segunda-feira, 30 de abril de 2018

A Linha que Não Vejo

Há uma linha imaginária na qual passeamos -- ou pelo menos, tentamos nos fixar -- todos os dias. Uma linha forte, bela e onipotente, como uma muralha feita por homens de um passado tão misterioso quanto estes. Não pensamos nela, nem mesmo fazemos questão de sua existência, mesmo porque, graças ao nosso livre arbítrio, achamos que liberdade é um patrimônio nosso, ninguém nos toma... e embarcando nesse erro grasso, desfrutamos da vida, sem linhas, e a depender de nosso orgulho, sem leis.

A linha em si, já personalizando, não pede, nem implora aos homens que se fixe nela, mas ela existe como um sol invisível, como um arco-iris distante, que, com suas cores, nos embriaga de beleza, de paz, e ao mesmo tempo mistério... sempre ele. Os antigos a chamavam de "retação", mais alguns, de "Ordem", mais outros, de deusa "Maât", e o Cristianismo, com muita folga, embarcando na mitologia clássica, nos trouxe "Deus", como um ser, não como uma linha imaginária, do qual nos sentimos mais filhos do que parte dele, e assim por diante.

Para a compreensão dessa linha devemos demonstrar a maneira como os homens do passado a viam, a compreendiam e a respeitavam, até o fim de seus dias. Para isso, criavam hermeticamente histórias acerca de vários deuses, de templos celestes -- fossem deuses interessantes ou não; bons ou não -- a representar passagens por essa Linha e a queda fora dela. Já falamos sobre isso em Ícaro, Jesus e Buda, quando fizemos alusão à referida, a qual simbolizava (e simboliza em certas culturas) a grande lei, à qual obedecemos.

Platão, em As Leis, detalha o trabalho do homem dentro de um contexto relativo -- como sempre o fez -- mas com tendências humanas, profundas, não como um escravo de leis, e sim como um elemento divino, o qual, em tentativas de reconhecer-se, pratica ( ou deve praticar ) o que lhe é inerente, em meio a dificuldades que lhe são impostas.

E hoje, quando sentimos que há leis que nos escravizam, nos rebaixam a seres abaixo do que somos, nos levantamos e lutamos contra elas. Porque sabemos que a lei, seja ela relativa, ou absoluta -- ditadora, advinda de personas doentias, não tem ligação com a grande lei, e quando isso acontece até mesmo os elementos externos se destroem: terra, ar e água e fogo... Não em sua abrangência, mas sim, como elementos que nos abastecem basicamente, quando levantamos e deles precisamos.

É difícil entender o propósito de tudo que descobrimos, e quando nos falamos de linhas imaginárias, de ordem, de deuses, como leis, é falar de algo que está lá fora, como uma chuva que resvala em nossa janela de vidro, e nós, dentro de nossas casas, com medo, cheio de dúvidas quanto ao pingo, quanto à água e sua fúria.

Não se pode falar em algo, se não temos o coração aberto, a alma pronta para entender outras verdades além da nossa. Ou seja, não podemos nos aferrar ao básico e nele tentar entender o que está por detrás dos sonhos, dos mitos, ou mesmo o que está no fim do arco, que corrompe nosso conceito de beleza.





sexta-feira, 27 de abril de 2018

Trabalho Eterno

Estamos chegando a mais um Dia do Trabalhador. Dia em que, segundo consta em seus princípios -- que o fizera este dia -- refletimos acerca do nosso trabalho junto às empresas, ao patrão, e este ao empregado. Por isso, o feriado. Irei um pouquinho mais longe: o Dia da Reflexão junto ao Universo, a si mesmo.

Não é preciso ir muito longe para entender que emprego (trabalho, profissão...) não mais é que aspecto subjetivo de um mundo que precisa se capitalizar, mesmo porque não se vive sem pagar qualquer conta, a minha, a sua, das pessoas que procuram remunerar-se de alguma forma, mesmo quando estão sem trabalho, enfim, se mexer dentro de um contexto no qual precisa estabilizar-se financeiramente e assim psicologicamente para o bem de uma sociedade, de um grupo, de uma família, de si mesmo, como chefe de família ou não.

É nobre, é compreensível. No entanto, quando levamos a reflexão um pouco além disso, percebemos que trabalho é algo que não é inerente apenas ao ser humano, mas ao todo, a tudo, principalmente ao que desconhecemos: o invisível. Sem ele, o concreto, o visível, o palpável é certo que não existiriam.

