terça-feira, 3 de abril de 2012

A Música e Eu (ii)

Bossa Nova: forte influência do Jazz.


Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo,
teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais, faríamos florestas no deserto” Andréa Doria / (Legião Urbana)



... E embalado pelo idealismo de muitas bandas, e hipnotizado pelos discos que se arranhavam nas agulhas, deixei que minhas veias e a música se tornarem uma só. Eu e a música éramos um. Não havia outro jeito. No banheiro, no quarto, no trabalho, na escola... Eu tinha algo em mim que queria gritar, por pra fora, mas não conseguia. A música, no entanto, fizera o trabalho por mim.

Lembro-me de quando minha mãe dizia... “até quando isso?!”,  e eu não sabia o que dizer. Apenas ouvia, ouvia, ouvia... Atordoando os mortais do meu lado. Eu não. Eu e a música éramos eternos. Até mesmo em enterros, quando sentia que estava ficando muito triste, lembrava de canções que possuíam batidas fortes e dali pra frente pés e corpo começavam a se mexer, discretamente. Eu era louco.

Loucura, graças aos deuses, tem idade e não eternidade. Os anos foram se passando e com eles minha maneira de ver o mundo. Principalmente depois que me engajei no serviço público. Mesmo assim, me lembro quando houve uma reunião dos candidatos que foram chamados para trabalhar, aqui, no Tribunal.

Era de rir. Queriam fazer algo no qual os pretensos indivíduos manipulados pelo cafezinho falassem de sua vida, de que mais gostavam, quais musicas ouviam... E foi ai que o vexame se fez. Eu, que há época tinha saído da adolescência, com meus vinte e poucos anos, ainda apaixonado pela música negra, me submeti a um daqueles momentos impagáveis.

Meus colegas adoravam MPB, Jazz, Blues, Clássicos diversos, e eu... Rap, a ovelha negra das músicas. Muitos riram, outros respeitavam, mas o que me ficou na esfera lúdica da coisa foi o riso patético daqueles filhos da burguesia que nem sequer sabiam a graça que tem em ser o que somos, independente do lugar em que nos encontramos.

Sei que há fases e fases, mas eu ainda defendia as minhas antigas, nas (e pelas) quais passei bons momentos, e não abriria mão jamais disso. Resultado, ainda que houvesse marmanjos cultos na sala dos novatos, se fazendo de maiores, eu me sobressai. A música tem disso.

Um Banquinho e um Violão...

Como eu disse, todavia, crescemos. Submetemo-nos a momentos que nós mesmos criamos, graças à lei da ação e reação (calma), estou me referindo a situações nas quais nos pegamos sem calças, cuecas... E pude perceber que, ainda que gostasse do que gostava, teria que sair dessa fase barulhenta e sem rumo da minha vida, mesmo que ainda batesse o pezinho embaixo da cadeira.

Dali em diante, comecei a estudar e não havia mais ninguém que pudesse me dizer o que eu era, o que eu pretendia, o que eu queria, apenas eu. A música de minha vida agora era a bossa nova. Um ritmo quase que sampleado do jazz que invadiu minha vida ao assistir, em pleno teatro nacional, Leila Pinheiro... Aí já é covardia! Eu vi meu idealismo contundente se derreter naquela voz, naquela suavidade em forma de pessoa – e morri, e voltei. Minha iniciação musical se fez.

E a cada passo que dava em direção aos meus estudos, a bossa nova – como nos anos sessenta – subia as escadas comigo, sorrindo, feliz, suavemente... E comprava, escutava, e, ao contrário (totalmente) das batidas americanas, minha alma estava se tornando algo mais pomposo, mais fácil de se carregar.

Ao som do mestre Tom Jobim, e do grandíssimo João Gilberto, meu chuveiro caia em gotas leves em uma cabeça que, agora, só pensava em terminar os estudos, fazer alguma especialidade, e fiz.

Mas quem escuta os mestres da Bossa, deve passar por obrigação pelos grandes da MPB – Gil, Caetano, Chico Buarque, Milton, entre outros. Eu me enamorei de todas as canções belas de uma língua que há muito eu havia deixado graças ao estrangeirismo da juventude. O idealismo, no entanto, foi encontrado em músicas da década de setenta, com Chico, Caetano, os quais alimentavam meu ego racional e ao mesmo tempo emotivo. São páginas que não se passam na vida de um homem.

