quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Teatro e Nós

Acho que já me reportei a esse assunto diversas vezes em meus escritos, mas é sempre bom deixar mais evidente, puro e simples a natureza de nossa personalidade, a qual é tratada de forma superficial dentro da nossa psicologia moderna.

O erro talvez seja o fato de que nos esquecemos de buscar, no passado, respostas para os imbróglios (confusões, distorções...) presentes. Isso em todos os aspectos. Caso contrário, perdemos fio da meada, e nos perdemos como Teseus em labirintos.

Na realidade, nós é que somos responsáveis pela criação de labirintos – sejam psicológicos, astrais-físicos... – e, assim, nos perdemos...

Com relação à persona, se nos reportarmos para a Grécia Antiga, época dos grandes heróis, dos grandes escritores, artistas, percussores de nossa educação, visualizamos na arena teatral as grandes cenas de teatros. Aqui começa o compasso para a saída do labirinto. No teatro, peças de nível altíssimo eram encenadas por pessoas que possuíam uma cultura vastíssima comparada à nossa. Não minimizando os nossos atores e atrizes, mas ali era o berço de tudo, portanto a gema da qual partem todos os exemplos do mundo atual.

Escritores há que dizem que o Teatro é tão antigo quanto o próprio movimento das pernas; concordo, todavia, quando transferimos a responsabilidade para os gregos, nos parece que foram (e serão) os mágicos únicos que souberam lidar com o que ele, o teatro, sempre representou: a condição humana.

Quando digo ‘mágica’, estou me referindo ao sentido mais egípcio da palavra, que nos induz aos grandes sacerdotes e suas magias secretas, nas quais apenas os iniciados nos mistérios conseguiriam ‘ver’ o invisível. O grego via o que estava por detrás das cenas de cada peça, ou seja, a própria essência do que realmente significava e significa o teatro.

O ator, imbuído do sentimento histórico, entrava em cena com apenas poucas roupas e uma máscara – fosse com a face sorridente ou triste, mas representando aquele momento em que a personagem traspassava. Isso aos nossos olhos é fácil de imaginar, contudo difícil de lidar quando se traz à tona aos dias de hoje, simplesmente porque, atualmente, o individuo que contracena não tem esse intuito, essa visão, mas apenas presença, o que dificulta a vestimenta psicológica no momento do espetáculo.

O ator grego sabia que não era apenas uma máscara que o induzia a mudar a cena, mas que havia o aspecto simbólico em cada fala, em cada ato, e na própria máscara, que representava a própria vida, quiçá o universo. Não era um espetáculo no qual todos iam, mas também se viam. A vulnerabilidade da vida na saída na troca da máscara, o amor à persona quando eles se fixavam naquele ser vestido, enfim... até mesmo a natureza era representada na grande arena.

As danças das árvores, a queda dos frutos, a vida, a morte, o nascimento, o renascimento eram símbolos de uma divindade a qual não se poderia representar tão simplesmente com uma cruz ou com uma santa... santos, mas com a “voluveidade” e beleza a que temos direito natural.

Quando digo simbólico, não me remeto apenas ao aspecto metafórico, mas universal da coisa, o que dificulta aos olhos do leitor de hoje identificar o que é algo simbólico, e que é ao mesmo tempo pararracional. O simbólico-grego era a ligação a uma esfera maior e transcendente aos olhos do homem moderno, pois religava aquele aos deuses – também representados no teatro.

Atores Modernos

Há atores dessa época – a nossa -- no entanto que se vestem, se enraízam, buscam e mostram a beleza de compor uma personagem. Atores como Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Marília Pera... são notáveis representantes do teatro, trazendo à tona um passado vamos dizer... Meio grego, cheio de virtudes, belezas e incontestáveis apresentações.

No mais, outros dificultam e se enraízam no modernismo simpático, no entanto, relativo aos olhos de um passado que se mostrou universal em cada ato. E se vão relativizando até desgrudar-se da tradição.

