quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Sonhos que Vivi.

Penso em colocar para vocês, e espero não enche-lhes a paciência, um pouco de minha infância, adolescência, de seus momentos puros, ingênuos até, como se fosse um pequeno diário a alguém que preza ainda as artimanhas sem maldades. 


Não tenho vergonha de minhas origens. E você?

Primeiro amor

Em pequeno, na primeira série, me apaixonei. Uma menina linda como uma sereia sorridente, que ondulava seu corpo naquele andado tão quente e singelo, que nunca irei esquecer mais na minha vida... Depois dela, outras e outras, como pragas em minha alma; mas o que mais me impressiona nisso tudo é que eu, ainda que sofresse, gostava e me alimentava e corria atrás desse sofrimento gostoso... Para muitos não.

O Banheiro

Lembro-me ainda de minhas peripécias em tentar ver meninas nuas a entrar no banheiro, e já que o danado era de madeira, longe das possibilidades de segurança, corria para trás dele, ficava atento às falas, aos comentários, e sorria bem baixinho, como um rato que sabia onde estava o queijo e sabia como pegá-lo... Era mais que isso. E queria vê-las nuas.

Meus olhos, mãos, corpo em geral, em um só ritmo, tremiam de medo, apesar do sorriso. É claro que alguns amigos já sabiam, mas não a maioria; o que me fazia, depois do atentado, um santo que só estava passando e de repente... Foi obrigado a usar a parte traseira de um banheiro lotado de mulheres!

Sim... Havia sempre enxames de mulheres. Vizinhas ou não. Todas elas usavam aquele “biongo” no fim do quintal para tomar banho. E eu, inocentemente, dono de uma travessura pura, estava sempre lá...

Primeiro Beijo

Mais tarde, em meu primeiro beijo – como um vento que colidira com outro – achei, enfim, que Deus existia. Sentia-me os últimos dos homens, mas nem tanto claro, pois, por onde eu passava, fosse ao lado de minha mão, ou mesmo ao lado de minhas irmãs, sentia que estava sendo observado daquela maneira, quando meninas cochicham no ouvido da outra, davam-me um tiauzinho, junto com sorrisinho, e... Pronto.

Que bobagem; penso; depois de tanto tempo, de tanto por que passei, ainda me importava com aquilo. Mas me importava porque eu tinha sempre essa queda para o abismo, para a pedreira do juízo final, graças a problemas específicos que eu possuía e ainda possuo, graças a um erro médico quando eu tinha uns cinco anos de idade...

Porém, não menos importante, o beijo saiu. Uma menina linda, amicíssima de uma de minhas irmãs, que sempre andava por perto de casa, às vezes dentro, tinha um afeto maternal por mim, apesar de sua idade (quase dois anos mais velha), sendo que eu, no primeiro beijo, deveria ter meus dez anos, então tudo bem rs.

Seus cabelinhos lisos que iam até o pescoço; sua pequena estatura como a de uma menina que tinha saído de um programa de criança; seu olhar cativo, e o que mais me impressionava... Sua pele...! Meu Deus do céu, o que era aquilo?! Seus olhinhos de bolinha de gude se arremessando de um lado para o outro, sua graciosidade fêmea, mas a sua pele...!

Não sei mais o que dizer sobre isso. Apenas sobre o beijo. Fortuito, rápido, mensageiro da esperança, liso, nem quente ou frio, breve. Sei o quanto nada significa aos leitores, claro, mas experiências há no mundo que nos fazem vê-lo (o mundo) com mais graça, ou melhor por uma ótica mais simples e bela; e, naquele dia, não sei qual da semana ou do mês, nem mesmo o ano, a Patricinha da Roça, que se escondia em meus sonhos, revelou-se e me deu um beijo... O beijo... O sonho... O roçar da alma (caramba!)... Achei que ia-me casar com ela! Na verdade, para ela só foi mais um entre duzentos que tinha dado em sua legião de coitados...

O Bilhete da Patricinha

Muito anos depois, em minha empreitada estudantil, sem qualquer motivo para ir em busca de beijos ou de meninas (claro que isso na vida de um homem é inédito, então.. é mentira, né), e voltado apenas ao espirito vocacional, sentia-me cansado. Eu, um flagelo do mato, estudava muito, por isso, nada de sentimentos, de paixões, de... Ah, vocês sabem!

