segunda-feira, 30 de abril de 2012

Metáfora Silenciosa





Xícaras sem asas que se vão

Bules sem bicos com sede,

Mesas sem pernas cansadas,

Assim eu fico na escuridão...

 

Pulo as janelas do coração e vejo

Tuas ruas caladas na imensidão,

Luas mal amadas a casais frios,

Um breve sol sem razão.

 

É o silêncio de uma metáfora

Numa alma fadada a morrer,

É a anáfora oculta das palavras,

Palavras sem você.

 

Assim, tropeço em pensamentos,

Esbarro em tua imagem,

Caço teus olhos cansados,

Encontro carceragem.

 

O barulho dos meus sonhos se faz,

Me acordam em lágrimas de vinho,

À procura do meu ninho,

E do calor da tua paz.





sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ùtero Eterno




... Assim como a mãe espartana que ficou à espera do soldado apenas para saber notícias do seu pequeno guerreiro – que havia morrido com honra – todas as mães esperam o filho no portão, até altas horas, para vê-lo em segurança,  caso contrário, seu coração não bate direito.

Desde o dia em que deixara o acalanto de outrora para trás e começara a sentir os frêmitos na alma, a grande mãe clama aos deuses para que sua cria esteja bem, e nas orações, joga todas as dores, seus sentimentos, seu amor, sua alma a fim de que aquele que um dia saiu de seu útero e agora ganha o mundo de meu Deus, chegue a tempo de pedir sua benção e dormir em paz.

A dor, agora, é maior. É quase um leão por dia. A felicidade, no entanto, se vai. Ele, o menino que um dia ficou no colo, sorriu e brincou, hoje fala bem e se expressa como homem. Ele, de acordo com sua natureza, vai ao encontro do amor perdido – seja ele em forma de mulher, de princípios, de ideais religiosos ou políticos – mas que sabe que, ali no coração, a grande mãe o educou para as bases de um grupo, no qual enfrentará a vida com suas pequenas armas, as quais se tornarão grande à medida de suas experiências...
Contudo, nunca esquecerá daquela que o defendeu desde o dia em que nascera, mesmo nos dias em que estivera errado.

Sim, a lógica do amor materno não se encontra nas veias do universo, ou mesmo na lógica dos cientistas. Dizem os grandes filósofos que nem mesmo o amor perfeito, aquele que une, não aceita o amor de mãe, pois o sentimento voltado a uma personalidade, ainda que de mãe, está fadado a cair no abismo dos abismos. O grande amor de mãe, assim analisando friamente, estaria com aquela mãe espartana, a qual entende que a guerra era necessária ao seu povo, ao seu país, e o engajamento de seu filho, em tempos de guerra, era algo tão inexorável à época quanto o perfume de uma rosa.

Mas o coração da grande mãe espartana – assim como o coração de todas elas –, supondo, poderia cair na complexidade de seus sentimentos personalisticos, e fazer o possível para que seu filho não viesse a participar das guerras. No entanto, estaria fora das leis educacionais de Esparta comportamentos que demonstrassem a dor de ver o filho indo à guerra...

A dor existia, mas existia muito mais a honra acima de tudo, e morrer por ela significava servir aos deuses, ao sagrado, e, como diria o grande general Leônidas “morrer espartano já era o suficiente”.

Hoje,

Muitos sentimentos voltados ao filho (ou aos filhos) tornam-o dependente de fatores psicológicos, como a própria dependência à mãe, ao pai, ou à própria família que o cerca de valores internos e o restringe daqueles que a natureza o chama. A mãe, o centro, a base, a coluna mestra da família, sabe que seu filho crescerá e se tornará um homem, e dentro dos parâmetros nos quais ele foi criado será levado a adotar princípios – fora de casa – os quais nele permearão para o resto de sua vida...

Mesmo assim, a grande mãe se voltará a ele como no inicio, como se ele estivesse preso ao seu colo, e não o deixará crescer, trazendo-o para perto, tão perto que, se estivesse em distâncias homéricas, ainda sim, morreria por ele. Essa é a mãe.