O teatro pede, todavia, que se olhe para ele como um ser que nos demonstra a beleza de representar profundamente cada personalidade que anda, vida, corre – sendo ou não humana – na harmonização de um todo, em homenagem ao sagrado que vive fora e dentro de cada um de nós.


Volto no próximo...




quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Fúria de Titãs, terceira parte.


O mito é u´a comunicação do homem com sua essência. E como toda essência que se resguarda em labirintos, bosques, cavernas, deve ser transformada em objeto de busca. Mais que isso, é um ideal de vida. O homem procurando o Homem em si mesmo. Tudo isso levado, sutilmente, secretamente, pelos mitos.

Antes dos mitos, contudo, vale dizer que os contos de fada eram a forma pela qual os iniciados – druidas, sacerdotes, bruxos (bons) --, se comunicavam e transferiam naturalmente à camada menos sábia – mesmo porque eram educados para entender que era um meio simbólico de tradução do sagrado – a filosofia do que viria a ser uma realidade profunda, mas que trazia os deuses até eles.

Os contos, mais tarde, deviam ter a mesma potência, no entanto foram deixados para trás – entre aspas --, pois foram introduzidos aos povos de maneira simplória, ainda que arquitetando a beleza do próprio homem. Deles, surgiram princesas que aparecem, até hoje, do nada, e fogem com o príncipe, também um belo cavalheiro que a salva sem pedir nada, sem mesmo saber quem é ou será a donzela – sem falar nos dragões, “pobres animais” que eram mortos sem ao menos uma defesa prévia... Os contos são assim: simples e complexos.

Cada elemento do conto nos levava a um ponto: a alma humana – correção, nos leva. Sua fragilidade, sua leveza, sua natureza volúvel transformou o mundo dos contos de fadas enriquecedores e educadores de crianças à beira das fogueiras. Hoje, em meio a tiroteios de mídias, competições, modernidade fugaz, o que nos oferecem são contos modernos, às vezes, sem sentido algum, ou sempre com o fundo voltado a uma educação mais fugaz ainda.

O conto possui uma natureza simples em comparação com o mito, tornando-se, pelas figuras que o caracterizam – anões, princesas, maças, heróis de chumbo, animaizinhos, florestas, lobos-maus, etc... – visualmente mais voltados às crianças, as quais entendem tão bem quanto o adulto.

Mas o mito – voltando --, pela estrutura, nos remete a forma universal, com elementos suprarreais – cavalos alados, semideuses, deuses, enfim... Sem os quais não haveria a possibilidade de formação de um universo, de uma tradição...

A Caverna

No livro Sete da República, de Platão, escrita há mais de mil anos, o filósofo fala de uma alegoria – chamada o Mito da Caverna -, na qual cria diversos símbolos partindo de uma realidade semelhante à nossa.

O mito nos conta que, em uma caverna extensa, moram vários indivíduos algemados de costas para a entrada e de frente para o seu fundo. Como desde pequenos estão ali, não sentem nada em relação a muitas coisas, principalmente à liberdade (conceito filosófico).

Por trás deles, queima uma fogueira imensa, que, por refletir em seus corpos e de outros que nela moram, mandam e vivem, sombras nela se fazem. Assim, todos vivem do reflexo, não da realidade – segundo Platão.

Mas quando se trata de ser humano, ainda que parecidos física, psicologicamente, temos uma alma cuja natureza é buscar, descobrir, se irritar, ir atrás de seus ideais, por mais dificultosos que sejam – assim diziam os sábios – e desgrudar de arcaísmos, e é aí que somos essencialmente diferentes; porque não tomamos partidos de determinadas coisas coletivamente, mas instigamos para isso, ou seja, a partir de reações individuais pode haver ações coletivas.

A partir disso, Platão fala de um dos indivíduos que se mexem entre todos os moradores, tenta desfazer das algemas a principio, e, mais tarde, o consegue. Ao perceber que estava sem as algemas, começara a perceber a realidade aos poucos, andando em direção oposta àquela que desde pequeno vira; vê a labareda que os enganava com suas formas em sombras, percebe que há uma saída, e para finalizar vê o sol. Acreditando naquilo que sente – vê, sente, ouve, pega... – tem apenas um objetivo: levar aos irmãos a sua realidade, a verdadeira...