Quando Platão se refere ao mundo Inteligível, não quer dizer longe de  nós, em galaxias distantes. Não. Está aqui, do nosso lado, perto o bastante para entendermos que nossas ideias, nossos conceitos de Justiça, de Amor, de Beleza não são apenas conceitos, mas realidades das quais podemos extrair algo e plasmar junto ao sensível-- o mundo concreto. Nações antigas, como a do Egito, faziam isso. Então é certo que um dia demos certo como nação e seres humanos. 

Não há patrão, nem mesmo empregados no universo. Ao contrário do que dizem que "Deus fez isso e Deus fez aquilo", como um ser que pode subjugar o próprio trabalho de acordo com seus interesses e um dia jogar tudo para o alto e dizer... "Vou acabar com o Mundo". Não podemos deixar que isso corra nas veias de um ser humano, como ideia que se tornou verdade, plasmada por repetição; a não ser que entendamos de maneira mítica, simbólica, como há vários séculos em Roma, na Grécia clássica, na qual mitos cristãos saíram também para explicar o fim e o início do mundo... Além de outras várias nações antes de Cristo.

Não há uma Inteligência que demita uma estrela, um sol, uma célula, uma vida... E sim a natureza em perder sua "validade" junto ao universo, pois tudo que é concreto um dia se vai. A depender do tamanho, demora ou não; e isso deve ser incutido novamente nas massas, como um dia o foi no passado, de maneira que entendam que por mais belo que seja o sol, a terra, o homem e seus questionamentos junto ao sagrado, um dia se vai.

Entretanto... O que está ao seu lado, como ideia, com elemento invisível que se formou, como diria Demócrito, uma Alma antes da alma, a qual depois dessa, não se cala, não se vai. E o próprio Uno, como constatou mestre Platão, a possuir sua alma, deixa bem claro que mesmo se indo como concreto (sensível), não se vai no inteligível.

Tudo trabalha, ainda que depois de morto; pois há elementos que transformam aquela parte, aparentemente morta, em algo, talvez até mais útil -- a depender do que aquele corpo fizera em vida. E é disso que precisamos, de reflexões ao que fazemos aqui e agora junto ao Sagrado, à Natureza, a Deus. Não adianta, concluo, ser um grande empregado de uma firma maravilhosa, ganhar rios de dinheiro por mês, e como ser humano não ter nada a oferecer. Parece algo bobo de se dizer, mas a palavra trabalho tem que sair de nossos dicionários como reflexões externas, e passar para internas no sentido de levar nossa consciência ao que somos, não apenas ao que fazemos.

E como já disse em vários textos, precisamos descobrir nossa real vocação -- o chamamento da alma --, embarcar naquilo para qual nascemos, e naquilo que o próprio Deus nos colocou com vistas a conhecê-Lo melhor, e trabalhar muito e com amor, sempre.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

No Meio do Caminho

...Em meio a minhas caminhadas, pensei: quando é que vamos pagar pelos nossos erros, sejam eles pessoais ou coletivos...? E como se um dia pudéssemos fazê-lo, fiquei pensando mais, agora sobre nossas supostas vidas passadas nas quais cometemos erros que mais que supostamente  são geradores de consequências futuras -- leia-se, não sabemos quando.

Mas aí, parei, depois comecei a andar bem devagar, e falei comigo mesmo... "Equilíbrio"... Sim, equilíbrio! Como não havia pensado nisso antes! Se temos uma Organização Sensível e Inteligível, segundo Platão (filósofo grego), que detém em sua estrutura uma Ordem, por que não a teríamos, por que não seríamos parte dela? Na realidade é bem mais profundo do que isso...

Na Antiguidade -- principalmente na Índia clássica--, acreditavam que o homem participava desse Todo, tinha em sua miniestrutura o reflexo da grande Estrutura, que seria o Universo, o qual estaria sendo regido pela Grande Inteligência Cósmica: O Darma. Seu contraponto, o Karma, fiel ponto no qual nos encontramos, sempre que nas entrelinhas desse todo desfazemos um trato, mesmo que involuntariamente... Como diria um grande professor, até mesmo os cães dela participam, porque não tangenciam ao grande Ser.

