quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Fios de Ariadne




De Volta ao Passado...


Quando pequeno, assistia muito ao Sitio do Pica Pau Amarelo, com todas aquelas histórias inebriantes, maravilhosas, contadas por dona Benta, a vovó mais amada do mundo, criada por Monteiro Lobato, como a grande consciência daquele lugar paradisíaco, que recebia, em cada palavra pronunciada, um visitante deveras estranho, para não dizer de outro mundo, ou melhor, de outra história.

Mas o dia mais incrível fora o dia em que a senhora de cabelo grisalhos, óculos meio caídos, sentada em sua eterna cadeira de palha, nos transportou à Antiga Grécia... Quem assistiu a esse episódio sabe que Lobato era um filósofo, pois relatou-nos de modo incrível não só o Mito de Ariadne, mas contou-nos o quanto é importante tomar decisões em momentos tão difíceis.

Pedrinho, Narizinho e a tagarela Emília, juntamente com seu Visconde de Sabugosa, ajudaram Teseu -- que, à época, fora protagonizado pelo grande Gracindo Júnior, filho de um dos melhores atores de teatro do Brasil, Paulo Gracindo --, a entrar no famoso labirinto, construído por Dédalo, e matar o famigerado Minotauro.

A fantástica da cena, mesmo e apesar dos cuidados pela não violência, talvez tenha sido o ponto alto do episódio. O eterno Pedrinho do Sítio, o ator Júlio César, encarnou um amigo que Teseu não tinha, o que fora uma das maiores sacadas de Lobato, para a participação direta de um dos personagens mais corajosos da série.
Antes de terem entrado no labirinto, Pedrinho se lembra de algo que o mito não poderia se esquecer: o fio de Ariadne. Mas o grande Teseu havia se esquecido... Então, o menino, que há muito observava dona Benta em suas costuras, com seus fios de lã, busca um de seus rolos e entrega ao herói.

Os dois, Pedrinho e Teseu, passam pelo labirinto, após amarrar a ponta no inicio da construção, que dera inicio a outro mito, o do Minotauro. Assim, depois de horas dentro da construção, foram ao encontro do maior e mais temido dos monstros.

A luta... Bem... A luta fora algo antológico! Um homem com máscara de touro, forte, com ar de monstro, o que, para mim, foi um terror, e tenho a certeza que para muitos também, nos passava um medo que só se iguala ao Freddy krueger. Mas nossos os heróis não tiveram escolha, pularam em cima de suas costas, sendo que Pedrinho, o mais destemido, por mais que não quisesse, realizava um feito clássico, participava da derrocada de um monstro usado pelo rei para sacrificar sete moças e sete homens oferecidos como impostos à cidade.

Tudo isso, no entanto, nos mostrou não só a coragem de ambos, mas principalmente a possibilidade de entrar no grande labirinto e dele sair com uma solução que há muito devemos utilizar... O fio de Ariadne.


Aqui, nessa história, percebemos que Pedrinho, quando se lembrou do novelo de lã de sua vó, teria na realidade pegar o fio da heroína, Ariadne, filha do soberano de Creta, Minos, a qual morria de amores por Teseu. E este ao saber das dificuldades de seu povo no que tange ao pagamento de impostos, além da mão da donzela, não teve outro meio senão enfrentar o monstro que um dia fora preso no labirinto. E para tanto, a donzela apaixonada lhe oferece um fio, que, depois de séculos, nos faz refletir acerca de sua utilidade em nossos meios confusos, problemas, conflitos, nos quais, na maioria das vezes, perdemos o “fio da meada...”.

O Fio

O fio de Ariadne há muito nos detém um pensamento lógico e ao mesmo tempo profundo, dentro do qual sintetizamos o que podemos fazer em nossos momentos mais árduos. Apesar de os gregos sempre serem universais em seus mitos, podemos fazer analogias com o nosso próprio mundo, no sentido de nos orientar e, quem sabe, nos transformar no sentido mais humano e divino possível.

O fio que encontramos, hoje, na maioria das vezes, está um tanto quanto longe do mítico. Mas não por isso seja inválido, pois, ainda que o seja, nos retira de momentos que acreditamos ser eternos... Nossos maiores problemas!

No nível social

Há pouco tempo, vimos estudantes, além de pessoas do povo, senhores de idade, além de jovens em manifestações clamando resoluções para a problemática existencial em nosso país, desde que a corrupção tomou conta dele... Ou seja, desde sempre. Mas, sendo no Brasil, foi como se fosse um estrondo colateral, bilateral, central, afim de exterminar com os ratos falaciosos do Congresso Nacional.

Dizem que, após manifestações na Europa em prol de uma politica econômica independente do Fundo Monetário Internacional, este país viu-se na necessidade de levantar-se e fazer o mesmo... Que seja! O mais importante é que encontramos o fio que nos conduziu a levantar de nossas poltronas e a realizar o que há muito – desde a Ditadura – não se fazia: pedir mudanças.

Outro imbróglio, talvez um dos maiores que se pode perceber atualmente, é a guerra na Síria. Depois várias varridas ditatórias no Oriente Médio com seus ditadores, os sírios, com parcas ferramentas, tentar lidar com o pior deles... Bashar Al Assad, o que detém em seu poder até mesmo armas químicas...

