terça-feira, 4 de novembro de 2014

Mananciais solitários





Muitos se perguntam acerca de onde viemos, por que viemos e para onde vamos. Muitos possuem respostas, muitos possuem o conhecimento, e fazem questão de deixar isso em evidência, em explicações, em exacerbados diálogos ainda que sejam frios, sem direção, sem amor.

Não sei se devo salientar o papel do amor, nesse caso, ao contrário dos experts, mas, para muitos, serve apenas para incrementar uma vida familiar, ou mesmo a dois. Talvez. Mas quando tento entender o sol e sua semântica junto ao universo, -- às estrelas, a nós – me perpetuo em pensamentos nos quais me delicio e vou-me embora, não para parsagada, claro, mas um pouquinho antes... E degusto de sabores naturais nos quais o açúcar é na medida.

Quando observo a chuva na rua, a avivar o cheiro da terra, e estou ali presente, como a um menino pequeno, cheio de esperanças, nem mesmo a música mais bela se torna... Bonita. Aqui, nem passa pelos meus brios de homem que estudou, vivenciou, dialogou firme com grandes homens, qualquer filosofia. Fica apenas o cheiro de Deus em minhas narinas, em minha pequena e fugidia alma.

Ah, essa alma, tão buscadora de naturezas intrínsecas, com a qual vivo, sorrio e choro, hoje, tão presa a doença do corpo, da violência desmedida, se enaltece com palavras em forma de sol, com lágrimas em forma de chuva, com dor em forma de paixões, com a paz em forma de lírios... Essa alma, grandiosa por dormir e acordar em céus, e enfrentar infernos terrenos, se declara amante da vida, do cimo da montanha de um espírito que quer alcançar...

Mal sabe ela que o espírito já está nela, em suas entranhas, em teu corpo. Quando observa uma poesia, um pôr do sol, uma criança livre, uma sensação de liberdade, paz e grama nos dedos... Compreende sem palavras, e se inclina ao sagrado.

Não sei o que comentam os sábios de plantão acerca disso, nem mesmo os escuto, mas sei que são rasteiros, amantes da falácia, do racionalismo crítico, do embate teórico, nos quais corações se vão em semânticas desagradáveis, a deixar a alma de lado, como portadores de controles de mentes.

Não se perguntam, aqui, do porquê desse desenfreio livre que vem corrompendo, rompendo sensores naturais e impondo outros, de naturezas hipócritas. Não sentem, não amam, não vivem, apenas buscam ser o que não são, robôs com todas as características humanas, sem, no entanto, a alma que, voluntariamente, negou.

Não podemos, entretanto, negar a alma. Ela bate, acorda, nos faz andar, correr, sentir o cheiro do mundo, sentir, de longe, o astral humano quando regado de chumbo ou platina. Não podemos negar o que nos faz realmente humanos, e isso se percebe ao vir uma estrela em nossos escuros, ainda que dentro de fossos estamos.

Porém, com o advento de novas almas, precisamos rebuscar a real, aquela que está em nós, dentro até mesmo desta que nos incomoda, prejudica nossos âmagos. Precisamos nos emocionar com o que é natural, não com o que a hipocrisia humana acredita, nem mesmo com cenas repetitivas de dores e mortes, com intuito de esconder o que nos engana há anos...

Àqueles que se dedicam à alma inventada queria-lhes dizer que observem a vida de perto, e fiquem mudo. Deixem que suas veias se salientem, que suas mentes se silenciem, sem as guerras e conflitos pessoais, que suas disputas racionais, intelectuais fiquem em segundo plano...


Esqueçam os dicionário por instantes, ouçam um pouco do dedilhar dos grandes mestres do passado – um Shopin, talvez, pensem em Deus não como Criador, mas como uma totalidade em sentidos múltiplos, dos quais somos nem protagonistas nem coadjuvantes, apenas... buscadores.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O Dia do Medo

"Tanto para cima como para baixo, encontramos o infinito em qualquer coisa" (samurai)



Nosso "grito" está imbuído de razões que só ele explica.