Tradução (@&*...)

É vã encontrar a extensão do significado desse mito. Porque é enorme. Daria pelo menos duas ordens de mil páginas apenas para introduzir... Mesmo assim, estaríamos tentando apenas fazê-lo, pois a visão relativa do homem cai no racional e nos transfere o que a inteligência tem certeza – o que para a real tradução não passa de uma forma também relativa.

Vamos nos basear no aspecto filosófico da questão, não outro. Digo isso porque, em razão de muitos historiadores, políticos, religiosos, donos de botequim lerem o mito, e dele fazer devaneios interesseiros.

Os mitos, como foi dito, possuem ferramentas para a compreensão humana e universal, contudo, não temos para compreensão do que cada ferramenta nos serve. Por isso, nos alimentamos de metáforas pelas quais assemelhamos fatos corriqueiros com a ficção. Assim, para nós, o Mito da Caverna nada mais é que algo relativo também, ainda que tenhamos um ponto de vista filosófico, o maior que podemos ter...

Assim, em minha tentativa vã, tentarei com o que tenho reverberar acerca do Mito.

Desde a caverna, seus moradores, as algemas em suas mãos; passando pelas sombras – reflexo –; o individuo que se sente incomodado; o fogo, o sol, a natureza... Tudo possui um simbolismo metafísico, todavia, em nossa esfera, podemos dizer que tudo está em nós. Pois nossa alma, aprisionada, sente a necessidade de busca pela verdade, a qual está no próprio homem – estamos falando do divino.

Sua natureza volúvel, no entanto, nos aprisiona à matéria – não somente à física, mas também ao nosso passado, às nossas dores psíquicas, ao nosso mundo que tanto defendemos com unhas e dentes.

Por fim, estamos presos, de alguma forma, à minicavernas cujas estruturas são tão fortes quanto às reais. Platão, não sei, talvez, quisesse dizer isso. E prosseguimos com a tentativa de “desobscurecer” a caverna.

O individuo, quando tenta sair de suas algemas ou percebe o fato de que elas não são algo natural à sua identidade, se mexe, puxa, se incomoda... e sai daquela realidade imposta a ele desde criança... Após isso, começa a busca por algo que a todo ser humano é inerente: a busca pela verdade, pelo conhecimento, pelo Amor, Justiça, pelo Bem. Depois de seguir em frente, saindo da caverna, e ao encontrar o sol – símbolo tradicional do sagrado -- entende que a Justiça, a seu ver, é agir de acordo com sua possibilidades, natureza e capacidade; que Beleza é um conceito arquetípico (pararracional); que o Bem ilumina a todos... Que o Amor é vontade divina, não humana; e o filósofo ainda chama de político (filosoficamente) o ser que saiu e voltou para a caverna a fim de ajudar os outros que nela ficaram – e que nunca nele acreditariam.

O fogo, em muitas tradições, revela-se a espiritualidade simbólica, sempre vertical; na caverna, estou longe de saber. Mas as sombras, desde o inicio, são todas as coisas em que acreditamos materialmente, ou seja, objetivos palpáveis a nós embutidos por criaturas misteriosas, as quais Platão chama de Amos da Caverna.

Os amos da caverna podem ser os políticos de sua época, que condenaram Sócrates; podem ser nossos políticos, que fazem questão de nos puxar para o mundo relativo, objetivo, cheios de nuances, espertezas, racionalismos exacerbados – não estou falando somente de congressistas! – e ao mesmo tempo falácias.

Mas Platão não queria apenas servir este presente ao grande homem apenas, seu objetivo era deixar claro que seguimos uma educação paralela à Real – ou seja, aquela que nos é de direito do dia em que nascemos ao dia em que morremos: o conhecer a si mesmo.