Por isso, as nações do mundo, principalmente os Estados Unidos, maior potência da civilização moderna, estão assustados com o desfecho da guerra que lá se realiza, pois mais de cem mil pessoas já morreram em mais de cinco anos de conflito, o que, nos faz repensar a necessidade de uma invasão no sentido de frear tantas mortes de civis.



Mas a maior potência do mundo tem a saída para tal situação?






(Mais fios vêm por aí)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Traição. A Negação de Si Mesmo.



A Traição sempre se recolhe ao seu dono.


A história diz que devemos ter sempre cuidado com os traidores, ou seja, com aqueles que entregam nossos planos a outrem, de modo a nos prejudicar, sem que percebamos. E quando o fazemos, já é tarde. O traidor já se fez. Não adianta, no entanto, mesmo que seja de nossa confiança, como a um irmão biológico, ou mesmo em partido, religião... haverá sempre  o sentimento que permeia naquele que busca se aperfeiçoar à nossas custas, ou melhor, tentar ser alguém e não conseguindo inicia um processo movido por inveja, interesse... E, quando o alvo somos nós, perdemos o que temos, inclusive a liberdade.


Há alguns exemplos na história que resume um pouco do que digo...  E para iniciar, precisamos entender que a traição é uma necessidade da história, assim como a do traidor.

Mozart, o músico.

Uma vida intensa de luta


No Livro de Christian Jaq, sobre Mozart, relatando a estreita ligação dele com maçonaria, o autor nos coloca um diálogo entre o discípulo Mozart e seu mestre Thamos, o egípcio. Este, após a iniciação do músico nos mistério sagrados, e observando a maneira com a qual tinha encarado todas as formas simbólicas da Loja, sentira-se satisfeito com o pupilo. Assim, pelo amor que o havia colocado naquele dia como Companheiro, um dos graus maçônicos, viu que o talentoso músico poderia ir mais além; não por isso, entretanto, deixou de dizer que em toda história da humanidade há sempre traidores, e que tomasse cuidado...

E como todo traidor é movido, na maioria das vezes, pela inveja, Mozart foi alvo de Geytrand, um franco-maçom que desistira de sê-lo por motivos de ascensão de outros e não a dele. E movido pela psicologia da traição, o ex-maçom, agora voltado a ajudar a polícia de Viena, depois de arquitetar planos contra os mestres maçons, agora dava detalhes dos passos do músico, que só crescia, em nome do Arquiteto Maior, ao lado de uma minoria que levava a sério os trabalhos dos mestres.

No entanto, a simplicidade, a dedicação ao ideal maçom fez com que o grande músico, mesmo sabendo que estava exposto, não tivesse medo de um dia ser pego nas malhas das autoridades que iam de encontro ao seu trabalho, apenas pelo fato de seguir uma ordem.

Mozart se endividou, fora injustiçado, teve seu nome jogado na lama, mas, aos poucos, graças ao dedicado trabalho ao sagrado, iniciou seu processo de ascensão, levando Geytrand, o traidor invejoso, a cumprir a tarefa final de encontrar um plano, juntamente com outros invejosos, agora maçons, de desaparecimento do músico...

Mozart sentiu na pele todas as forças do mal, no entanto, pelo que acreditava, jamais deixava de compor suas músicas. Contra a polícia, contra governos, contra membros da própria ordem, o músico só via o céu. Ninguém poderia cessar seu ímpeto idealístico, assim como muitos heróis no passado o fizeram em nome de algo maior do que ele mesmo.

O grande músico passou por situações em que poderia até mesmo sair de imediato do mal que o assolava, mas não poderia trair seu grande ideal, que significava compreender o grande Deus, e transpassá-lo em forma de música, a todos, inclusive, aos invejosos. Mozart sabia que sua música seria eterna, pois havia simbolismos carregados de uma tradição que jamais seria esquecida. Não um esquecimento racional, mas intuitivo, em que todos, de modo interno, sentiriam, em sua música, algo que os levasse ao passado, ou mesmo à origem de si mesmos, a nossa origem humana.

E Bordas de Fígaro, Don Giovani e a Flauta Mágica foram trabalhos, entre tantos, que nos elevam do inicio ao fim, como se fôssemos anjos eternos, e que tivéssemos tomado essa consciência no minuto em que as escutamos.

Não adiantou muito – e nem adianta – traidores como Geytrand tomarem providências às avessas contra heróis cuja vida significa uma busca desenfreada à verdade, ao mistério, a Deus, pois estes heróis, após sua morte, tornam-se mais fortes, e suas ideologias maiores ainda.

E Mozart, na música, foi um deles.

E outro grande herói que nos levou a repensar nossos atos, agora frente à liberdade foi...

Willian Wallace, o guerreiro

Um coração valente


Há muito quando a Escócia era colônia da Inglaterra, e reis decretavam a prima noctia, a primeira noite com a mulher do camponês, surgia um grande herói, Willian Wallace. Filho de guerreiros da resistência, Wallace reanimou os espíritos frios de liberdade em uma nação colonizada, quase morta, pelas humilhações a que passou.

Mas como toda história tem um traidor... Wallace fora morto, depois de ter sido preso por um homem que se jugava correto, e ao mesmo tempo em dúvida quanto ao poder de consecução do guerreiro.  