Um dia um samurai nos disse, “tanto para cima como para baixo encontramos o infinito em qualquer coisa”. E quando me deparo com exemplos de violência, colocados à disposição em jornais online, em tevês, rádios, e em  outros veículos, sempre penso nessa frase. É como se, todos os dias, tivéssemos novos fatos, novos horrores. É de matar.

Não ficamos apenas na superfície dos conceitos, como antigamente, quando havia apenas notícias a respeito disso e daquilo, e não dávamos importância. Hoje, todos os valores criados pelo mal (homem) estão à venda, ou mesmo gratuitos, em forma de capas de jornais, revistas, sejam em forma de conversações – para aproximar amigos, seja para dialogar quando não se tem assunto --, enfim, temos em nossas portas o suficiente para dizer que o samurai está mais que correto...

E quando a barbárie se faz, tão perto de nós, ficamos estáticos, sem palavras, com medo. Mas as ruas não nos dão tréguas, o noticiário idem, e iniciam processos de desestruturação psíquica dentro da qual nos tornamos menos humanos, mais zumbis, com olhos imensos, frágeis, nos alimentando apenas do que um dia foram apenas notícias isoladas.

Se nos aprofundarmos mais, vamos dizer que, no passado, havia tal violência desmedida, e até um pouco mais, contudo, se colocarmos na balança os propósitos de ontem e de hoje, de toda essa violência, diríamos que a de hoje é tão espetacular como nunca, simplesmente porque, mentalidades se criam para o mal, e das profundezas deste, horrores em forma de atos dos quais ficamos impressionados surgem. No ontem, que não possuía tão refino, percebemos que, por mais que houvesse guerras, horrores, violências, não eram tão despropositais...

É uma opinião, claro, mas quando leio acerca das nações que um dia foram tomadas, da pior maneira possível – havendo todos os tipos de barbaridades que se pode haver por parte do colonizador, percebo que, atualmente, não se é preciso que se tome uma cidade, muito menos um país, é preciso somente observarmos o noticiário das nove... no qual países, por mais estruturados que sejam, não conseguem frear o mal humano. Mais uma vez, o medo se faz.

Já não bastassem tais atos virulentos, bárbaros, por parte do homem mais deslocado de sua época, realizam-se filmes de horrores nos quais, apaixonados por eles, se vestem, dialogam, criam seus próprios personagens, de modo que se pode perceber que estamos em busca de algo que nos impressione, de alguma coisa que nos mostre ao mundo.

Por outro extremo, temos mais filmes que retiram da realidade histórias nas quais acontecimentos se passaram com famílias, sociedades, com pessoas, e, como em toda película o objetivo é chamar a atenção, temos o dobro do real, temos fantasias, monstros,  feitos, dores, horrores, em doses que nem mesmo o maior dos interessados em filmes de horror suporta...

Para que isso? A frase do samurai, mais uma vez, se faz. Aqui, de alguma forma, temos a parte vertical da questão, a descer, cada vez que se descobre o quanto que há de pessoas admiradas pelo mal; e quando digo mal, me refiro àquele que segrega-nos do bem, que nos torna distante da parte superior da linha – do lado oposto ao horror, violência, barbaridade, ou seja, da parte pela qual deveríamos lutar sempre, que é a parte da consciência em busca de Deus, da Verdade, da Justiça, da Beleza, ética... Para o alto.

Se claudicarmos em direção aos nossos objetivos, por mais fortes que sejamos, vamos cair em diálogos, em pensamentos – assim como todos! – em atos, enfim , em forma de violências particulares, das quais não se consegue sair nunca. O mal assim já se infiltrou em nós.

Claro que é um tanto quanto difícil correr em direção oposta ao mal, mesmo porque ele se veste de tudo, até do bem, mas se tivermos princípios, e dentro deles a Verdade, a Beleza... respiraremos em qualquer canto nosso ideal de busca. Não há erro.

É por isso que filósofos, hoje em dia, assistem a noticiários, a filmes, mas nunca deixam de buscar, na fonte, que é a sabedoria clássica, a potencialidade adormecida que um dia – um dia – o primeiro ato de horror a fez dormir.