Continua...

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Fúria de Titãs... continuação.


Os labirintos são imensos para a compreensão dos mitos, no entanto não podemos deixar de citar alguns que, como contos de fada, nos atraem pela forma psico-histórica e pela relação evolutiva do universo; entre eles está a batalha dos Titãs – Hebe, os Gigantes, Tifão e Ofion --- entre outros, os quais enfrentaram Zeus, são figuras mitológicas, ainda que nos traspassem sentimentos semelhantes aos humanos.

Zeus, filho de Urano e Gaia, teve que matar seu pai em razão de um dia querer devorar todos seus filhos. Mas o filho maior conseguiu rebelar-se e soltar seus irmãos. Assim, Zeus tornou-se o maior de todos os deuses em razão da vitória desse embate, por fim sendo deus do Olimpo.

A batalha, a criação do todo, revela-se, como diria os cientistas de hoje, a manifestação da matéria, a dissolução do Caos – outro deus. E os Titãs nada mais são que elementos dessa matéria, potencialidades impessoais, sem sentimentos – paixão, instinto, ciúmes, como demonstram as histórias para as crianças, ou mesmo nos filmes. Mas Platão, na República, já avisava que antropomorfizar os deuses seria um tanto quanto perigoso ao mundo. Todos eles transbordam de significados míticos a fim de traspassarem o entendimento-terra do homem, por isso não temos base para montar em nossa psique a força de seu significado.

Será que é só isso?
Nossa cultura atual precisa se enriquecer no tocante a esses elementos simbólicos, nos quais o personagem representa uma peça chave para interpretação do mito. Isso, com certeza, nos resvalou das mãos em épocas negras, todavia, mitos semelhantes jamais perderam sua razão de ser. Apenas o modernismo transformou o que era fonte de inspiração para a compreensão divina em um materialismo psicológico, afundando as possibilidades de resgate – ou quase.

Mas como nos enriquecer?
Na realidade, a dificuldade em voltarmos à crença de que tudo pode ser divino está muito longe; pois há formas partidárias de pensamentos – além de ideias – religiosos, políticos, sociais, etc, nos quais o âmbito da questão com certeza se perderia. Seria dar cavalo de pau em um navio a centímetros de distância de um iceberg!

É, estamos prestes a virar comida de tubarões (a linguagem é metafórica, por favor!). Enfim, precisávamos de uma guinada – uma “revolucionada” – em nossos atos, pensamentos, tudo. Como se voltássemos para um ventre e dele saíssemos e começássemos a repensar nossos atos frente a nós mesmos. Pois esse é o trabalho do mito: não somente nos enriquecer culturalmente, desmistificando segredos divinos, mas principalmente os nossos.

É preciso entender porque aqueles seres mágicos, vivendo em sua época dourada, obedeciam aos deuses; pensar no porquê daqueles seres que pareciam escravos trabalhavam alegremente em nome de algo tão forte quanto nosso amor ao filho, construindo pirâmides, totens, etc..; precisamos retirar os óculos da vaidade, da matéria, do capitalismo doentio e rever nossos conceitos de espiritualidade. Precisamos entender porque todas essas sociedades, que um dia tinham que ir, viam o mito como uma fonte de inspiração na hora da guerra, da doença, da crença, da política...

Elas sabiam que o mito resguardava um pouco de tudo. Que os sábios sacerdotes ao elaborarem os mitos estavam não apenas construindo algo maior que o próprio homem, mas algo tão fértil quanto o próprio universo.

Volto no próximo texto...


Fúria de Titãs...


Em todas as culturas orientais e ocidentais, antes de Cristo, o simbolismo era muito enraigado quando o assunto era formação do universo. Contudo, não se podia revelar ipsis literis aos leigos os mistérios profundos de uma realidade a que jamais o homem poderia expor de maneira que fosse tão clara quanto o sol que vimos, todos os dias...