A dependência do filho fica mais evidente quando este aceita a própria dependência, ou seja, a própria liberdade dada pela família (centralizada pela mãe), usa de artifícios básicos para entrelaçar-se mais naquele núcleo, porém, na falta de iniciativas culpará, a todos, menos ele, que não soube criar seus princípios, graças a uma personalidade voltada aos desejos pequenos; graças a uma vida sem sonhos.

A mãe, no entanto, está acima de seus pensamentos e inicia o processo de “uterilização” – de volta para o colo – aproveitando a fragilidade do espírito frágil do homem-menino, que aceita os sonhos da genitora, os princípios dela, sendo, quem sabe, um pastor, um advogado, um engenheiro, mas nunca aquilo que um dia sua vocação queria.

A grande deusa da família traduz isso a todos os filhos, pois dela saíram, e ela os criou, por isso a fácil aceitação das personalidades diversas, a fácil educação, e a fácil imposição...


E os filhos,

Cada um com seu modo de ser, olha sempre para a mãe (ou para o pai) como se observasse uma amostra dos deuses na terra, e respeita, e ama, e tudo porque vive e trabalha será uma grande homenagem aos seus pais – ou melhor, a grande mãe.

E nesse processo de religare psicológico, sobrevoa o amor real, aquele puro ser que mora nos horizontes, nascendo com o sol e se energizando com a chuva, em processo de contínua paz externa, a que obedece às leis maiores que o próprio sentimento humano. Até mesmo aos sentimentos da mãe.

Sabe-se, no entanto, que a Grande Mãe, portadora do Logus, recebe tal amor humano como se fossem as gotas de um oceano que quer chegar ao próprio Oceano, e faz com que as dissidências em famílias não existam, que personalidades diferentes não se conflitem por muito tempo; faz com que a mãe da terra busque, ao olhar para Ela, o amor real, unindo a todos (todos os filhos), sem que se observe seus defeitos, sejam eles externos ou internos e trabalhe, cada um, seu amor em relação ao outro...

Por isso que, quando uma mãe se vai, o amor se vai. E a partir daí, não há mais o pico a que se observar, não há mais o segredo a se segredar, não há mais o norte, não há mais o sorriso sincero, nem mesmo o choro no colo, pois não há mais colo.

O processo de conhecimento individual, agora, é uma consequência e depende de um fator: encontrar, em si próprio, um norte, ou melhor, um caminho, ainda que seja estreito, mas que seja com a finalidade de encontrar o amor semelhante àquele que os fez tão dependentes...

A mãe que se foi deixa sua sombra – que se vai com o tempo --, mas deixa seus sonhos guardados em corações fortes. Deixa aquela educação, suas frases de alerta... Deixa uma pequena ínfima parte de seu amor pairando dentro da casa, o coração maior.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Réstias


Há fases pelas quais a história passa que nos faz retroceder o pensamento, no sentido de refletir acerca de nós mesmos. E quando nos referimos aos grandes homens e mulheres do passado, haverá (e há) sempre aquilo que nos burla a alma como uma grande estrela que acabara de cair do céu e nos atingir em cheio. A essência de tudo que é bom nos torna um pouquinho melhores. Assim é a vida...


A Grandeza humana, no tocante à mulher, principalmente, revela que temos, sim, potencialidades resguardadas e esotéricas, perfazendo nossos caminhos, com blocos feitos de ouro, trazidos de diversos continentes, dos quais somos apenas conhecedores, e não práticos dessa maravilhosa dádiva, graças às transformações evolutivas de cada raça – ainda que sejam evoluções mínimas, porque cada uma tem seu histórico, por isso não merece críticas.

Não por isso também, mas, principalmente, pelo fato de que há uma questão relativa sobrevoando o homem: a de que somos ignorantes, opinosos, quando se trata de questões acerca dessa evolução, pois caímos na falta de consenso, no preconceito, na não aceitação do passado, o qual teve tantas ferramentas quanto nós, com a finalidade precípua de nortear o homem ao sagrado – a Deus. É o racional.