Vamos ao assunto. Meus amigos, mais ou menos uns dois com os quais eu andava nos corredores daquele colégio, tinham resolvido me deixar sozinho por alguns dias. Foram jogar bola, paquerar, falar besteiras, invés de colocar em prática nossas lições, ou fazer trabalho escolar... Enfim, o que eu achava de bom à época.

Sentido a falta do sorriso, das brincadeiras dos caras, das conversas fiadas, eu me parecia um pinto abandonado no lixo, e nada melhor do que se sentir assim perto de uma menina linda, cheia de pena e amor para dar. O nome dela era Aline...

Olhos verdes, cabelos loiros curtos, sorriso de cristal, e uma educação de princesa. E pelo jeito, uma dó de mendigo que só!

Queria dizer que não era apaixonado por ela. Sua majestade educacional, seu jeito de ser para com os mortais era só dela, e isso me “incomodava” no sentido de não saber o que sentia por ela; era uma muralha boba que me separava. E talvez esse respeito que tinha para com ela me ajudou a lidar com as mulheres mais tarde...

A verdade é que Aline sabia que não poderia ter nada comigo e vice-versa; mas seu sentimento humano era como o pôr do sol. Todos sabiam que era dela e era lindo. Então, um dia, com aquele sentimento pedreira de suicida que me acompanha nas horas vagas até então, ficou tão visível naquele dia que... Recebi um cartão. Este veio indiretamente pelas mãos de uma amiga que tinha a voz de homem, andado de homem, mas que se tornou professora mais tarde; enfim, Aline tinha dado a ela um cartão para que pudesse me entregar, e ela o fez.

No inicio, não tinha acreditado, mas quando vi que era da princesa intocável, li duzentas e noventa e nove vezes! No cartão, o breve e lindo dizer, “A vida é bela para quem ama, então, ame”.

Não acreditei. Meus olhos berraram de felicidade. Em minha primordial visão, juvenil visão, pura e bela visão, ela era a-pai-xo-na-da por mim. É mole? De uma princesa que não chegava nem perto dos pobres, tornou-se louca de um dia para o outro. Hoje, quando me lembro disso, começo a rir sozinho...


O meu coração à época era um rio intocável, que ao ser visto balançava-se somente com a sombra da lágrima.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Em Busca da Eternidade perdida *

Opinião


Star Trek. Clássico que nos remete ao impossível.


Desde que o homem é homem ele busca ser eterno, nas mínimas coisas. Deixando seus rastros de bondade, de maldade, mas sempre deixando legados dos quais gerações possam retirar algo. E podemos observar  isso em  Hollywood que descobriu a fórmula do sucesso em imprimir venturas a esse pensamentos clássico. Assim, nunca mais os filmes de ficção foram os mesmos.

Em Star Trek, Jornada nas Estrelas, para os aficionados em filmes do gênero, expuseram pensamentos futurísticos a personagens quase imortais, como o capitão Kirk (William Shatner), ao doutor Spok (Leonard Nimoy), nos quais, como protagonistas de viagens interplanetárias, a uma jornada que até hoje impossível fisicamente ao homem e a qualquer ser racional, retratou a vulnerabilidade do pensamento em tentar lidar com o que teorizamos, ainda que seja dentro do absurdo. 


Mas isso, no entanto, não faz o autor de Jornadas nas Estrelas um ser débil, muito pelo contrário. O que se passa em sua mente nada mais é que a cópia de vários ancestrais que um dia, até mesmo na antiguidade clássica, pensaram. Com diria um grande professor, se perguntássemos a um romano na época das vigas, puxadas a cavalo, qual seria o futuro do transporte naquele momento... e responderia, com quase total exatidão, “teremos vigas voadoras; mas fortes; sem a presença dos cavalos”...


A essência, então, é a mesma. Nós, no entanto, estamos tão perto de realizar viagens interplanetárias do que um dia o romano, mesmo com toda a sua “tecnologia” em relação aos países conquistados, teve. Mesmo assim, teríamos que sofrer com as possiblidades envolvidas. É preciso mais tempo?

E o que isso tem a ver com ser eterno? O homem, em seu pensamento profundo em relação ao que se passa ao seu redor, mesmo dentro do impossível, dá um passo rumo a ele, chegando a convicção de que pode, consegue, realiza,  e que nada para ele é impossível – de eterno, nesse caso, somente o poder de sua vontade, mesmo porque para o homem há limites, por mais que queira atravessar os ares de marte, o planeta vermelho, e criar novos ares após mais uma conquista.