Um dos filhos das terras nobres, a que tinham direito aqueles que possuíam descendência escocesa, sob o jugo da Inglaterra, tinha ficado amigo de Wallace, até seu admirador; contudo, mesmo o conhecendo e, ainda, depois de várias batalhas ganhas pelo herói, o nobre filho da Escócia, na última batalha, encarregado de levar todas as suas tropas, aceitara do rei Lord Shang terras infindáveis como forma de suborno...

Willian, durante a batalha, ao saber que seu “amigo”  não viria, dera tudo de si, mas não fora o suficiente. Naquele instante, no meio da batalha, aparecera um cavalheiro armado da cabeça aos pés somente para lidar com o herói... E não intimidado pelo reflexo, partiu para cima do blindado e, em lances medievais, os dois se chocam, deixando apenas o pobre Willian no chão...

E no chão, com um olhar amargurado, pôde perceber, depois de retirada a máscara, que seu amigo nobre era o mesmo quem lhe dera esperanças antes da batalha. Esperança essa que se ia também nos olhos do cavalheiro blindado, que, depois de ver o herói ensanguentado nas pedras, sentiu uma profunda da dor pelo que fizera. A traição tinha perdido sentido...

Mais tarde, em seu castelo, o nobre, depois de ter-se reconciliado com Wallace, o chamou para fazer as pazes, e quem sabe voltar a planejar novas batalhas. No entanto, mal sabia ele que seus soldados não mais acreditavam em Willian, e que somente esperavam sua presença para deter aquele que um dia queria ver seu país livre.

No coração de Wallace, assim como o dos grandes heróis, batia uma nova esperança, a de que faria as pazes com o nobre, e ao mesmo tempo sabia que iria para mais uma cilada que poderia, dessa vez, ser o seu fim.

Willian Wallace, um dos maiores guerreiros da Escócia, um dos maiores responsáveis pela luta por sua liberdade, lutou contra tudo e todos, porém a vida, como sempre, nos apresenta traidores de diversas linhagens, as quais nos impressionam ainda depois de muito tempo.

A liberdade da Escócia, assim, como a de hoje, em qualquer país, terá sempre a mesma face. Os heróis, no entanto, mudam de cara, e na maioria das vezes, com a mesma esperança do passado, ou seja, de ser um país independente, longe de culturas que vêm  apenas para massacrar, distorcer e deixar o país colonizado em ruinas. Assim como o foi o Brasil para Portugal...

E por falar em Portugal...

Tiradentes...


A ideia de liberdade do povo foi válida


Fora o único dos inconfidentes a ser julgado e morto. Depois de ter sido enforcado, seus pedaços foram distribuídos em vários lugares do Brasil Colônia, à época, comandado por Portugal.

Joaquim José da Silva Xavier, em meio à crise colonial, na qual o colonizador não tinha forças para governar, apenas destratar os cidadãos, iniciara um processo de conluio contra donos do país, após entender que o Brasil poderia conseguir sua liberdade conscientizando o povo miserável da inércia pela qual estava passando.

Em reuniões com seus companheiros, Tiradentes, assim conhecido, não sabia que entre eles, havia Joaquim Silvério dos Reis, que, ao saber dos planos perfeitos do líder, relatava-os ao colonizador.

Muitos dizem que tais planos se resumiam em sair às ruas, e com todo alarde, dizer ao povo que estavam sob o jugo de um governo espúrio, que queria somente sugar todas as possibilidades de crescimento ou desencadeamento psicológico! Será que Tiradentes leu a República de Platão??

Claro que não. Ele apenas tinha poucos argumentos na manga, e um deles era quase que suicida (ou fora), pois a maioria, se desse certo tudo que havia planejado, não compreenderia, não ouviria, estranharia e, quem sabe, o esquartejaria...

Na essência, sua ideia de liberdade era bela. Contudo, não poderia tê-la colocado em prática da maneira como planejava. Mesmo que tivesse tido com todos os intelectuais da época, mesmo que as estratégias fossem poucas... Ele teria que ter obtido alguns amigos da corte portuguesa com a finalidade de facilitar-lhe a execução do plano, que já nascera morto.

Tinha, ainda, que ter um pequeno efetivo de pessoas capazes de ir à luta armada, ou não. Dessas, algumas que fossem mais ousadas no sentido de exterminar todas as possibilidades de crescimento tático e prático do exército do inimigo... Contudo, como eu disse, o bebê já nascera morto... ou enforcado antes do tempo...

Mas não seria o único, pois temos mais um traidor que pode ter morrido enforcado...

Judas Escariote, da Galileia

Se fosse hoje, haveria um julgamento..


Após Cristo se reunir pela última vez com seus discípulos, Judas se despedira de todos para armar uma cilada contra o rabino. Assim, o discípulo de Cristo, já perdido entre o que fazer ou não, fora até as tropas romanas e teria dito onde Jesus estava. Depois de receber seu dinheiro, Judas teria se arrependido após o tratamento dado a Cristo. Mas de nada adiantou...

Segundo alguns, Judas teria traído Jesus pelo dinheiro, e outros, porque ele, Judas, acreditava não somente nos “poderes” de Jesus, como também na possibilidade de mudança radical que poderiam fazer, como, quando fosse preso, poderia livrar-se dos soldados como a um super-herói, quebrando, batendo, e, mais tarde, livrando seu povo do jugo do Império.