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Entre o Homem e a Essência

Tudo na Índia tem um propósito: viver da essência.


Na antiga Índia respeitava-se uma tradição (acredito que até hoje a respeitam, mas não como antes), assim como muitas a respeitavam, e que norteou diversas nações cujas estruturas foram montadas a partir desse ponto, o espiritual. Nela, nessa antiga civilização, tão maravilhosa, ideal de muitos pensadores, filha de outras tão belas, cultivava-se a essência humana, por meio de suas leis. E uma prova disso são os Vedas.

De uma tradição ainda mais antiga, os Vedas eram como se fossem tábuas de leis sagradas as quais eram ensinadas de forma oral, mais tarde, assim como leis escritas e um tanto quanto fechadas, eles foram adaptados aos discípulos. Mas, assim, como muitos ensinamentos, dentro dessas leis ensinava-se a respeito do Homem, do Universo, de Deus.

E a partir daí, muitas outras foram adaptadas com esse ideal, de relatar os que os sábios nos propunham, ou seja, legar conhecimentos mais profundos possíveis, os quais, sintetizados, nada mais eram que ensinamentos entre o céu e a terra, entre a essência e matéria, o céu e o inferno de cada um...

Manvantara e Pralaya

Tudo na antiga Índia tinha um propósito. E era religioso. Não poderia ser diferente quando se tratava de nos explanar a respeito de um universo grandioso dentro do qual pairavam mistérios os quais, necessariamente, eram vistos no homem... Como no caso do Manvantara e  do Pralaya.

Quando o universo se expandia, tínhamos Manvantara, o que significava a expansão em direção a Brahma, o Criador no sentido positivo da palavra; Manu – de onde vem a raiz de Manvan... – cria o mundo e todas as suas espécies, durante seu crescimento, o qual no faz pensar na própria Vida, em nós, que estamos sempre em crescimento, aconteça o que for, sempre estamos voltados à elevação da alma para o grande espirito, ainda que, em alguma vezes, estejamos em momentos de Pralaya... Explico.

Pralaya nada mais é que o inverso do primeiro, como se estivéssemos observando uma grande bexiga – imensa mesmo – a se esvaziar bem lentamente. Porém, ainda que seja natural isso ocorrer no universo, é preciso que o momento de Manvantara alcance seu apogeu. E milhares de anos depois de nossa Índia filosófica, ainda temos, segundo pesquisadores, um cosmos em aceleração sempre se “esticando...”.

O Pralaya, a dissolução universal, pode ser percebido em nós, como meros seres mortais  que se sentem presos aos seus problemas, e quando chegam ao fundo do poço começam a criar forças para o Manvantara humano.

Antacarana

Dentro desses episódios pelos quais passamos, podemos dizer que, assim como o Universo, há uma grande necessidade de passarmos por tudo isso. Não estou a me referir aos problemas como algo desejoso, mas se não os tivermos não criaremos condições para conhecer o cimo de nossas montanhas, ao que chamamos de parte superior em nós.

No entanto, os Vedas, assemelhados muito mais ao Egito em suas sintéticas explicações acerca do uno e do homem, nos aconselha a não sermos reverberadores de filosofias a que não somos acostumados. O que vem ao encontro de Zoroastro e Platão, mais tarde.

Tríade

Contudo, ainda na Índia, acerca do que somos podemos dizer que há uma estrutura que sintetiza o ser humano, que é a Triade, dentro do quaternário universal, e o próprio quaternário, os quais estão ligados por uma outra estrutura, segundo a tradição védica, a uma linha quase que capilar... É o Antacarana.

O Antacarana, segundo a filosofia indiana (védica), se constrói a partir do momento em que estamos levando nossas vidas de forma real e  espiritual, seja por parte dos elementos primeiros – corpo denso, corpo vital, corpo astral, corpo dos desejos – os quais sintetizam o que “não somos”, apenas o veículo vital que nos conduz ao mais elevado – a tríade, Atman, Budhi, Manas -- o que somos.