A tecnologia dos filmes de ação nos remete a concretização de um futuro utópico em termos de ferramentas sejam elas espaciais ou não – tanto que não há pessoas miseráveis nas esquinas, influência de governos, religiões, família... Como se extinguíssemos as estruturas de uma sociedade que vive disso. Mas os filmes de ficção (a maioria) se desfaz dessas bases.

Ou seja, o futuro, para que seja permanente, fixo, deve conter o que mais apraz o homem: o seu sonho realizado a partir de suas descobertas, não das estruturas citadas. O que é uma falha.

Outro filme...



Origem. Somente o sonho nos leva ao real.


Não saindo da ficção, e ao mesmo tempo mudando de tema, saindo do espacial para o psicológico, posso citar entre os filmes que nos imprime uma realidade fantástica em busca da eternidade perdida, é o filme “Origem”, com Leonardo DiCaprio, no qual uma organização especializada em resolver assuntos por meio de sonhos, adentra na mente dos humanos, repetindo, por sonhos, na certeza de entrar em estruturas criadas involuntariamente por nós, durante nossos dias de vida.

No filme, DiCaprio, o chefe da equipe, apesar de sua competência em resolver os assuntos de outros, tem uma pendência com sua esposa, morta voluntariamente (suicídio), pelo fato de acreditar que, nesse estado (morta), viveria nessa estrutura eternamente; o filme demonstra isso com louvor.

Mas, fora a ficção, pude perceber que há uma verdade por trás de tudo isso. Há realmente um meio pelo qual tentamos fugir de nossa realidade, é o sonho. E isso não é uma opinião. Vários especialistas dizem que quando estamos com problemas, dormimos muito; outros, ao contrário, mas há que entender que há essa possibilidade de fuga por meio dos sonhos, os quais nos remetem, na maioria das vezes, a uma “realidade” que podemos sentir melhor, ou dominar, como se fôssemos donos das circunstâncias...

Outras vezes – e essa talvez seja a pedra fundamental para acharmos que tal estrutura há – é quando um ente nosso se vai (morre), e não temos meios de nos comunicar, ou mesmo vê-lo para dizer as últimas palavras, ou palavras que lhe faltaram, enfim, começamos, como pedreiros de sonhos, a partir daí, a criar o castelo no qual você e a pessoa que se foi ficarão.

Castelo esse em forma de pensamentos confusos, com situações idem, mas com a certeza tão clara como a tecla desse computador de que a pessoa que se foi está ali, e que a estrutura está feita, realizada, e que todas as vezes que eu quiser vê-la crio meios naturais em minha vida real, a partir de lembranças fortes, ou não, mas que são o suficiente para “visitar” aquele ente está mais forte e vivo do que nunca...

E o eterno? Em “Origem”, esse filme espetacular, descobri que há realmente esses castelos que construímos quase que involuntariamente (pois quando sabemos dele, sempre queremos colocar um tijolo), há sonhos fortes nos quais podemos resolver nossas pendências, mas há um simbolismo profundo nesse filme: de que somente o homem que sonha é eterno.

E quando me refiro a sonhos, não falo desses breves nos quais criamos ou destruímos estruturas, mas desses que nos fazem levantar, sorrir em direção ao sol, nos tornar um pouco dele, sair em nome do Belo, cheio de pensamentos humanos em relação às pessoas, criar meios de reverência ao sagrado, ser um pouco mítico como um Ícaro que deu certo; realizar façanhas como o herói que encontrou meios para matar o Minotauro e sair tão forte quanto entrou do labirinto...

No fundo, temos que ser tais quais os caracóis que, ao caminhar devagar, dentro de seu belo caminho, um dia morre, mas deixa um rastro de fagulhas brilhante por onde passou. 


Assim nos tornamos eternos.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Homem, Arte, Eternidade... (ii)

Eternidade. Por que buscamos?





Sei que é um assunto deveras complicado a se falar, e talvez por isso não vamos ser muitos específicos quando falarmos de eternidade. Assunto que mexe com a vida, com a morte, com nossos brios e que às vezes nos dá calafrios, mas como eu disse não serei especifico...

E nada melhor que começar falando de nós mesmos, dos pequenos momentos que nos fazem eternos, humanos e com alguns... Quase divinos. Entre tais momentos, quando somos agraciados por presentes belos que nos fazem refletir acerca de nossa existência, do porquê estarmos aqui, pisando em um chão frio, lidando com pessoas mais frias ainda, mas que não são donas do mundo – ainda que se achem – porém, mesmo assim, olhamos para o céu, em sua imensa grandiosidade e dissemos...

