, e além de mostrar a todos o ideal, mas que, no fundo, são apenas frivolidades tão naturais quanto o sorrir de uma criança que ainda não tem consciência de nada. Podemos ainda fazer com, em cada peça, haja subpeças, e assim por diante, mas sempre com uma visão voltada ao grande ator, esse que somos, não importa o que fazemos, contudo o perdemos de vista.

Mas e a morte? A morte seria a ida do ator para uma nova peça, para um novo teatro, em um outro contexto. E assim sucessivamente...



quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A Difícil Arte de Conhecer a Si Mesmo, III

Muitos questionam o fato de sermos tão violentos, desumanos, psicologicamente desequilibrados; mas, por outro lado, há os grandes seres que nos ajudam a refletir acerca de nossa breve estada no mundo, na vida – mesmo sendo uma medíocre vida às vezes. A razão pela qual eu em mais um texto exponho esse assunto é justamente a falta de pessoas como essas, que nos fazem felizes, já com sua presença, com o seu ar de simplicidade, às vezes, luminoso, nas horas em que mais precisamos de exemplos, e na falta dessas horas também.

Não há exemplos ao nosso redor, e quando há tentamos refletir sobre o que somos, ou o que podemos ser semelhantes àquela pessoa que não fizera nem um esforço para sê-lo: simplesmente é, e pronto. Alguns, claro, pela educação que receberam, até então; outros, graças a intempéries da vida, tornaram-se melhor gradativamente, aprendendo... Aprendendo... Não importa a que partido, religião pertença. Por traz de cada casaco, blusa, paletó, cheio das insígnias, cartazes ambulantes, há um ser humano cheio de boa vontade, a fim de levar seu projeto de alcançar a Deus, seja no céu ou mesmo na terra.

Mas será que é sempre necessário que sejamos religiosos no sentido estrito da palavra para sermos um pouco melhor? Muitas igrejas – Católicas, Evangelistas, Pentecostais... – diriam que sim. Contudo, se nos remetemos à Tradição, teremos a visão clara de que hoje somos levados a sofismas brandos, os quais nos prendem a ideias de acordo com o nosso estado psicológico. Ou seja, muitos se iludem com chamamentos de pastores, bispos, padres, quando estamos imbuídos de problemas sem fim. Somos, na realidade, ratos que todos os dias prendem cabeças em ratoeiras armadas.

O Egito de cinco mil anos, à época dos clãs hebraicos, que se instalaram na “Terra Vermelha”, albergava muitas tribos, o que dava o título à nação de politeísta, pois aceitava em suas terras diversas religiões, e seus respectivos deuses. Quer dizer, além dos próprios deuses egípcios, os faraós permitiam que houvesse louvores em diversas línguas que vinham de longe, a fim de se instalarem e aprenderem com o dono do império. O Egito já tinha a sua definição de Deus, e ela não restringia nenhum conceito; é provável que já sabiam que o conceito de Deus não era o que temos hoje, ou seja, somente o lado que nos interessa. Assim, cai por terra as expulsões das grandes nações que se fizeram em cima dos faraós...

Em Roma, até certo tempo, há dois mil anos, todas as religiões também eram aceitas. Porém, os cristãos, como se fossem donos da verdade, tentaram, sem sucesso, impor sua religião aos grandes imperadores, que já possuíam um conhecimento tradicional acerca do que era religião. Ou seja, não poderiam deixar – de uma ora para outra – seus deuses, divindades, que sempre foram norte a todos, à época. Mesmo assim, foram vencidos, porque a insistência do cristianismo em uma terra em decadência tornou mais fácil a vitória. Mas sabemos que houve uma Roma que abrangia a todos de maneira indiscriminada e harmônica.

Assim também na Grécia, na Índia antiga e em outras nações que, querendo ou não, foram exemplos de que não é preciso que sejamos partidários religiosos ou políticos para a consecução de nossos projetos. É preciso apenas que sejamos idealistas, buscadores da verdade, assim como sempre o fomos. Todavia, não fazer dessa busca um partidarismo, ou melhor, uma forma de ser alguém que saiba mais que outros, pois seria contra tudo aquilo por que lutamos no passado – a verdade.

Ser religioso, na Antiguidade, era ser humano, ou seja, era buscar seus valores baseados em premissas éticas e morais, no sentido mais clássico da palavra. Era aprender, internamente, a lidar com a vida e lá na frente colocar em prática seu intuicionismo, levando o conhecimento aos seus discípulos.

Ser religioso, talvez, seja mais que isso. É transcender a condição de homem, é iniciar-se nos mistérios divinos. O que para nós só é uma realidade a partir do momento que tentamos ser gentis, educados, organizados, amados, a partir de valores universais, não familiares, sociais, etc, pois estes têm sua relatividade, o que é muito perigoso.

Quer dizer, se você coloca um papel no lixo só porque o chão deve ficar limpo, tudo bem, mas ainda pode ser que amanhã você mude de ideia. Ou mesmo quando você o faz por ser educado e que alguém te ensinou que as coisas devem estar sempre limpas, isso nos dá uma dependência psicológica, pois é possível que nos decepcionemos com o mesmo ser humano que nos ensinou tal coisa. Então, é preciso que tenhamos uma visão um pouco maior: que o meio ambiente deve ser cuidado, e que, se não cuidarmos dele, teremos um futuro incerto (e qual futuro é certo?). Isso nos dá margem para pensar que não temos que nos preocupar como seres humanos prioritariamente, e sim com as plantas, animais, lixo...