Porém, antes disso, de passar para a parte de cima, nos encontramos – depois de reencarnações – com situações que nos fazem repensar nossa existência, nossos objetivos, e tudo isso de maneira involuntária, como se estivéssemos com um siting, e é aqui que entramos em uma atmosfera humana, em que nos coincidimos com a nossa parte superior, com Deus, com o Nous Platônico, ou o Átman.

O Antacarana, ponte entre esses dois grandes corpos – quaternário e tríade – sintetiza, simbolicamente, também, a ponte natural de nossos problemas quando realmente aprendemos algo em sua essência. Ou seja, quando olhamos nossos afazeres, nossos objetivos, nossas consecuções, todas elas voltadas à matéria (somente a ela) e entendemos que há algo maior, melhor e realmente válido a se buscar.

Tal consciência, no entanto, a depender de certos humanos, levam encarnações a fora, de modo que se aprende muitos séculos depois – mesmo assim, sob o que chamamos Karmas e Darmas em nosso mundo.

O Antacarana, enfim, seria a prova de que vimos, mesmo com nossas poucas ferramentas, a face divina, ainda que um pouco desconfigurada da realidade, mas que assim mesmo a tememos, e procuramos voltar ao Darma – retidão.

Ensinamento


Nada melhor, no entanto, do que ser o que somos, no melhor sentido da questão. Entender nossos conceitos básicos acerca de céu e inferno, matéria e essência, e respeitarmos as figuras lendárias e míticas do passado, dos quais tiramos aprendizados, e por eles, assim como filhos perdidos, devemos lutar, pois nada melhor do que viver e aprender com culturas que um dia respeitaram a humanidade e por ela viveram.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Solidão do Mundo



Deus,
Ouve-me.
Preciso de Você...
Dessa terra tão tenra,
Desse solo tão frio,
Volto minha consciência a Ti.
Onde está aquela
Que um dia foi minha donzela?
Para onde foi minha pátria amada,
Tão amada, que o amor não me cabia?
Não sabeis Vós?
Que Justiça em cinzas,
Em homens tão vis,
Que verdade que não passa
Em portas imensas,
Tão propensa a mentir,
Que revela a cor do homem,
Filho de outros,
Que nem belezas sabem distinguir!
Ouve-me, Deus!
Onde estou?
Que terra é essa,
Ao mesmo tempo bela,
Donzela e casta,
Ao passo me faz em pastos
Como equinos que não sou!
Fazei-me sábio,
Fazei-me teu cajado,
Teu servo alado,
Que possa a ti voar.
Sair desse mundo,
Sem esperanças e sujo,
Mas que dele tenho que cuidar.
Ouve-me, amigo da Solidão,
Para onde vou,
Se não tenho caminho,
Não tenho em teus braços
O meu ninho,
Só, e somente só,
O respirar agudo,
Profundo,
Findo,

Em dó.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Esperanças como Nuvens





Quando o sol bater

Na janela do teu quarto
Lembra e vê
Que o caminho é um só

(...)
Até bem pouco tempo atrás
Poderíamos mudar o mundo

Quem roubou nossa coragem?

(Legião Urbana)


Nesse tempo invariável, em que nuvens se vão de tarde e voltam de noite, percebemos o quanto a natureza tenta nos explicar a variabilidade natural das coisas, a mutabilidade, como se fôssemos expectadores de um grande teatro, sem sabermos.

As nuvens, quando escuras, nos proporcionam o entendimento de que os mistérios estão acima de nós, mas podemos refletir acerca deles, sem medo. Não é apenas a precipitação de chuva, mas de uma escuridão inviolável, na qual não podemos fazer nada, apenas esperar...

Pode ser a chuva, claro, ou, como diriam em tempos idos, pode ser a fomentação de mais forças a nos levar para o alto ou para o mais baixo da superfície da terra. É uma questão de saber lidar com a natureza, com suas potencialidades, com as cortinas que o mundo nos mostra...

E quando percebemos, do nosso ponto de vista, que estamos longe de perceber o que realmente pode nos acontecer... Deixamos de lado. Não olhamos nem mesmo a fresta que vem após a última nuvem que se foi. Esse é um dos males humanos... Não perceber que, nas mínimas entrelinhas, lhe ocorrem mistérios – não somente em filmes policiais, longe disso, não é desses que lhes falo..! – mas de mistérios sagrados que nos podem modificar a vida, nossos caminhos...