Jazz: o primeiro degrau do bom senso.


O Jazz e Blues


O Jazz, natural de Nova Orleans, nos Estados Unidos, influenciou deveras gerações, principalmente as do século vinte. Unido ao balanço do negro pobre à subtilidade do homem branco rico, o ritmo cresceu, sem nem mesmo passar pela adolescência. Com um contrabaixo, pratos de metal, um sax ou trompete, as casas de jazz americanas lotavam para traduzir a elegância do negro americano. E, a partir dali, do ambiente saudável, cheio de musicalidade, e estilo, senti a ousadia de tentar ser eu mesmo, no melhor sentido da palavra.

Um ser com um estilo próprio. Eu passei a amar o Jazz; ouvia todos, até os mais anormais. O jazz mostrou-me que a música tinha cor; não a musica Pitágorica, a Clássica, mas aquela que produzimos baseadas em nossa cultura, em nossa personalidade, de acordo com nosso caráter – e, claro, tudo isso já se passava em minha cabeça desde o Rap, mas ficou mais claro agora, num momento em que meu espaço havia crescido e se tornado mais que cultural. Eu havia chegado a mim mesmo...


segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Música e Eu


Blues: ritmo original de uma raça guerreira

Há séculos que a música nos acompanha, quem diga o grande Pitágoras de Samos, filósofoso que conseguiu plasmar a música das esferas em circustâncias que até hoje não se sabe explicar o certo. De lá pra cá, não damos um passo sem cantarolar, assobiando, batendo em madeiras, ou mesmo o pezinho se mexendo debaixo da cadeira quando se escuta uma canção plausível.

A vida, como diziam os gregos, é assim,  feita de música, em homenagem às Musas -- deusas do Ritmo -- as quais embalam o som das árvores, quando o vento nelas bate; além do som do mato no outro, dos trovões, dos pássaros... Enfim, é um show!

E embalado nessa sonoplastia natural, nós, seres humanos, temos enraizados em nossa alma tantas músicas quanto nuvens no céu, quanto raios no sol, quanto pingos em chuvas de março, abril... É a semântica em nós, assim como uma palavra que só começa a ter sentido dando a ela um significado, um contexto, só começamos a  existir no momento em que temos uma música em nossas lembranças.

Eu, este que lhes escreve, tive, desde a infãncia, uma queda natural pela música -- e acredito que todos o tenham --, mas eu, em especial (risos), não consigo nem mesmo lembrar do meu nome se não houver uma canção por perto. E desde esta tenra idade, tenho, graças a ela, a música, sido um pouco mais humano, mais forte e ao passo mais guerreiro -- haja música de Corações Valentes!

Por essa e por outras, contar-lhes-ei um pouco de minha vida, que fora regada por uma sonoplastia idealista, cheia de traços fortes de personalidade, os quais ainda ficam em minha alma, em minha vida até hoje, e ficará comigo até a ida ao Hades.
RAP




Antes de amar a grande música clássica, eu era um revoltado. Revoltado com a pobreza em excesso, com a riqueza em excesso, e todas as injustiças sociais, então me sobrava cantar revoltas, e por iso, eu amava os hip hops da vida, com bandas ainda mais revoltadas com o sistema, no qual tiravam o próprio sustento vendendo discos de vinil, com capas imensas, com bandas que pareciam mais times de basquete com colares, chapéus, coletes; outras mais pareciam gangues com revolver, metralhadoras, sempre com o líder da banda com um rosto que nunca se parecia com um cantor... L.L. Kool J., os Beasteas Boys, e o próprio Whill Smith, ator, quando era vocalista de Rap.

Eu achava o máximo! Colocava casacos, medalhas, Jeans e até imitava suas falas, repetindo refrãos de músicas de caras que, com certeza, jamais saberia o que cantavam... Era a cultura de Mahatans, do bairro do Quens, de onde veio a melhor banda de Rap do planeta – que eu considerava, claro! – o Run DMC!, a qual buscou no Rock e no Rap uma forma de unir os dois ritmos e ao mesmo tempo dar o recado acerca do que ocorria no mundo racista. Após, outros vários: boogie boys, África Bambata – excelentes em tudo --, Gigolo Tonnes, Woodini, Publi Enemy, etc... etc. Era legal!