Enfim, um ser religioso, na antiguidade, poderia dizer que estamos mais atrasados em pensamentos universais do que Idade Média. Pois saberia que, se partimos de premissas interesseiras, cairemos em areias movediças antes de ela se formar. Saberia, também, que temos que nos referenciar sempre em um sol acima de nossas cabeças e possibilidades, tal qual o próprio sol acima das montanhas, as quais estão sujeitas a tempestades, tufões, mas sempre esperam o sol acima delas. O crente diria Deus, o filósofo diria Ser, este que vive em nós, apesar dos pesares; apesar de uma personalidade bruta, volúvel, cheia de medo... O filósofo, aquele que ama a Deus, diria que o próprio sol se esconde em nós, e espera que nos religamos com ele.

O filósofo diria que somos o próprio Sol, ser maior que seria a totalidade humana, no sentido mais belo da palavra. Seria o sol o próprio ser humano que sabe de sua existência e dos outros, e de tudo. Por isso, a preservação, a organização, o respeito à Lei.

Por enquanto, não temos essa possibilidade, contudo temos luas e sóis em nós a espera de conquistas internas. Tudo é possível, principalmente quando damos o primeiro passo – dar bom dia, abraçar a todos, sorrir aos mais tristes, pedir desculpas, redimir-se depois, dar presentes simples com coração, almejar a paz, almejar batalhas nas quais sou vencedor independente do resultado, amar, amar muito a si mesmo, e aprender sempre, mesmo que seja com uma criança, e muito passos desinteresseiros em busca de si mesmo, de Deus, conhecendo-se.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A Arte de Conhecer a Si mesmo, II

As organizações internas, baseadas na grande lei, são, de pronto, utópicas, mesmo porque somos, além de ocidentais, somos filhos de uma humanidade em que a expressão ‘conhecer a sim mesmo’ é simplesmente metafísica a quaisquer olhos.

Não adianta repetirmos como em um mantra (palavra ou expressão repetidas inúmeras vezes, em igrejas ou em mosteiros) tal expressão. Mas uma coisa podemos fazer: tentar entender, de acordo com nossas ferramentas, um pouco do que somos, ou o que podemos ser, a partir de todas as coisas que nos acontecem.

Diziam, na Antiguidade, que nada nos ocorre por acaso. O que significa isso? Significa que, dentro de tudo que fazemos, nada aparece a nós, assim, simplesmente pelo fato de existir apenas.

Uma grande prova disso é que, no universo, os alinhamentos planetários, comandados por forças desconhecidas (por nós, claro!), os cometas, a expansão das estrelas, sua destruição... Há sempre algo regendo, no sentido de organizar, dentro de um grande contexto cosmológico, o todo. Parmênides tentou nos explicar isso e nos deixou claro que “nada mais estático que a mudança”; Platão já dizia “Deus é a medida de todas as coisas”; já os indianos têm em sua cultura o “Pralaya”, movimento de retração, e o Manvantara, movimento de expansão universal; os cientistas têm as explosões do Big Bang.

Bem, juntando tudo, temos um único modelo de organização na qual o fruto é o mesmo: o próprio universo no qual estamos, também, como grãos de areia coloridos, em um enorme saco sem circunferência, mas que possui a forma esférica – antes de tudo, infinita.

Trazendo tudo isso para nós, é dizer que há uma organização em nossas vidas que devemos respeitar (ou aprender), baseada nessa grande premissa de que somos parte do grande todo; e, se nele faltar uma chispa, ele não o é. Muitos, claro, em razão de antigas culturas entenderem que deve haver uma manipulação antropomórfica por trás de tudo, criou-se um ser cheio de inteligência, saber e misericórdia humanos – não falemos ainda sobre isso – referenciado no próprio homem, ou mesmo em sua sombra. Blavatsky dizia que, se o mundo fosse povoado por vacas, elas teriam como modelo divino um grande boi, a tomar conta de todos.

E é assim que o vemos; mas, dentro do antropomorfismo, também há de se respeitar tais opiniões referentes a essa ideia, mesmo porque há estruturas complexas dentro das quais se seguiu em todos esses anos, séculos, nos quais a tentativa de entender a Deus se fora por água abaixo: a recriminação ao próprio filósofo, ao cientista que buscava a verdade, ao artista que singularizava o universo em suas obras, ao músico que sintetizava o sagrado em suas canções...ao religioso que descobria a verdade... Enfim, um declínio circunstancial, quando o próprio homem tentava conhecer a sim mesmo e o próprio universo.

Hoje, vivemos nesse meio antropomórfico. Os valores que nos fizeram humanos estão revertidos em hipocrisias em forma de religião, música, política, até mesmo – para não falar principalmente – na arte em geral. Ou seja, consequencias tão grandes que elucidam, historicamente, o caminho do homem em direção a nada (críticas ao próximo; desumanidade...), o que se tornou tão natural quanto respirar. Mas isso, como dito, é histórico, ou seja, não é de hoje! É de muuuuito tempo.

Enfim, a arte de conhecer a si mesmo, hoje em dia, só se compara a buscas por conforto “espirituais-financeiros”, diferente de uma época na qual a religiosidade e o próprio homem se confundiam em um só corpo. Época em que Deuses e naturezas eram nortes. Hoje, nosso egoísmo, inveja, interesses nos confundem com amebas na tentativa de sobreviver ao um mundo que podamos.

O conhecer a sim mesmo, embora tão longe quanto a lua da terra ao homem, pode-nos ser uma realidade ainda que distante da maior delas, mas, mesmo assim, real, a ponto de nos elevar a um patamar de diferentes em relação àquele que se distancia do seu conceito de humano todos os dias. O que seria?

Voltar a ser humano.

Volto no próximo texto.





A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....