E nesses dias percebi que elas, as grandes nuvens, se uniram novamente. Deram-nos mais mistérios a refletir. E dentro deles o poder de mudança, seja ele entre nós, ou dentro de nós. Mas o que mais importante deu para perceber foi uma natureza que se harmonizou, se integrou com o homem, e está disposta a nos dar mais esperanças – não em forma de sistemas políticos, mas em forma de esperanças, de pensarmos mais em nós, como seres humanos, elevando-nos mais a consciência, como deveríamos fazer sempre.

Hoje... Não fazemos, no entanto. Olhamos para baixo, às vezes, para o lado, jamais para o alto; e isso nos transforma em seres não culturais, cuja natureza nada mais é que opinosa, eclética (no pior sentido da palavra), seres que não refletem acerca do seu próprio universo, de quem realmente somos.
Isso já é notório do homem atual, que se desligou de suas tradições; quebrou completamente seu legado natural, de conhecimento, de sabedoria, e se jogou em rios que foram sujos por um passado não muito distante.  E isso me faz lembrar do nazismo, que nada mais era que um movimento criado por um ditador com o objetivo de recomeçar tudo do zero, a partir de premissas “criadas” por eles mesmos!

Digo que não só o nazismo o fez. Mas todos os movimentos modernistas que tiveram como objetivo “pensar por si mesmos”, dando vazão ao cidadão de não ser influenciado pelos parnasianos, pela educação clássica grega, francesa, enfim, educação que ditava passos, ritmos, fosse na música, fosse  na poesia, e isso ao Ocidente, que se ‘organizava’ , era ruim, ao passo servir-lhe-ia como experiência cultural a gerações que um dia conheceram o que era realmente tradição.

Depois daquela época – em que nuvens negras se formaram, dando ao mundo o desespero, a dor, a falta de identidade – vejo que estamos com outras nuvens, diferentes, ainda que haja guerras, fomes, mortes, doenças, mais do que em outras épocas... Enfim, mesmo com tudo tão evidência, prefiro dizer que estamos passando por momentos necessários à humanidade, como se renascesse um novo mundo, baseado numa decadência pela qual todos um dia passam e passarão sempre, entretanto, tais nuvens que visualizo hoje nos traz, a meu ver, uma segurança de que nossos dias de automatismo, tristeza em excesso, hipocrisia, estão se indo...


O sol está surgindo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O Sapateiro de Platão

Do sapateiro de Platão, ao maior dos governantes... quem seria o melhor? A vocação é quem pode nos dizer.

A vocação se assemelha a nós.



Quando se nasce para algo – para algo pelo qual amaríamos pelo resto da vida, não sabemos. Apenas depois de várias experiências em que nos aparecem características em nossos atos, em nossas vocações para aquilo a que realmente somos voltados, é certo que nos dedicaremos eternamente...  

Eu, como leitor das obras de Platão, um leitor não muito atento, claro, penso sempre naquele sapateiro, ou mesmo naquele marceneiro que o filósofo cita quando está a construir sua República, sem os vazamentos a que somos obrigados a perceber na nossa. Imagino aquele ser, aquele homem a moldar as sandálias dos guerreiros, os calçados em geral, como um pequeno peixe feliz por está livre em um oceano no qual todas as suas espécimes circundam sem perigo – de qualquer nível.

O sapateiro, o marceneiro, os guardiões, segundo nosso amigo do conhecimento, estariam ali por valores internos, dos quais descobrir-se-ia que eram voltados a suas profissões – se é que se pode dizer assim, porque, ao se tratar de profissões, como conhecemos atualmente, fala-se de emprego, salário, contas, enfim, menos de nós, como humanos. E quando Platão fala de um ser que conhece sua vocação, é como se ele mesmo descobrisse quem ele é.

Claro que estamos nos referindo a processos tradicionais dos quais o filósofo retira toda a sua República. Não foi algo do nada. Muito pelo contrário. É uma mescla de sua filosofia, de seu conhecimento, unidos à tradição mais antiga que o próprio homem. E sendo assim, a "fumaça da boa filosofia" nos faz aludir um pouco sobre uma grande civilização, a egípcia.