Eu tinha em minhas veias um idealismo. Pobre, mas não deixava de ser. Descobria nas músicas meu tom, minha revolta, ainda que fossem ritmadas, sem letras, com berros, admirações furtivas, culturais... Enfim, eu era pobre em tudo, não apenas financeiramente rs, mas desenhava minha vida com melodias que em meu bairro apenas os mais desajustados amavam, pois falavam de crise em família, nas ruas; falava da pobreza, e da dor de ser pobre... Falavam de amor, mas bem vulgarmente, e isso eu não tolerava.

Ouvia, ainda, idiotices, fossem chulas, mas com tom de revoltas, sofrimentos, cujas letras eram um drible na burrice: as músicas de Rap brasileiras. Dessas eu faturei pouco, pois haviam mais solas que sapato de samples (misturas de ritmos batidos), e não aguentava mais as baboseiras de grupos que iniciavam, e que queriam mais se mostrarem que propriamente cantar ideologicamente algo. Isso eu não queria.

Mas nada me fez mudar de opção. O Rap era a minha cara. O Rock, como música, seria apenas uma falha da natureza em tentar mudar o tom para algo que pudesse ser bom, mas não conseguiu. A natureza errou. Os notáveis do rock são mais lembrados pelo que comiam nos shows – cabras, cobras, lagartos, -- do que pelo que cantavam. Isso na minha adolescência, claro.



Legião: sem ela, o rock já teria morrido


Depois percebi o contrário. Os cantores de rock, nessa terra que nada dá, Brasil, a meu ver eram mais preciosos que os de fora. E fui contaminadíssimo pelo Legião Urbana – não deixando de lado meus Raps! – o qual sempre me acordava com seu Tempo Perdido – embalando uma juventude cheia de força e guerra nas veias, convidando-a mover o mundo com a alma. Era belo.

O Legião Urbana, a meu ver, ainda que passe milênios, ainda será a banda mais lembrada e cantada por mim, e se meu filho um dia cantarolar, terei o prazer de contar a história de minha adolescência, sempre entoada por esse grande grupo.

Mais tarde simpatizei com U2, mas, como eu disse, já era tarde demais. Uma banda irlandesa que buscava manter seus ideais de liberdade pátrio, com letras incrivelmente revestidas de um romantismo febril. Mas, o pior de tudo é que essa banda era totalmente incompreendida por seus simpatizantes, os quais gritavam, urravam, e, mesmo cantando suas letras claramente, não compreendiam sua totalidade. Isso acontece em uma juventude que procura forças abstratas, no meio do escuro.


Mas as lembranças só estão começando...

(Próximo texto tem mais)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Livres




Uma palha se vai ao vento,
E outra se vai nas águas,
Correm as duas ao mesmo tempo,
Ao encontro de um céu sem falhas.


*

E correm sem abas, sem travas,
Tão livres quanto à verdade,
Que se vai nas relvas
Sem interesse, vaidade...


*

Sobem montanhas a fio,
Descem córregos em pedras,
Saltitando quimeras,
Desaguando em oceanos, em rios...

*

Nem tuas mãos as retêm,
São meros pontos de átomos livres,
Cortando o ar como ourives,
Dormindo ao sol que não vem.

*

Somos nós dois tão livres quanto,
Com rostos ao vento partindo,
Às belas serras assistindo,
Despejando no mar nosso fino pranto.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O Sol do Ocidente

Sócrates: o melhor dos homens



“Devemos temer o mal viver, e não a morte”, teria dito Sócrates na pena de Platão, antes de ter sido condenado à morte, na antiga Antenas. O mestre, que teria vivido em torno de sua filosofia a qual unia homens e universos, por meio de verdades nunca ditas, fora acusado de corromper os jovens da época, e ao passo desrespeitar os deuses antigos, o que, pelo que se conhece do grande filósofo, jamais o teria feito.

Hoje, depois de séculos, refletimos seus aforismos, baseados numa grande vida que, mesmo em meio a um sistema falho, conseguiu ser herói, soldado, filósofo... e, depois de sua ida ao devachan (à bem aventurança), cresceu e se tornou um dos homens que mais influenciou gerações, sistemas educacionais e filosofias, a iniciar com os pré-socráticos.

Sócrates sabia, antes de todos, antes mesmo de “corromper” os jovens, que seus dias na terra estavam contados, pois a saber de seus algozes os quais sempre o vigiavam, traduzia o que ele chamava de virtude indireta àqueles que o procuravam.