“Obrigado”... Palavra que não retrata de forma clara o que queremos dizer, mas traduz o mínimo, o simples, o mero prazer de ser agraciado – ou abençoado – por um presente que ninguém jamais poderia (ou pode) nos retirar... Um filho.

Um ser que – esse sim – pode nos passar a alegria da alma de maneira concreta, e ao passo livre de rejeições, complicações, sempre ao lado da verdade de sentimentos, o que não nos ocorre quando estamos em situações complexas, ao lado de pessoas que buscam outras felicidades, e que se recusam a ver a paz, a alegria, somente para satisfazer suas razões.

Um filho, o terceiro ponto entre duas pessoas, torna-se eterno dentro do seu simbolismo, que é religar as duas partes, transformá-las ou fazer com que compreendam que, na vida, se não há um terceiro ponto, um tríade natural em tudo, a possibilidade entender Deus é muito pouco...

No próprio universo, no próprio homem, nas mínimas criaturas, há essa tríade, caso contrário, não seríamos imagens divinas ou como diria a Bíblia... “O homem não seria imagem de Deus”, e haveria, assim, um universo imperfeito – o que não é... – A única coisa imperfeita, no entanto, sabemos, é o próprio ser humano, que busca realizar-se nas pequenas coisas, ao passo desconhece o grande mistério que se esconde tão perto dele quanto o gral de Artur, o rei que procurava pelo cálice sagrado, tanto que enviou seus homens para tanto e depois ficou vislumbrado por saber que todo tempo estava ao seu lado...

Assim o somos. A verdade se esconde em nós, Deus se esconde em nós, a Felicidade, também. E por que não a eternidade, que somente se reitera quando olhamos para trás e dissemos “Como eu era feliz e não sabia”?.. É mais que isso, é uma junção de elementos simples que se concatenam com a finalidade de nos dizer que somos felizes, aqui e agora, e para sempre...

Nem por isso, vamos jogar nossas malas de inutilidades pela janela, ou mesmo rasgar nossas roupas antigas ou novas, a viver de ventos em nossas entranhas, não, pelo contrário... Felicidade não é jogar fora o que possuímos, mas sim o mal que se acumula, todos os dias, em nossa alma; é vivenciar cada pessoa, cada passo como se fôssemos crianças que estão se iniciando com seus pezinhos na terra; é descartar a hipocrisia quando bate a nossa porta consciente gerando outras em nós...

Enfim... Felicidade, hoje, não sei de ontem, mas é descartar o anjo mal, esquecê-lo, não descartá-lo de nossas vidas, pois sem ele não há a dúvida, a determinação, o conflito natural, mas é preciso não alimentá-lo às vezes, deixando-o rosnando no fundo do porão quando ele quer nos tomar os objetivos.

E no fundo queremos entender a eternidade, nem que seja por meio de religiões que se julgam bases da civilização, contudo, atravessam gerações germinando o mal na mente e na alma dos homens. Não é religião. Não é nada. Queremos entender a eternidade nos sentido mártires em nossos atos, em nossa máximas depois de um ato forçoso. Queremos mais... queremos escrever o que somos, deixar tudo para a posteridade, na qual falarão de nós, e realizarão atos em nosso nome, pelo que fomos, ou pelo menos pelo que tentamos ser...

Eterno, entretanto, foge a todas as regras naturais a que fomos concebidos intelectualmente em entender, inclusive quando olhamos ao sol sem saber que ali, tão longe e tão perto, flutua um astro que pode se ir.

Para entender a eternidade, devemos buscar os grandes do passado que um dia, na seriedade de suas buscas, disseram que possuíamos um Ser, um espírito, que, assim como tudo que é vivo – ou seja, tudo – sobrepõe-se ao que pensamos ser, e que, dentro do que se pode dizer acerca de nós, O somos.




Amanhã tem mais eternidade.


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Homem, Arte, Eternidade...

Por que todos se baseiam na arte grega?



Não é difícil falar em eternidade ao nos depararmos com o pôr do sol, ou mesmo ao som de Noturnos, de Frederic  Chopin, não, não é. Nossos olhos se enchem dágua nesses raros momentos que passam por nós todos os dias, de forma que nos transformamos em seres entusiásticos pelo simples momento de contemplar o Belo.