E para quem conhece um pouco a filosofia egípcia, pode muito bem visualizar os grandes faraós, seus “funcionários” dedicados na realização de obras divinas, nos desenhos quase vivos, em relevo, daqueles artistas que eram completamente voltados ao que faziam.

No Egito, o que  mais se praticava era uma República real, concreta, dentro da qual valores eram respeitados, desde o dia em que se nascia, ao dia que conheceria o pós-morten.  Ou seja, mulheres eram mulheres, e respeitavam seus maridos, e vice-versa; mas quando tocamos nesse assunto, principalmente, ao papel das mulheres, nos parece machismo, e quando falamos de faraós, feminismo... Por quê?

Se uma mulher se dedica, desde a sua infância, ao seu papel de mulher, faz aquilo que sua vocação determina, sendo, antes disso, feminina, dedicada, bela, doce, instintiva e ao mesmo tempo guerreira, não quer dizer que o sistema fora machista.

Devemos entender que, nas mínimas coisas, temos que respeitar o que a natureza nos propõe, como ser humanos, sendo homens e mulheres, não deixando que “ismos” tomem conta de nossos ares, esferas e mentes, como gazes tóxicos.

Hoje, com certeza, não saberíamos como fazê-lo, e relutaríamos em entender nosso papel no universo, ou mesmo em uma sociedade, mesmo porque tal valor, nesse sistema, não é valido. Ou seja, buscar entender algo que faço, a partir do que sou, é como se estivesse indo de encontro a uma série de sistemas, não só esse, porque não o interessa há tempos tudo isso.

Mas no passado, se um homem abrisse sua casa, e sua esposa não tivesse com todas as coisas organizadas, era como se afrontasse uma pequena parcela de Deus – não o pessoal – e até mesmo do próprio universo humano, dentro do qual mulheres eram mulheres, homens eram homens – premissa boba, mas básica e importante...  E ao saber disso, o homem, ponte entre divina, poderia punir sua esposa...

O que nos faz pensar que, mesmo sabendo distinguir nossos gêneros, é preciso que busquemos a profundidade do que somos. Estou me referindo ao Logus, o que mora em cada um. A mulher, com terceiro logus, o homem, com o segundo, e os dois com a plenitude do primeiro. Não seria difícil, assim, entender os deuses, e o amor que sentiam por eles. Era uma conexão entre Logus.

O homem, atento ao seu papel, realizava suas funções de cavaleiro – característica maior a ser alcançada por ele --, resguardava a cidade, alimentava sua cria, dedicava-se ao campo, e amava seu povo, ao ponto de sacrifica-se espiritualmente por ele – cada homem tinha um pouco do faraó.

Não precisava ser um homem-deus para ser respeitado. Qualquer um que entrasse em sua moradia, fosse ela um casebre ou um castelo, era visto como um ser especial, pois seu papel já estava sendo trabalhado em sua pessoa, e quando isso acontece, muitos homens brilham e realizam ideais como lírios no campo.

O sapateiro


O sapateiro de Platão, assim, baseando-me em tais premissas, posso dizer que se este o fizer seu trabalho com amor e dedicação, a qualquer hora, seja para o homem, para a mulher, dentro de um universo que pede a ele que seja com tal, podemos dizer que nossa alma deve buscar, aqui e agora, dentro do que a subjaz, o que o Deus nos propõe, nos deu, e se somos um gari, um cobrador, um garagista, seremos tão importantes quanto àqueles que se dizem governantes, e fazem do mundo o que é hoje...

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Liberdade Grega

Muitas nações tentaram, mas nenhuma conseguiu lidar com esse tema tão belamente. A Grécia não foi aquela que iniciou o processo de liberdade entre os homens, mas foi aquela que mais cultivou seu real conceito.

Até mesmo na morte, a liberdade tinha sua prática.