Sabia o mestre que sua morte estava tão ao seu lado quanto seus amigos, pois estes observavam suas características de homem que sabia viver em torno de um ideal: dizer a verdade, acima de tudo. E por meio da maiêutica – como ele mesmo dizia – um parto da alma de cada ser – trazia à tona os sentimentos daqueles habitantes de uma Atenas cheia de políticos que já comandavam a maioria.

Para isso, Sócrates tinha um demônio – um ser astral que o seguia e o aconselhava na medida de seus conselhos. Era o Demus. Todas as vezes que alguém chegava perto do grande homem, antes, porém, o Demus lhe falava ao ouvido de maneira que não o deixava se omitir em relação ao que acreditava...

O mal de Sócrates, no entanto, não fora corromper, mas sim suas falas, seu jeito de dizer as coisas em um sistema que corrompia os jovens para o mal e os fazia presos a verdades lúdicas, as quais, como algemas, os prendiam. E Sócrates, que sempre perseguiu a verdade, em nome de um legado universal do qual o homem tem direito inato, reverberava, contornava, palestrava, insinuava e ao passo prendia o jovem com suas palavras belas e incendiárias, as quais queimaram sua própria personalidade na visão dos homens de má fé.

O filósofo, no entanto, nunca abrira mão de sua disciplina, de seu amor à verdade, ainda que persistisse em dizer “só sei que nada sei”, talvez aludindo a grande ignorância dos homens de sua época (que serve muito mais para a nossa) que diziam saber tudo, sem saberem absolutamente nada!

Mas isso é o mal de cada época, dizer que sabe sem saber nada. Mas Sócrates sabia muito, e isso, para resumir, revoava nas mentes poderosas como moscas em churrasco, como crianças em conversas de adulto ou como uma coceira dentro de um gesso. Mal sabiam os grandes algozes que estavam enviando um dos homens mais magníficos de todos os tempos à pena de morte.



E Sócrates foi, como se nada tivesse havido contra ele, ser penalizado contra o que o que fizera e tomar cicuta, após dias preso, e refletir acerca do poderia ter feito pela sua cidade, seu universo. E em suas reflexões, baseadas em que seu demo sempre lhe dissera, nunca voltou atrás, nunca se arrependeu e jamais deixou dúvidas quanto à veracidade de sua educação (edutiere). Suas verdades, antes de tudo, tinham premissas universais, as quais sintetizavam legados de tradições das quais o mestre sempre teve notícias, e que sempre as seguiu como um iniciado – que não era.

Sócrates dizia que não deixaria de ser filósofo apenas para agradar a maioria, pois esta nunca estaria correta, se estivesse, algo estaria errado, pois um povo que ama um rei vai amá-lo pelos seus atos referenciados na necessidade moral e espiritual daquele, antes mesmo de lhe dar o primeiro prato de comida.  E o mestre dava-lhes o alimento interno sempre que dele necessitavam.

E sempre foi assim, dentro da humildade revelada por seu pai, pedreiro, e sua mãe, uma parteira (por isso se  dizia um parteiro de almas), Sócrates caminhava a passos estilosos, porém dentro do que chamamos caminho do meio, ou seja, dentro do ele era.

Hoje, não se fazem mais Sócrates. O século que o abrigou também estaria em pura decadência, o que nos dá um pouco de conforto, pois nos exime de sermos culpados pela infelicidade moral de agora. A triste notícia é que por falta de heróis, de filósofos, de grandes idealistas, estamos no limiar da maior das decadências humanas...

E, ainda, na falta desses grandes que se foram, que nos deixaram legados fortes, porém fechados, o mundo ainda tem chances de crescer e de se tornar mais forte ainda. Temos apenas que buscar, em nossas possibilidades (naturezas) o que somos, doe a quem doer, de forma que possamos elevar pessoas ao patamar de seres humanos, não animais, plantas, pedras, mas simplesmente humanos, dando chances de buscar a verdade, o amor, a beleza acima de todos os valores relativos a nós impostos.

E se conseguirmos um pouco disso, Sócrates não morrera em vão.








quarta-feira, 28 de março de 2012

Inquieto


Eu: inquieto de nascença


E nas esquinas duais de minha alma
Nas nuvens de meu ódio,
Nas lembranças de meu sol cigano,
Nas calhas de minha chuva de verão...