Nesse caso, poderíamos falar de algo que nem imaginamos, muito menos podemos pegar, como forma de exemplo, e visualizar em nossas almas, assim como nossa mente, trabalha para os seres racionais, não para os espirituais, os quais se encostam nos mistérios agudos do céu, enquanto nós, militantes do materialismo, só vislumbramos o que nos chega por meio de insights...
O que não é pouco.

Sem eles, não teríamos nem mesmo suposições do sagrado, de Deus, ou mesmo do nosso poder junto ao oculto. Somos exotéricos, não esotéricos. O primeiro, mais opiniões acerca do que somos; o segundo, eso, do que realmente podemos e somos. 

Probleminhas...

A caminhada continuou, e andei por vários locais interessantes no meu bairro, e comecei a me alimentar de indignações e ao mesmo tempo de satisfações pelo que havia descoberto. Meu sorriso tímido, no meio de minha face feia, parecia um pequeno sol a se formar e acabei por solidificar outro pensamento... "Nossos problemas são parte de um equilíbrio", pensei. Possuímos conflitos, problemas naturais de nossa espécie, em razão de sermos humanos, e se isso funciona no coletivo, a certeza de sê-lo no individual é muito mais possível, mesmo porque o indivíduo é que faz a sociedade, os grupos, a humanidade... E o universo, com seus "neurônios", trabalha em função do equilíbrio, assegurando que precisamos sentir na pele ou no corpo, na mente ou no emocional, a dor necessário da balança interna se erguendo com intuito de equilibrar as partes.

E dentro dessa certeza, pensei em JAL, "quando um pai de família vai mal, um mundo vai mal"... O pequeno detalhe que gera o maior deles, seja de uma estrutura pequena ou não, tudo funciona a partir das mínimas fagulhas imperceptíveis das quais não temos nem tempo de percebê-las... O Homem, para o  universo, é essa fagulha. Enquanto nossos objetivos, como humanos, não forem realizados de acordo com a grande Ordem -- como diria no antigo e belo Egito,-- com a Deusa Maât, forma de mulher, olhar forte e severo e ao mesmo tempo leve como uma pena, não estaremos bem, seja como humanidade ou como parte dessa grande Face.

Pensei mais, "bom saber que preciso fazer parte desse todo; mas preciso, antes de tudo, equilibrar minha vida, aqui, agora, como se precisasse equilibrar o todo". Por enquanto a balança nossa pessoal de cada dia se mostra desigual, e continuará assim por muito tempo, até aprendermos a lidar com diversos fatores com os quais ainda nem mesmo sabemos o nome.

Busquemos o  mestres.



quarta-feira, 25 de abril de 2018

Encantamento

O encantamento em ver o ser humano procurando a verdade em pergaminhos clássicos, do tempo dourado de Roma; persistindo em decifrar hieróglifos da grande nação que um dia fora potencia cultural, bélica e espiritual da humanidade -- o Egito; o prazer em ver homens em meio a batalha a levar um lenço, a significar a parte humana, tão significativa, tão legítima e bela, dentro do homem; a beleza em orar antes da guerra, a pedir os deuses que a morte seja a ponte entre o homem e Deus; o mistério em ver homens se sacrificando por outros sem mesmo saber se estes vão ou não entender aquele ato tão nobre e ao mesmo tempo santo... 

Enfim, temos a santidade em nossos olhares e misticidade em nossas mãos, assim como Dédalo o teve quando fez as grandes asas que o levou à Liberdade, à lei, à Ordem, ao contrário de seu filho, Ícaro, que provou que ainda temos muito que aprender quanto ao que somos frente ao uno, e por isso sempre o desafiamos. 

Desafio necessário e ao mesmo tempo ambíguo, pois pode nos tornar sagrados demais ou profanos em demasia, o que não nos faz nem mais nem menos homem, mesmo porque voltamos à tona, seja do poço, seja da lama, seja do abismo, e num impulso voltamos a ser sagrados tanto quanto pico daquela montanha quase inatingível.

O encantamento se faz lá em cima. Ao sentar-se na neve pomposa, perto das nuvens, a observar o mundo bem de longe, como se fôssemos deuses livres e, assim, nos questionamos a respeito do que queremos e até que ponto o queremos: ser sábios, compreender profundamente nossas raízes, nosso mundo, de onde viemos e porquê; saber por que nossos corações se alimentam de atos corajosos, ainda que em batalha a dor se mostra...