Depois séculos, sabemos que a mudança que Cristo nos faz é tão misteriosa e ao mesmo tempo tão forte, que nenhum super-herói poderia fazê-lo ou mesmo sê-lo. A pergunta que se faz é... Será que Judas realmente queria trair Cristo? Pois, indo e vindo, caminhado com Salvador dos Cristãos, em sua empreitada para a mudança interna, quem o trairia para somente satisfazer-se financeiramente?... E se fosse para saber se tinha ou não “superpoderes”, será que todos aqueles dias não eram suficientes para saber se o mestre dos mestres tinha apenas um meio, um caminho, uma arma para a mudança humana? Etc, etc...

Alguns autores já lançaram livros relatando a vida de Judas, e neles, depois de pesquisas profundas acerca da Bíblia e dos achados, dizem que o ex-discípulo de Cristo não fora nenhum traidor. Pelo contrário. Segundo eles, o traidor teria sido um dos melhores amigos do rei dos judeus.

Enfim... Mais uma vez, caímos em uma daquelas modificações feitas na história, em que elegeram um traidor para esconder algo ou simplesmente copiaram para continuar um contexto incompreensível das escrituras. Ou será que tudo foi simbólico?

Princípios

Depois de anos, pensamos nos traidores, odiando-os, subjugando-os, os vendo com os piores dos olhares, fico a refletir acerca dos princípios nossos de cada dia: como são traídos! E mais, por nós!

Passamos nossa vida quase toda trabalhando em tijolos fortes, em ideias firmes, em experiências únicas, para um dia... Trairmos tudo que somos. Por quê? Uns dizem que somos feitos de carne e osso, outros que somos fracos, mais alguns que até mesmo Cristo não fora perfeito, então nós...

As desculpas se tornam maiores quando erramos por causas simples, mas quando somos obrigados a enfrentar a nós mesmos, como se fôssemos o rato sem saída do laboratório, dizemos que princípios são para mafiosos, estes cuja paciência se resume em “mate-o”, e pronto, nos traz admiração e ao mesmo tempo medo.

Porque se somos pessoas de bem, qual o motivo de trairmos nossos princípios como se fossem crianças? A resposta é que não acreditando que, traindo nossos princípios estamos traindo a humanidade, nos faz mais confortáveis.

E a partir dai, com desculpas religiosas, políticas e familiares, construímos princípios nos quais se pode tudo, até trair a si mesmo.

A negação de Pedro


Simbolismo da negação do que somos.


Nas Escrituras, podemos ter uma prova disso, quando Cristo, antes de ser preso, disse “E tu me negarás três vezes antes de o galo cantar duas, Pedro”, e o fora. Na hora maldita, mesmo não acreditando, Pedro olhara para si mesmo, e vendo seu mestre sendo levado pelos soldados, não acreditara que o teatro estava se formando até que um soldado lhe pergunta, “Você não é um daqueles que acompanhavam o nazareno?”... E eis que o discípulo responde.. “Não, não sou. O senhor está enganado”.. E assim Pedro negara mais vezes, antes que o galo cantasse...

Aqui, na realidade, existe um simbolismo no qual, em diversas tradições, podemos observar, que é a traição de si mesmo, ainda que seja a relação de homem com o seu Eu, quando ele está entre a matéria – podendo ser os problemas diários, seus desejos e paixões, seu amor passageiro... enfim, quando o próprio homem, ao passar por tantas experiências em que ele é o protagonista, e coloca a matéria frente ao que ele supostamente acredita no sentido espiritual... A matéria vence.

E dessa forma caminhamos, porém, de maneira crítica com relação aos passos do outro, mas não observamos os nossos...

Essa é a pior das traições.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Sete de Setembro: saudades.




Natal de 2002: da esquerda para direita. Sorriso inesquecível.




Enquanto o desfile se fazia, passeatas de rua, em paralelo, se transformavam em guerra. Pessoas que andavam nas ruas de hoje não eram as mesmas de ontem – e nem poderiam ser,--- pois, ainda que fossem os filhos dos filhos..., pensamentos de “tomar consciência” do presente político tomavam, choravam, e se enlameavam  de dores que o passado nem sequer tomou partido.

Partidos...ah, esses sectários de ideias confusas que desarmonizam mentes jovens em nome do nada... Esses donos de pequeno universos, desligados da humanidade, do povo, e até mesmo da própria família. Esta um tesouro tão precioso, que modificara a estrutura do mundo, desde que o mundo soube interpretá-la...

Foi sete de setembro, o dia da hipocrisia. Soldados marchando com medo dos meninos astutos, com máscaras, com ódio, e sem armas. Armas talvez de pedras, saqueadas de destroços que eles mesmos o fizeram. Armas pontiagudas, tão perigosas quanto às de fogo, pois ali, em praças, nas quais transeuntes imperfeitos e perfeitos, se manifestavam ora pelos cavalos, ora por outros cavalos, presidentes, governadores e prefeitos fingiam sorrir em nome de uma pátria tão... tão distante.

