quarta-feira, 15 de março de 2017

Sonhos de Justiça

Degraus (iii)



Não se pode tão facilmente igualar-se ao sol, que nasce com sabor de açúcar e dorme com o sabor de querer mais. Não se pode nascer com o espírito do copo de vinho, que transcende ao próprio objeto, e se torna uma taça, um  receptáculo da bebida mais elegante do mundo... Não se  nasce como uma xícara, que, pequena, às vezes média, grande, bordada, em relevo ou não, mas sutilmente recebe o seu café, bem quentinho, na medida...

O homem é um pote, uma junção de pernas, braços, cabeças e sonhos, filho, na maioria do desespero, da pobreza espiritual, da riqueza sem dono, que não se sente realizado como um sol, uma taça, ou mesmo uma xícara... e tenta, de formas diversas, encontrar sua vocação justa dentro de seu meio.

Não é de hoje, mas de muito séculos, que visualizamos em histórias sobre nações civilizadas nas quais seu protagonista é o homem, que a premissa básica é fazer-se rei, sacerdote, filhos dos deuses, ou mesmo um herói que recorre aos céus em nome do seu povo. Não é de hoje que mulheres são a religação entre o céu e a terra, que crianças são frutos de uma árvore amorosa entre os dois. Entretanto, a busca pelas riquezas, pelo domínio territorial se faz mais eterno que a própria busca interna... Isso, deveras, contribui para que a distância entre Deus e homem se torne cada vez maior e mais estreita.

Os sonhos, no entanto, são as únicas formas de direcioná-lo ao seu lugar de origem, de modo a iluminar seu caminho, trazendo-o faíscas simbólicas, não literais, acerca de seu mundo. Aqui, o homem deve abarcar um certo grau de cultura, caso contrário, não terá como interpretar o que os deuses lhe deram de presente... Ou avisá-lo sobre um mundo que tenta chamá-lo à matéria.

Como todos os sonhos, temos que nos remeter a nossa ideia original de que não somos além humanos, muito menos escolhidos sagrados, mas simplesmente homens que possuem a vertente humana em sonhar e realizar seus desejos de Bem,de Justiça e Amor à verdade -- da qual ele faz parte.
Se o sol tivesse um sonho, seria a de ser sol; se a xícara, o de ser xícara, e assim por diante... Não podemos nos dar o luxo de querermos ser super homens, deuses, ou fazer parte de uma constelação quando morrermos. Temos que olhar ao céu -- isso sim -- e nos questionarmos acerca do que somos, para onde vamos e porquê. Nesse caminho, encontraremos o das estrelas sem sê-lo, o caminho do sol, iluminando nosso caminho divino, sem ser o sol; teremos forças para nos levantar, sorrir e abraçar um mundo, como um deus, sem sê-lo.

Olhemos, para isso, dentro de nós, para a nossa alma, não muito distante, de nossos desejos, que só entendem a linguagem do pedir e ter e remetê-los ao que realmente necessitamos -- de humanidade, de harmonia, de uma felicidade natural, sem pedras, rochedos, além da brisa que nos bate pela manhã, quando o deus esférico nos surge, devagarinho, no horizonte.

O homem, desfazendo a primeira premissa, não é apenas uma junção de corpo, olhos, coração, objetivos. Não. Ele é a parte que mais interessa aos deuses pelo fato de tê-los em si, e a tudo no universo.



Tenhamos  um ótimo dia!

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