Mais do que isso, nessas culturas, o próprio homem e sua personalidade eram temas em contextos mitológicos nos quais, para aquela cultura, era tão normal quanto ir para a escola, ou mesmo se sentar em um banco da praça. Discutia-se, de forma intrínseca e ao mesmo tempo filosófica, quase científica, o simbolismo de tudo.

Quando se chegava ao homem, por mais que fossem especialistas – cientistas da época, filósofos, etc – não havia outra forma senão experimentar, na própria carne, a vivência do mito. Assim, tínhamos a educação propriamente dita.

E por falar em educação, os escravos – no caso grego – ensinavam filhos de militares a se comportar, a serem estrategistas, e a respeitarem as culturas, os mitos...enfim, não havia escola pública, nem privada, apenas o saber advindo daqueles que possuíam experiência para tanto. Assim, nasciam Julius Césares, Marcus Aurelius, Adrianus, sempre em meio a filósofos como Epíteto, um dos percussores do estoicismo, entre outros.

Depois que se criou o mito e seus simbolismos perfeitos – isso por volta de dez e quinze mil anos antes de Cristo, por iniciados, todas as explicações em torno do mundo se tornaram “fáceis” do ponto de vista grego, romano, egípcio, celta... Mas não do nosso ponto de vista. Tanto que, hoje, a palavra mito significa mentira, longe, e muito, do seu significado real.

O mito, como diziam, retratava, simbolicamente, uma realidade profunda. Não é um conto, uma lenda, nem mesmo uma história, embora muitos acreditam em finais felizes e, quando assistem a filmes americanos com o título “Fúria de Titãs”, acreditam que seja uma história contada com monstros, heróis, deuses, havendo, portanto, um final feliz – talvez haja, mas não é com esse intuito que o mito exista, mesmo assim esperamos.

Na História de determinadas civilizações, como a da própria Grécia, houve um processo mitológico por detrás da narrativa. Homero, grande historiador, conta em Ilíada e Odisseia dez anos de batalhas entre espartanos e gregos, nas quais deuses e heróis jamais vistos em nenhuma narrativa se fundem com uma realidade que fora o nascimento de uma grande civilização. Aqui, ficam dúvidas da existência da batalha, mas arqueólogos já encontraram vestígios do que fora a maior guerra de todos os tempos. Todavia, procuram ignorantemente os cientistas os fantasmas dos heróis, como o do grande Aquiles, o qual ganha notoriedade por suas características: grande, forte, belo, semideus e que confrontava as divindades da época como ninguém, além dos próprios inimigos.


Aquiles foi vencido pelo calcanhar. Quando pequeno, sua mãe o banhara no mar da imortalidade, pegando-o pequeno Aquiles pelos calcanhares, esquecendo de molhar estes. Assim, nasceu a sábia expressão “todos têm um calcanhar de Aquiles”. Razão porque o mito nos traduz algo maior e mais profundo, todavia, superficialmente, a fim de que possamos interpretar – vamos dizer assim – ao nosso dia a dia.

Assim como o mito de Aquiles, que morrera com uma flechada no calcanhar, apesar de sua enorme habilidade de guerreiro, temos outros mitos que nos retratam a alma humana, de maneira sutil e ao mesmo tempo indecifrável aos nossos olhos. Talvez por isso as más intenções na relação entre o que se vê e o que se compreende.

Mitos como o do labirinto no qual se resguardava o Minotauro, metade homem, metade touro. Nele, Teseu, o herói se inclina em matar a fera, levando consigo um novelo de linha para não se perder. Nesse mito, apesar de sua profundidade, conseguimos nos infiltrar e sentir que somos mais uma vez vistos como o próprio labirinto, e que a fera que nele mora são nossos instintos, ou em um nível universal a decadência do mundo.

Ainda no labirinto, o herói, nossos princípios, convicções referenciadas no sagrado, tenta por meio de um novelo, talvez a própria filosofia grega, encontrar o animal e destruí-lo; assim, como em uma prova iniciática, nossos instintos são domados – ou isolados de nossa esfera – e, aproveitando o novelo, saímos do labirinto, nos tornando jovens internamente, pois nossos valores são outros.