Queremos subir, de alguma forma; olhar as estrelas de perto, pegá-las e de algum modo substituir aquele brilho pelo nosso, lá de baixo do mundo, ser semelhante a elas. Queremos cantar, ouvir a melhor música, aquela que penetre em nossos corações e alma, como se fosse um antídoto contra o mal que assola nosso corpo pelas mazelas plantadas pelos amos; queremos ouvir a poesia, possuí-la em nosso corpo, praticá-la, envolvendo divindades e ao mesmo tempo nossos atos, os quais direcionamos todos os dias ao céu.

Queremos ver nossas mulheres dormindo, nossos filhos correndo, as matas surgindo, a terra nos fornecendo alimentos; ver a paz surgindo assim como por encanto, do nada, como que uma torneira se fecha, ou quando uma grande chuva cessa, de um instante para o outro; queremos ver homens guerreiros, a encarnar o Leão de Hércules, quando o felino e o homem se torna um, ao ser morto pelo herói.

Somos encantados, e não podemos perder esse dom divino. O dom da busca, pelo menos, esse que tanto some nas horas em que nos vem masticada a notícia, a fala do jornalista, ou mesmo quando a televisão nos toma a sala. Ele permanece em nós, quando sentimos um papiro descoberto, quando uma palavra se religa ao seu real significado, ou mesmo quando sabemos que fazemos parte de um todo organizacional, cuja inteligência não temos nem mesmo que questionar -- o ponto máximo da vida talvez.

Não importa, tudo nos encanta.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Leonardo, com Prazer

Terminei um grande livro a respeito de Leonardo da Vinci, um dos maiores pintores de sua época -- quiçá do mundo, e fiquei mui emocionado no final quando o autor, Walter Isaacson, fez referência a um dos grandes mestres do Renascentismo como um ser humano normal. Mesmo com toda a sua reverência ao mestre, ao dizer que a busca pela genialidade era o caminho dele, nos faz entender que não somente ele, mas nós também podemos, dentro do que temos, buscar, com prazer, detalhes, minucias, segredos, mistérios, como se uma inquietude fizesse parte de nós, naturalmente.

Ele tinha razão. Não há mistérios, pelo menos em entender que podemos ser um pouco de Da Vinci, ainda que o pintor clássico (e engenheiro, dramaturgo, poeta, ensaísta, arquiteto, inventor, etc, etc) fosse um ser que normalmente não se prostrava a descansar em nome do prazer de descobrir. Podemos ser assim, segundo Isaacson. Hoje o que nos sobra, em meio a tantas horas de paz, é o computador, o tablet, celular, enfim, nada que no passado nos poderia dar dores musculares e de cabeça, pois o que nos faz mais relaxados é o que buscamos. Triste isso.

Há saídas dentro que possuímos em mãos; há elementos que nos faz crescer e desenvolver potencialidades, e construir uma alma melhor todos os dias. Ainda que tenhamos somente o computador, o tablet ou mesmo apenas o celular, não podemos nos entregar à tecnologia fria e sem caráter, pois o temos e em grande escala, e é ele que nos faz escolher, por meio de nossos princípios, o que é certo e o errado, mesmo que ainda esteja na base de sua formação.

Da Vinci cresceu em uma época em que homens e mulheres tinham que fazer algo em prol de si mesmos ou mesmo em prol de uma sociedade com vistas a desenvolvê-la, acrescentando pedras e mais pedras, das quais somente a tradição -- como o fez Da Vinci -- poderia impulsionar. Para as damas somente o que lhes era facultado, em razão do machismo exacerbado, mas aos homens cabia desenvolver projetos dentro dos quais a visão e a holística tinham que fazer parte dele. 

Da Vinci era anormal nesse ponto. Via tudo que o mundo necessitava, trabalhava exaustivamente não somente nas pinturas enigmáticas, como o Homem Vitruviano, ser que se igualava ao universo, e mais tarde, a Mona Lisa, que, segundo nos conta o autor, era uma senhora vizinha do excepcional pintor que um dia foi sua modelo (vamos dizer assim), e quando terminou o grande retrato parecia que os deuses tinham penetrado em suas veias e lhe dado o dom de plasmar todo o mistério humano em um só sorriso.

Mas Da Vinci era um inquieto, uma criança em busca de algum brinquedo para desmontar; um espírito ambulante que não dormia e que só refletia em torno do que poderia fazer amanhã. Parece que somos um pouco dele ou ele tem um pouco de nós, mas só iremos descobrir quando levantarmos nossos ânimos (de alma), nos entregar com entusiasmo (Deus em nós), e termos a coragem (de coração) de modificar o mundo, ou a nós mesmos.