O racional, por assim dizer, quando voltado para a terra, ainda que nos mostre uma ilusão passageira a respeito do Céu, destrói gerações, facilita a entrada de opiniões exacerbadas, sem nexo, e não é disso que precisamos para subir qualquer seja a montanha – seja ela simbólica ou não. Precisamos da Vontade, desse elo perfeito (não a vontade humana) entre nós e deuses, os quais são a síntese de uma natureza desconhecida pelo homem, mas conhecida pelos pássaros, pelas pedras, pelas estrelas, pela própria montanha...

Quando me refiro ao racional, não sou apenas crítico a ele, mas à forma com ele é levado às estruturas culturais do mundo, o qual se assemelha a um espelho invertido, onde a parte que reflete para o sagrado está para baixo, e a do profano... Para cima.

Uma prova do racional coletivo voltado para baixo é quando “apreciamos” países do primeiro mundo se reunindo em favor da humanidade: tememos. Pois nada há além de pensamentos racionais no sentido mais estrito da palavra, traçando metas para o bem estar financeiro dos próprios países que ali estão. Além de reuniões da Igreja, nas quais objetivos tortos em relação ao seu verdadeiro ideal são traçados.

Ao contrário do passado. Um faraó, ao se reunir com seus sacerdotes, traçava metas humanas, com finalidades precípuas em relação ao povo que, ora ou outra, não tinha o que comer, beber e morria ao relento. Contudo, como figura sagrada, o homem-deus se redimia ante aos deuses, fazendo pactos sagrados nos quais ele mesmo teria que cumprir. Assim, o povo, tratado como filhos, tinha a certeza de que as potencialidades o escutariam e fariam a grandeza de abençoar a terra seca, dando-lhes chuva, propiciando mais alimentos, além do Nilo, o rio referência, norteador das necessidades do Egito, que transbordava aos olhos do povo. Essa é uma prova do racional voltado aos Céus, de forma que religião, política, economia, tudo ali estavam intrincados.


Trilhos, Vontade...

E assim nos vamos; e assim caminhamos, cheios de trilhos que nos levam a ideais de papel por uma necessidade básica, a de preencher espaços vazios entre o que sabemos e à personalidade. Esta, tão enraigada de princípios materiais, não sabe elevar-se ao Céu pelos mesmos motivos, antes mencionados, mas que, graças a resquícios passados, tenta elevar-se, manter-se, fixar-se, contudo, na esfera em que estamos, torna-se difícil manter-se em cima de qualquer metáfora que se reúne céus, montanhas, deuses, etc.

A Vontade, aquela que predomina além-razão, supera-se a si mesma. Ela existe independente dos fatos, das meras conjecturas, ou mesmo de conceitos abstratos. O abstracionismo aqui se mostra mais como peça experimental na tentativa de explicar o inexplicável – assim como tento fazer agora. Ela, esse ser predominante acima das nuvens, não pensa, é pensada pela maior das vontades, a qual não podemos sequer aludir em termos genéricos, pois nem mesmo os grandes filósofos, como Parmênides, que tentara expor acerca das manifestações do nows platônico,  o fez...

E como sabemos que Ele, esse ser além-nuvens, existe? Há culturas no presente, como a Índia, por exemplo, que acreditam que o universo não é um gerador incansável de almas, por isso (e não só por isso) haveria de ter uma Inteligênicia que nos faria religar com tudo, sofrendo as transformações, às vezes por meio dos ônus ou bonus universais (Carma).

“Há um número limitado de alma”, segundo um professor especialista em filosofia indiana. Todas as formas de vida, então, segundo esse critério, teriam suas próprias leis de evolução, e ao mesmo tempo se coadunariam com elos naturais, os quais se encontram em cada um de nós – de maneira micro. Ou seja, há em nós características de todos os seres, e vice-versa nestes. São linhas perceptíveis que, dentro do que podemos chamar de racional, importantes para a reflexão humana, e ao mesmo tempo parâmetro para um desenvolvimento interno...

Ou seja, se percebo que sou humano, tenho leis a obedecer, então tenho metas a traçar, todavia, personalidades, as quais regadas de vício, se adentram em leis modificadas por estruturas coletivas e racionais, as chamadas camadas intelectuais, as quais são a minoria, mas que fazem a questão de manter tais estruturas como estão, ainda que sejam provisórias, mas que são renovadas em forma de prêmios, de medalhas, ascensões, desviando-nos do caminho ao qual devíamos seguir.