Volto já.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sonhos destruídos, Dois.


Hoje, quem pode repensa o fato de trazer ao mundo uma criança; se não houver estrutura financeira, psicológica, adeus. Mesmo assim, ainda que havendo todos os meios necessários para se criá-la, temos o mundo como se fosse um dragão à espreita a jogar seu fogo na primeira hora em que sai da casa em busca de uma amizade, de um emprego, de uma pequena aventura. É como se criássemos um filhote de águia, porém o medo da grande raposa em devorá-lo ou transformá-lo numa outra raposa, nos fizesse ser vigias constante da cria.

Criou-se o medo de criar, cuidar, estender nossa linhagem. A razão disso talvez seja um Estado falho em segurança, educação etc, etc... por consequência os anti-heróis tomam conta de nossas ruas, na noite, no dia... A refletir nos becos, ou mesmo a céu aberto, o tráfico, a decadência da juventude em busca de aventuras e que terminam em cárceres privados ou em cemitérios.

Mas discutir as falhas de algo que é relativo, mesmo em proporções dantescas como nosso mundo, estado, sociedade, país... é como se pedíssemos para averiguar nossas próprias falhas, porque nos soa como se fôssemos omissos a tudo que criticamos. Contudo, quando criticamos, levamos pontos a serem analisados em uma sociedade quase cega que deve entender e se informar em relação a tudo, principalmente em relação ao próprio sistema, o democrático.

Levantar questionamentos acerca dele, começar a produzir efeitos pelos atos que podem ir de encontro a esse mal que nos corrompe em forma de falas e propagandas, leis... Propagandear o bom senso entre os jovens, leva-los uma realidade maior do que essa pela qual passamos, mostrar-lhes o valor de fazer o bem, dar-lhes a visão do bônus em acreditar em heróis reais, os quais um dia viveram em nossa terra como semideuses, com seus atos até hoje, de tão maravilhosos que foram e são, duvidosos.

A democracia, como um rio enlameado, no qual em quatro e quatro anos nos mostra as fezes de ratos dos ratos-humanos, surge como uma salvação para a escolha do bem, da “solução” aos cidadãos, que, em meio a má-educação, péssima saúde, péssimo tudo, graças ao hipócrita sistema, funciona como bomba genocida e, por mais que não vemos, inteligentíssima, pois nos faz acreditar que somos um povo, um governo e um país harmônicos.

Harmônicos não quer dizer tudo dentro de um mesmo saco. Muito pelo contrário. Cada qual cumpre (ou cumpriria) seu papel, dentro de sua natureza, dentro de sua necessidade, assim como o sol e o próprio homem. A grande esfera iluminando a todos independente da natureza das pessoas, animais, plantas e pedras, sem a escolha que se faz quando a natureza é humana. O sol não escolhe a quem iluminar, sempre cumprindo seu ciclo, sua natureza, sem pedir, sem férias, sem pagamentos extras, enfim, o que sempre esperamos de um grande ser.

E nós podemos sê-lo. Contudo, a raiz que conduz ao pensamento... “Temos que votar para que possam fazer algo por nós”... é uma raiz profunda de uma ignorância até mesmo infantil, a qual se alastra em tempos e tempos, de maneira que não podemos pensar em outra coisa senão em nós mesmos – essa é a razão de acreditarmos na democracia. O próprio interesse humano em se abster de seu papel idealizador, de fazer algo pelos outros, até mesmo pela natureza que o cerca, e acreditar que somos os comandantes, os generais do mundo, nos faz mais distantes de uma realidade pela qual utopicamente lutamos.

Ou pelo menos acreditamos que estamos lutando.
Os idealistas sumiram. Os homens de grande valia que queriam mudar o mundo estão sentados à beira da estrada, pegando carona, viajando pelo mundo. Não há mais força em suas palavras, pois soam como discursos falhos, cheios de democracia – retórica, enganos, demagogia, mentiras... – com algum interesse em se filiar a partidos, colocar uma gravata, ser nutrido dos grandes salários (serem corrompidos)!