Entretanto, devo pedir desculpas a Isaacson quando diz que devemos buscar com prazer os detalhes e mistérios da vida, pois fico com um grande filósofo J. A. Livrarga, que um dia nos disse, "Toda busca é vã se não for feita com Amor". Isso quer dizer, não façamos nada senão com o prazer espiritual da busca, senão cairemos no afã de nossa personalidade eloquente e ao mesmo tempo frágil.


Um brinde a Da Vinci!



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Entre a Espada e a Cruz

Ontem, em uma série sobre os vikings, pude assistir a um dos mais belos espetáculos já colocados na televisão: a guerra entre clãs vikings e ingleses cristãos. Era o ano de 700 a 800 d.C no qual muitas tribos ainda se formavam a partir dos descobrimentos e tomadas de terras alheias, e os grandes guerreiros vikings, por si sós, já falavam bem alto, sem qualquer palavra acerca de suas pretensões. Sua fama e fome de invasão ao desconhecido eram milenares. 

E foi assim que exércitos cristãos temiam aqueles que eram vistos como o responsáveis pelo mal, pela dor, desespero e morte da irmandade, que tinha como referência Cristo, Deus (da maneira deles), e outros santos. Eram diferentes em tudo, até na hora da batalha que exigia força, coragem e certeza de confronto com o inimigo...E mais, não temer a morte -- algo que aprenderam (e porque não dizer, aprendemos) a ter quando a paixão e a incerteza tomaram conta da humanidade em forma de gestos simplórios.

Era a era das batalhas, dos deuses que beatificavam os mais fortes, os mais destemidos e premiavam todos que morressem com honra. Não havia essa filosofia nos soldados cristãos, apenas um paraíso que começava a se formar na alma do homem manso, que perdoava em nome de Deus, que se sentia um pouco melhor ao dar a outra face.

Aos vikings, enquanto isso, sobrava-lhes o sorriso em ver homens fracos, com medo dos seus exércitos, os quais eram como crianças abandonas mortas de fome, em nome dos deuses, a encher o prato de comida. E comiam. Em seus olhos o sangue já dava sinal de que Thor e Odin já estavam naquele espírito, e não tem coisa mais medonha do que ver a alma do homem sem medo sendo extraída pelo físico. Fosse qual fosse, do menor ao maior.

A ideia dos cristãos, assim como a dos vikings, era mesma: seus olhos já irradiavam medo e dor, como numa união híbrida entre álcool e gasolina, no mesmo tanque, só que o efeito não era o esperado. Pelo contrário. Em batalha, pareciam que espadas e escudos pesavam, elmos o atrapalhavam a visão, tudo era motivo de deserção, e muitos o fizeram no limiar do sangue negro nas roupas.

A paixão de Cristo em guerra não era uma boa saída, ainda que tentassem; mesmo assim, graças a muitos reis que se converteram no cristianismo, conseguiram, e anos após anos, em nome de Deus, destruíram fortificações, deuses, histórias, lendas e mitos, que poderiam ter sido elevados até os dias atuais. E o pior, transformaram sua bela história cristã com alguns elementos do passado nórdico.

Para muitos que acreditam que os vikings eram apenas guerreiros destruidores, devo dizer que estão errados, simplesmente pelo fato de que cultura não se mede, nem mesmo se critica pelo fato de ir de encontro à nossa. Muito pelo contrário. Devemos mergulhar em suas crenças, nos apaixonarmos por ela, sem deixar a nossa de lado; caso contrário, seremos xiitas e estaríamos destruindo o mundo, ao invés de construí-lo para nossos filhos.

Tais homens, grandes homens, desbravaram terras, mas nem sempre atropelavam seus supostos inimigos, pois sua natureza nada mais era do que enriquecer, tomando do outro o que para gente é apenas uma porção de pratas e ouro; para eles, os mistérios contidos na natureza eram mais raros e por isso mais caros do que o ouro que tradicionalmente roubavam... Eles tinham que se mostrar melhores, e eram no que faziam.

Amavam suas esposas, seus filhos, sua gente. Tinham sua parte mítica adotada como princípios naturais, pois acreditavam que a própria natureza possuía sua Regra, sua Ordem, e de alguma forma tínhamos que adotá-la, e o faziam por meio dos deuses, os quais falavam não somente a cada um, mas ao e do próprio universo, dentro do qual nascimento, vida e morte, nascimento, vida e morte, sempre se revelava ante aos olhos da vida. 