E por falar em Belo, ainda ontem, ao ler o livro II d´A República, de Platão, o autor nos remente ao pensamento clássico de Justiça a partir de um mundo fragmentado, ao passo nos remete àquele conceito se aprofundando na alma humana – sei que os gregos, de algum modo, nos enganam quando falam em alma, pois ao se referirem ao Belo, assim como o autor citado, muitas vezes citam alma como Espírito, esse elemento que tanto desconhecemos e só temos uma parca visão dele quando nos aproximamos dos degraus de Arte.

E quando falamos em Arte, vem-nos conceitos físicos, retratados em belezas relativas, em quadros emoldurados, firmes, como plantas de plástico que não nascem, e sim são produzidas para enfeite. Assim, ainda que exista uma natureza lá fora em suas tentativas vãs em demonstrar seus inúmeros referenciais de Arte, Justiça, Bem, Amor, nos conduzimos a refletir nossas debilidades em telas as quais não sabemos, na maiorias das vezes, se estão ou não conectadas com os valores universais...

A Arte, também, é uma forma de eternidade – não porque nos mostra as loucuras de alguém ou de uma sociedade, de um universo humano, e que perdura entre gerações há quientos ou mil anos, não. É eterna porque nos faz nos religar a Deus, esse que permeia dentro de nós a cada entusiasmo (em+theo > deus em nós), ao passo em uma simplicidade que, aos olhos do modernismo, é sinônimo de atraso...

Não se pode chamar Arte de atraso, mesmo porque cascatas, como “véus de noiva”, a desaguarem num rio cálido, transparente, no qual pedras límpidas, no fundo, são enxergadas como seres místicos; não se pode julgar um jardim natural, cheio de flores que se diferem em cores, em tamanhos, em formas e ao mesmo tempo harmonizam com um céu azul... Não se pode vender a Arte, trocá-la, pois ela não é um produto de uma consciência pessoal, com finalidade de enriquecimento ou mesmo vaidosismo humano. Não.

Nessa arte, não apenas os jardins naturais se vão, mas músicas que nos religam as deusas, as musas, à alma, para qual nascera e nunca mais nos empobrecera até então. E hoje, como um quadro feito com tendências relativas, a música se tornou relativa, sem nexo, cheia de deformidade, e se porta como uma filha rebelde ao ilustrar qualquer coisa para as massas, para o homem que precisa de palco, para o lixo que precisa de uma trilha sonora.

A música, hoje, destrói o bom senso de um homem que tenta encontrar a si mesmo nas obras sagradas da natureza, pois sempre se depara com o que se traduz do mundo, ritmos, em letras sociais, nas quais a depender do estilo, faz uma leitura do que se passa dentro do homem, ou do próprio povo.

Contundo... Apesar de tudo, ainda há a eternidade. E dela, para o homem que involuntariamente deseja o Bem, retira-se o valor minúsculo do que podemos ser e compreender a respeito do que somos, e isso não se pode frear, podem até “escravizar” nossos corpos, mas não nossa alma, que quer subir aos Céus como um balão preso pelo peso de nossas raízes. Mas, um dia, ela se vai.

Outras formas de eternidades se mostram, mas é preciso que tenhamos olhos para tanto. Olhos para os rios celestes, que desaguam há milênios na grande consciência do criador; temos que reconhecer o nascimento físico e espiritual de uma natureza, antes mesmo do homem, o qual nascera sob o signo da transformação de sua própria existência, a qual, em algum ponto, podemos chamar de duradoura, não eterna.

Podemos, sim, chamar de eternidade o mais alto degrau – ou o que mais subjaz no homem, que, em sintonia com o ponto mais externo da vida, leia-se a mônada universal, nos faz, independente de nossas idades físicas, tão eternos quanto o próprio céu. E somos.




Falamos de Eternidade no próximo episódio...


Ótima sexta!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Evangelho de São Tomé: o Herói Perdido.

Último texto sobre o Evangelho de São Tomé.






“Feliz do homem que foi submetido à prova – porque ele achou a vida.


Quando se tem uma humanidade para lutar, quando se pensa em uma justiça para abrandar em meio a uma injustiça que corrói as margens de um mundo frio, insensato, e a cada dia mais insensato, insano e débil, que se alastra desde a concupiscência até a base dessa pirâmide social que é comandada pela escória que ganha com a ignorância alheia, deixando, ao seu bel prazer, a pobreza se espalhar pelos poros do mundo e do próprio homem, sabe-se que temos muito a lutar.