A corrupção é como se fosse um lixo imenso só igualado aos grandes lixos do mundo, no qual pairam urubus, que somos nós, a beliscar o que nos deixam de pútrido às margens do mundo.

Assim, os sonhos se vão, em meio a disputas por uma presidência ou mesmo por uma representação de uma sala de aula. São a mesma coisa. Os dois visam um fim que não são de sua natureza.

Os sonhos estão sendo destruídos propositalmente. Por esconderem a face do caminho a ser percorrido, da mística, da divindade em nós, da real humanidade; os sonhos são perigosos, pois nos faz confrontar com os maiores sentimentos de amor e liberdade a que jamais vimos nesse mundo.

Os sonhos escondem a face de Deus. Nele vimos a dor e sorrimos; sentimos a paixão e nos despimos da escravidão – ao contrário do que nos ensinam e já nos embutiram na alma. Nele, o amor se sobrepõe, edifica, dá a glória ao idealista, e, em meio a feridas e guerras, continua-se a batalha, por mais difícil que seja.


Não deixemos de sonhar, nunca!






segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Rastros de Amizade


Quando as amizades se vão, ficam rastros de sua beleza. Dos grandes encontros, dos grandes sorrisos, dos abraços no inicio e no fim da festa.

Quando as amizades se vão, ficam marcas de uma verdadeira paz no coração de quem cedeu a casa, ou o cantinho, para abrigar “aquela rapaziada” com quem sempre se pôde contar...

Quando as amizades se vão, as lágrimas batem no coração, e quando nele tocam, parecem larvas de vulcão presente a tanto tento inerte...

Quando as amizades se vão, a alma vai com eles, até suas casas, deixando um por um em seus portões, pedindo a Deus que os faça melhor do que são, todos os dias...

Quando as amizades se vão, não há dor, discórdia, guerras, batalhas infindáveis, mas a sensação de que não se foram, e que sempre estarão, ali, dialogando e dando o máximo de si para a alegria do anfitrião.

Quando as amizades se vão, não se vão. Ficam firmes, presos como ideais de juventude grega no espírito daquele lugar que os abrigou. Ficam marcas fortes de uma filosofia que não se vai, apenas está oculta aos nossos olhos e visíveis ao coração dos grandes homens.

Quando as amizades se vão, o sol se vai, e, como os amigos, deixa rastros de beleza no céu infinito. Deixa a saudade no céu, deixa as estrelas aparecerem, deixa outros astros se destacarem... Porém...

Quando os amigos se vão, deixam, como o sol, seus raios emprestados em outro ser, na lua, ou melhor, no grande céu da humanidade.

Quando os amigos se vão, a saudade fica, e a honra de ser amigo de cada um deles se fortifica.

Aos Amigos do Projeto Leônidas.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Sonhos Destruídos


Houve uma época em que tínhamos referenciais e sabíamos distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso, o bem do mal. Hoje, com interesses sublevados ao extremo, até nossas escolhas estão em fase de depreciação, quer dizer, esse ser inato, está nos sendo retirado.

Não sei em que ponto histórico nos retiraram esse valor, pois já não nos fazia muito tempo em que poderíamos retirar déspotas, sair e ver o sol, sem as preocupações diárias; atualmente, nossas preocupações com o que nos colocam na mente e nos sonhos, nos faz frios e as vezes desumanos a ponto de nos retirar a beleza de realmente sermos humanos.

Mas o que mais me preocupa não é a falta de algo, realmente. Mas a notória estática de todos. Ou seja, estamos parados e indo ao encontro dos grandes interesses da mídia ventríloqua e à mercê dos conceitos inventados por ela; além da perda da hombridade e caráter, que se resvalam no fosso do nada...