Nos galhos de minha primavera,
Nos cantos de meus pássaros,
Nas luas de minha noite clara,
Nos sonhos reais de meu Deus...

Procuro, e volto a te procurar...

Nas dores de meu mar,
Cujos barcos singram em nome da vida,
Em nome dos mananciais feridos pelo homem,,,

Em florestas negras de meus conflitos,
No grasnar do meu corvo aflito,
Que viaja na noite fria,
Apenas para dizer

“Estou aqui”!

E procuro em belezas que se vão,
Em corpos meigos e pardos,
Em formas sem formas,
Em deuses e demônios...

Além do bem e do mal.

E transpiro suor de lágrimas,
Grito como trovão em tempestades,
Clamo teu nome na terra,
Colho brasas em fogos brandos...

Corro o mundo descalço,
Dou meu sangue negro à morte.
E dela retiro vida,
Retiro saudades,
E volto a dormir.





terça-feira, 27 de março de 2012

Uma fagulha grega


Estátua de Zeus


Falar sobre a Grécia... Falar sobre essa imensidão azul e branca que hoje sofre com a corrupção dos biltres, dos desumanos bípedes, mas ao passo bela e casta, tal qual uma dama que renasce das cinzas apenas para dizer... “estou viva”! E realmente está, e sempre estará à medida que olharmos para trás, e, com um ar mais que saudoso, respirarmos fundo, sorrirmos um sorriso de criança, e dizer “que bom que você existe, minha dama”!

Falar da Grécia é simplesmente falar do âmago da alma humana, da história humana. Daquele centro que pede para ser explorado tal qual floresta virgem, mas que seja explorada em nome de uma liberdade que burla, que pede, insiste e ao mesmo tempo clama um dia melhor, a uma humanidade querida.

Quando os grandes desse mundo passaram por ela – Sócrates, Platão, Aristóteles, Alexandre da Macedônia, Leônidas...  – a humanidade, com toda certeza, passava pela parte superior do ciclo, seu melhor momento, e dele aprendeu e ensinou por meio de seus discípulos uma filosofia mítica e ao passo clara, sempre no tocante à beleza humana...

A Grécia buscou a Verdade, ainda que com respingos de ensinamentos egípcios, e mais, a Beleza, o Amor, a Justiça, a Força, a Civilidade... etc., de forma que ninguém mais jamais ousou.

Ensinou-nos que ainda somos crianças eternas engatinhando em busca de nossos interesses, uma grande mamadeira chamada dinheiro. Não que os Antigos não valorizavam a moeda da época, o ouro, ou mesmo qualquer valor material – contudo, havia os grandes heróis que recebiam as honrarias semelhantes a dos reis, contudo... Em nome de uma grande filosofia prática, oravam aos grandes deuses, notadamente emblemas de uma época que nos faz saudosos sem dor, em relação a essa época tão falha em que vivemos.

A ruína grega


Depois de episódios tenebrosos nos noticiários de uma Grécia em ruínas, e de episódios nos quais governo, empresários e povo se engalfinham por um rumo melhor nas finanças do país, somos obrigados a conflitar situações em que há duas Grécias, a de hoje, a de ontem.

A de hoje é repleta de indivíduos dotados de política, revolta e sistemas patrióticos, ainda que falhos; ainda, repleta de percalços, ou melhor, de grandes monstros que residem como úlceras na alma da grande Grécia, mas também em cada país subdesenvolvido – ou desenvolvido em decadência moral.

Nessa mesma Grécia, onde passeatas, brigas, conflitos com policiais, regimes, medidas são a música dos homens, há estátuas, monumentos belos datados de mais de dois mil anos, refeitos sempre com a finalidade turística, mas também sagrada, com intuito de mostrar que também somos, apesar dos pesares, indivíduos que respeitam o passado humano, no melhor sentido da palavra.

E mostrar também que a alma humana não se restringe apenas em interesses frios, mórbidos, regados a gritos de dor, mas à beleza, tão bem delineada nas esculturas, vasos, quadros, paredes... Enfim à beleza maior, a que reside no campo arquétipo, do espaço inato, do qual nem mesmo o homem atual sabe reverberar direito, apenas questionar se há ou não vida nele...

E quando os homens atuais tomam conta dos noticiários, cada criança grega se vai do mundo, sem esperança de entender a verdade, essa moeda tão esquecida do passado, da qual filósofos viviam e morriam por ela... Todavia, não há mais homens desse nível, ou mesmo homens.