Mesmo aquele que não se julga herói (talvez esse o seja por isso), ao se levantar de seu pequeno canto, alimentar a sua prole, amar sua família, trabalhar com disciplina em favor de alguém que esteja ao seu lado, sendo a cada dia aquele pingo que a sociedade precisa para se elevar em meio a um oceano sujo e que há milênios não se consegue sentir o cheiro da maresia dele e sim do interesse sujo, que corroeu toda a possibilidade de crescimento humano – de humanidade..., enfim, mesmo com toda sua simplicidade, o homem pode ser um herói, pode ser o que ele bem entender.

Os heróis, por meio de premissas gêmeas a anterior, não vão a guerra por acaso, e na maioria das vezes sabe que não voltam, mas sabem porque entram. Pela liberdade, pelo amor ao mundo, à sociedade; por acreditar que há sementes no coração no homem, por um povo que nele acredita e grita nas ruas em favor de mudanças, e que, descalço, sente a terra pela qual lutou.

E hoje, a realidade nos mostra que homens há de coração, de fé, de pensamentos ideológicos,  mas que não aprenderam a sair do sofá, de perto do controle remoto, a criticar governos, guerras, conflitos internacionais, ir a fundo em seus embasamentos, contudo não possuem razão de ser e assim, sem estratégias, se consolam com o café que chega.

Este, no entanto, não sabe que ser herói, dentro de suas possibilidades, não é apenas ir às guerras, suar frio com o inimigo, morrer pelo companheiro, assim como fariam os espartanos, romanos, persas... E sim encontrar meios naturais de modificar seu mundo – não o externo – e como uma oração disciplinada na noite, tentar subir os degraus de seus próprios sonhos, referenciando-se naquilo que chamamos necessidade de mudar o mundo por meio do homem.

Soa como algo utópico, desalentador, mas, se procurarmos entender o porquê das guerras, das injustiças sociais, do nascimento de genocidas, cairemos em vãos maiores que abismos ao descobrir que também somos homens, podemos ser injustos, genocidas, políticos nos pior sentido da palavra, e o pior, não acreditamos, por isso não mudamos.

Podemos ser heróis do aqui agora. O mundo pede isso. Nossa quota de mal já assola a humanidade há tempos e estamos perdendo filhos, mães, irmãos; estamos perdendo a vontade de viver, e ao sentir isso, caímos em outro vazio: não há outro meio senão nos suicidar ou ser um crente...!

Não podemos nos entregar a mais ninguém, a não ser ao nosso mestre interno, que quer ditar as regras de nossos caminhos, quer nos mostrar as estrelas – não físicas – o sol, que paira tão quente quanto o visível, e nos deter em nossa ignorância quando nos referimos ao próximo como covarde, injusto, pois se o somos, lá no fundo, temos que mostrar que podemos ser corajosos, justos, em uma guerra silenciosa que só os indignados pelo mundo veem.

Precisamos ser heróis. Precisamos tomar a cicuta, morrer por algo, por alguém; precisamos conversar com nosso lado mal, fazê-lo entender que existem coisas melhores do que elevar nossos desejos de areia, de conseguir o que sempre podemos em nome de uma máscara insaciável. Precisamos descer da montanha felizes por tê-la vencido; precisamos vencer, parcialmente, esse mal.

E mais, buscar um motivo – além dos motivos técnicos, formais, profissionais – para mudar o que hoje precisa ser mudado. Nós mesmos. Não adianta falar em justiça se não sabemos, até hoje, trazê-la para dentro de nossa casa; não adianta falar de ética, de moral, de amor, e até mesmo de amizade, se um dia podemos trair nosso melhor amigo. Não podemos em meio a esse mundo ser tal qual a ele se guerras há como a maior das bolas de neve e que, no meio de um frio ínfimo, outras bolas nascem por meio de fagulhas que não se cansam de cair.

Cristo tinha razão, como sempre, quando disse que o homem submetido à prova achou a vida, pois, em todas as épocas, paira o sonho do homem em realizar a justiça, em trazer todos os valores humanos junto a uma sociedade que se desfaz em pobreza, ignorância, misérias, graças aos amos de uma grande caverna que preferem se ocultar aos olhos humanos, mas se mostrarem em forma  de guerras nas quais somente ele ganha, somente ele sobrevive.