Não há mais simplicidade do mundo, aonde quer que vamos. A simplicidade a que me refiro vem da determinação dos grandes homens que se perderam em construções bestiais, nas quais são retratados a intriga, a dor, o desespero, a pobreza no sentido personalístico, revelando nelas a má direção da inteligência.
Talvez esteja sendo simplista, mas nem mesmo a mais simples ponte tem o objetivo de fazer realmente o seu papel. Antes, porem, se fosse feita para o bem comum, no qual todos pudessem dela usufruir, de maneira que suas cordas, passarela, ornamentação, tudo que a transforma em algo realmente necessário pudesse ser o que é. No entanto, graças à política e seu jeito sujo de ser, temos que passar pela mesma ponte e dizer “quanto foi gasto?”, “E a Saúde, será ninguém consegue ver?” – enfim, rastros de ódio nos corrompem pelo simples fato de o próprio homem moderno ser um ser político...

Houve uma época em tínhamos o direito de questionar e receber as respostas de forma simbólica e ainda vivenciá-la, praticando com nossos gestos, tendo o próprio sagrado como referencial em nossas ricas vidas. Hoje, o que nos move, além do dinheiro suado, nada mais é do que a união de dois sexos, o coito, a força de duas pessoas desenvolvendo novos métodos de se satisfazerem fisicamente – é a chamada apologia sexual que degrada, em todas as esferas, a própria civilização... – isso em tudo que come, bebe, dorme, trabalha...

Muitos falam em apologia sexual, mas ainda não embutiram em suas vidas a seriedade da questão. O que se tem hoje nunca em época alguma houve tanto: pedofilia na família, nas ruas; pedofilia na internet, e em lugares jamais vistos, até mesmo na Igreja. Nunca nos despimos tanto de nossas responsabilidades sociais para assumir que somos homossexuais, lésbicas, e ao passo educar crianças num âmbito totalmente fora dos princípios humanos.

A Educação é outro ponto a salientar. Nunca houve tanta desinformação ou tanta informação inútil. Ainda sim, desvirtuação de conceitos como a própria educação o esta sendo. Antes, a educação nada mais era que mostrar a beleza interna e transferi-la externamente, ou seja, um processo que apenas poucos tinham a notoriedade de adquirir. Hoje, por mais que nos formamos em ótimas universidades, faculdades, somos totalmente informados.

A má educação força o próprio aluno a ser o professor, força o professor a ser o tirano, e este ainda ser o vilão. A má educação nos retira o bom comportamento, nos dá o desrespeito aos fatores históricos, e, mais, nos tira o direito de ser o que somos: humanos; a má educação nos faz transgredir normas, leis, princípios universais e dar o nome de liberdade. A educação não é algo que nos dão, mas algo que o próprio universo nos força a ter para a evolução nossa de cada dia.
Ontem, tínhamos aprendido que respeitar os mais velhos era um fator tão importante quanto a própria vida, pois nada melhor do que dar valor a quem nos direciona para a vida.

Hoje, nem os velhos, pelo menos a maioria, se dão respeito, porque buscam pouco a sabedoria ou não sabem o que e isso – a religião os corrompeu, os retirou a luz da experiência, deu-lhes pessoas mais novas que se julgam pastores e que sabem da velha vida tanto quanto aqueles cuja sabedoria era inata.

A religião era um fator decisivo. Nela se encontrava Deus. Hoje, tortuosamente, encontramos diferenças que são usadas com intuito de enlarguecer mais a distancia entre os homens. A realidade de um passado em que a religião nos aproximava de Deus e dos seres humanos se foi e não tem data para voltar.

A religião, hoje, é apenas uma palavra que desmistifica os sentidos, os valores; que gera dúvidas e que assassina os mais simples de coração. Com a filosofia de levar ao céu pelo espírito santo mal compreendido os ignorantes, que sequer questionam a origem da vida, a Igreja consegue transformar a religião em ponte para o obscuro em nome de um Deus inventado há muito, graças ao obscurantismo da Idade Media.

Outras pontes são criadas, todos os dias, não para unir, senão para distanciar a todos os homens, por isso tão quebradiças que são.

Volto em outro texto.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....