Muitas histórias se contam a respeito das grandes nações e de  seus conceitos práticos sobre liberdade, entretanto, nenhum deles chega a ser tão perfeito quanto o da Grécia Antiga. Nela, nesse grande Navio, que muitos navegavam e aprendiam a navegar no passado, e que, se houver algum conceito semelhante que se aproxime dele, com certeza vem dessa grande civilização filosófica, da Grécia Antiga.

Não vou me ater aos filósofos da época (meio difícil), e tentar aludir a informações importantes, das quais, como posso dizer, achei muito interessante, e queria partilhar com todos. Uma questão que sempre é bom dedilhar a respeito... A Liberdade.

Dizem que houve nações cujo sistema não era escravocrata, e quanto a isso tudo bem, mas uma coisa é saber lidar com isso, e outra entender e praticar a liberdade em seu âmbito. Liberdade, para inicio de conversa, não tem nada a ver com pessoas, sejam aquelas que se sintam com vontades de voar, sair correndo, amar a todos, enfim, são apenas sentimentos, que se revelam presos e combinados com a ânsia de “liberdade” (não a grega), acreditam piamente que são práticos quando realizados seus sonhos.

Podemos até dizer que tal sentimento nos livra de alguma prisão, interna ou externa, de algum trabalho involuntário, no qual somos maltratados, ou seja, para nós, liberdade tem tudo a ver com o que fazemos ou com que deixamos.

A Grécia Antiga, quando se referia à liberdade, não se expressava opinosamente, nem mesmo literal, mas a praticava em seu âmbito cultural, o qual, como haviam adotado, religado ao próprio universo, o que nos lembra um pouco a cultura egípcia, mas esta, graças à misticidade restrita a poucos, teria uma certa dificuldade e levar à maioria, por meio de Maât, a deusa da Justiça, da Ordem, ainda que transparecesse o contrário

Mas nessa grande civilização,na Grécia, o sagrado respingava nas artes, na política, na religiosidade, e por isso, a tendência eram aparecer exemplos maravilhosos de esculturas, as quais se podem ver até hoje – pelo menos o que sobrou; podemos, de acordo com nossos estudos, entender o porquê de nossa política ser tão imperfeita ainda que a Grécia a tenha iniciado.

Não vamos comparar, mas tentar entender o que fez a politica ser possível, mesmo com a Democracia em voga, na Grécia. E o que podemos perceber é que a palavra liberdade esteve presente, levando respeito, disciplina, harmonia, ordem... Em todos os sentidos, quer dizer, em sentidos que desconhecemos, senão estaríamos tão bem quanto!

E não é o caso. Desestruturamos. Caímos. Desabamos em cima de valores que não sabemos ao certo se são, e claudicamos em entende-los, e para praticá-lo então... Mas a realidade é que se tentarmos buscar um pouco dessa liberdade, entenderemos o que deu errado.



Liberti et Dio


Aos estoicos, a liberdade era Deus, ou como diria no melhor grego, é Tudo que possui uma Organização, uma Ordem, dentro das quais estaríamos inseridos. E quando o homem entende esse conceito, busca em suas possibilidades, transfere ao mundo, à natureza (espelhando-se nela), temos o milagre grego.

Não poderia ser menos quando nos colocamos à disposição dela, dessa realidade (eterno), pois nações houve no passado que rebuscaram ordenarem-se, organizarem-se mediante estrelas, luas, sois, geografias espaciais, enfim, do Todo, com a finalidade de elevarem-se. E a Grécia soube fazê-lo.


Queda


Contudo, assim como tudo que decai, se vai ao chão metafórico, e às vezes físico, as nações se vão. Houve um grande filósofo da época que disse “o poeta não é mais o mesmo, a música não é mais a mesma; todos de alguma forma querem falar de si mesmos e isso está distante do que propõe nossa liberdade”...

E com isso, corrompidos os valores reais, entre eles a liberdade, a que tanto obedeciam os gregos, tão harmoniosamente, tão livres de vulgaridades e impropérios, nos tornamos nações livres no pior sentido a fazer o que queremos, baseados em premissas loucas e na maioria das vezes doentias, as quais se refletem em sistemas, em artes, religiões, sociedades, famílias, homens... Em tudo.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....