Nem tudo, no entanto, se fizera de absurdo. Em algum lugar desse país, comemorava-se o aniversário de uma rainha que um dia, em vez de ficar em seu trono, preferiu ausentar-se dele e cuidar de seus filhos. Foi assim, meu sete de setembro...

Nele, as conversas eram comedidas, as músicas, as piadas, até os gritos, mas não as lembranças e o amor que um dia por ela sentimos e por elas sentiremos sempre. Tudo em homenagem à nossa mãe querida, que um dia nasceu patriota, e assim se foi...

Lembro-me, até hoje, que amava cantar as músicas, os hinos das bandas marciais, nas quais bandeira, flâmula, país, soldados eram elementos que a faziam soltar a voz e o choro. Disso eu tenho inveja.

Queria, pois, que meu filho (ou filhos, no futuro) amassem esse país tanto quanto ela amou. Mesmo advindo de origem humilíssima, de caminhos tão trôpegos, de frutos tão longínquos, conseguiu nos passar o amor ao país.  Se todos que nascessem nessa data fosse assim...

Mas ela, minha mãe, não apenas como rainha, mas também uma “generala” que assumia os seus e nossos problemas, os resolvia, sintetizava em um... “levante a cabeça”, combateu como poucos a sua batalha pessoal; nos levou ao patamar de príncipes e princesas, realizou nossos sonhos básicos, e com base em seus ensinamentos maternos, nos deu todo amor do mundo...

Nesse dia, sete, ela estava lá, sentadinha em sua cadeira, cruzados os braços, com uma carinha emburrada por não ter que servir mais ninguém, conseguiu sorrir conosco em cada conversa, soltou sorrisos hilários em direção ao seu genro principal, o qual, desde então, sofria pelas brincadeiras que ela, amavelmente, lhe servia depois do almoço.

Nesse dia, ainda, reviu conosco cenas antológicas em que todos nós, um dia, inclusive seu filho maior estivera conosco, estivemos juntos. Graças aos vídeos de terceira que gravei nos anos oitenta. A família se viu, sorriu e chorou. Pois a maioria estava ali, adulta, formada, com barbas; e as meninas, antes pequenas raízes que engatinhavam, agora possuíam filhos, ou estudantes prontas para passeatas...

Nesse dia, desse grande mês que se iniciou, ela esteve lá, cansada, mas alegre, com seu jeitinho sutil de saber o que cada um pensava. E olhava para cada um. E para mim, seus olhos enraigados de felicidade lacrimejavam feito criança que quer alguma coisa... E eu sei o que ela queria. Era dizer que nossos caminhos estão livres, para tomarmos nossos rumos. Dizer que cada neto, cada filho, que ali estava deve ser a semente natural da família, e na simplicidade da união diária do coração, devemos estar sempre juntos.

Sete de setembro será sempre o mês da senhora, mãe. Não adianta dizer que não precisa, pois eu sei o que a senhora pensa. Mas faremos o possível para alimentar mais esse amor que nos deixou e que nos faz  unidos, mesmo quando não estamos juntos.

Ontem, se foi. Hoje já é outro dia. Mas não haverá tempo algum em que jamais nos esqueceremos da senhora.



Um grande e saudoso abraço do teu filho que te ama.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Um Prólogo à Felicidade



"O Homem virtuoso é feliz por si mesmo"

Platão


Na pressão diária não conseguimos pensar nada sobre o que é felicidade, amor, justiça, verdade... Não conseguimos, sequer, entender nosso papel dentro de uma família, sociedade, país. Pois, o que nos vem nada mais é que uma avalanche de notícias, boatos, fofocas, alegrias histéricas, que nos deixam sem o racional na hora em que trabalhamos, estudamos, ou mesmo estando em casa...

Era para ser diferente, pelo menos no último item. Pois não haveria nada melhor do que o nosso refúgio para sair desse emaranhado de tormentas que destroem todo nosso poder de refletir acerca do que é realmente bom para nós.

Chaplin, nosso querido autor, diretor e personagem de comédias clássicas, em seu “Último Discurso”, dá um recado ao homem moderno... “criamos a época da velocidade, e nos sentimos enclausurados e perdidos dentro dela”... Ele, o grande Carlitos, não se referia apenas à evolução das máquinas que nos consumiam a alma, mas também a nós mesmos, que sucumbimos ao pensamento capitalista em ter sempre, buscar sempre o consumo desmedido, nos esquecendo daquilo que mais interessa...

A nossa própria felicidade.

Tão falada, desvirtuada pela espécie, a nossa felicidade tem ido em direção oposta ao seu destino, graças ao achismo, às incertezas, ao desvirtuamento natural humano em relação ao que é e ao que não é...

Essa relativa maneira humana de ser vem trazendo, ao nosso viver, todas as possibilidades, menos a real, de se entender o que é felicidade, justiça, verdade, essa deusa esquecida, abandonada e ao mesmo tempo tão distante de nós... Pois o que achamos é muito melhor do que busca-la, entende-la, ouvi-la e respeitá-la.

É natural que a humildade às vezes supere todos os valores em meio ao que o homem busca, porque, de tanto buscar, se esquece do real sentido. De tanto ir atrás do que é, esquecemos o que realmente é.

A correria, a loucura diária, a falta de entender as origens, de retirar o sumo do que a história nos trouxe, nos fez velhos antes do tempo. E, infelizmente, acaba atingindo a memória, e mais: a lembrança de que nascemos para sermos felizes, ainda que, ao nosso lado, more a injustiça, a mentira, a corrupção, a demagogia...