Antes, ser homem era encontrar o individuo em si – o indivisível – dentro daquilo que mais subjaz a nossa alma. Estaríamos falando do Ser, do Nows, do Espírito Humano, fadado a ser esquecido pelas gerações posteriores, as quais, ao passear pela atual Grécia, se conformam com o espetáculo passado em forma de pedras esculpidas – não mais estátuas que, um dia, foram adoradas tais quais a santos...

O que são os santos, senão resquícios desse amor antigo pelas potências trazidas ao verso e à prosa grega, cantadas, amadas durante séculos? E esse Deus maior que se restringe em sentimentos, atos, como um grande Zeus, que fora o deus dos deuses?... Nada a comentar...

Assim como uma vasta cultura que nasceu, cresceu, desenvolveu e morreu, a Grécia teve seu fim. Hoje, há um país sufocado pelas mazelas do mal que corrompeu e corrompe o mundo. Mazelas estas já ditadas pelos grandes de épocas passadas, que um dia foram julgados e mortos, e outros execrados, assassinados em público, mas que deram, antes, ao mundo caminhos para uma descoberta indecifrável à medida que se caminha com olhos cerrados ou interesseiros.  Mas decifrável ao coração puro, à alma livre de preconceitos e sectarismos, os quais formam a base dos sistemas atuais.

Não temos mais jônios, dórios, eólios para a (re)formação de uma civilização na qual tribos lutam apenas para se ter apenas o seu lugar no mundo, não pelo petróleo, pelo genocídio ou mesmo discriminação em massa – é o que fizeram com a África, hoje.

Não temos mais os deuses que nos norteiam, e sim loucos desvairados impondo em mentes puras ou ignorantes sua filo-social-democracia autruista (sem amor ao próximo...), em decorrência de outros sistemas empurrados pela necessidade do homem de má fé.

Os mitos, os deuses, os heróis se foram, mas a sua filosofia, a que tanto norteou a sociedade da época, transformando-a nesse berço belo e divino, pode ser resgatada no âmago de cada um, e está a um passo de nós: nos livros clássicos, nos quais viajamos e encontramos um pouco de nós mesmos, ou menos do que isso, uma fagulha de um incêndio sagrado chamado Grécia.











sexta-feira, 23 de março de 2012

"Ser ou não Ser"





Persona

Eu tenho percebido, há muito, que não assumimos nossos reais compromissos, aqueles que nos ditam o que somos, para onde vamos e por quê. Não sei se estou certo ou apenas cambaleando em pensamentos tolos, mas o que me passa pelas linhas imaginárias da consciência é que não queremos assumir, propositalmente, o que no fundo nos pede para realmente assumirmos – calma, não estou me referindo à personalidade inquieta, cujas debilidades nascem e morrem sem, às vezes, dizer o que ela é. É algo mais profundo.

Será o medo de entendermos tudo na natureza, como enfrentarmos as reações que nos proporcionam o desespero pelos atos impensados de nossas vidas? Talvez. Mas não seria só isso...

A coragem de dizer o que sentimos ao vento, gritar que queremos mais liberdade, amor e mais justiça sociais, ou mesmo aqui perto, ao nosso lado, nos faz seres encolhidos e, sei lá, duvidosos no momento de tomar alguma decisão – espero que me entendam J...

Se fosse em outra ocasião, diriam que eu estivesse reverberando o nada em forma de letras, ainda que no fundo possuísse alguma coerência... E é dessa coerência que gostaria que entendessem. Quando digo assumir, digo ser eu mesmo, lá no fundo de minha alma, não a alma em si, ou como disse antes, nada de personalidade...

Uma coisa é você dizer “sou grosso, e daí!”, a outra é você dizer “eu te entendo...”. Qual das duas expressões nos relevam? Claro que, para a maioria nossa de cada dia, é a primeira, pois dela podemos retirar outras e mais outras cujas estruturas semânticas podem mudar de forma relativa, ou seja, cada um acha aquilo que deseja, ou o que é realmente...