Contudo, em tentavas vãs, seguem tentando bloquear pensamentos, consciências, vidas, em nome de interesses tão vãos quanto folhas ao vento. Tentam trazer à tona mistérios falsos a idealistas tão falsos quanto. Abrem portas de papel, com intuito de atrasar as virtudes humanas, levam, desde já, uma cultura sexual, inclinando o homem a escravizar-se em si mesmo, e conseguem...

Não conseguem, no entanto, frear a vida, que corre como um rio raivoso, e que traspassa as pedras mais duras, passa por caminhos mais íngremes, dobram caminhos sorrateiramente, e por fim quebram o maior dos rochedos... Isso não se consegue parar, pois a alma humana é a espuma desse rio, é o elemento maior que se segue em busca dos maiores ideais, os quais a esperam solitariamente, sem pressa, lá no Céu, no infinito, no núcleo maior dos mistérios, a Deus.



às gerações

segunda-feira, 23 de abril de 2012

No Útero do Universo

Universo Feminino: mistérios tão grandes quanto o próprio universo.


Um grande rei um dia perguntou a Sólon, filósofo, o que era felicidade: e ele respondeu, “não sei dizer agora, meu rei, o que significa, mas posso dar-lhe um exemplo simples que pode, no entanto, chegar a esse conceito. Um dia no aniversário da grande deusa (Atenas), dois rapazes levaram sua mãe em uma viga para vê-la. Depois de horas, cansados, chegando à terra da divindade, sua mãe, antes de tocar a imagem, estampava a mais bela face que poderia ver num ser humano – depois disso, faleceu. Os dois rapazes voltaram para casa, e voltaram felizes, pois realizaram o sonho de sua mãe.
                                                                                                                                   (História, Heródoto)


Na grande Atenas, quando em teu seio residia a essência da grande deusa, todos faziam oferendas a ela como uma grande mãe. E era. Todos os soldados, em direção às batalhas, clamavam muito mais o teu nome ao invés do deus Marte, o deus da Guerra. Era o momento das grandes deusas naquela época.

No Egito, a deusa Isis, tão adorada pelos faraós, tinha seus monumentos ressaltados após décadas de estruturas que se levantavam em seu nome. Ao lado do faraó, sua esposa, a Rainha, quase uma deusa na visão do povo daquela civilização, tinha o papel de trazer à matéria o espírito das divindades, fossem elas Hator, Nut, Maät, entre outras com a finalidade de harmonizar o Céu e a Terra. E o faziam de forma magnífica.

Não era gratuito, no entanto, ter um trabalho no qual as bases nas quais vivemos fossem terreno fértil para o “pouso” dos deuses. Assim o faziam as civilizações nas quais o Logus masculino e feminino eram pontos centrais e evolutivos de uma raça. Em Roma, Grécia e Egito – onde era maior a incidência de eficácia e respeitos às potencialidades – a inclinação dessas culturas à reverência às divindades era tão forte ao ponto de servir de elo entre nós e o sagrado. E quando nos referimos ao sagrado, falamos de tudo aquilo que une, que harmoniza os seres, em todo o universo – seja ele propício ao bem ou ao mal – pois acreditavam que as forças duais da Natureza eram essenciais para manter o universo em equilíbrio. E é.

E o Amor, como diria Platão, o deus mais antigo dos deuses, era uma dessas forças que nos dirigiam os olhares ao Céu, às deusas, pois sabiam os grandes homens e mulheres das grandes civilizações que tínhamos, em nossa personalidade, algo que nos poderia religar com esse aspecto do Logus (o Amor). Por isso, como diria Carl G. Jung mais tarde, nas linhas de Robert A Johnson, também psicólogo, que o homem tem um pouco de intuição – características não apenas na mulher, a qual sintetiza formas mais desejáveis ao passo mais profundamente misteriosas. O homem intuitivo se revela mais reflexivo e mais prático, algo muito mais inerente à natureza das mulheres...