Enfim, temos que nos sentar, por a mão no queixo, olhar a dor dos homens de perto, tentar relativizar tudo, transformar em energia, elevar ao mais alto dos sentimentos, acender a alma, rever nossos conceitos, descartar aquele que individualiza, ressaltar o maior todos – aquele que cobre como manto nossos corpos, e nos edificar onde quer que estejamos.

Olhar para cima, sentir os raios sagrados sol, que perpassam a razão, a emoção, a intuição, e por fim, encontrando nossa vontade. Ali, em algum lugar de nosso ser, no início do terceiro andar, mora a felicidade...

E os gregos e tradição

Já que estamos reverberando acerca da felicidade, nada melhor do que dar uma voltinha na filosofia clássica, e tentar entender as reflexões dos poucos que fizeram e fazem, de hoje, nossas vidas um pouco melhor.

Tradição

A Tradição, água eterna dos homens eternos, sempre nos dedicou muitas páginas de seus filósofos, os quais dedicados não apenas a seus contextos vitais, mas à humanidade, tinham sempre “opiniões” acerca do que era a felicidade, mas, como tudo que se refere ao clássico, tais filósofos tinham como referência o próprio espírito humano. Ao contrário de nós, que sempre temos nossos interesses, sejam eles familiares, sociais, capitais...

Felicidade?

Por mais estranho que seja, felicidade, em grego, veio de “eudaimonia”, o que significa, mais ou menos, um demônio bom, ou um bom demônio... Ou seja, uma espécie de semideus, de gênio. Então, a priori, para ser feliz, teríamos que ter, em nós, uma espécie de anjo para nos acompanhar. E para o grego, isso era certo.

Era um pensamento, apesar das caras feias, religioso. Pois refletia a ligação humana com o invisível. Porém, claro, havia, dentro dessa crença, a possibilidade de demônios maus, o que era contrário à sorte, à felicidade humana. E isso era retratado no pessimismo, na doença, na dor de perder alguém – como hoje porém, ao mesmo tempo, saber que no cenário humano tudo se passa, tudo se vai.

E o teatro grego iniciou seu melhor processo cultural no teatro, e dentro dele as nuances da vida, tão fantástico como qualquer outro antes jamais visto. E nesse teatro a Filosofia platônica, aristotélica, pós-socrática, etc, começou a criar uma visão mais aberta, rompendo com o pessimismo, levando a todos a busca mais sutil dentro do ser humano.

Platão. Para o céu.

Platão dizia que o homem virtuoso era feliz por si só, pois trabalharia a universalidade em si mesmo, por meio do Conhecer a Si Próprio, evadindo-se dos conceitos relativos, em busca da divindade a que tanto esquecemos e somos.

Demócrito, filósofo, dizia que a felicidade se reduzia a medida do prazer e a proporção da vida... Ou melhor, estar sempre longe das paixões, do que é relativamente passageiro, até mesmo da ilusões e alcançar a “serenidade”.

Para Sócrates, a felicidade não era apenas a busca na satisfação física, dos desejos, mas principalmente da alma. E tudo isso poderia ser alcançado em atos virtuosos e condutas justas. Para o mestre de Platão, era melhor sofrer uma injustiça do que praticá-la. Por isso, se diz que Sócrates, apesar das condenações que sofrera, morrera feliz.

Platão, ainda, depois da morte do mestre, compreendera, tempos depois, e tentou nos resumir, em sua filosofia, que a felicidade do olho é ver, do ouvido é ouvir, e da alma é ser virtuosa e justa, de modo que, exercendo a virtude e justiça, obtém-se a felicidade...

Aqui, nas entrelinhas, podemos encontrar a Ética (ethos), que era a parte prática da Moral (mores), que funcionava como teoria e prática na filosofia grega. Nela, a Ética não se fechava em negócios, em partidos, mas dentro de um universo – de repente o Estado – o qual se encarregaria de fazer os homens bons e felizes. Mas também dentro de um mundo ideal que abarcava uma realidade tão perto e tão distante do homem.

Contudo, o assunto ficou mais relativo, simples, terreno em um dos discípulos de Platão, o qual o foi um dos melhores deste, mas que, por não ter a experiência iniciática do mestre, resvalou-se em conceitos físicos, contradizendo alguns dos conceitos que Platão racionalizava em seus clássicos.

Aristóteles, de volta à terra.

Aristóteles, em “Ética a Nicômaco” – a seu filho –, dizia que Platão tinha se esquecido dos conceitos básicos, como a boa saúde, a liberdade, e uma boa situação socioeconômica para alguém ser feliz. Ao passo que, no limiar de sua filosofia, dizia também que a felicidade da mente era a filosofia, a qual nos aproxima da divindade...

Vai além. Aristóteles diz que a política é a extensão da ética. E que o Estado, em primeiro plano, teria que se preocupar com a felicidade do indivíduo...

Infelizmente, Aristóteles “organizou” de seu modo a felicidade. Não que estivesse errado, mas deixou de refletir acerca do que poderia ter sido o tema quando seu mestre Platão o dispusera, mas, mesmo assim, esqueceu-se de ligar vários pontos, pois seu mestre falava de uma felicidade maior, mais ampla, eterna, arquetípica... Ideal.