Quanto ao deus penoso, cheio de lágrimas, inventado pelos homens apaixonados por paraíso, tomava conta do mundo, homens se desconectavam da natureza e criavam para si a história centralizada no próprio homem, sem deuses, sem potencialidades sagradas, nas quais princípios eram apenas interesses individuais, com vestes santificadas, e quando cometiam (cometem) impropérios, clamam a Deus.










quinta-feira, 19 de abril de 2018

Um brinde ao Superman

Ele veio de um planeta até então desconhecido por todos -- Kripton, por causa de um certo descontento entre pessoas de seu povo que fizeram abalar as estruturas daquele que um dia, em uma galaxia distante, foi o melhor dos planetas... Assim como muitos governos que se destroem pela ganância, pelo egoísmo e falta de humanidade, Kripton se foi, mas, antes, nos deu Kal-El, em criança jogada dentro de uma pequena nave pelos pais que tinham a Esperança no peito e na alma em resguardar o que poderia ser a salvação da humanidade, a nossa.

Ao cair na terra e ser adotado pelos pais terráqueos, teve sua educação voltada a tudo que nos era de praxe, contudo, ainda em menino, guardava um cristal, dentro qual um tipo de gravação poderia ser ouvida, ao ser colocada a uma certa distância daquele terreno onde vivia. Era seu pai Kriptoniano, que não havia se esquecido de dizer, por um meio um tanto quanto avançado aos nossos olhos, que sua essência jamais deveria ser esquecida: ele, Kal-el, era mais que um simples menino que se tornaria um adolescente, que mais tarde transformar-se-ia em um homem, era um Super Homem.!

Com poderes além-humanos, como ser tão rápido quando uma bala, mais forte que qualquer homem, ter uma visão radioativa, com a qual poderia ver até através de cortinas de ferro, Kal-El, após descobrir tais poderes, iniciou seu percurso natural, iniciático, em meio a um mundo que, destruído pela ganância e egoísmo tal qual o dele que se explodiu, tinha a missão de não ser apenas o mais rápido, o mais forte, mas principalmente o mais sincero dos homens.

Foi com esse objetivo que Superman nos veio, o de demonstrar essa figura mais que heroica, mais que humana, veio a nos representar por meio simbólico que somos sagrados, e que possuímos não apenas forças externas, mas internas, que movem o mundo, que nos eleva a seres imortais -- não com oitenta ou cem anos, e sim para sempre. 

Quando Nietzsche usou pela primeira vez essa expressão (super homem), trabalhava em questões filosóficas advindas de uma tradição que moldava o ser o humano para ser um ser divino, equivalente aos deuses, como diria Platão, ao ser questionado acerca do somos. "Somos deuses e nos esquecemos!" -- o que equivaleria a dizer que em nós há elementos sagrados que nos concatenam com realidades naturais acima e dentro de nós. 

O Superman seria o homem que não mente, não trai, não se omite, não duvida de seu dever junto à humanidade, não cai ante às batalhas diárias, não morre facilmente, mas que, assim como Aquiles, nosso herói grego, que tinha um pequeno e leve defeito -- o do calcanhar que não tinha sido banhado no rio sagrado, por isso volúvel ao profano, Kal-El, ou Clark Kent, para os mais íntimos, não poderia ter em sua sombra um pedaço do seu planeta Kripton fosse ele qualquer tamanho... O efeito do grande planeta espedaçado, na terra,  soaria o contrário em sua pessoa, e seria no mínimo fatal a ele... Que belo!

Ao demonstrar esse grande humano junto ao mundo com suas características impressionantes, mais uma vez vemos que, ainda seja o maior dos humanos, assim como muitos semideuses do passado, temos algo que nos religa à terra, de modo simples, porém caro aos nossos olhos da alma. Assim representado no Tao, no Paraíso cristão, assim como em vários mitos que falam tanto de nós.

Por isso Superman será sempre uma tatuagem na alma humana, que, adotando-o como princípio, se elevará e se tornará um pouco divina, contudo, graças às paixões que cultivamos, não deixará a terra por nada.

A Parte que nos Falta

"É ótimo ter dúvidas, mas é muito melhor respondê-las"  A sensação é de que todos te deixaram. Não há mais ninguém ao seu lado....