O Amor, assim como um deus, colocando em termos coloquiais, tem o seu papel: o de unir. O intuitivo, aquilo que mais traz essa esfera ao ser humano, se compõe no Logus feminino, por isso, as deusas seriam essa potencialidade adorada que purificava o coração dos heróis, os quais, em sua medida, repeitavam e amavam suas donzelas com toda cortesia que mereciam. Mais que isso: o herói, ao ir a batalha, sabia que, além do deus Marte, as deusas estavam presentes em seu coração, por consequência, havia de respeitar as regras morais da guerra em forma de prudência, ética e moral ao inimigo. Não havia crimes de guerra.

Esparta

Os povos dessas civilizações, a exemplo da grande Esparta, tinham suas mulheres como deusas, ou tratamento semelhante, mesmo porque havia uma cultura, uma educação, religiosa no sentido de respeitar o âmago universal, no tocante à Justiça que cada ser humano possuía em relação ao seu Logus. E a mulher, que tinha essa natureza implícita em sua alma, revelava-se mais que ser um ser biológico advindo do útero de outra...

Revelava-se, com seus atos de coragem e amor, uma portadora das divindades os quais eram implícitos em sua alma, voltados a uma época tão bela e ao mesmo tempo tão cruel que torna a mulher de hoje uma discípula natural daquelas. 

Steven Pressfield, autor de Portões de Fogo, nos mostra, em sua obra épica, que há mulheres tão fortes em caráter quanto os homens de ideais que sumiam em campos de batalha. Havia o lado forte da espartana – o qual se revela em todas as mulheres em tempos difíceis – como base para o grande homem, ou mesmo para uma Esparta disciplinada e assídua na prática dos valores ali implantados.

Uma vez, quando vinham guerreiros espartanos de uma batalha, uma mãe esperava um guerreiro se aproximar para perguntar pelo filho. O guerreiro, conhecido da mãe, passou perto dela, e disse, “Seu filho faleceu, minha senhora... Eu lamento a perda”. A mãe, pondo a mão no ombro do guerreiro, revidou, “Ele morreu lutando?”. “Sim, minha senhora, até o fim”. E a mãe, soltando do ombro, virou-se e disse "Era só isso que eu queria saber", e foi embora sorrindo.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Riachos da Vida

Riacho: vida que se vai.


E corre solto nos mares que se vão
E nas luas brilhantes da noite,
Dando mote em terras frias,
Em larvas de vulcão.

Corre como ovelhas no dia,
Na fúria de seus pastores,
Nas mães e seus louvores
A um deus de antemão,

Vai nas várzeas distantes,
Feitos estrelas amantes,
Brandindo com bandeiras
O símbolo da compaixão...

Vem voando em seu manto alado,
No sol do poeta atado,
Com mãos ceifadas pelas serras,
Em que nos vimos em vão....

Se arrasta como bêbados ao chão,
Pisados e humilhados,
Nas encostas da vida,
Com o sal da morte nas mãos.

E descansa em teu beijo,
Ao som de uma natura perfeita,
Que suga tua alma tão branda
Ao passo imperfeita,

Pedindo perdão..

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Espelho


Espelhos. O poder de dizer o que não somos.


Quando meu espelho me refletiu,
Vi estrelas castas e cometas quentes,
Sóis vadios, luas gêmeas
A me enlouquecer,

Vi pássaros gigantes,
Homens e mulheres errantes,
Em desertos frios, em mundos e rios,
A me empobrecer.

Vi cavalos galopantes,
Jovens amantes em busca do viver,
Montanhas geladas,
Deuses amados...
Vi o poder.

Vi rios transbordando,
Sonhos se revelando,
Eu me vi perdendo você.

Vi arco-íris e potes de ouro,
Vi piratas em nome do nada,
Em meio à falsa riqueza
Do verdadeiro tesouro..

Vi teus olhos chorando,
E não pude ajudar,
Feito cascatas sozinhas,
Desaguavam na vinha,

E morriam no mar.

Ah, o mar, como eu te vi!
Eram azuis tão puros
E eu tão imaturo,
Morri sem te amar.