E para terminar, ficamos com Epicuro, criador do Epicurismo, após a formação do helenismo três anos depois do avanço de Alexandre na Europa. Dizia Epicuro “A felicidade deve ser um prazer duradouro”. Não um prazer relacionado aos desejos, mas a parte que o homem tem direito como ser que busca, além das próprias medidas, seus objetivos.

Falava Epicuro da felicidade como um todo. E que o homem a teria dentro de suas possibilidades um pouco dos seus raios, se a buscasse com prazer, com amor.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Terra, Água, Sol e Vento, Um Sopro de Vida.

Os Quatro Elementos. Componentes de Deus.







E sol nasce por ele mesmo, adentrando em astros como a lua e em estrelas estáticas, num universo tão presente. Ausente apenas a brisa no espaço, dando margem ao vácuo, ao não ruído. O silêncio de uma respiração divina se faz.

E a brisa, ao descer do abrigo do espaço frio, torna-se vento; e por momentos, ao passar pelas surdinas, por janelas infinitas, se vai. Torna-se vento forte, levando a moça do rio, o homem na chuva, a poeira no rosto, o assopro à ferida.

Vem a tarde. Vento que debruça o capim e a vara forte; sol que machuca terra seca; homem que morre em busca de água. Trovão. Esperança na lavoura, cansada de morrer à míngua pela falta de terra, de água e vento.

E na montanha fria, tão fria pelo vento que vem do norte, nasce o homem forte, que sobe o pico, e, na escalada ao mundo gélido, sorri como menino em montanha-russa. Nela, o pássaro passa; um voo raso ao lado da cria que grita, pede, clama, e em nome do instinto cai do ninho, machuca-se, e morre.

A montanha obedece ao céu. Assim como a árvore que sobe com suas galhas, frutas que descem na gravidade caem na terra malvada, que envelhece o fruto, comido pelo fungo, pelo verme que passa, arrasa e desfaz a matéria.

Da matéria vem a tensão...

A tensão da árvore ao receber o vento, do lírio que se inclina com a brisa, da água que rebenta o dique, da lágrima que, roliça, cai dos olhos humanos, em nome de um coração ferido. A tensão dos pássaros, da folha que cai, amarela, envelhecendo e sendo levada pelo pequeno sopro da vida.

Nasce a matéria humana, como um girino no útero da mulher, chora feito um pequeno animal sem dor; vai ao peito por instinto, alimenta-se como um leão sem juba; cria corpo, desenrola-se em braços, pernas, sorrisos, choros, e obedece sua fome.

Cresce, se fortalece, cria o racional, inteligência, busca, e vai atrás do que seu coração pede: amor. Vem a experiência da guerra contra si mesmo, amadurece, reflete, abraça, vê, sente. Anda em seu caminho, não mais do pai. Sonha, realiza, vive e sobrevive. Se cansa, senta-se, enruga seus olhos e pele, mas não sua alma.

A busca se faz; o encontro demora. A luz do nascimento, não apreciada no inicio, vem como a do sol, como uma coroa dourada na cabeça do homem. Sem sorrisos, sem lágrimas, sem sonhos. Apenas o mistério em partir para um novo início, por trás das cortinas da visão.

E o grande sopro da vida se faz. 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A Rosa e o Cravo






Enredei meus caprichos nos teus,
Fui ao inferno de Dante,
Ao semblante errante,
Recaí em teu corpo véu.
Purifiquei minha´lma bandida,
Distraída pelos lírios belos
De teus olhos sérios,
Rimando com os meus.
Cantei em tuas pernas,
Desapareci da vida,
Voltei amante de seus dedos,
Perseguindo teu amor.
Beijei-lhe os cabelos,
Por trás de tuas serenas,
Na pupila do teu mundo,
Ao passo, fui profundo...
Arranquei teus lábios,
Em beijos só meus,
Sorri com ar macabro,
Ao descer ao desejo teu.
Na luz em penumbra,
Na tarde que se fazia,
Janelas cerradas da cerra
Abriam um sol sem sentido.
Perseguido e perseguidor,
Num drama entre rosa e cravo,
Fui teu escravo,
Foste minha dama por louvor.
Corri meus sonhos,
Os realizei ao teu lado,
Pois, como falcões a tua procura,

Fui um bendito homem alado.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Fagulhas do Passado: Bullying com Café.


Toda experiência é válida se soubermos canalizá-la.




Conversando com uma grande amiga acerca do bullying, tive a impressão de que ela havia se enganado ou eu estava enganado sobre o tema.  Vamos nos localizar... Segundo os dicionários, bulliying é um termo que tenta descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidas, praticadas por grupos de indivíduos causando dor e angústia... Enfim, é tudo que sofríamos em décadas passadas, por quadrilhas, ou encrenqueiros que nos visavam como diferentes em uma sociedade, de modo a sermos reprimidos por isso...

Mas... Voltando, na conversa com essa querida amiga, ela era a “favor” do que ocorria com as crianças e adolescentes em razão do aprendizado que tinham (ou têm) como forma de experiência... Eu, não sei porquê, dei, naquele minuto, razão  para ela... Mas depois vi que fui prematuro. Todas as formas de violência, da menor a maior, evoluem com o tempo...