Porém, nos revela uma identidade falsa pela qual nos embrenhamos, simpatizamos, e quiçá amamos. Assim, se me identifico com algo que me estabilize emocional, física, psicologicamente... Vou atrás daquilo que me apraz. Se amo ser um grosso, um débil, um valentão, com a finalidade de me esconder e ao mesmo tempo enfrentar uma gama de problemas, assim o faço. Se quero ser forte fisicamente para que possam me “achar” forte, assim o faço, se me escondo atrás de livros para fugir de uma realidade, e cair em outra... Também.

Mas o perigo disso tudo está tão estampado no rosto de quem assume quanto o de um ser que fez algo e não consegue esconder-se. Claro que tentar montar uma estrutura interna na qual eu mesmo tenho que ser o arquiteto, dono e ao mesmo tempo pedreiro, é raro. Na prática se vê.

Contudo, assumir o que achamos o que somos (ou melhor, o que a persona nos faz acreditar) causa danos irreparáveis, e até mesmo inconsequentes, e a depender de quem o faz (ou assume), fere a todos, inclusive a si mesmo. Na hora do embate, do conflito, da guerra propriamente dita, somos guerreiros, foras-da-lei sorridentes, donos de nós mesmos, mas a poeira há de assentar-se, as dores hão de subir, e o sangue há de aparecer..., porque o que vem da persona – ou melhor dizendo, daquilo que achamos que somos --, pode agradar até mesmo um grupo específico, como gangues, máfias ou monges, -- mas não atingirá o cimo de cada um, para que haja uma aceitação coletiva – geral.

São raríssimos aqueles que podam a personalidade com aquilo que é comum a todos indiscriminadamente, assim como os grandes idealistas do passado, os quais, um dia, buscaram, conseguiram, por meio de seus atos, palavras, e até mesmo em suas vidas coerentes ao que clamavam. O nome disso é coragem...

Não coragem em dizer “vou”, mas em dizer “sou, ainda que muitos me digam o contrario” – claro que, mais uma vez, estou me referindo a uma semântica genérica, na qual podemos, em principio, graças ao nossos valores decadentes dizer “você é um louco”, mas depois de uma evolução humana, ou pelo menos mediana graças tempo, não necessariamente em massa, dizemos “Ele estava certo”. Isso é raro hoje em dia...


Alma

Na antiga Índia, à época de seus maiores sábios – não me refiro a Gandhi e seus seguidores --, havia uma filosofia intrínseca que dizia “o homem vive sempre no Antakarana”...

Eu, graças a leituras clássicas, descobri rs. Mas isso, como diria o grande Buda, pode muito bem “ser a aparência do que se sabe”, ou seja, não sei nada...! Porém nos revela, dentro do que estudamos, uma verdade, a de que estamos realmente sempre na dúvida do que somos, que coisa hein!?

Voltando...
Antakarana, perdão, seria, para o deleite de nosso coloquialismo, uma ponte entre a personalidade e o espírito – ou menos que isso, entre nossos valores materiais e imateriais. Seria uma linha imaginária a separar o Oriente do Ocidente, só que mais profundo. Essa linha marcaria – ou marca – um ponto crucial, o de que o homem se sente capaz e ao mesmo tempo incapaz de elevar-se ou ao mesmo tempo acomodar-se ao que é.

Ao passar dessa linha, e voltar à sua personalidade, ele prova um pouco do que realmente deve ser – ele mesmo, um indivíduo, inegoista, virtuoso, ético, idealista sem interesses vis, mas ao voltar... sabe que a persona o leva para um mundo completamente semelhante, apenas com os valores de cabeça pra baixo – daí a chamada falta de identidade provisória, ou para aqueles que ficam sempre atrás dessa linha,  os chamados homens pedras, plantas, animais, pois sequer tentam levantar-se psicologicamente, estruturalmente, muito menos espiritualmente...

Desses homens que amam uma identidade falsa, ou mesmo se sentem amos de si mesmo, o mundo está lotado, saindo pela culatra, contudo há homens que se questionam, e que questionam acerca de seu comportamento, até do comportamento do próximo, que buscam e conseguem uma compreensão mais que humana, e inicia seu entendimento acerca do mundo a sua volta, porém sabe que seu trabalho é tão difícil quanto enfrentar uma batalha de mil homens – é o conhecer a si mesmo.

E, após anos de trabalho a fio, ao se encontrar na profundidade de seu ego, depois de largar a máscara do “sou ou não sou”, sabe que é parte de uma personalidade maior, a do universo – essa, ele terá que descobrir, em uma viagem ainda mais insólita.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....