Porém, antes, eu vi o meu mundo,
Tão friamente profundo,
Que não quis voltar,

Deveras voltar para o meu sonho,
Me enraizar na realidade,
Ser dono da verdade,
E te amar, amar, amar...
  

Mas não sou.
Sou dono do espelho,
E dele sinto que me vou,
Cheio de preconceitos,
De belos defeitos,
Que um dia o Deus plantou.

E deles tiro minha raiz,
E dela volto como rei,
Cansado das batalhas,
De saltar muralhas,

De saber quem sou,

Do espelho não tiro nada,
Apenas um vazio do que não sou,
E ao cerrar meus olhos,
Corro pelo universo,

E como criança me vou.


terça-feira, 17 de abril de 2012

Maät



No cochicho das trevas, no estridular dos grilos solitários, a noite se vai. Antes, porém, a observo solitária, e bela, e calma. Nada há de assemelhar-se, nem mesmo o sono da bela mulher que se esconde nas cobertas finas do calor, a desnudar-se na madrugada tão fria.

Contudo... na fatigante noite, apenas o olhar da lua faz um intuitivo poderio harmonizando estrelas, paz, vida, universo, Deus, e eu, num parapeito frio, feito de cimento, fazendo-me refletir acerca dos homens, e para eles, pedindo uma oração, na qual apenas a verdade predomine.

E os grilos, agora, em bando, cantam tão forte, que ensurdecem os ouvidos das árvores, que se remexem ao longe, sem vento, sem alguém para apreciá-las... Não precisam. São seres disciplinados, ordenados pelas leis verticais dos deuses, os quais sopram e formam a dança na terra, nos vegetais, nas pedras, nos animais, nos humanos, em tudo...

Assobio uma canção. Não fecho os olhos. Tenho medo de perder o mundo ao meu redor, de perder esse Amor que une, que independe das formas racionais humanas, ou mesmo canções para embelezar a real Vida...

Não sei o que sai de meus lábios, apenas assobio. Sai dos meus pulmões um ar simples e calmo, sem sequelas da alma, sem a dor pela qual nos acostumamos a passar, porém,  sinto meu ser está distante, e não sei como encontrá-lo. Parece que o perdi de vista, mas nela, todavia, perpassa a calma e ao passo a força dos Logus sem meu consentimento. É a energia vital em minha alma.

Quando raciocino em função dessa Calma, penso no Espírito. Esse ser tão falado e amado, e ao mesmo tempo tão mal compreendido, que me faz perceber o quanto somos crianças em relação não apenas a conceitos, mas também aos próprios sentimentos...

Hoje, agora, sou contemplado com a Paz de Deus, mas não posso dizer que sou um iniciado nos mistérios divinos – ou perto disso – pois um iniciado, antes de tudo, diria que os mistérios são parte de um todo, e ele faz parte dele, o que nos faz tão longe de sê-lo. Porém, como diria um grande professor “o oceano está dentro da gota, e a gota está dentro do oceano”.

Posso não ser um iniciado, mas o que tenho fora e dentro de mim faz parte de um grande Oceano chamado Deus, então por que não dizer, sim, eu tenho o espírito em mim, sim, eu tenho o amor em mim?...

Ali, naquela hora, fui ver meu filho, e dentro de minha casa percebi que há mundos nos quais vivemos, criamos e nos subjulgamos por isso, como chefes, reis, donos, deuses... Mas é apenas o racional voltado a uma personalidade viciada em desejos de autoridade, poder, com tão pouco que se tem. Ah, como eu queria entender esses vícios apenas para domá-los, desvirtuá-los de meus caminhos para que eu tenha um pequeno acesso ao grande Espírito do qual tanto se fala, se ama, se adora, se clama e ao passo mudo, pois ninguém o ouve.

Vou cobri-lo. Mas não tem jeito, ele se descobre! Suas perninhas mágicas, no inicio da madrugada, dançam sem música, desfazem a ordem da cama: é sua mente, ainda que pequena em princípios, que sonha com tudo que aprendeu na manhã, no dia, e na noite...

E somos assim, temos que aprender com nossos Dias, e aprender a sonhar, assim como vagalumes sonham com estrelas, estrelas sonham com o sol, e o sol sonha com o vagalume.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....