O homem submetido à prova levanta-se do sofá, pronuncia a palavras corretas nas horas vis, andas nas águas do mal e não se afoga, abre os mares vermelhos com o cajado de sua simplicidade ainda que há aqueles que se julgam bons e não o são; mas ele, o grande herói, o real, que prossegue com o escudo de esparta, com as palavras de um Júlio César, que, em sua vida, nunca conhecera a derrota, enfim... Aqui o homem encontra a vida.



Aqui termina nossa saga. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Evangelho de São Tomé: segredo clássico.

“Eu vos darei o que nenhum olho viu, nenhum ouvido ouviu, nenhuma mão tangeu, e que jamais surgiu no coração do homem”

Continuando com nossa saga na tentativa de interpretar nosso querido mestre ocidental cristão – Cristo, sempre lembrando que tais interpretações advêm de estudos relativos aos grandes ocultistas e filósofos da antiguidade, os quais também cultivaram seus entendimentos acerca do homem a partir do conhecimento mais antigo que eles mesmos. Ou seja, fica difícil dizer de onde vem o Conhecimento, mesmo porque civilizações do passado, com seus reis e rainhas, sacerdotes e sacerdotisas, já o tiveram como legado de suas gerações de sábios...

Ou seja, não acreditamos que haja uma sabedoria que seja atemporal, ou seja, que passa de gerações e gerações e que ao mesmo tempo seja interpretadas por indivíduos quaisquer – leia-se pastores, anciãos, políticos-cristãos, budistas modernos, enfim, muito pelo contrário – acredito que haja uma singularidade clássica perdida em meio às escrituras, sejam elas da Bíblia, Alcorão, etc, nos quais nos sujeitamos, com nossa simplicidade (para não dizer ignorância) a levar rebanhos a terras improdutivas.

Vamos ao texto:

“Eu vos darei (...) coração do homem” – Naturalmente, a sabedoria é algo maior do que nossos sentidos físicos, ou seja, do que nossos cinco sentidos. Nada há que possa dizer o contrário, contudo há quem diga que podemos alcançar, por meio deles, a metafísica alcançada pelos estudiosos das escolas iniciáticas. Não é algo palpável.

Cristo, como já sabemos, passou por escolas – dizem essênias, egípcias, -- das quais retirou as chamadas Coisas da Alma, o que não o fez ser o que era, mesmo porque já havia no mestre a vocação que todo avathar possui.

E assim, como Platão, Pitágoras, Cristo bebeu das águas dos mestres antigos, e, como diria Blavatsky, resguardou  (ocultou) toda a sabedoria em forma  parábolas, entre outras coisas. Apenas os iniciados sabiam o que Ele dissera; apenas os “graduados” em esoterismo poderiam fazê-lo, no entanto, alguns filósofos – baseados no passado compreendem, e respeitam, e se lançam mostrar como um todo o que um dia se fechou com chaves desconhecidas ou perdidas pelos fiéis.

É o caso de Platão, que, até hoje, causa espanto com sua República, com suas Leis, com seu Banquete, e com suas explicações acerca de um continente perdido.  Não podemos nos perder a partir do momento que acreditamos nele (ou neles), pois, se estamos na tentativa de aprender com eles, o respeito às suas teses, ao conhecimento, ao que do universo sabem, saberemos que há mais do que temos a priori, seja em qualquer ciência, religião, atém mesmo que a própria filosofia conhece atualmente.


E o que Cristo disse fundamenta-se no passado, na tradição, no mais interno ensinamento, e quanto às coisas entre o céu e a terra, podemos dizer que, graças ao nosso materialista coração, levaremos um susto.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Evangelho de São Tomé: a mostarda.

"Reino dos Céus está aqui"



A mostarda, a Alma; o campo, o homem.







Disseram os discípulos a Jesus: Dize-nos, a que se assemelha o Reino dos céus? 

Respondeu-lhes ele: Ele é semelhante a um grão de mostarda, que é menor que todas as sementes; mas, quando cai em terra, que o homem trabalha, produz um broto e se transforma num abrigo para as aves do céu. 



Há de perceber que os discípulos de Cristo, ainda em formação a respeito dos mistérios ocultos, tinham informação um tanto quando desconfigurada a respeito do Reino dos Céus. Não que estejamos na frente deles, ou que saibamos tanto quanto àqueles que um dia caminharam com um dos maiores sábios da humanidade. Não. Apenas queríamos reiterar que, antes que soubessem a respeito do “Céu” e da “Terra”, simbolicamente falando, tinham uma visão estreita a respeito do que o mestre lhes falara há mais de dois mil anos.