Todo Mundo Odeia o...

Na década de setenta, por volta de 1978, quase oitenta, não havia o facebook, Orkut, e-mails, enfim... A internet. Aqueles que sofriam de bullying, ainda que fosse um ato desmedido de marginais ou inimigos de plantão, ainda estava na gema, ou seja, não tinha a dimensão que hoje tem.

Lembro que amava as salas de aula, de uma pequena escola em que estudava. Cheia de colunas de madeira, pintada anualmente com vermelho vinho, com eventos simples e inesquecíveis, porém resguardava, em razão da Ditadura, professores e alunos que se sentiam os próprios generais, e não abriam mão disso
.
Não adiantava meu amor todo pelos estudos, se ali, naquele ninho de aprendizado, eu tinha minhas piores experiências, ou melhor, quase, porque havia outros grandes amigos que possuíam a grandeza e  o carinho em me proteger dos anormais que me seguiam apenas para saciarem seus egos.

Não gosto de citar nomes nessa hora, nem me aprofundar nos males. Mas, para esclarecer o que era a violência psicológica e física que sofria, é preciso deixar bem claro que não era diferente da de hoje. O mal de hoje, saliento, são os meios de comunicação criados pela rede mundial de computadores.

O Pequeno Mal

Ele era magro, muito branco, corpo não muito forte. Rosto com queixo pontiagudo, olhos de pessoas más. Situação financeira excelente, irmãs lindas, e com uma mãe que não valia o que comia... Éramos pré-adolescentes, e queríamos todos a mesma coisa: estudar. Menos o verme.

No entanto, não sei a causa, talvez em razão de minha má formação física, que hoje é meu charme, para não dizer outra coisa, de o desafeto me perseguir todos os dias, menos no dia em que ele ou eu não íamos à escola. E, quando vejo aquele seriado “Todo Mundo Odeia o Cris”, penso um pouco acerca do que me ocorria na época, pois querendo ou não, fica em nossa alma.

Em sala de aula, o infeliz sentava-se longe de mim, e sempre a espreita de minha pessoa, dizia que eu era culpado de tudo: do seu lanche que caía, do seu lápis que sumia, da borracha que acabava, da água do colégio que faltava... Enfim, só sei que, todas às vezes, meu pescoço era segurado, ao ponto de ser levantado junto à porta da sala. E ninguém fazia nada...

Minto. Eu, como eu disse, havia amigos que possuíam um grande afeto por mim (talvez porque morasse perto de minha casa, ou medo que minha mãe soubesse do fato sem que ele tivesse feito algo por mim, mas...) a meu ver, um grande amigo que me salvava desse ser que nasceu para lembrar dele como o percussor do bullying. O Cris, do filme, não tinha quem o salvasse rs.

A Salvação Real

Minha salvação, na realidade, é que, na época, os meios de comunicação não possuíam a tecnologia que possuem hoje. Eu, com certeza, se houvesse, não teria espaço. Não sairia de casa. Estaria debaixo de uma cama. Estaria sendo massacrado friamente não apenas pelo imbecil, mas pelos que acreditariam que ele estava certo. Pois o face, o Orkut, os e-mails, os grupos, e todos os corredores da escola estavam a minha espera a me dar aquele murro psicológico... É a morte prematura de um individuo e de uma sociedade.

Fui salvo várias vezes pelo meu amigo e herói, que, hoje, com certeza, deve se lembrar de suas proezas e de quantas vezes me salvou do mal que me assolava. Mas, nos dias em que não ia, as dores faziam parte de mim assim com faz parte até hoje em determinadas circunstâncias, mas, como disse a amiga do inicio..., foi bom ter sofrido tudo aquilo. Não sei, na realidade, se posso dizer a mesma coisa desses que sofrem hoje...

Hoje, trinta anos depois, posso sorrir e sentir ainda nas veias cada palavra injusta que senti. Mas os de hoje, daqui a trinta anos, podem não mais existir, pois é de tal maneira tão injusta a violência, que há suicídios daqueles que sofrem.

Não tem nada de experiência aí. Se houver, parabéns. Pois passou e sofreu, elevou-se, deu o melhor de si, perdoou, seguiu em frente, e se transformou em uma grande pessoa. Desse, eu espero que nasça o melhor dos seres humanos, pois não seria apenas uma experiência normal pela qual passou, mas algo que a maioria do passado espera vencer.


FILHOS

Observando a prática desse ato inconsequente, penso muito em meu filho, e percebo o quanto meu amor por ele é grandioso, e a cada dia que passa somos afins em diálogos, em comportamentos, em desejos um pelo outro, de modo que jamais gostaria que houvesse qualquer tipo problema relacionado a grupos marginais ou não. Sei também que, se houver, vou até as últimas consequências contra aquele ou aqueles cuja educação não passa de tributo ao mal.

O medo em vê-lo crescer e se transformar em vítima desses algozes adolescentes, filhos de internet e do controle remoto, é ainda pequeno, mesmo porque ainda tem cinco anos de idade; porém, nascer e crescer nesse mundo vil, cheio de vermes nascidos em camas em lençóis de linho, preocupa não só a mim, como a todos os pais.

Combatemos o bullying sim!




A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....