Alguns discípulos, como João e Paulo, teriam se infiltrado em algumas escolas iniciáticas a ponto de entender, mais tarde, o que Cristo lhes dissera, contudo, não fora o bastante porque transformaram o cristianismo em uma escola em que seus fiéis acreditam somente nos termos literais das escrituras, nas quais sobrevoa parte do estoicismo, epicurismo, enfim, como todos sabem, são escolas de cunho iniciático, nas quais discípulos houve com intuito de aprender com seus mestres de sabedoria “mais coisas entre o céu e a terra”...

E com tais ferramentas, os cristãos iniciados persuadiram governos, criaram estratégias, e avançaram com suas ideologias dentro do que hoje é, graças a eles, uma das maiores crenças do mundo civilizado.  Mas, como diria um grande professor, nada melhor do que ser um ignorante convicto, que sabe que não sabe nada, ainda que saibamos um pouco mais que alguns.

Voltando...

E quando perguntam a Cristo, “a que se assemelha o Reino dos Céus?”... Com certeza tentam buscar uma resposta que se assemelhe ao que vemos, ouvimos, sentimos, ou seja, que esteja dentro de nossos sentidos, sonhos, imaginação... Porém, uma pergunta ao salvador merece uma resposta metafórica, enraigada de elementos que conhecemos, e, ao mesmo tempo, cheia de simbolismos, nos quais se revela a verdade – ou pelo menos uma brecha para a chave do conhecimento.

 “Ele é semelhante a um grão de mostarda, que é menos que todas as sementes” – disse Cristo, ao tentar passar o que, de alguma forma, se assemelha aos reinos dos céus  -- o qual, como já sabemos, nada mais é que a Tríade no homem, ou como poderíamos dizer na linguagem filosófica, o Nows no homem, a parte imortal humana – mas, enfim, palavras que possam chegar perto do conceito tradicional de Espirito, mas como esotérico que é, Cristo usou a natureza como porta de entrada para a compreensão dos discípulos...

O “grão de mostarda” seria a alma do homem que, ainda que pequena, mas enraigada das palavras, de atos, de pensamentos voltados ao céu, encheria a terra, ou melhor, todo o homem, deixando de ser apenas um ser voltado à matéria.

Devemos, no entanto, entender que quando falamos em matéria, em terra,  parece que estamos a falar apenas  das coisas palpáveis; mas não  é. Matéria é uma dimensão, e nela não podemos deixar de viver, pensar, desejar, errar, e da terra (literalmente) retiramos a comida para o nosso alimento diário; nela nos ajoelhamos para plantar, nela oramos e agradecemos aos deuses, ou a Deus, como preferir, o que nos faz repensar nosso modo de viver Cristão, que quer banir a matéria de sua própria vida, e na maioria das vezes, se vestindo mal, se alimentando mal, e o pior... Não tentando buscar a tradição por meio de outras fontes, a não ser a própria escritura.

Voltando...

O grão de mostarda, nossa alma, engrandecido apenas por sua qualidade natural, sobrepuja-se a outras sementes se voltado ao que realmente veio, ser um grão. Assim, nossa alma, em devaneio com o mal que circula no mundo, nas sociedades, e até mesmo se detendo em valores corpóreos, se desvia de sua função, deixando de ser alma para ser apenas um elemento sem cor, sem consciência, como uma criança sem pai.

“Quando cai em terra, que o homem trabalha”... Na dimensão maior que trouxe o próprio homem a reconhecer seus valores, seu papel no mundo, suas leis, ou a lei que o rege, aqui, quando esse broto cai, ou seja, quando a própria alma reconhece papel na terra (quaternário e dimensões) há a evolução natural, o crescimento dela, em direção ao Reino dos Céus, onde as aves – símbolo maior, em todas as culturas, de quem alcançou o Céu em si – sobrevoam.

Fechando..


Enfim, em nossa humilde tentativa de compreender a frase acima, descobrimos que temos que plantar em nós valores melhores do que estes no quais acreditamos. Temos que ir em busca de um ideal espiritual, o qual nos faz ser um pouco melhor todos os dias, um pouco; mas para isso temos que nos assegurar de que teremos formas mentais, materiais entre outras com o intuito de nos deter. Então devemos plantar em nós essa ideia, e cultivar sempre o que há de mais humanos em nós, assim estaremos indo em direção ao Reino dos Céus.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....